Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

A selecção da Selecção

por Pedro Caprichoso, em 07.12.16

15268016_441453319311666_5515961522191951853_n.jpg

 

 

Notas prévias:


1.

Não sou fã de Selecções, nem no futebol nem no trail. O nacionalismo territorial diz-me pouco. Nunca comprei a ideia do dever de lealdade para com o meu país de nascimento pelo simples facto de nele ter nascido. Da mesma forma, não sinto o dever de apoiar um atleta só porque é meu compatriota. Para mim há coisas mais importantes, como a amizade. Fui ao Gerês apoiar os atletas da Selecção Nacional, não porque são Portugueses, mas porque alguns deles são meus amigos. Se tivesse amigos italianos, apoiá-los-ia de igual forma.

 

2.

Apoio a actual direcção da ATRP por uma questão de princípio. O princípio é este: os tipos que (ao contrário de mim) se chegam à frente e arregaçam as mangas (no sentido de tentar contribuir para a evolução do Trail Nacional) merecem o meu respeito e apoio. Têm o meu apoio até se provar que as suas medidas são efectivamente erradas, sendo ainda muito cedo para fazer tal avaliação.

 

XXX


Dito isto, apoiar alguém não significa estar sempre de acordo com ela. Acontece que neste caso discordo. Não me parece, definitivamente, que a medida de apurar (para futuros Campeonatos do Mundo) os 3 atletas melhor classificados (M/F) na edição imediatamente anterior seja o mais acertado, nomeadamente quando a única vantagem apresentada é a de "dar continuidade ao trabalho efectuado".

Com continuidade ou sem ela, parece-me que o mais importante é contar com os melhores atletas tendo em conta as características do percurso no qual se disputa o Campeonato do Mundo—e supor que 3 dos melhores são automaticamente os 3 primeiros do Campeonato do Mundo anterior não me parece ser lá muito coerente. Depende: podem ser como não ser, tendo nomeadamente em conta o crescente grau de competitividade do Trail Nacional.

Ter 3 atletas (M/F) que transitam de um ano para o outro pode ter efeitos benéficos ao nível do espírito de equipa: as pessoas já se conhecem e isso pode favorecer a união do grupo. No entanto, não vamos fingir que vivemos num mundo perfeito em que os interesses do colectivo se sobrepõem sempre aos interesses individuais. Tendo em conta esta medida, quem nos diz que alguns não vão dar prioridade ao Top3 nacional (com vista a participar no próximo Campeonato do Mundo) em detrimento de lutar por um boa classificação colectiva? Claro que os resultados colectivos estão dependentes dos resultados individuais. No entanto, dependendo das circunstâncias em que se desenrola uma corrida, todos sabemos que não é o mesmo correr com o objecto de dar tudo para ficar no top3 nacional (correndo o risco de estourar e eventualmente desistir) ou fazer uma prova com cabeça no sentido de ajudar a equipa. Imaginem o tipo que a meio da prova é o 4.º português. O que fará ele na segunda metade? Dará tudo para chegar ao 3.º (correndo o risco de estourar) ou continua a fazer uma prova inteligente no sentido de garantir que se encontra numa boa posição para compensar a eventual quebra de um dos seus colegas da frente? Já para não falar de que isto de andar a mudar os critérios não é justo para os atletas que definem a sua época com o objectivo último de representar Portugal. Ponham-se no lugar deles: se há mais espaço na Selecção, por que não ir buscar mais atletas segundo os critérios existentes em vez que inventar critérios novos?

Quanto ao mais, parece-me bem apurar os vencedores dos Campeonatos Nacionais (de forma a premiar a sua consistência) e os vencedores da Taça de Portugal [que funciona como prova qualificativa para aqueles que não têm tantas possibilidades (ex: pessoal das ilhas) de fazer um Campeonato inteiro]. No entanto, já não acho que faça sentido incluir mais provas qualificativas ao longo do ano. Uma chega. Mais valia “estender a mão” àqueles que não se revêm nos Campeonatos Nacionais (i.e. Nuno Silva) e que hoje competem mais no estrangeiro do que em Portugal. Não percebo por que razão é que as provas disputadas no estrangeiro não podem servir para efeitos de convocação para a Selecção. Nesse sentido, poder-se-ia igualmente apurar 1 atleta (M/F) tendo em conta a média da sua pontuação ITRA (ex: dos últimos 16 meses) referente à categoria (Ultra ou Endurance) do percurso do Campeonato do Mundo.

Posto isto, se eu mandasse, tendo em conta que serão convocados 14 atletas, seleccionaria o top3 (M/F) do Campeonato Nacional e o top3 (M/F) da Taça de Portugal referente à categoria (Ultra ou Endurance) do percurso do Campeonato do Mundo, mais o melhor atleta (M/F) da categoria em causa segundo a pontuação ITRA.

 

Ainda bem que não mando.

Sobre o vegetarianismo

por Pedro Caprichoso, em 30.11.16

vegetarianismo.jpg

 

Estão a ouvir isto? Isto é o som do violino mais pequenino do mundo a tocar em honra dos animais que morrem com vista a alimentarem outros animais. Malandros dos leões que matam gnus para comer; malandros dos lobos que matam lebres para comer; malandros dos linces que matam ratos para comer; malandro do meu Tio Manuel que mata porcos para comer.

 

Nada contra os meus semelhantes que decidem retirar os animais da sua dieta por razões morais. Estão no seu direito. De certa forma, confesso que até os admiro. Agora, o que eu não aceito é que estes apontem o dedo a quem come chicha e peixinho. Olhem à vossa volta: a natureza não é moralmente correcta. Uma cria de gnu nasce e, passadas duas horas, está a ser devorada por uma matilha de hienas. É assim. Na natureza há carnívoros e omnívoros, cuja dieta evoluiu no sentido de consumirem outros animais. Habituem-se. Talvez a evolução se encarregue de nos tornar vegetarianos, mas forçar as coisas não faz sentido. Quantos mais exemplos são precisos para finalmente percebermos que ir contra a natureza só dá merda?

 

Em termos morais, aos olhos da natureza, o problema não está em matar animais com vista à alimentação. De outra forma, teríamos de proibir os leões de caçarem e obrigá-los a comer hortaliça. O problema está na forma como os animais que nos alimentam são explorados. A morte está longe de ser a pior coisa que acontece a um porco, vaca ou galinha que sai de uma exploração industrial com destino ao nosso prato. Querem um alvo? Lutem contra a indústria alimentar, que polui, esgota os recursos naturais (sobretudo água) e inflige sofrimento desnecessário aos animais em detrimento da maximização do lucro. Não lutem contra as pessoas que comem carne e que nela têm a sua única forma de acesso a proteína. Ser vegetariano é muito bonito, mas está longe de ser acessível ao bolso de qualquer um.

 

Dito isto, tenho de admitir que há um aspecto deveras hipócrita no que toca ao consumo de carne. Esse aspecto tem a ver com o facto de que, hoje em dia, já ninguém mata os animais que consome. A meu ver, só quem mata tem legitimidade para comer carne—pois é justamente isso que acontece na natureza. Isso de comer uma bifana é muito bonito, mas eu gostaria é de vos ver a enfiar a faca no porco e vê-lo a estrebuchar. Se as pessoas (sobretudo os mais novos) tivessem de matar para comer, aposto com vocês como mais de metade deixaria de comer carne num piscar de olhos. Muitos nem coragem para cozinhá-la têm. A morte dos animais está hoje limitada aos programas de televisão sobre a vida selvagem, sendo que anda por aí muita gente de hambúrguer na mão que nunca viu um animal a morrer à sua frente. Para além das questões relacionadas com a saúde, esta é a outra razão pela qual eu consumo quase exclusivamente carne de origem caseira (i.e. fornecida pelos meus pais). Não sou eu que “escochino o reco” ou decapito o pescoço das galinhas, mas ao menos dou uma ajuda. Ninguém segura o rabo do porco melhor do que eu.

 

Despachadas as questões morais, viremo-nos para a saúde. O problema em termos de saúde não está no consumo de carne e peixe per si. O problema está no tipo de carne e peixe que se consome. Comer boa carne e bom peixe de forma equilibrada e variada não representa qualquer problema para a saúde. Uma coisa é o consumo exagerado de carne—sobretudo vermelha—de origem industrial / processada, com a ingestão de todas as porcarias (vestígios de antibióticos, hormonas, conservantes, etc.) que isso acarreta e doenças que promove. Outra coisa é teres um porquinho e galinhas no quintal e dar-lhes apenas alimento de origem natural. A diferença é da noite para o dia. Como disse anteriormente, consumo quase exclusivamente carne de origem caseira e não me lembro da última vez que comprei carne em talhos e supermercados. Para mim, aquilo não é comida. É mais parecido com esferovite. Confesso que o peixe não me faz tanta espécie, mas a carne enoja-me. Entre comprar carne em talhos e deixar de comê-la, mais depressa opto pela segunda opção.

 

Em suma, percebo—e até respeito—a escolha de não comer carne e peixe. Aquilo que me custa a engolir é a militância da necessidade de esfregar na cara dos outros que se é vegetariano, censurando quem não o é. Se for no sentido de criticar a indústria alimentar, tudo bem. Força com isso. Agora, se for para apontar o dedo aos omnívoros, tudo mal. Acham que é errado em termos morais? Nesse caso, apontem igualmente o dedo à natureza e aos carnívoros que nela habitam. Acham que é errado em termos de saúde? Azar. Aquilo que fazemos com o nosso corpo tem a ver com a nossa liberdade pessoal e ninguém tem nada a ver com isso.

 

O leitor está por esta altura a perguntar-se por que carga d’água é que eu estou a falar de vegetarianismo neste pardieiro dedicado à corrida em contexto montanhoso. Bem, eu explico: porque verifico que a moda do atleta vegetariano começa a pegar no Trail Nacional. Só por isso. Passem bem. Quanto ao mais, diria que vai-se andando dentro das circunstâncias impostas pelas medidas de austeridade ao nível da influência da baba de camelo na indústria do arame farpado.

As 5 melhores frases de engate para levar a vossa mulher para a cama na véspera de um Ultra Trail

por Pedro Caprichoso, em 19.11.16

FB_IMG_1479559987507.jpg

 

1.

Bem, com esta primeira táctica de engate basta dizer "Amor, anda cá ver isto" e mostrar a foto do André Rodrigues acima publicada à vossa cara-metade que ela fica logo com os calores. É limpinho limpinho.

 

2.

"Bebé, o meu astrólogo diz que o sexo é a melhor forma de relaxar os músculos antes de uma prova."

 

3.

"Docinho, depois desta prova vou ficar 2 semanas sem me conseguir mexer, pelo que é melhor aproveitar hoje."

 

4.

"Fofinha, tens de "tratar" de mim. Caso contrário, amanhã vou fazer a prova com a tenda armada e vai ser uma vergonha."

 

5.

E, por fim, a melhor de todas: "Xuxu, o meu treinador diz que devemos ir para a prova o mais leve possível."

A Vacina Contra os Falsos Campeões

por Pedro Caprichoso, em 17.11.16

2JPG.JPG

 

O adepto médio de Trail tem dificuldade em olhar para as características de uma prova (nomeadamente km e D+) e avaliar se o tempo do vencedor é digno de um campeão. Na estrada é fácil: as provas são geralmente planas e ninguém fica impressionado, por exemplo, com um pódio numa Meia-Maratona acima de 1h10. Já no Trail é complicado fazer essa avaliação, pelo que poucos olham para o tempo final dos vencedores e estes são automaticamente encarados como “Campeões”, quando na verdade não passam de atletas mediados.

 

Posto isto, tenho uma boa notícia para te dar. Se tens dificuldade em identificar os verdadeiros campeões do Trail Nacional e estás farto da banalização dos falsos, apresento-te a vacina contra os últimos. Chama-se Índice de Performance ITRA. Como o próprio nome indica, trata-se de um índice (baseado em fórmulas matemáticas) que avalia a performance dos atletas tendo em conta o tempo e as características das provas. É atribuída uma pontuação por prova e o “valor” do atleta é determinado pela média ponderada das suas 5 melhores performances dos últimos 2 anos mais o ano corrente. Há pequenas falhas recorrentes relacionadas com atletas duplicados e avaliações duvidosas da dificuldade das provas, o que é compreensível tendo em conta a quantidade de dados. Os Trilhos dos Abutres são, por exemplo, claramente subvalorizados devido à sua dificuldade técnica. No entanto, no geral, trata-se de uma classificação bastante fiável. Basta analisar a lista dos melhores para ver que a coisa faz sentido. Por alguma razão temos o Kilian Jornet em 1.º lugar. Eis o seu índice ITRA.

 

Capture3.JPG

 

Para além da pontuação geral (independe da distância), temos ainda acesso às pontuações refentes ao Trail (< 42km), Trail Ultra Médio (42 km a 69 km), Trail Ultra Longo (70 km a 99 km) e Trail Ultra XLong (> 100 km). Assim sendo, já não há desculpas. Da próxima vez que te cruzares com um falso Campeão, atira-lhe a sua classificação ITRA às trombas e vais ver que ele mete logo o rabinho entre as pernas e começa a piar baixinho. Para início de conversa, basta dizer que andam por aí supostos “campeões” que nem no top100 nacional estão.

 

Resta dizer que para ter acesso a este índice é preciso ter uma conta na plataforma da ITRA. A conta e a pesquisa (por nome) dos índices dos atletas é gratuita. A pesquisa e obtenção da lista ordenada dos melhores atletas é paga (5€). Em jeito de exemplo, eis a lista dos atletas nacionais com mais de 700pts ITRA no Trail Ultra XLong (> 100 km):

 

Capture.JPG

 

Rescaldo nos Bastidores do Campeonato do Mundo de Trail

por Pedro Caprichoso, em 04.11.16

14317435_293931944319025_3694603500951651044_n.jpg

 

Começo por dirigir-me aos cagões. Falo dos tipos e tipas que, à boca cheia, andaram a espalhar nas redes sociais que participaram no TWC2016—Campeonato do Mundo de Trail. Não, não participaram. Apenas 12 portugueses participaram no TWC2016. O TWC2016 tinha 85k e 4.700 D+. Não tinha 55k e 3.000 D+. O TWC2016 partiu do Rio Caldo. Não partiu de Ambos-os-Rios. Os melhores do mundo não correram de babete. Vocês correram. Vocês não correram com os melhores do mundo. Vocês fizeram uma prova que não tinha nada a ver com o TWC2016. Tenham vergonha. Eu percebo: vocês têm amigos que não percebem a ponta de um corno de Trail e esperam que eles caiam na esparela. Poderá até haver quem acredite, mesmo, que vocês são “um dos melhores do mundo”. Todos temos um primo em segundo grau que não fecha bem a tampa e acredita em tudo o que lhe dizem. Eu também tenho um primo desses e, por vossa culpa, tive de explicar-lhe por que não participei no TWC2016. Eis a razão do meu asco. “Se até o Antunes—Ultra Runner participou, por que é que tu não participaste?” Acontece que isso comigo não pega. Não cola. Não tem tracção. Por falar em tracção, o que dizer das novas adipas boosta? As boosta agarram a tudo, inclusive a bosta de garrano. O novo campeão do mundo que o diga.

 

 

Passe a modéstia, a minha claque foi a melhor claque do TWC2016. Para além de fazermos mais barulho, estivemos no terreno desde as 5 da manhã e incentivámos todas as selecções graças à nossa soberba capacidade poliglota. Fizemos um curso intensivo de 3 meses em casa do Jorge Jesus de maneira a apoiar os atletas na sua língua materna e o resultado ficou à vista. Em espanhol gritávamos «Vamonos muchachos!», «Coño!», «Muchos Cojones!». Em francês bradávamos «Allez Allez!», «Courage Champignon!», «Puissance au Jambon!». Em italiano ululávamos «Coraggio!», «Andiamo Mafioso!», «Dá-lhe no Spaghetti!». Em japonês gaguejávamos «Arigato Sangoku!». Em alemão berrávamos «Scheiße!», «Flicken Merkel», «Himmeldonnerwetter Schäuble». Concorrência só da mota 1, que também lá esteve a cobrir o acontecimento. A vantagem da zundapp é que possui tracção motorizada e consegue acompanhar os atletas da frente durante mais tempo. Os elementos da minha claque, ao fim de 50 metros, já estavam com os bofes de fora.

 

 

Seguíamos em procissão entre o Gerês e a Serra Amarela quando a excursão ficou barrada à passagem de uma aldeia. Uma ambulância encontrava-se estacionada numa zona de tal forma apertada que inviabilizava a sua ultrapassagem. Soubemos mais tarde que estavam a socorrer um velhote. O coitado ficou com falta de ar quando assistia ao relato do Mundial de Trail pela TSF Runners. Desconhece-se, porém, se o piripaque teve a ver com a voz sexy da Barbara Baldaia ou com o facto do Tiago Aires estar na luta pelo top10. Felizmente que o Rui Pinho também seguia na caravana e lá conseguiu resolver o imbróglio. O idoso teimava que não entrava na ambulância—porque queria morrer em casa—e só mudou de ideias quando o patrão da ATRP prometeu que apresentar-lhe-ia a Emelie Forsberg. Eu acho que vai ser pior a emenda do que o soneto. Se ele fica com falta de ar com um relato, imaginem o que lhe vai acontecer quando ele vir a Sueca ao vivo e a cores. Eu teria um desfibrilador de prevenção, pelo sim pelo não.

 

14937260_1266374710049987_7463095274433396849_n.jp

 

Aproveito a oportunidade para deixar uma advertência ao indivíduo ou indívidua que usou o meu corno à socapa: eu tenho herpes e hemorróidas, por isso aconselho-te a fazer análises. Quanto digo herpes, falo de herpes genital. Quanto digo hemorróidas, falo de prurido no olho do cu. Uso a extremidade afiada do instrumento para coçar o rabo quando estou em casa aborrecido e não tenho nada melhor para fazer. Desconfio que tenha sido uma mulher, já que nele encontrei vestígios suspeitos. Podia ter sido o Jérôme Rodrigues? Podia, mas ele estava em prova. Tinha ido aliviar a tripa atrás de um monte de carqueja quando regresso à bancada do estádio do Soajo e encontro o corno com marcas de batom. Alguém havia tocado no corno sem o meu consentimento e fiquei ‘pior que fodido’.

 

A meta montada nos Arcos de Valdevez parecia a passerelle de um desfile de moda. Os modelos exibiam as t-shirts de finisher das provas mais duras que haviam feito até à data. É para os estrangeiros verem quem é a maior potência do Trail Mundial. [Quando digo estrangeiros, refiro-me às estrangeiras. Mais precisamente às mulheres. Mais precisamente às francesas. As gaulesas eram ‘mais do que as mães’ e estavam em todo o lado, incentivando os seus compatriotas. Saquei 6 números e agora só preciso de descobrir o indicativo de França para lhes ligar. Só por curiosidade, como se chama um ménage a trois com 6 francesas? Ménage a six?] Fiquei a saber, por exemplo, que pelo menos 10 portugueses fizeram o UTMB, 6 a Ronda del Cims e 64 a Corrida do Pai. Apreciei em particular aqueles tipos que faziam questão de envergar o casaco de finisher dos Campeonatos Nacionais de Trail, ainda que debaixo de um calor insuportável. Valentes! Os estranjas acham-se muito bons, mas não sabem com quem se estão a meter. No caganço ninguém nos bate.

 

14925399_1700551253596673_2161904261402604063_n.jp

 

Desconfio que os desfalecimentos que se verificaram na meta não são estranhos ao homem da marreta. Se dúvidas havia de que ele existe, ei-lo na foto abaixo publicada a malhar num atleta norte-americano. Acham que é por acaso que os americanos tiveram uma prestação tão fraquinha no TWC2016?

 

14915708_1157224877658142_8552090660730970639_n.jp

 

Depois dos excelentes resultados obtidos pela Selecção Nacional, há que arregaçar as mangas e continuar rumo ao infinito. O caminho faz-se caminhando, o voo faz-se voando, o nado faz-se nadando, o pedal faz-se pedalando, a corrida faz-se correndo e o trilho faz-se trilhando. São enumeras as acções de melhoria a implementar no sentido de promover a evolução do nível do Trail Nacional. Eis sete: (1) obrigar as organizações a introduzirem prémios monetários nas provas do Campeonato Nacional; (2) promover a presença dos melhores atletas nacionais em provas internacionais para estes ganharem mais experiência; (3) garantir maior visibilidade da modalidade na comunicação social de forma a atrair mais patrocinadores; (4) começar a investir na formação de novos talentos; (5) comprar meia-dúzia de picos nos Alpes franceses e plantá-los no Alentejo; (6) naturalizar duas centenas de quenianos e ensiná-los a usar bastões; (7) patrocinar a mudança de sexo dos bons atletas masculinos que competem em provas de aldeia em detrimento dos Campeonatos Nacionais—se têm medo da competição enquanto homens, pode ser que o percam enquanto mulheres. Tudo isto é importante. Ainda assim, sem prejuízo das medidas atrás elencadas, o mais importante está presente na imagem abaixo publicada. Nalgas? Sim, é isso mesmo. Nalgas de mulher é o elemento mais importante de uma política desportiva responsável ao nível do Trail Running. Funciona assim: quantas mais nalgas, mais mulheres a exibi-las nos trilhos e mais homens a apreciá-las. É por estas e por outras que o CEO deste pardieiro pertence ao conselho consultivo da ATRP.

 

14633567_1076607532465430_3838655125525199796_o.jp

Martim desperta o interesse da EDV-Viana Trail

por Pedro Caprichoso, em 27.10.16

learning3.JPG

 

Depois de contratar o veterano Victor Cordeiro, a direcção da EDV-Viana Trail decidiu tomar o caminho oposto e apostar na juventude. Segundo a Polícia Judiciária, o pequeno Martim embrenhou-se no monte contiguo à casa dos avós, fez 2k com 100mD+ em 25h e o feito despertou o interesse da equipa vianense. Dada a vocação exibida pela criança para o Trail Running em tão tenra idade, um dirigente aurinegro deslocou-se imediatamente a Ourém, falou com os pais do catraio e acredita-se que o contrato já esteja a ser preparado pelos advogados do clube. Segundo uma fonte próxima da família, terão apenas de ser afinados alguns pormenores relativos à transferência do petiz no valor de 500 fraldas Dodot Sensitive T2. Uma vez divorciados e atribuída a guarda à mãe, os progenitores do Martim discordam sobre a percentagem do seu passe: o pai argumenta que é de 50 / 50; a mãe discorda e exige uma percentagem superior já que ficou com a sua guarda.

 

Em declarações ao JN Running, os dirigentes da EDV-Viana Trail acreditam que tal será resolvido o mais depressa possível de maneira a ainda poderem inscrever o pequeno em meia-dúzia de provas do Circuito UTWT—Ultra Trail Word Tour. Relembramos que as vagas para o MIUT já esgotaram, que a fase de pré-inscrição em Lavaredo já terminou e que a Transcrancanaria já vai na segunda fase de inscrições. O advogado aurinegro Paulo Vilaverde confirmou aos microfones da TSF Runners que o Martim vai assinar um contrato por objectivos quando este aprender a escrever o seu nome próprio. Auferirá 5 chupa-chupas sempre que entrar no Top10 em provas do Campeonato Nacional; receberá um bónus na forma de embalagens de Cerelac por cada vitória; e terá direito a uma box de DVDs d’O Bob—O Construtor se vencer o Campeonato Nacional de Trail Ultra Endurance na categoria M3.

A Hipocrisia da Crítica Gratuita

por Pedro Caprichoso, em 20.10.16

Critics.jpg

 

O meu interesse não está em saber quem tem razão. As questões são mais complexas do que parecem, todos temos direito à nossa opinião e é sempre difícil—para não dizer impossível—agradar a Gregos e a Troianos. Temos, portanto, que saber viver com as opiniões dos outros. É a vida. Dito isto, o que verdadeiramente me interessa são as motivações e tácticas argumentativas usadas pelos intervenientes numa determinada discussão—e não é difícil decifrá-las. Basta ler nas entrelinhas. O lindo no meio disto tudo é que, não raras vezes, a forma como se argumenta diz mais sobre os intervenientes do que a substância do argumento em si mesmo. Daí que amiúde encontremos a hipocrisia de mão dada com a crítica gratuita. Vamos pegar no exemplo do anúncio dos Circuitos Nacionais para 2017.

 

Foram anunciados os Circuitos Nacionais para 2017, o céu fechou-se subitamente, a humidade relativa disparou, os animais recolheram aos seus abrigos, São Pedro abriu as comportas e uma chuvada de críticas antecipou o fim do Trail como o conhecemos. Não está em causa a validade das críticas. Com razão ou sem ela, o que está aqui em causa é a sua origem. Supor-se-ia que as críticas viessem das partes interessadas: dos responsáveis das Equipas, dos Organizadores cujas provas ficaram de fora dos Circuitos e, sobretudo, dos atletas que têm por hábito participar nos mesmos. Supor-se-ia que assim fosse, mas a realidade é outra. A verdade é que a generalidade das críticas tiveram origem no cérebro de atletas que raramente participam nos ditos Circuitos. Basta dar uma vista de olhos pelas redes sociais e perceber o nível de legitimidade desta gente. Quanto falo em «gente», falo em indivíduos que têm por hábito trocar a competitividade dos Circuitos por brilharetes em provas de aldeia.

 

As ameaças de abandono dos Circuitos chegam a ser ridículas quando vêm de gente que nunca neles participou de forma regular. Alguns admitem mesmo abandonar a modalidade. A ambos respondo o mesmo: já vão tarde. Pelos vistos, há gente que há 2 meses morria de amores pelo Trail e agora dizem adeus à modalidade. Uns vão dedicar-se ao IronMan; outros ao ciclismo de “fundo”; outros à musculação. A pergunta que fica é a seguinte: qual destas modalidades dá mais likes? Meus caros, eu falei com a modalidade e ela disse-me que não vos conhece de lado nenhum: “Não me apercebi que esses tipos me praticavam”, exclamou surpreendida a modalidade. No fundo, é mais do mesmo: é muita parra e pouca uva. Que é o mesmo que dizer: é muita garganta e pouca perna.

Rescaldo Dura Trail 2016

por Pedro Caprichoso, em 14.10.16

14608942_10211306191118465_626774628650427842_o.jp

 

Uns queixaram-se dos estradões, outros dos 6k a mais (59k) em relação ao anunciado (53k), outros da ausência de sandes de javali nos abastecimentos, outros do seu horóscopo, outros da humidade relativa, outros da conjuntura. Eu só me queixo de não me lembrar de desculpas tão boas para justificar os meus maus resultados. Esperem lá. Alto e pára o baile! Afinal tenho uma razão de queixa: queixo-me do facto da Organização do DUT—Dura Trail não ter tido os colhões necessários para desclassificar a equipa Satecnosol. Sim, colhões. Sim, desclassificar. Sim, Satecnosol. Passo a explicar: o Dura Trail contava com uma partida simbólica antes da qual era efectuado o controlo zero. Os atletas seguiam depois a ritmo “caminheiro” até um segundo pórtico localizado a 1,3k do primeiro, onde foi dada a partida oficial. Acontece que os atletas da Satecnosol estavam atrasados e não chegaram a tempo da partida simbólica. Estacionaram o carro e encaminharam-se directamente para o local da partida oficial. Ou seja, fizeram menos 1,3k do que os seus adversários.

 

14470401_609911722502765_2447453549073103829_n.jpg

 

Eles pediram-me desculpa de joelhos, mas eu estou a marimbar-me para as desculpas. Dizem que não dormiram nada porque dois gatos andaram a noite toda à porrada à frente da Residencial onde a equipa ficou hospedada. Segundo eles, tal fê-los acordar tarde e chegar atrasados à partida. É mentira. Não eram gatos. A origem dos gemidos era outra. Fui ao local e li num cartaz que a Maria Leal havia nessa noite actuado no estabelecimento nocturno localizado nas traseiras da Residencial. A felina da Maria Leal é o bode, perdão, a cabra expiatória da primeira desculpa. A segunda é a “banheta”. Não sabem o que é uma banheta? Segundo o Bruno Coelho, “banheta” é uma punheta batida na banheira. Aparentemente, a banheta é uma técnica de aquecimento usada pela Satecnosol de maneira a começarem as provas mais “soltinhos”. Sei que não vou conseguir a sua desclassificação, mas não faz mal. Já me contento com a divulgação dos seus segredos. É assim que eu me vingo.

 

14633121_1289935204370668_7532216029212637417_o.jp

 

O Mr. Olimpo está fortíssimo. Isto pode parecer publicidade gratuita às barras que patrocinam a EDV-Viana Trail, mas não é. Acreditem. Palavra de TopMáquina. Ele está mesmo fortíssimo. Não sei o que ele anda a meter nas barras, mas de certeza que as barras que ele come não são iguais às barras que ele vende. Mangustão? Cogumelo do tempo? Pau-de-cabinda? Calcitrin? Alguma coisa é. De outra forma não se percebe como é que eu, um atleta de tesão, só apanhei o Mr. Olimpo por volta do k25. Não confundir “tesão” com “eleição”. É certo que eu estava um bocadinho chamuscado do GTSA e o meu horóscopo apresentava-se desfavorável, mas nada justifica a ratada que ele me deu na primeira metade do DUT. O homem está a trepar melhor do que uma ninfomaníaca brasileira. Seja como for, foi coisa de pouca dura. Vi-o na peugada do Luís Malheiro (7.º no GTSA, 10.º nos Abutres, 9.º no Piodão) e pensei: deixa-o ir que ele vai levar com a marreta não tarda nada. Dito e feito. Foi um fogacho. Fogo-de-vista. Posto isto, a pergunta que se impõe é a seguinte: de que vale meter viagra nas barras se não se consegue satisfazer a ninfomaníaca brasileira? É uma questão que deixo à vossa consideração.

 

Vocês não são as únicas pessoas a acharem que eu sou um mestre na arte da estratégia de corrida. Eu acho o mesmo. Exemplo: na última contagem de montanha do dia, ali por volta do k40, tínhamos de subir e voltar a descer pelo mesmo trilho. Os atletas mais rápidos desciam e os mais lentos subiam, cruzando-se assim uns pelos outros. Tirando partido dessa situação, eu aproveitava para mentir aos adversários que seguiam na minha peugada de maneira a desmoralizá-los. Ao passar por eles, informava-os de que faltavam menos metros do que aqueles que faltavam na realidade. Se ainda faltassem 1.000m, dizia-lhes que só faltavam 500m. Se ainda faltassem 1.500m, dizia-lhe que só faltavam 600m. E assim sucessivamente. Tudo para desmoralizá-los. Aprendam que eu não Duro (Trail) para sempre.

 

14680953_10211306110716455_8243697654041345616_o.j

 

Aproveitámos a proximidade da meta ao rio Sado para molhar as pernas depois da prova. A água fria salgada faz milagres e o empeno quase que desapareceu por magia. Senti-me como novo. As pernas agradeceram o miminho, mas o nariz nem por isso. Tive o azar de me encostar aos elementos do Arrábida Trail Team e só via bolhas de ar a sair da água. Ar não: metano de javali. O que me valeu é que eu fumo e tinha um isqueiro no bolso dos calções. Houve quem achasse que a Secil—Outão estava a arder e chamou os bombeiros. A cimenteira não ardeu, mas os contentores estavam alagados e os soldados da paz podê-los-iam ter evacuado. Parece que houve quem cometeu o erro de almoçar antes de tomar banho. Meteram as pernas de molho no rio, almoçaram e só então tomaram banho. Digo isto porque nos chuveiros das casas-de-banho portáteis só se via (e cheirava) massada de peixe vomitada.

 

14567986_610131879147416_5267488283596249986_n.jpg

 

Minutos antes de abandonar a fofinha cidade de Setúbal, tomei conhecimento de que a equipa Satecnosol e a equipa Dr.Merino/Nutrifit haviam combinado passar a noite na capital do rodízio-de-peixe de maneira a juntos comemorarem o pódio por equipas que ambas lograram no DUT. Os Sonasóis ficaram em 1.º e os Merinos em 3.º. Segundo testemunhas no local, a celebração incluiu música, jogatana (strip-poker) e churrasco regado com bebidas altamente alcoolizantes. Diga outra vez? Alccolizantes. Pouca-vergonha! É o que é. É vergonhoso que duas das melhores equipas do Trail Nacional se comportem desta maneira. Fazerem uma festa às escondidas e não convidarem os actuais Campeões em título é inqualificável. A ATRP tem de meter a mão nisto… e depressa. É este o exemplo que queremos dar aos nossos jovens? Sabe Deus o que o Romeu Gouveia fará com exemplos destes.

 

14606544_1289935917703930_2416972418382504535_n.jp

10 Bujardas Rapidinhas

por Pedro Caprichoso, em 30.09.16

images.jpg

 

Há 2 anos que não visitava o meu mural de Facebook. Não tenho paciência. Fi-lo agora para saber o que há de novo na vida dos meus amigos. Eis as conclusões a que cheguei:

 

#1

Pessoas que há 2 meses morriam de amores pelo Trail dizem agora adeus à modalidade. Uns vão dedicar-se ao IronMan; outros ao ciclismo de “fundo”; outros à musculação. A pergunta que fica é a seguinte: qual destas modalidades dá mais likes?

 

#2

Certas equipas auto-intitulam-se “a melhor equipa nacional” vencendo provas de segunda linha e evitando as provas dos Campeonatos Nacionais. Faz sentido. Somos todos os “melhores”. Basta acreditar com muita força. Estejam descansadinhos que alguém enfiará o carapuço.

 

#3

Parece que o “Caminho faz-se Caminhando”. Ufa! Ainda bem que se faz caminhando. É que eu pensava que se fazia auto-promovendo-se nas redes sociais—e eu não tenho lata para essas coisas.

 

#4

Existem indivíduos barrigudos com página de atleta. Que mau! Fiquem a saber que, segundo as regras internacionais, só há três desportos em que é permitido aos “atletas” terem barriga: golf, snooker e bilhar de bolso.

 

#5

Em meia hora de Facebook contei 567 atletas profissionais de Trail Running. Não são profissionais? Ai não? Então por que raio é que colocam o nome da sua equipa no campo “trabalho e formação” do seu perfil de Facebook. Não façam isso. É tão 2008. Que foleiro!

 

#6

As pessoas continuam a acreditar que publicar fotos de lesões acelera a recuperação. Infelizmente, isso não é necessariamente verdade. Isso só funciona se fores mulher e publicares as fotos em nu integral. Ora experimenta. Vais sentir-te logo melhor. Acredita em mim.

 

#7

As pessoas continuam a acreditar que dá sorte publicar fotos do seu dorsal antes de uma prova. Infelizmente, isso não é necessariamente verdade. Isso só funciona se fores mulher e publicares as fotos em nu integral com o dorsal a tapar-te a cara. Ora experimenta. Acredita em mim.

 

#8

Está ao rubro um concurso de fotografia de pratos de comida saudável. Não sei qual é o prémio, mas desconfio que o objectivo é fazer inveja aos Africanos que nada têm para comer.

 

#9

Dado o histerismo consumista do atleta tuga, desconfio que há gente que andou a melhor ritmo na fila do Freeport (para comprar sapatilhas ao preço da chuva) do que no passado fim-de-semana para concluir o GTSA—Grande Trail Serra D’Arga.

 

#10

Segundo pude constatar no GTSA, ser Português e desfraldar a bandeira Portuguesa ao terminar uma prova em território Português será a nova tendência para 2017. Desfraldá-la no estrangeiro já está muito batido. Desfraldá-la-emos em Portugal para que os espanhóis percebam que ainda somos nós que mandamos nisto.

Rescaldo GTSA 2016

por Pedro Caprichoso, em 29.09.16

 

 

A Serra D’Arga ardeu, mas os pirómanos não se ficaram a rir. O GTSA—Grande Trail Serra D’Arga  não se deixou intimidar e provou, novamente, que é a maior festa do Trail Nacional. Através de algumas modificações ao percurso dos últimos anos, a organização evitou as zonas mais queimadas (i.e. Pedra Alçada e Cerquido) e proporcionou aos repetentes a descoberta de novos trilhos. Do mal, o menos. Muitos comentaram que me acharam muito concentrado durante a prova. Bem pelo contrário. A minha mente não parou de divagar sobre a melhor forma de limpar o sebo aos incendiários que queimaram a Serra. Cheguei finalmente à conclusão, por volta do k48, que, se eu mandasse, eram todos enforcados pelos tomates. Não percebem? Eu explico: faz-se um laço com a extremidade de uma corda entre a tomateira e a cobra-zarolha do pirómano, aperta-se bem até os colhões ficarem azuis, passa-se a outra extremidade sobre o ramo de uma árvore queimada e iça-se o criminoso à força de braços. Depois é só esperar pelas aves de rapina. Depois faço-vos um desenho.

 

14445086_1047546732038177_3494627900121607652_o.jp

 

Por falar em aves de rapina, quedar-nos-emos mais umas linhas no reino animal. Para além do Km Vertical, Kids Race, Sunset, Caminhada, Trail Curto—13k, Trail Curto—23k, Trail Longo—33k e GTSA—53k, a Organização do GTSA voltou a inovar este ano com a introdução de uma competição canídea. Desconhecedor de tal inovação, inicialmente assumi que a presença de cães nos trilhos seria o resultado de uma de duas situações: ou alguém levava uma sandes de presunto na mochila, ou alguma menina estava “naqueles dias”. Dizem que os rafeiros conseguem cheirar essas coisas. Pelos vistos, parece que os bichos estavam mesmo em competição. Tinham chip e tudo. Em cima temos o vencedor da primeira edição da Dogs Race—33k. Em baixo o vencedor da Dogs Race—53k. Os dois cruzaram-se na Montaria e ficaram 15min a cheirar o rabo um do outro.

 

14424854_1105239559530572_2342684842437108536_o.jp

 

Num momento de rara fragilidade intelectual, cheguei ao terceiro abastecimento (21k), entreguei um softflask vazio a um tipo da organização e solicitei-lhe o seguinte com a minha reconhecida voz sexy: “Enche-me aqui!” Ele pareceu-me reticente, pelo que repeti o pedido: “Enche-me aqui!” Quando dei por isso, já ele me estava a puxar os calções para baixo. Ter-me-á fugido a boca para a verdade? Seja como for, ainda bem que lá estava o Tiago Fernandes da Desnível Positivo. Foi ele que impediu o meliante de me desflorar à frente dos milhares de adeptos que nesse local incentivavam os atletas. Pelo canto do olho, julgo ter visto uma criança a desmaiar e uma velha a sacar o iphone do avental para me tirar uma foto. Graças a nosso senhor jesus cristo que eu já estava composto quando ela disparou. Temos pena. Coincidência ou não, certo é que o meu rabinho assustou-se e respondeu ao trauma na forma de diarreia. Daí até à meta fiz dois desvios estratégicos para aliviar a tripa. Ambos de esguicho. Da segunda vez já não tinha papel higiénico e fiquei com as bochechas assadas. Após cortar a meta, o vencedor da Dogs Race—53k veio ter comigo, meteu o nariz onde não era chamado e confirmou a extensão da queimadura ao desmaiar com o cheiro.

 

14444716_1482155571799828_699627408181926322_o.jpg

 

Embora tendo alcançado 4 pódios com uma equipa desfalcada de alguns dos seus melhores elementos, esta edição do GTSA vai ficar marcada pela negativa na história da EDV—Viana Trail. Os patrocinadores ficaram aborrecidos com a foto acima publicada e pedem a cabeça do Presidente da equipa aurinegra. Em resposta, este apressou-se a abrir um processo disciplinar à atleta em causa. O problema não está em correr em top. A nossa equipa é muito liberal em relação a esse tipo de coisas. Temos, aliás, o hábito de realizar um treino semanal em nu integral. Contactem o Jérôme Rodrigues para mais detalhes. O que deixou os patrocinadores à beira de um ataque de nervos não foi o top per si. Foi verem uma atleta da EDV—Viana Trail a correr com um top de linha branca, perdão, preta. Então os patrocinadores pagam milhões para exibirem os seus logotipos nas camisolas da EDV—Viana Trail e uma atleta tira a camisola para correr com um top não-homologado pela equipa? Mas isto tem algum jeito? Querem correr de top? Corram. Mas comprem-no na nossa loja oficial. Aqui. Eu já tenho o meu. Resta saber qual será a sanção aplicada à atleta. Desconfio que será obrigada a trajar de burkini até ao fim da época. Concordo com o burkini, embora a burka completa me pareça melhor. A segunda tem mais espaço para colocar patrocínios.

 

0

 

Por falar em processos, o que dizer da queda aparatosa deste reputado atleta da EDV—Viana Trail? A Ester mandou o Paulo na direcção de uma armadilha e ele esbandalhou-se ao comprido. A atleta do Desnível Positivo pretendeu eliminar um atleta da equipa rival e conseguiu-o. Da queda resultou uma ferida profunda no orgulho do Paulo e os médicos do Hospital de Viana do Castelo prevêem 5 meses de recuperação psicológica até que este esteja mentalmente preparado para voltar à competição. Acontece que este não é um atleta qualquer. A vítima é um renomado advogado e já processou a Ester e o Carlos Sá com vista a ressarci-lo dos dados morais e sexuais provocados pela vergonha inerente ao trambolhão em público. Fala-se em 2 milhões de indeminização. É pouco. É muito pouco tendo em conta a indeminização pedida pelos pais do miúdo que fez falsa partida na Kids Race e levou uma estalada do speaker do GTSA. 5 milhões por uma chapada? Não gozem comigo. Mais desenvolvimentos sobre estas trapalhadas nas crónicas criminais das manhãs da televisão portuguesa.

 

14362431_1046782922114558_6202869200086398103_o.jp

 

—XXX—

 

14462916_1080088612107246_7264189794677933032_n.jp

 [Montagem de João “The Speaker” Joca (o mesmo que foi processado em 5 milhões por ter espetado uma estalada numa criança de 5 anos) e fotografias de Marco Barbosa]

 

Como se pode verificar pela montagem acima publicada, o André Rodrigues tem registado uma evolução espectacular no panorama do Trail Nacional. Não obstante, nem tudo no atleta de Arganil é fruto do treino. Sem desprimor para o seu esforço e dedicação à modalidade, fica bem reconhecer que muitas das suas principais valências já vêm de origem. A sua pelugem corporal não foi transplantada na clínica do Carlos Martins, as suas parecenças faciais com o Keanu Reeves não resultam de cirurgia plástica e a câmara que este esconde na boca não foi acoplada pós-parto. É tudo original.

14440650_1067892789975419_4464891162514278186_n.jp

 

O conhecido apresentador da RTP Pedro Fernandes também participou no GTSA—53k. O seu objectivo era ganhar, mas os Cabo-Verdianos não deram hipótese à concorrência. Bem vistas as coisas, este desfecho era previsível tendo em conta que o Pedro apresenta o concurso The Big Picha e, como é do conhecimento geral, os africanos têm uma big(ger) picha. Por falar em genitália, o que dizer do Dinamarquês de kilt e sandálias tarahumara que animou a edição deste ano? Este homem é o paradoxo em pessoa. Tradicional da cintura para baixo e moderno da cintura para cima. Camisola técnica e óculos desportivos da cintura para cima e kilt e sandálias da cintura para baixo. Posto isto, a dúvida que persiste é a seguinte: será que ele anda com a tomateira ao léu ou, pelo contrário, não dispensa o conforto de umas cuecas Hugo Boss? Aceitam-se apostas.

 

Capture1.JPG

 

Ricardo Silva, Fernanda Verde e Jérôme Rodrigues foram apanhados pelos fotógrafos do GTSA. Quero por isso garantir ao Seleccionador Nacional que eles não violaram o período de restrição competitiva imposto pela sua participação no Campeonato do Mundo de Trail. Repito: eles não estavam em competição. Estavam a dar-me apoio. O primeiro tinha como função esconder o meu doping em pontos estratégicos do percurso. A segunda esperava-me nos abastecimentos para espetar-me agulhas nas orelhas. Estava com diarreia e, segundo a medicina tradicional tailandesa, as orelhas correspondem ao meridiano associado aos intestinos. O último apalpava-me as nalgas após as subidas mais duras do percurso. Obrigado a todos os que me apoiam. Sem vocês nada disto seria possível.

 

Capture2.JPG

#runningwithfriends

#nodopingnogain

#acupunturalover

#nalgasinshape

 

Por fim, deixo-vos com este momento No Comment:

 

14409396_606537279518353_5765295388625359724_o.jpg

 [Português acaba prova portuguesa com uma bandeira de Portugal.]

O Rei das Ultras

por Pedro Caprichoso, em 22.09.16

9582163553_b2cac8c0da_b.jpg

 

Sexta-feira. 5 horas e 55 minutos. AM. A noite permanece cerrada. Faltam 46 minutos e 37 segundos para o nascer-do-sol. O sono aperta e o telemóvel anuncia o SMS através do refrão de uma cantiga do Badocha. Badocha ou José Cid. Às vezes confundo os dois. O encontro é relembrado: estar à frente do Talho “Meirelles” às 7h em ponto com vista ao “treino à hora do ouriço-cacheiro”. A toca de um ouriço-cacheiro é mais asseada do que a casa de banho do Rei das Ultras. O lavatório acumula restos de pasta de dentes ressequida; fezes fossilizadas assemelham-se a pinturas rupestres nas paredes da sanita; e na banheira encontram-se dois pares de sapatilhas enlameados. É espalhado gel, é aplicado perfume, são enfiados os calções “de ir ao pito”, é efectuada uma selfie em tronco nu, é actualizado o estado no facebook e é repetidamente proferida a seguinte frase à frente do espelho:

 

 “Espelho meu, espelho meu, existe algum atleta mais cagão do que eu?”

 

Numa mão a colher dentro da tigela de leite com chocapic. Na simétrica o telemóvel sendo martelado por um polegar esquizofrénico. Em 7 minutos fizeram-se 127 gostos, postaram-se 21 comentários na forma de lols e publicaram-se 3 fotos de uma tijela com grânola e iogurte quark sob a legenda:

 

“O Pequeno-Almoço dos Campeões.”

 

Desconhece-se a origem das fotos. Mais 3 colheradas, mais 14 gostos e a tigela é arremessada para a pia. Sem espiga. A mãe do Rei das Ultras passa lá por casa ao fim da tarde e lava-a. O chocapic dá-lhe a volta à tripa e o Rei faz nova visita ao WC. Com o telemóvel numa mão é complicado baixar os calções e o aparelho acaba por cair na retrete na pressa de arrear o calhau. Não há razão para entrar em pânico. É à prova de água. Mas será à prova de cocó? Veremos. Sentado no trono, o Rei limpa o iphone à toalha de limpar a cara e testa-o enviando um SMS:

 

«tou a bazar d kasa lol há ferente d meirelles em 10min»

 

7 horas e 12 minutos. Está um briol do caralho à frente do Talho “Meirelles”, o Rei das Ultras bate o dente a bom bater e o José Badocha—por via das dúvidas—anuncia a chegada de um SMS:

 

«akuanta + 1 bokadito. lol Tamos kuaze a xegar. Lol»

 

Está menos frio do que parece. O Rei das Ultras passa frio porque quer. Impunha-se um corta-vento, mas este preferiu trajar de mangas cavas para exibir a sua nova tatuagem. Trata-se do logótipo do UTCM—Ultra Trail Curral de Moinas tatuado no seu bíceps esquerdo. Faz hoje uma semana que o nosso herói foi finisher de uma das provas mais competitivas do Circuito Regional de Trail de Curral de Moinas. Melhor do que finisher, alcançou um brilhante 16.º Lugar à Geral, 9.º no Escalão, 5.º Regional e 2.º ATRP. Os seus detractores atribuem o feito ao período restritivo aplicado pela ATRP aos atletas da Selecção Nacional de Trail, impedindo-os de competir até ao Campeonato do Mundo de Trail. “És um cagão. Se não fosse o Campeonato do Mundo de Trail, ias ver o que era bom para a tosse. Nem no top30 entravas”, lê-se num comentário em resposta à crónica do Rei das Ultras. As crónicas do Rei das Ultras são todas publicadas na sua página de atleta auto-intitulada: “Rei das Ultras—UltraRunner”.

 

7 horas e 29 minutos. O Rei das Ultras apanhou boleia de um renault 21 a cair de podre, os 4 amigos estão a chegar ao cimo da Serra e ainda ninguém elogiou a sua nova tatuagem. “Não sei o que se passa. Acho que dei um mau-jeito ao ombro. Que dores!”, queixa-se o monarca em jeito de pedido de atenção desesperado. “Olhem só: o nosso amigo «Carapau-de-Corrida» tem uma nova tatuagem toda catita”, exclama o passageiro que com ele divide a traseira da viatura. O Rei das Ultras também é conhecido por “Carapau-de-Corrida” entre o seu núcleo de amigos mais próximos. Há quem na alcunha veja uma conotação negativa, mas ele diz que não se importa. Diz que não se importa, mas não perde uma oportunidade de corrigir o seu interlocutor: “Preferia que me tratasses por «Rei das Ultras». Preciso de desenvolver a minha marca para atrair patrocinadores e o público já me conhece enquanto «Rei das Ultras».” O pai do Rei das Ultras tem uma casa de passe em Matosinhos e é conhecido pelo «Rei dos Pitos». Daí a inspiração.

 

7 horas e 57 minutos. Depois de andarem às voltas no topo da Serra durante 19min, os 4 compinchas encontram-se suficientemente suados para levarem a cabo o seu objectivo: tirarem uma selfie com 80 hectares de eucaliptos em pano de fundo. Lindo! São executados 27 disparos de maneira a seleccionar o melhor. O condutor da viatura, a.k.a. «O Empenado», fará a selecção das melhores selfies, aplicar-lhes-á um filtro espectacular e publicá-las-á na página de facebook do seu grupo de treino—o já aqui mencionado “treino à hora do ouriço-cacheiro”. Apesar de já ter lugar numa sucata, todos colocam toalhas a cobrir os bancos de maneira a não conspurcarem o renault 21 com o seu suor. O Empenado é maníaco das limpezas e os amigos sabem disso. Quem sujar o seu “bolinhas” pode dar-se mal e ninguém quer ficar mal na selfie.

 

8 horas e 27 minutos. O Rei das Ultras regressa à cama. Está de tal forma derreado quem nem banho tomou. Sem espiga. A mãe do Rei das Ultras passa lá por casa ao fim da tarde e troca-lhe os lençóis. Deixem-no dormir à vontade. Tem até às 18h para se apresentar no Centro de Emprego ou Junta de Freguesia da sua área de residência.

Tarântula

por Pedro Caprichoso, em 16.09.16

creepy-smoking-spider-man.jpg

 

A mão procura. Primeiro, nos bolsos da mochila. Depois, nos do casaco. Por fim, nos dos calções. Toda e qualquer entrada, cavidade, brecha ou fenda é mexida e remexida. Nem o diminuto compartimento dos calções (destinado ao transporte de chaves) escapa. Como uma serpente no covil de um pequeno roedor, o indicador infiltra-se sorrateiramente na furna de maneira a encurralar a presa. Debalde. Apesar de meia dúzia de tentativas desesperadas, por meio de múltiplos movimentos rotativos, a sondagem salda-se por um preservativo usado, quatro comprimidos de imodium rapid, duas moedas de 2 cêntimos e uma quantidade indeterminada de cotão.

 

A mão parece ter vida própria. Com um pouco de imaginação, pela forma como se movimenta, mais parece estarmos na presença de um aracnídeo. Quiçá uma tarântula. Os dedos—quais patas—locomovem a mão ao longo do tronco do atleta não identificado na sua inexorável demanda por uma entrada, cavidade, brecha ou fenda dentro do raio de alcance do respectivo braço.

 

Fábio Aru, legítimo proprietário da mão em causa, ignora as movimentações protagonizadas por esta. Os seus pensamentos encontram-se absortos no estudo do perfil do GTSA—Grande Trail Serra D’Arga. Estuda-o como se estivesse a ler as instruções do exame de gravidez que a namorada lhe mandou comprar.

 

A mão direita procura. A mão direita procura e não acha.

 

Fábio finalmente apercebe-se do descontrolo da sua mão ao ser confrontado com uma pergunta que o faz regressar à realidade: “Tens o track do GTSA?”

 

Dizem que o percurso este ano sofreu bastantes alterações.

 

Terra chama Fábio Aru. Terra chama Fábio Aru.

 

Fábio acorda estremunhado e julga-se possuído pelo génio de um pianista, tocador de flauta ou programador informático—tal a hiperactividade da sua mão direita. Inicialmente paralisado, Fábio toma rapidamente conta da ocorrência, permitindo à simétrica passar de simples testemunha a agente de autoridade. Deparando-se, naquela noite quente de Verão, com a incredulidade dos presentes na sede da EDV-Viana Trail, Fábio detém a mão direita com a mão esquerda e exclama em jeito de explicação:

 

“Deixei os cigarros de chocolate há 5 dias.”

O Primeiro Objectivo Da Época

por Pedro Caprichoso, em 15.09.16

5599e17d768fc605315cee7837b14da7.jpg

 

Só este ano já ganhei 8 medalhas de finisher em provas de Trail Running. Poderão brevemente apreciá-las no museu que estou actualmente a construir na cave de casa dos meus pais. Não vivo em casa dos meus pais porque não tenho recursos financeiros para ter habitação própria. Vivo em casa dos meus pais porque lá tenho cama, comida e roupa lavada. Não confundam as coisas. Não quero que os meus fãs pensem que eu não tenho onde cair morto. Eu tenho dinheiro. Gosto é muito dos cozinhados da minha mamã e da forma como ela passa a ferro os meus calções de compressão. O dinheiro estou a poupá-lo para ir fazendo o meu enxoval. Os meus patrocinadores pagam bem e já tenho 2 conjuntos de edredons, 6 pares de lençóis, 2 colchas e 6 naperons. Sonhei que vou conhecer a minha alma gémea numa prova em Barcelos. Chocarei contra ela numa curva mais apertada do UTAM—Ultra Trail Amigos da Montanha e será amor à primeira batida pela retaguarda.

 

Detesto gente presunçosa, mas adoro quando o presunçoso sou eu. Não posso com a bazófia dos outros, mas adoro a minha. A minha bazófia é muito boa. É a melhor. Passe a modéstia. Dito isto, tenho muito orgulho nas minhas 8 medalhas. Foram todas conquistadas, com muito suor e lágrimas, em provas dos Campeonatos Nacionais de Trail: 6 do Campeonato de Trail Ultra e 2 do Campeonato de Trail Ultra Endurance. Nenhuma em provas de aldeia. Não tenho nada contra as provas de aldeia. Só acho que o nível competitivo das provas de aldeia é insuficiente para fazer-me evoluir enquanto atleta semi-amador e ser-humano com sentimentos. Sim, eu conheço de trás-para-a-frente as “10 Dicas Para Seres Um Grande Atleta”. Sei que elevar o nosso estatuto de atleta passa por competir em provas de segunda linha. Nestas provas encontramos menos concorrência e a probabilidade de fazermos uma boa classificação aumenta exponencialmente. Sei que o ideal é participar nas primeiras edições de provas que se disputem no mesmo dia de provas consagradas. Sei isso tudo, mas ainda assim prefiro conquistar medalhas de elevado valor desportivo para posteriormente exibi-las no meu museu.

 

Este ano ainda não ganhei nenhuma prova. Podia tê-las vencido? Podia. Com as duas pernas às costas. Mas optei não fazê-lo. Passe a modéstia. Preferi fazê-las em preparação com vista ao meu primeiro objectivo do ano. Refiro-me, como já devem ter adivinhado, ao UTAM—a disputar no próximo dia 20 de Novembro. Objectivo: superar-me, ficar no Top69 e encontrar o amor da minha vida. Se as coisas correrem mal, não se admirem se o meu primeiro objectivo do ano passar a ser o 4.º Xmas Trail Run.

Coach Precisa-se

por Pedro Caprichoso, em 02.09.16

Confira-As-Dicas2.jpg

 

Preciso de um Coach. Atenção! Não é um treinador. É um Coach. De treinadores estou eu farto. Treinador e Coach não são a mesma coisa. O Treinador treina a corrida. O Coach treina o running. Há uma linha que separa um Treinador de um Coach. É a linha que separa a vontade de correr e a vontade de fazer running.

 

Treinador é um ofício, em vias de extinção, que remonta ao século XIX. O último treinador português faleceu no passado mês de Julho. Chamava-se Moniz Pereira. Citando o Catedrático Professor de Linguística Abel Xavier, treinador é aquele que treina-a-dor. Treinador é, portanto, uma palavra que resulta de um processo de aglutinação. Dá-se a junção da palavra “treina” com a palavra “dor” e voilà o treinador. Por outro lado, o anglicismo “coach” não tem qualquer conotação com a dor. Bem pelo contrário. Coach deriva da palavra “couch”. Couch, para quem não domina a língua inglesa, quer dizer sofá. E sofá quer dizer conforto; quer dizer cochilar; quer dizer conchinha com a Maria; quer dizer sexo em doggy style. If you know what I mean.

 

 

Quero um Coach porque já tive um treinador e não gostei da sua abordagem. O tipo era doido: mandava-me correr. E eu de correr não gosto. Cansa. Embora cansado, segui as suas instruções à risca e fartei-me de correr durante 12 anos. Feito burro. E sabem o que eu ganhei com isso? Eu digo-vos: nada. Um redondo e anafado nada. Por outro lado, o meu vizinho do 5.º Esq arranjou um Coach aqui há coisa de um mês e já é patrocinado pela Compresssssssssssport. Quer dizer, não é bem patrocinado. Parece o dono da loja é amigo dele e faz-lhe um desconto de 5% para ele promover a marca. Nada mau. Bem bom. O que eu não daria para ter um arranjinho desses. Dava o cuzinho e 3 tostões num estalar de dedos.

 

Não quero um treinador que me mande correr. Não quero treinar a dor. A dor aleija. Antes quero um Coach que me valorize nas redes sociais. Quero terminar o UTCM—Ultra Trail de Curral de Moinas em septuagésimo oitavo do meu escalão e sentir que ganhei a prova. Quero sentir-me um verdadeiro campeão. Quero publicar treinos, identificar desafios, definir objectivos, traçar metas, ultrapassar limites, superar obstáculos, obter resultados, brincar com a pilinha e ter muitos likes no facebook. Quero sentir-me especial. Quero teclar banalidades até ficar com os dedos em carne viva. Basta acreditar. Somos todos campeões. Never quit. #loverunning.

 

Cuidado! Não se deixem enganar. Anda por aí muito Treinador a fazer-se passar por Coach. Treinadores com diplomas, cheios de conversa fiada. O meu dizia-me que um bom atleta só precisa de 3 coisas: treinar bem, descansar bem e comer bem. Balelas. Quantos patrocínios dá uma malga de sopa de legumes? Quantos padrinhos de provas de Trail fazem 100k por semana? Quantos administradores de páginas de atleta vão para a cama com o vitinho? Pois é. A verdade é que os Treinadores prometem resultados, mas depois nem 50 likes conseguimos com a medalha de finisher ao peito. Estou farto de Treinadores. Venham de lá esses Couchs.

Rescaldo UTRP 2016

por Pedro Caprichoso, em 15.08.16

13937894_627003677462291_7153226851696999627_o.jpg

 

Tinha todos os motivos do mundo para não escrever esta crónica. Levei com a marreta no UTRP—Ultra Trilhos Rocha da Pena, desisti aos 40k e podia fazer o que faz o Zé-Povinho—Atleta quando as coisas correm mal: ficar calado e assobiar para o lado. O Zé só escreve quando as coisas correm bem—e eu, se fosse esperto, faria o mesmo. Era da maneira que não perdia os meus patrocinadores. Acontece que eu tenho cu—e, como diz o povo, quem tem cu tem medo. O meu medo chama-se Mary Vieira. Cruzei-me com ela, aos 40k, depois de levar a maior marretada da minha carreira desportiva—e ela fez-me prometer que eu faria referência ao facto na presente. Caso contrário, ela dava-me um enxerto de porrada de criar bicho. Repito: enxerto de porrada de criar bicho. E assim foi: ela ameaçou-me e eu venho aqui dar o corpo ao manifesto, a mão à palmatória e o rabinho ao clister. Juro que direi a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Aos 29k disseram-me que ia a 1min do Javali Rui Pacheco e, com vista à classificação colectiva, decidi arriscar nos 10k seguintes com vista a apanhá-lo. Resultado: levei uma marretada tão grande, mas tão grande, que nem vos passa pela cabeça. Não passa pela vossa, mas passou pela minha. Desta vez não foi o Homem da Marreta que me atacou. Foi aquele herói da Marvel que anda sempre de marreta em riste, de cujo nome agora não me lembro e não tenho pachorra de googlar. É esse mesmo. Fiquei tonto com o calor, comecei a correr em sentido contrário, cruzei-me com a Mary e ela riu-se do meu estado quasi comatoso. Foi triste! Tenho rezado todos os dias a nossa senhora dos empenhados para que não haja registos fotográficos do meu abanico.

 

13892210_748366351970187_2795274287583335222_n.jpg

 

Ainda a propósito do meu furo no UTRP, façam-me um favor: parem de partilhar frases inspiradoras estúpidas [ex: «Never Give Up», «Nothing is Impossible», «It does not matter how slow you go as long as you don’t stop.»] e partilhem a sabedoria de quem percebe da poda:

 

«Chegar ao limite é uma coisa. Ultrapassá-lo é outra.»

—Jorge Serrazina na revista "Running" #14.

 

A ti, que nunca desistes, tenho o seguinte a dizer: ultrapassem os vossos limites e eu prometo que vou à vossa missa de 7.º dia.

 

P_20160806_224040_LL.jpg

 

Nunca tinha dormido em solo duro. Foi a primeira vez em 5 anos de Trail e posso dizer, com todo o amor e carinho, que foi uma experiência horrível. Há 3 verbos que me vêm à cabeça quando me recordo daquela noite fatídica: gritar, ressonar e peidar. Para supostos desportistas, andam por aí muitos praticantes de Trail com apneia do sono. Homens e mulheres. Aliás, para mim o ronco das mulheres é bem pior do que o ronco dos homens. É um ronco assobiado, por oposição ao ressonar melodioso dos homens. O ronco do meu companheiro moçambicano está ao nível de uma canção de embalar. [Já agora, aproveito para mandar um beijinho ao meu Eusébio.] Pontualmente, recortando o concerto de roncos, alguém acordava estremunhado de um pesadelo e gritava: “Marreta!”. Também acordei estremunhado inúmeras vezes. No meu caso, os pesadelos não foram o problema. Não os tive. A minha cruz foram as gajas que se tentaram enrolar com as vedetas da EDV-Viana Trail. De um lado tinha o Pedro Rodrigues e o Rui Seixo; do outro tinha o Jérôme Rodrigues e o Presidente Alcobia. Não preguei olho a noite toda e não podia ter ficado mais aborrecido, pois eles recusam a minha companhia sempre que me tento enrolar com eles. Quanto à flatulência, estava montada uma “Guerra de Traques” entre o lado sul do pavilhão (comandado pela vara do Arrábida Trail Team) e o lado norte (comandado pela EDV-Viana Trail). Em termos qualitativos (i.e. ruído), venceram os Javalis. Os Porcos-Bravos dispunham de colchões insufláveis e estes ampliavam o volume das bufas projectadas de barriga para cima. O Lino Luz chegou a furar o seu colchão em resultado de uma bufa mais violenta. Já em termos quantitativos, os nortenhos não deram hipótese. Resultado: 524 – 178. A esta distância dos acontecimentos, podemos considerar que os peidos foram o prenúncio do que aconteceu no dia seguinte. Em baixo publicamos um vídeo exclusivo do "Solo Duro" do Ultra Trilhos Rocha da Pena. Atenção: este vídeo contem imagens e sons que podem ferir a susceptibilidade dos telespectadores mais sensíveis.

 

 

Ao fechar a equipa da EDV-Viana Trail na 9.ª posição à geral, Tiago Teixeira (a.k.a. Todo-o-Terreno) protagonizou um dos momentos altos do UTRP, garantindo a vitória colectiva na prova algarvia e o Tri-Campeonato Nacional de Trail Ultra para as cores auri-negras. Este momento foi apenas suplantado pelo triplo sato mortal encarpado à retaguarda realizado pelo atleta abaixo identificado. A técnica apurada e a entrada sem splash valeu-lhe 9.5 numa escala de 10. Eis o momento da entrada na água:

 

13882690_925217567624937_1676058303053430263_n.jpg

 

Para melhor relatar a proeza do TT, passo a palavra ao Jérôme Rodrigues—ele que se deslocou ao Algarve (e gramou 12h de autocarro) com o único propósito de dar apoio aos seus colegas de equipa. No seguimento da inacreditável prestação do Tiago, o Lince escreveu o seguinte no grupo secreto da EDV-Viana Trail no Facebook:

 

Comovido.

Hoje assisti a algo ímpar. Já estamos habituados aos sucessos do Ricardo e às boas prestações da equipa e dos seus atletas. Mesmo assim nada fazia prever este desfecho.

As provas rolantes não são de todo a praia dos auri-negros (à excepção da polivalência do Ricardo) e, por isso, todos foram afectados pelo cansaço e pela velocidade inicial da prova.

Aos 39 km, o abastecimento concentrou 4 atletas nossos com um atraso considerável sobre os líderes da prova. Aconselhei os nossos rapazes a abrandarem para não se comprometerem e terminarem a prova.

O TT não se convenceu e disse: ” Hoje vamos ganhar!” Confesso que o achei no delírio. Era impossível recuperar cerca de 10 minutos, nos 11km que faltavam, sobre os atletas que fechavam as equipas adversárias.

Resultado: o TT recupera de forma inexplicável e termina em 9 lugar, passando os atletas supramencionadas e dando a vitória à equipa. Se fechámos a equipa, devemo-lo ao nosso menino de ouro. O único que acreditou, quando os seus próprios amigos de equipa duvidaram!

Obrigado TT por conquistares o título por nós!

P_20160807_164853.jpg

 

O dia terminou em beleza. Num bonito convívio entre os atletas da EDV-Viana Trail e as atletas da equipa Dr. Merino / Nutrifit, estas queixaram-se dos homens da sua equipa. A queixa é sempre a mesma: eles não dividem tarefas e elas têm de fazer o trabalho todo. Eles furam; elas vão às provas todas e fartam-se de pontuar para a equipa. O nosso Presidente já me confidenciou que vai fazer uma OPA ao contingente feminino da Dr. Merino/Nutrifit.

As «fashion victims» do Trail Nacional

por Pedro Caprichoso, em 29.07.16

p9080355.jpg

 

Enquanto fashion victim, admito que tenho uma erecção sempre que o Zé-Povinho—Atleta adquire uma nova peça de equipamento desportivo e publica-a no facebook. As pessoas normais vêem pornografia; eu vejo o unboxing de sapatilhas. Não sei do que gosto mais: se comprar, se ver o que os outros compram. Não fico apenas satisfeito por saber que a crise é coisa do passado e que o Zé tem dinheiro para estoirar um ordenado em material. Do que eu gosto, mesmo, é de me rir com o mau-gosto de alguns atletas semi-amadores*. Há gente que precisa urgentemente de um consultor de moda. Estou disponível. Orçamento por mensagem privada. Por outro lado, há runners com extremo bom-gosto e que têm a inteligência de usar os trapos a seu favor. Exemplo: uma Maria-Povinha—Atleta pode exibir a beleza de uma hiena com leishmaniose, mas qual é o homem que lhe resiste se ela trajar de Salomon dos pés à cabeça? Pela parte que me toca, eu salto à cueca de qualquer barbie made in Salomon. Palavra de ninfomaníaco.

 

As bandoletes, as calças à boca-de-sino e os casacos com enchumaços são hoje olhados com desdém e universalmente rotulados como foleiros. Da mesma forma, é inevitável que desse triste fim não escapem alguns dos acessórios de Trail que hoje mais furor fazem nos trilhos nacionais. Se hoje são o último grito, amanhã serão motivo de riso. A única certeza no mundo da moda é que a moda passa de moda. Falou o especialista. Podem citar-me. Daqui a 20 anos, estaremos a olhar para a foto de um atleta com meias de compressão da mesma forma como hoje olhamos para uma foto dos nossos pais em finais dos anos 70. Mais acessórios de moda foleiros: viseira, manguitos, calções de basquetebol, calções de compressão compridos por baixo de calções curtos, saia de ténis, kinesio taping, calçado maximalista, telemóvel atarraxado ao ombro, GoPro atarraxada à cabeça e todo o tipo de acessórios com o vosso nome inscrito nos mesmos.

 

Para terminar em beleza esta primeira edição da rubrica de moda do TopMáquina, expliquem-me uma coisa: o que significa quando um atleta-de-pelotão agradece a uma loja de desporto? Obrigado a este, obrigado àquele, obrigado àqueloutro. Obrigado por quê? Será por ter sido bem atendido? Será por terem-lhe feito um desconto de 5%? Será por o dono da loja ser seu familiar? O paradoxo é este: fica subentendido que as lojas lhes deram de borla o equipamento por eles serem top máquinas, mas eu garanto-vos que isso não é verdade. Nem a oferta de material, nem a ilusão de que são top máquinas. Palavra de TopMáquina.

 

*Não confundir semi-amador com semi-profissional.

Rescaldo UTPCN 2016

por Pedro Caprichoso, em 28.07.16

Por duas ocasiões, em 17 anos de corridas, senti-me como um atleta a sério. A primeira foi há coisa de 2 anos. Estava a cuscar a página de facebook do Kilian quando, num desvario tresloucado, passou-me pela cabeça fazer uma página de atleta. Foram os 10 segundos mais bonitos da minha carreira desportiva. Graças a Deus-Nosso-Senhor-Jesus Cristo que tal não passou de uma quebra de tensão—e descartei a ideia assim que recuperei os sentidos. Nesse dia tinha-me cortado a depilar a tomateira. Deve ter sido por isso. Não gosto de ver sangue e alucinei.

 

2016-07-22 18.24.41.jpg

 

A segunda foi na passada sexta-feira. Ter boleia da organização de uma prova não é para qualquer um. A comitiva da EDV-Viana Trail aterrou no Funchal, com vista a disputar o UTPCN—Ultra Trail Porto da Cruz Natura, e tínhamos a Olívia Sousa à nossa espera. Não merecíamos tão ilustre motorista. Senti-me a melhor importação da Madeira. Sim, a frase anterior é uma referência ao anúncio protagonizado pela progenitora do Cristiano Ronaldo. Esqueci-me de referir que na limusine também seguia o Presidente do Conselho de Administração da ATRP. É para vocês verem quão simpáticos são os Madeirenses. Até ao Rui Pinho deram boleia. Não era eu que dava boleia àquele fala-barato. Que fosse de táxi. É para isso que serve a cota de associado.

 

13690921_1037587226309428_942985486408408452_o (1)

 

“Onde é que se bebe a melhor poncha da Madeira?”, perguntou o Pedro Rodrigues mal entrou na limusine. “Primeiro temos de caçar o nosso Jantar. Primeiro o Jantar, depois a Poncha”, retorquiu a Olívia. Depois de estabelecido quem mandava, levantámos os dorsais numa bomba de gasolina, fizemos o check-in no Hotel de 7 estrelas do Cristiano Ronaldo e rumámos a todo o gás com destino ao Pico Areeiro. Daí partimos a pé em direcção ao Pico Ruivo na companhia dos moços do Madeira Trail Tours, onde encetámos a tão aguardada caça à perdiz.

 

13641075_1037587116309439_556400441188536494_o.jpg

 

O dia estava perfeito nos picos: céu limpo; um mar de nuvens de algodão, virado ao oceano atlântico, do nosso lado direito; e o Curral das Freiras, lá ao fundo, do nosso lado esquerdo. Como diz o Vitor de Sousa: “Os Alpes são bonitos, mas a Madeira é mais barata.” O meu colega de equipa Hugo Sousa acusou vertigens, mas ainda assim conseguiu apanhar uma perdiz. Senti-me mal ao vê-lo caçar uma cria. As crias de perdiz são pequeninas, não têm muito que comer e ele ia passar fome. Tive pena dele. Coitado. Muito ou pouco, certo é que a macarronada de perdiz estava divinal. «De trás da orelha», como se diz no Continente.

 

wood_hammer_by_whmseik-d6b8974.png

 

Para além de duas perdizes gordas como cachalotes, o Pedro Rodrigues também apanhou um Pokémon no Pico Ruivo. É raro, chama-se Empenatchu, bebe 2 litros de poncha por dia e usa uma marreta como arma. Os participantes do MIUT sabem de quem eu estou a falar.

 

13723832_1327430990618159_2802921931348754243_o.jp

 

Domingo. 06h00. Tiro de partida e primeira fuga do dia. Um velhote belga tentou isolar-se ao quilómetro zero, mas foi coisa de pouca dura. A EDV-Viana Trail organizou-se no pelotão e anulou rapidamente a fuga ao fim de 200 metros. Isto só comprova a minha teoria de que há 2 tipos de pessoas a evitar nas partidas: (1) os velhos que ainda pensam que são novos e (2) os atletas de ginásio artilhados com tecnologia-de-ponta dos dedos dos pés à ponta dos cabelos. Estas duas espécies de gente fazem de tudo para partir à frente dos outros. Será que acreditam, mesmo, que são os 10 segundos que ganham no arranque que fazem a diferença numa prova de 100k? Deve ser só mesmo para aparecerem na fotografia. É pena, pois os que partem à frente são justamente os mais feios—e as fotografias ficam estragadas.

 

254_Madeira.jpg

 [Penha D’Águia]

 

Anulada a fuga, levámos logo com uma parede nas trombas para abrir o apetite. Já levaram uma chapada de um jogador da NBA? Não? Eu também não, mas desconfio que a sensação é parecida. O topo da “Penha D’Águia” foi alcançado aos 4k e 580m de altitude. Dada a dureza da primeira subida, seguiram-se os 1.600D+ da subida ao “Poiso” para relaxar. Coisa pouca. Mais longa do que dura, o ponto mais alto do percurso (com 1.400m de altitude) foi alcançado de forma gradual, com uma boa gestão do esforço e uma perna às costas (ver duas fotos abaixo). “Se o ponto mais alto tem 1.400m, como é que a subida tem 1.600mD+?”, pensa o leitor armado em esperto. Vocês são mesmo burros, não são? Tem 1.600mD+ porque a subida iniciou-se abaixo do nível do mar. É só fazer as contas: 1.400 - 1.600 = -200m. Percebem agora? Burros.

 

POSTER 120x170-01.png

 [Lombinho]

 

Ultrapassado o aquecimento providenciado pela “Penha D’Águia” e pelo “Poiso”, o verdadeiro divertimento começou aos 35k com a subida do “Lombinho”. Uma vez que foi ele quem sugeriu o “Lombinho” à Organização, sinto que ao subi-lo fiquei a conhecer melhor o Luís Fernandes. Tenho agora a certeza de que o Luís é sádico. Lamento, mas 600mD+ em 1,8km é coisa de sádico. É. Não há outro adjectivo para descrever o desejo de ver os outros a sofrer. Querem provas? Pois bem: reparem no sorriso dele no cartaz acima publicado. Ele está a subir o “Lombinho” e aquilo não é sorriso de quem está feliz por alcançar o seu topo. Aquilo é sorriso de quem está a imaginar o sofrimento dos que aí iriam levar com a marreta no dia da prova.

 

Untitled.jpg

 

Não tenham pena do Tiago. O tipo não é perneta. Toca corneta mas não é perneta. Bem pelo contrário. O nosso «Todo-o-Terreno» achou a prova de tal forma fácil que fê-la com uma perna às costas. Pegou numa guita, atou a perna esquerda à mochila e fez 4.º lugar à geral. Conhecem a expressão fiz não-sei-o-quê “com uma perna às costas”? Pois bem, este é um desses casos. Nem quero imaginar o resultado que ele teria alcançado se tivesse corrido com as duas pernas às costas.

 

Capture3.JPG

 

Capture2.JPG

 

Detesto puxar a brasa à minha alheira, mas o facto é que a EDV-Viana Trail foi a grande dominadora do UTPCN. Sem espinhas. Com 4 atletas no top10 e 6 no top15, vencemos colectivamente e demos um passo de gigante com vista à revalidação do título de Campeões Nacionais de Trail Ultra. A nível individual, o destaque vai para os dois primeiros da classificação geral. Ricardo Silva fez primeiro e Pedro Rodrigues fez segundo, ambos posteriormente entrevistados na meta pela RTP Madeira. O «Robocop» confessou que tinha comprado uma garrafa de poncha na véspera da prova e, por lapso, troco-a pelo seu isotónico habitual. A poncha e o isotónico são da mesma cor, daí a confusão. O «Troncos» havia assado as partes baixas durante o MIUT e mostrou-se felicíssimo com os seus novos calções.

 

Capture.JPG

 

Fui ao pódio em representação do meu colega de equipa Victor Correia (1.º M45) e estava à espera que me dissessem que era novo demais para M45. “Tens uma pele muito macia e um rabinho jeitoso demais para M45”, diriam eles. Mas ninguém disse nada. Estarei assim tão acabado? É que ainda são 10 anos de diferença. Tenho 35 e, para o Ministério da Agricultura, 35 anos ainda é jovem. É-se Jovem Agricultor até aos 40. Seja como for, certo é que o Victor e o Tiago (3.º SM) tinham voo de regresso ao Continente à hora da entrega de prémios. No entanto, isso não os impediu de estarem presentes. É para estas coisas que serve o Photoshop.

 

Capture4.JPG

 

Por fim, é com tristeza que noticiamos mais um caso de violência doméstica no Trail Nacional. Cristina Couceiro venceu destacada o UTPCN e o seu marido, José Feteira, deu-lhe um banano por ela ter tido o desplante de ficar à frente dele. Que se passa com vocês? Quem vos viu e quem vos vê. Antes só beijinhos e agora só bananos. Em baixo, como prova do crime, vemos a Cristina a meter gelo na vista esquerda.

 

2016-07-24 15.16.47.jpg

 

Querem saber mais? Vejam a reportagem:

 

 

7 Comportamentos Estúpidos do Zé-Povinho Atleta em Provas de Endurance

por Pedro Caprichoso, em 13.07.16

hobbies-leisure-oxymoron-fun_run-running-runners-r

 

1. Partir à frente do pelotão

Partir à frente só para aparecer na fotografia, ainda que depois se seja rapidamente engolido pelo pelotão. Há 2 tipos de pessoas a evitar nas partidas: (1) os velhos que ainda pensam que são novos e (2) os atletas de ginásio artilhados com tecnologia-de-ponta dos dedos dos pés à ponta dos cabelos. Estas duas espécies de gente fazem de tudo para partir à frente dos outros. Será que acreditam, mesmo, que são os 10 segundos que ganham no arranque que fazem a diferença numa prova de 100k? Deve ser só mesmo para aparecerem na fotografia. É uma pena, pois aqueles que partem à frente são justamente os mais feios—e as fotografias ficam estragadas.

 

2. Correr ofendido

Já vos aconteceu ultrapassarem um tipo—apenas os homens exibem este comportamento—e ele ficar ofendido com a vossa ultrapassagem? O tipo partiu a matar, levou com a marreta aos 40k e vai a dar as últimas. Vocês ultrapassam-no e, cheios de boas intenções, largam um “Tudo bem?”. Ele ofende-se com a pergunta e, para se vingar, ultrapassa-vos de seguida fazendo um sprint à Usain Bolt. Vinte metros mais à frente, vocês voltam a ultrapassá-lo. Desta feita, ao passarem novamente por ele, deixam escapar um “Força!” em jeito de gozo. É o que eu faço. Se ainda não chegámos a meio da prova, um “Já falta pouco” também fica bem.

 

3. Questionar a idade dos outros

Conto pelas palmas de 7 mãos os atletas veteranos que em competição questionaram a minha idade para saberem em que lugar se encontravam no seu escalão. Nada contra. Creio é que não seja boa política correr com o pensamento centrado na classificação. Como pode uma pessoa divertir-se numa prova de Endurance focando-se apenas na possibilidade de fazer pódio? Só para foder com a cabela deles, em vez de indicar-lhes a minha idade, indico-lhes antes a data do meu nascimento. Depois mijo-me a rir ao vê-los fazer contas de cabeça.

 

4. Desistir por machismo

Há tipos que desistem a meio de uma prova quando são ultrapassados por uma mulher e sabem que acabarão atrás dela. Este fenómeno ocorre quando um homem (que nas Ultras fica à frente das mulheres) é papado por uma mulher numa prova de Endurance. Elas gerem melhor o esforço—não partem à maluca como muitos homens fazem—e depois eles são “comidos de cebolada” na segunda parte das provas. Quando isto acontece, cai-lhes a pila e desistem. Para terem noção da estupidez que isto representa, basta dizer que o top3 masculino nacional está ao mesmo nível do top3 feminino mundial. Ou seja, contam-se pela palma de uma mão os Tugas com capacidade para ganhar às melhores do mundo. Não vão obrigar-me a relembrar-vos o que se passou no MIUT, pois não? Ah… acho bem.

 

5. Desistir por orgulho

Há tipos que desistem a meio de uma prova quando sabem que não conseguirão alcançar os seus objectivos definidos à partida. Isto é estúpido em geral, mas é particularmente estúpido em provas de Endurance. O objectivo à partida de uma prova de Endurance deve ser só um: chegar ao fim. Tudo o resto deve ser ditado pelo desenrolar da prova. A Endurance implica superação—e superação não é ficar na posição x ou fazer o tempo y. Superação é ultrapassar os obstáculos com que nos deparamos. Quem não encarar as coisas desta forma está no desporto errado. A expressão “Never Quit” é igualmente estúpida, pois desistir por motivos de saúde não é sinal de fraqueza; é sinal de inteligência. Por outro lado, desistir por orgulho—pois é disso que se trata—é bué estúpido. [No meu tempo, bué era tótil.] No fundo, o raciocínio é: mais vale desistir do que assumir que não alcancei os meus objectivos pré-definidos e estupidamente publicados no facebook. Publicar objectivos nas redes sociais antes de uma prova tem um nome: auto-sabotagem.

 

6. Lutar contra o Homem da marreta

Há quem cerre os dentes e lute contra o homem da marreta depois de levar com ela nos cornos. É errado. Mais do que errado, é estúpido. É impossível derrotar o homem da marreta. O máximo que podemos fazer é recuperar o mais depressa possível da marretada. Para tal há que ter calma, não entrar em pânico, alimentar-se e reduzir o ritmo. Quem faz provas de Endurance precisa mentalizar-se de que vai passar por pontos baixos—e há que encarar esses momentos com naturalidade. Usando uma analogia fofa: o remédio para recuperar de uma marretada não é andar à porrada com o homem da marreta, mas antes aceitá-lo e recebê-lo de braços abertos.

 

7. Fixação com a bandeira nacional

Muitos são os atletas de pelotão que vão correr ao estrangeiro e levam a bandeira nacional na mochila para desfraldá-la quando cortam a meta. Pessoalmente, acho estúpido o patriotismo bacoco da exibição da bandeira. Se ainda houvesse algum subtexto inerente à bandeira, de que é exemplo a bandeira basca sempre que esta é usada em contexto desportivo. Agora, exibir a bandeira por exibi-la? Para quê? Para anunciar ao mundo que somos Portugueses? Que mérito há em ser Português por oposição a ser Francês, Alemão, Chinês ou de outra nacionalidade qualquer? Seja como for, ainda vejo algum sentido em desfraldar a bandeira quando se participa numa prova em representação do nosso país. O mesmo não se aplica quando se participa numa prova a título individual. Nesse caso, quando muito, representamo-nos a nós próprios e à nossa equipa. A nível colectivo, se querem desfraldar uma bandeira, que tal desfraldarem a bandeira da vossa equipa?

 

Parece-me que o desfraldar da bandeira nacional é reflexo de algum complexo de inferioridade do povo português, pois não vejo os atletas de pelotão de outras nacionalidades desfraldarem a sua bandeira na mesma proporção. Os atletas de elite estrangeiros fazem-no quando vencem em representação do seu país. Mas, no caso dos atletas de pelotão, tal comportamento é muito português. Basta atender aos finishers do UTMB (que na meta desfraldam a bandeira do seu país) para verificar que a maioria são portugueses. Há aqui uma certa necessidade de afirmação nacionalista que é transversal aos povos oprimidos, como é o caso dos bascos. É evidente, também, que o hábito recente de exibição da bandeira está intimamente relacionado com a Selecção Nacional de Futebol pós-Euro2004. 

Rescaldo nos bastidores do UTSF

por Pedro Caprichoso, em 30.06.16

13558633_983234591802725_6864232015519258971_o.jpg

 

A APA—Agência Portuguesa do Ambiente emitiu ontem um comunicado no seguimento de inúmeros avistamentos de um indivíduo macho da espécie Lince Ibérico. Os avistamentos foram reportados, no passado Sábado, em diversas localidades da Serra da Freita. A APA pretende tranquilizar a população, assegurando às gentes da Freita que este Lince é domesticado e dá pelo nome de Jérôme Rodrigues. As cabras e galinhas dos populares estão a salvo. O mesmo não se poderá dizer dos coelhos e dos porcos, pois o Jérôme é exímio na caça ao [Bruno] Coelho e é uma enfardadeira de presunto.

 

[vídeo de Luis Costa.] 

[Daqui: https://www.facebook.com/PortGuns/videos/10153514394627676/]

 

Se o Zack Miller ficou famoso por comer chocolate à "javardo", o Jérôme ficará famoso por comer presunto à "lambão". Em resultado, agora vão todos começar a enfardar presunto nas provas de Endurance. Muito fará este vídeo pelas charcutarias e talhos deste país. Nenhum atleta do AMCF—Arrábida Trail Team foi ferido durante a realização deste vídeo. O presunto não é de javali. É de porco preto.

 

2016-06-25 10.51.18.jpg

 

Repararam no sex appeal do indivíduo que no vídeo acima publicado dá presunto na boquinha do Lince? Que brasa! Considero que esta brasa fez um excelente trabalho de assistência ao vencedor do UTSF. Muito longe, ainda assim, do profissionalismo exibido pela equipa de apoio do Tiago Aires. “Abastecimento à patrão” é a expressão que melhor encontro para descrever o tratamento que o Tiago recebeu em cada posto de abastecimento. Parecia a boxe de uma equipa de fórmula 1: cadeirinha de praia para o marmanjo se alapar, mudança de pneus soft flasks, nestum na boquinha, substituição de meias, cara lavada, barba feita e cabelo aparado. Só faltava pô-lo a fazer cocó e limpar-lhe o rabinho! Mas nem todos estão talhados para fazer esse serviço. Só eu é que o faço. Não é, Jérôme?

 

13517660_1228021750549999_8686236853818057121_o.jp

 

As passagens pelos cursos de água do UTSF têm-nos dado imagens emblemáticas ao longo dos anos. Desta feita, não só nos deu imagens como também nos deu vídeos. No que toca às imagens, destaco a foto em que o Jérôme se prepara para se despir e dar um mergulho. Tivemos acesso às imagens em nu integral, mas a linha editorial do TopMáquina impede-nos de publicá-las. Metade do nosso público é pré-adolescente. O atleta da EDV-Viana Trail tirou primeiro a viseira e depois o resto do equipamento. Ficou apenas com as sapatilhas. Apercebendo-se de que o Lince se ia despir, o Bruno procurou logo arrefecer a zona genital de maneira a não ser apanhado pelos fotógrafos com a tenda armada. Quanto ao vídeo, vamos pegar na rubrica da Euronews e fazer deste o nosso momento «No Comment»:

 

[No Comment]

 

A Liliana trouxe a sua saia rodada para dançar. Infelizmente, não se podia dançar no único abastecimento onde havia música. Era proibido. Refiro-me à Póvoa das Leiras (k60). Ter música e não poder dançar é tortura psicológica—o que para muitos torna-se insuportável quando a esta se junta a tortura física imposta pela dureza da prova. Não admira, por isso, que este tenha sido o abastecimento onde mais atletas desistiram. Fizeram mal. Não deviam ter desistido. Não tê-lo-iam feito se soubessem que teriam oportunidade de dançar mais à frente. Perderam a dança da corda-bamba na subida da Besta.

 

04.JPG

 

O UTSF divide opiniões. É o UTSF e o Cristiano Ronaldo. Uns adoram-no; os outros detestam-no. Não há meio-termo. Uns adoraram o UTSF e prometem voltar; os outros detestaram-no e garantem que “na Freita nunca mais”. Excelente! Tal significa que a Freita é uma prova única. Citando o pai do Trail Nacional: “Quero lá saber se gostam ou não! Sempre que vierem à Freita é isto que vão ter, por isso é que lhe chamo Trail para Elite”. Uns gostaram tanto que, durante a prova, mudaram dos 65k para os 100k. Outros gostaram tanto que se entusiasmaram para além da conta e deu nisto:

 

13521969_1128967703813599_1261739693502037904_n.jp

 

Ainda estou para perceber como é que o Paulo Lopes não foi desclassificado. Ele e o Rui Luz ficaram sem água ao k45 e mamaram das tetas da vaca que aparece na selfie abaixo publicada. Como se isto não bastasse, temos ainda o beijinho ilegal da Carla Reis ao k48. Acontece que o regulamento do UTSF é claro no que diz respeito ao apoio externo aos atletas. Reporto-me ao capítulo 4, artigo 254, alínea 6: “O apoio externo só é permitido nos postos de abastecimento, incluindo o apoio nutricional, emocional, afectivo e/ou amoroso.” Não estou contra as vacas. Querem mamar nas tetas da vaca? Tudo bem. Mamem. Mamem o que quiserem, mas mamem nos postos de abastecimento. Ponham o vosso porta-dorsais ao pescoço da bicha, levem-na até ao próximo posto de abastecimento e depois, aí sim, mamem à-vontade. E também não estou contra os beijinhos. Eu também dei beijinhos ao Jérôme, mas sempre a menos de 10 metros dos postos de abastecimento. Regras são regras. Já se devem ter esquecido disto. No estrangeiro cumprem as regras. Aqui é a bandalheira do costume.

 

01.JPG

 

A organização do UTSF disponibilizou voluntários, polícia, bombeiros, enfermeiros, médicos, massagistas, psicólogos e o GOBS—Grupo Operacional de Busca e Salvamento. Dado o número de vítimas, faltou contudo providenciar um padre para dar a extrema-unção aos falecidos. Resgates, massagens e curativos é bom. No entanto, o que é isso comparado com entrar no purgatório com a alma limpa de pecados? O Faria e o Marcolino faleceram—e quem é que lá estava para salvar as suas almas? Pois é, nisto não pensam as organizações. O Rui Luz também chegou morto à meta, mas mesmo morto apresentava-se numa pose sexy. A isto chama-se “falecer com estilo”.

 

02.JPG

 

Voltando aos bovinos, proponho fazermos todos uma vaquinha para comprar umas sapatilhas novas ao proprietário das pernas abaixo publicadas. Desengane-se quem pensa que a Freita é responsável pela destruição das sapatilhas. A foto foi tirada na partida, pelo que o rapaz não tem é mesmo dinheiro para comprar calçado. Eu, pela parte que me toca, já lhe estou a tricotar um par de meias. Aquele dedo ainda apanha um resfriado e depois é que são elas. O dinheiro que sobrar será aplicado num vale de compras de uma reconhecida clínica de podologia de Ermesinde. A foto não precisa de cheiro para chegarmos à conclusão de que o rapaz sofre de chulé crónico.

 

13524427_1223080974382686_212457272405363794_n.jpg

 

Há dois momentos do UTSF 2016 que me ficaram na memória. O primeiro diz respeito à procissão das equipas de apoio que acompanharam os atletas de posto em posto de abastecimento, pedindo indicações uns aos outros, dando palpites sobre o desenrolar da prova, dividindo a merenda para matarem a fome. Prefiro correr, mas tenho de admitir que nos bastidores não se está nada mal. O segundo, só de pensar nele, deixa-me o rosto em lágrimas: estar entre os milhões de resistentes, que cagaram para o futebol (Portugal Vs Croácia) para estarem na meta a aplaudir os atletas, deixou-me com um nó na garganta. Chorei. Admito. Ainda assim, não tanto quanto algumas atletas que acabaram a prova à hora do jogo e foram encontrar a sua cara-metade no café a ver a bola.

 

03.JPG

 

Por fim, para descontrair um pouco, proponho um momento Trivial Pursuit. Pergunta: quem são os tolinhos que este ano cometeram a proeza de completarem as 4 provas do Campeonato Nacional de Endurance (UTAX, MIUT, EGT e UTSF) e as 100 milhas do Oh Meu Deus? Estamos a falar de 575k e 30.700D+ em 6 meses. Conheço 2. Um gosta de chafurdar na lama; o outro enfarda cachos de uvas na véspera das provas. É fácil, não é? Refiro-me aos inigualáveis Lino Abel Luz e José Faria, que levam para casa o prémio da combatividade referente ao primeiro semestre de 2016. É favor levantarem o vosso prémio na sede da ATRP.

Rescaldo Hard Trail Monte da Padela 2016

por Pedro Caprichoso, em 21.06.16

12694915_824098274383080_8002604848517994314_o.jpg

 

Não consumo leite e seus derivados. Bebi-o até aos 16 anos como o nosso amigo Brad, mas depois ganhei vergonha na cara e deixei-me disso. Já não mamo. Agora só apalpo. O cancro da mama é lixado e a prevenção é o melhor remédio. A OMS diz que devemos apalpar—e eu apalpo. Levo a apalpação muito a sério. Comigo nunca fica uma mama por apalpar. Nunca me aconteceu apalpar só uma mama. Nunca me aconteceu apalpar uma mama e depois dizer: “Pronto, já chega. Estou bem assim. Fico-me por esta. Apalpo a outra amanhã.“ Nunca. Sempre que apalpei uma, apalpei a outra. Apalpo sempre aos pares. Isto tem um nome: profissionalismo. Pelas minhas contas, já salvei a vida a 116 mulheres. Não têm de quê. Sei que sou um herói aos olhos de muita gente, mas prefiro manter o anonimato. Sou muito humilde, lido mal com a fama e não gosto de me misturar com o povo. Cheiram mal.

 

Também apreciava leite de vaca, mas este causava-me flatulência e fui vítima de bullying por ser um cagão inveterado. Cagão de vento. Cheguei ao ponto de não conseguir controlar a tripa. Não tinha mão sobre ela. Padecia da síndrome do rabo esquizofrénico. Imaginem-me numa sala de aula no mais absoluto silêncio e, de repente, o meu rabo irrompe num festival de fogo-de-artifício a meio da prova global de Matemática. Do nada, de um momento para o outro, sem que nada o fizesse prever. Nesse dia, 18 de Junho de 1996, cheguei ao meu limite e jurei para nunca mais. Nunca mais bebi leite. Tive alguns problemas de saúde devido à falta de cálcio, mas agora tenho o meu amigo Calcitrin.

 

13422314_863976847047952_5565125944992242428_o.jpg

 

Se no caso do leite fui obrigado a deixá-lo, no caso dos lacticínios foram eles que me deixaram. Nunca gostei de manteiga, iogurte e queijo—e quem não gosta de queijo não gosta de pizza. Já viram a volta que eu dei para fazer a ligação com a caixa de pizza oferecida pela organização do HTMP—Hard Trail Monte da Padela? Dizem que era um kit de participação. A mim calhou-me uma pizza. Crocante? Siciliana? Bolonhesa? Calabresa? Frio. Era uma pizza Caminheira. A pizza era feita à base de eritropoietina e trazia como brinde um autocolante com a inscrição «Hard Runner Inside» para colar numa superfície envidraçada. Tinha duas hipóteses: ou colava-o no vidro do carro ou no espelho do tecto do meu quarto. Uma vez que a ênfase está na palavra «Hard», optei pela segunda.

 

Scan0002.jpg

 

Cheguei a Barroselas às 06h45 e executei à risca o meu ritual pré-prova: rezei um terço para dar sorte, alonguei para evitar lesões e fiz o n.º 2 para partir levezinho. Até parece que já estou a ver os moralistas do teclado a cortarem-me na casaca por poluir o monte com papel higiénico borrado. Calma. Menos. Os meus amigos ambientalistas podem sossegar a franga. Admito que não faço reciclagem e vazo embalagens vazias de gel no monte, mas sou muito fresquinho no que toca à minha higiene pessoal. Nesse sentido, usei toalhitas recicláveis e posso garantir que as minhas fezes não são radioactivas. Alimento-me apenas à base de produtos biológicos, pelo que o meu cocó é rico em fertilizantes naturais. No fundo, não caguei. Adubei. Não têm de quê.

 

1472825_710068372360815_1949153809_n.jpg

 

Fiz um buraquinho, aliviei a tripa para dentro do buraquinho, limpei o rabinho da frente para trás, depositei as toalhitas borradas com os dejectos, tapei o buraquinho, esfreguei as mãos em folhas de eucalipto, regressei ao carro, equipei-me, lembrei-me—no ano passado esqueci-me—de colocar o chip na sapatilha, esgacei o pessegueiro—é mais saudável do que tomar comprimidos para os nervos—e fui informado de que um elemento da Organização havia sido espancado por um popular. O tipo andava de moto 4 a verificar as marcações e um octogenário chegou-lhe a roupa ao pêlo. O motociclista pisou as nabiças do idoso com a mota e o idoso esmagou os tomates do motociclista com o cabo da sachola. Com medo de me cruzar com o reformado durante a prova, os meus intestinos cederam e borrei a cueca. Novamente. Ou seja: mais um buraquinho, mais uma cagada, mais uma limpeza do rabinho da frente para trás—sempre da frente para trás—e mais um pacote de toalhitas. Desta feita, com a pressa, esqueci-me de limpar as mãos e só me apercebi disso depois de cumprimentar o Jérôme Rodrigues. Malditos octogenários! É por estas e por outras que eu sou a favor da eutanásia. Muito forte? Azar. Para quem não sabe, Je Suis Le Gay Cordes.

 

13422336_142355382849608_1379542383888270160_o.jpg

 

Na foto acima publicada vemos o Presidente da Junta da ATRP a refrescar a moleirinha do vencedor do HTMP. Tal comportamento não é grave em si mesmo. Grave é o André ter sido o único a ter direito a semelhante tratamento. Se molhou o cocuruto de um, molhava o cocuruto de todos os associados da ATRP. De todos sem excepção. Se isto não configura tratamento preferencial… Enfim, é mais do mesmo. Uns são filhos e outros são enteados. Já estou habituado. O Rui a mim só me deu uma palmada no rabo como fazem aos ciclistas na volta à França. Não vou insinuar que foi por isso que o André ganhou, mas também não vou insinuar que não foi por isso que o André não ganhou. Percebem? Eu não trabalho com insinuações. Só com factos. E o facto é que o André ficou com remorsos e tirou-me o chip das sapatilhas em jeito de pedido de desculpas. Estava com dificuldades para me segurar em pé devido a uma queda de açúcar e ele ajudou-me a desapertar a sapatilha. Só me voltei a sentir bem após a décima sétima bola de berlim. Colocar bolas de berlim no abastecimento final foi, de longe, a melhor decisão do HTMP em termos organizativos. A segunda, se a queda de açúcar não me trai, foi colocar gajas em topless a entregar as medalhas de finisher. Estão todas de parabéns.

 

13413662_1754732264773681_7215457576844565003_n.jp

 

Para além da situação descrita no parágrafo anterior, o HTMP ficou manchado por outro caso de conduta anti-desportiva. Bruno Coelho e Diogo Fernandes lutavam pelo segundo lugar na subida à Lage Negra quando o primeiro usou os bastões na pedra para lançar limalhas para os olhos do segundo. A imagem abaixo publicada não deixa margem para dúvidas. Depois de analisada pelo Conselho de Disciplina da ATRP, o Bruno pode incorrer numa pena de 6 meses a 2 anos de trabalhos forçados na Serra da Freita.

 

Capture.JPG

 

O Diogo ficou compreensivelmente aborrecido com a injustiça e só o consegui acalmar no duche. Não tenho por hábito falar da minha vida privada, pelo que não vou entrar em detalhes. Direi apenas que o Sheriff possui um revólver de grande calibre.

TraiLoveMatch

por Pedro Caprichoso, em 07.06.16

O MIUT 2016 teve o condão de pôr a nu duas realidades distintas. A primeira é positiva: o MIUT foi um sucesso organizativo, colocando Portugal na rota do Trail Mundial. A segunda é negativa: os atletas nacionais ainda estão longe da elite mundial. Nesse sentido, de maneira a corrigir a segunda, venho por este meio oferecer uma sugestão de maneira a elevar o nível do atleta tuga e garantir o futuro competitivo do Trail Nacional. Não podemos esperar que o próximo Carlos Sá apareça como o original. Isto é, do nada. Temos de pensar a longo prazo e começar a implementar medidas no sentido de potenciar o aparecimento de novos valores. Os românticos acreditam que os grandes atletas fazem-se com treino. É falso. O treino é importante, mas a componente principal é genética. Pode-se treinar mais e melhor, que sem genética não se vai a lado nenhum. Essa é a crua realidade.

 

love-match-playtech-kazi-kazan-oyunu.png

 

Posto isto, proponho a criação de um site de encontros online para que os melhores atletas nacionais procriem uns com os outros e “produzam” os próximos Carlos Sás. A plataforma informática chamar-se-ia “TraiLoveMatch” e estaria sobre a alçada da ATRP, funcionando como uma espécie de agência matrimonial. É claro que a plataforma só estaria acessível a atletas descomprometidos. Não queremos estragar os “arranjinhos” que já existem no pelotão nacional, embora ande por aí muito casal que ainda não procriou—e já o devia ter feito. Eu e a Analice também estamos em falta, mas andamos a fazer por isso. Treze vezes por semana.

 

Para além do site, atrevo-me a enumerar mais algumas medidas de apoio à natalidade no âmbito do Trail Nacional.

  1. Disponibilização de babysitters em provas dos Campeonatos Nacionais;
  2. Vales de desconto em lojas de desporto para famílias numerosas em que ambos os progenitores são atletas;
  3. Deduções à colecta de despesas de psicotrópicos por parte dos avós que tomam conta dos piralhos enquanto os pais destes estão a treinar / competir.
  4. Introdução de novas categorias (à semelhança dos escalões etários) tendo por base o número de filhos: F1, F2, F3, F4, etc.
  5. Em vez de cabazes com produtos regionais, ofertar produtos para lactantes (fraldas, toalhitas, pó de talco, papa, leite de transição e bomba tira-leite) como prémios de pódio.
  6. Introdução, por parte da Prozis, de uma linha de suplementação para recém-nascidos;
  7. 50 pontos de bónus no Campeonato Nacional por cada filho nascido no ano correspondente;
  8. Ensino gratuito na Escola Abutrica para todos os filhos de atletas de elite;
  9. Inclusão da vacina de “pé de atleta” no plano nacional de vacinação, tornando-a assim gratuita.
  10. Agravar as consequências para as equipas que não cumpram as leis já existentes sobre protecção de atletas grávidas, passando a contra-ordenação de leve para grave; e impedindo as equipas, que tenham sido condenadas por despedimento ilegal de grávidas, de virem a receber quaisquer subsídios ou subvenções da ATRP.

Rescaldo Azores Trail Run 2016

por Pedro Caprichoso, em 03.06.16

12508887_453317651541569_7444781709168495203_n.jpg

 

[video de Manuel Morais] 

 

Andam todos de trombas comigo. Dizem-se enganados. Marcam treinos e não me convidam. Ignoram-me. Garanti aos meus colegas de equipa que o Azores Trail Run era uma prova fácil—leia-se corrível—e eles ficaram de trombas. Acham que eu estava a gozar com eles e levaram a mal. Há 2 anos participei na primeira edição e os trombudos vieram-se aconselhar junto da minha pessoa. Aconselhei-os de graça e é assim que eles me agradecem. Já viram o desplante? Em 2014, a prova disputou-se em tempo seco e eu fi-la praticamente toda em passo de corrida. Que culpa tenho eu se este ano se abateu um temporal sobre a ilha do Faial? Sou responsável pelas acções do meu homónimo São Pedro? É isso? Seja como for, pese embora disputada num lamaçal, continuo a considerar a prova rolante. Parafraseando a minha amiga Liliana Gomes: “O percurso era rolante. A lama rolava que é uma beleza!” Rolava e deslizava como um caracol no orvalho. Nunca pensei dizer isto, mas fui aos Açores matar saudades dos Trilhos dos Abutres.

 

zaid-ait-malek-e1426594050995.jpg

 

Zaid Ait Malek era o favorito à partida do Azores Trail Run—Faial Coast to Coast (45k, 2.300D+). O campeão marroquino viu-se porém forçado a desistir logo à passagem do k2. A versão oficial é a de que ele ressentiu-se de uma lesão contraída em Zegama, disputada no fim-de-semana anterior. Mentira. Ele não estava lesionado. Não procurem justificações elaboradas para ocorrências simples. A verdade é simples: o Zaid borrou a cueca e desistiu porque não aguentou a pressão. O Presidente do EDV-Viana Trail recorreu à guerra psicológica, meteu conversa com ele e disse-lhe que o Jérôme Rodrigues lhe ia fazer a folha. O Jérôme olhou-o nos olhos, fez cara de mau e o Zaid começou a chorar como uma criança a quem lhe roubaram o chupa-chupa. Embora tremendo como varas verdes, ele ainda assim teve tomates para se apresentar à partida. Pior foi quando a Lucinda Sousa se começou a meter com ele. Ela disse-lhe que lhe ia estragar as sapatilhas e ameaçou atarraxar o porta-dorsais à cintura do marroquino, de maneira a que ele a rebocasse vulcão acima. Resultado: borrou a cueca.

 

13335978_1134275219947135_5116405955090551377_n.jp

 

Fez-se história nos Açores. Fernanda Verde (EDV-Viana Trail) e Mary Vieira (Dr. Merino / Nutrifit) foram as primeiras atletas femininas do mundo a cortarem a meta de uma prova de Trail de mãos dadas. Fizeram praticamente toda a prova juntas, alcançaram o 4.º lugar ex-aequo e demonstraram que a amizade e o companheirismo não são exclusivos do pelotão masculino. Embora não tenham cortado a meta de mãos dadas, Miguel Martins (Dr. Merino / Nutrifit) e Jérôme Rodrigues (EDV-Viana Trail) também espalharam amor e carinho na meta do Azores Trail Run. Abraçaram-se e apalparam o rabinho um ao outro como fazem os jogadores e voleibol após ganharem um ponto. É caso para dizer: arranjem um quarto! Eu não devia dizer isto, mas não resisto: todos os atletas do EDV-Viana Trail têm um amigo colorido na equipa Dr. Merino / Nutrifit. O meu é o Diogo Fernandes. Os “Amigos Coloridos do Trail” é um projecto inter-equipas concebido pelos visionários Eduardo Merino e José Carlos Alcobia. Ainda ontem liguei ao Diogo porque estava com prisão de ventre e precisava de apoio psicológico para evacuar. Eram duas da manhã, o Sheriff atendeu o telemóvel de trombas, mandou-me à merda—e eu esguichei a dita cuja como se não houvesse amanhã. É disto de que falamos quando falamos em espírito do Trail. Por vezes cheira mal, mas sabe sempre bem.

 

13307444_715497871923702_1359490432138084677_n.jpg

 

Por sorte do destino, demos de caras com o grande Gustave Lafume, um dos pioneiros do Trail Mundial. Uma referência, um exemplo e um modelo a seguir. Muito deu este homem ao Trail. Só é pena que a nova geração não saiba quem ele é. Foi emocionante assistir, num banal café do Faial, ao encontro de dois monstros do Trail Mundial. Separados por três décadas, Gustave e Jérôme relacionaram-se um com o outro como se fossem velhos amigos. Vitalidade capilar à parte, quase pareciam almas gémeas. A verdade verdadeira é que não faço a mínima ideia quem é o tipo. Gustave Lafume é nome fictício, resultado da conjugação de Gustavo (nome do gato do Jérôme) com Lafuma (a famosa marca francesa de desporto outdoor). Tanto quanto sabemos, ele pode chamar-se Gilberto da Silva. Simplesmente achámos-lhe graça e tirámos uma foto com ele. Depois afirmei, na brincadeira, que ele é um dos pioneiros do Trail Mundial e muitos engoliram a peta. Isto só serve para demonstrar, novamente, que há pessoas dispostas a acreditar em tudo. Por um lado, estão dispostas a acreditar em tudo; por outro, são preguiçosas ao ponto de emitir opiniões sobre assuntos que ignoram e sobre os quais não se dão ao trabalho de pesquisar. Espero que aprendam a lição: duvidem de tudo o que vos dizem e pesquisem. Cepticismo e pesquisa é o único caminho para evitar burlões e fazer figura de urso.

 

Os açorianos jogavam em casa e quiseram mostrar serviço. Alguns partiram a matar, foram perdendo gás e, depois, ao serem ultrapassados, questionavam a nossa naturalidade: “És açoriano?”, perguntavam eles. Isto porque, pelos vistos, havia prémios a nível regional. É a mesma coisa com os atletas veteranos, quando estes são ultrapassados e questionam a nossa idade para saberem em que lugar se encontram no seu escalão. Nada contra. Parece-me, porém, que não seja boa política correr com o pensamento centrado na classificação. Como pode uma pessoa divertir-se focando-se apenas na possibilidade de fazer pódio? Só para foder com a cabeça deles, em vez de lhes indicar o meu escalão ou idade, indico-lhes antes a data do meu nascimento. Depois mijo-me a rir ao vê-los fazer contas de cabeça. Quanto aos açorianos, ainda tentei enganá-los imitando o seu sotaque, mas acho que eles não foram na conversa.

 

13340327_1069592426447416_6160294673475034087_o.jp

 

Lamento o que parece estar a tornar-se hábito por parte das organizações: atribuir classificação por equipas e, no fim, nem prever cerimónia de pódio colectivo nem atribuir o merecido prémio. Perde a festa, perdem as equipas, perdem os atletas e perdem os patrocinadores que apoiam as equipas e merecem o devido destaque. Mais lamentável ainda é quando estas provas fazem parte do Campeonato Nacional. A EDV-Viana Trail já declarou, em de sede própria, que no próximo ano seleccionará as provas em que irá participar: “A ATRP terá que garantir que as organizações cumprem os regulamentos se quiser continuar a contar com a presença da nossa equipa nos seus Campeonatos. As organizações obrigam os atletas a cumprir regulamentos, pelo que estas também têm de cumpri-los sob pena de serem excluídas dos Campeonatos. Algumas organizações simplesmente não respeitam os sacrifícios pessoais e financeiros que os atletas fazem para estarem presentes nas suas provas, preocupando-se essencialmente com a maximização do lucro. Os atletas e as equipas estão a fazer o trabalho de casa; é tempo dos restantes envolvidos no processo fazerem o mesmo.”

 

As Organizações não são obrigadas a atribuir prémios por equipas. Cada uma atribui o que lhe apetece; até há algumas que escolhem não atribuir prémios por escalões. São escolhas. Cabe depois aos atletas escolherem se querem ou não participarem nessas provas. Até aqui tudo bem. O problema surge quando o regulamento faz referência à classificação colectiva (e à forma como esta é determinada) e depois não há cerimónia protocolar para premiar a dita classificação—e foi justamente isso o que aconteceu nos Açores. A Organização do Azores Trail Run fazia referência à classificação colectiva no regulamento, mas não previu uma cerimónia de pódio para premiar as equipas. Está mal. Tal, porém, não nos impediu de subir ao pódio. Protestámos, fizemos barulho, fizemos as nossas contas, juntámos as 3 equipas vencedoras (EDV-Viana Trail, Morcegos Trail e Dr. Merino / Nutrifit) e subimos ao pódio à mesma. Os nossos patrocinadores merecem.

 

health-beauty-obesity-fatness-competition-competit

 

As equipas não tiveram direito a participar na cerimónia protocolar, mas os gordos tiveram. Sabemos que estamos perante uma prova pouco competitiva quando pessoas com barriga sobem ao pódio. Falo de alguns vencedores de escalão do Family Trail. Anafados no pódio? A sério? Não custava nada medirem o perímetro abdominal dos vencedores antes de subirem ao pódio. Mais de 60cm e não subiam. É a imagem da prova que está em jogo.

 

13331067_1749310698614083_4886452467171301459_n.jp

 

Jérôme Rodrigues e Tiago Aires—o eventual e merecidíssimo vencedor da prova—seguiam na frente quando falharam uma viragem por volta do k30. Ao falharem-na, seguiram no sentido errado, perderam a liderança da prova e cerca de 7min. Ler fitas faz parte do Trail e não vale a pena entrar na discussão se o dito entroncamento estava bem ou mal marcado. Só lamento o facto dos elementos da organização (que se encontravam nesse ponto) não terem avisado os atletas de que iam na direcção errada. Mais pessoas viriam a enganar-se no mesmo local, com os referidos elementos dentro dos automóveis, possivelmente a actualizarem a sua página de facebook. Assim que se aperceberam que se tinham enganado, ambos voltaram para trás e cruzaram-se novamente com os automobilistas. Estes baixaram o vidro embaciado do carro e perguntaram-lhes: “Vocês perderam-se, não perderam?” Imagino, com a minha imaginação tresloucada, que estariam a fazer o amor enquanto fumavam canábis e actualizavam a sua página de facebook. O facebook tem culpas no cartório—quanto a isso não tenho dúvidas.

 

Muitos arrependeram-se de não terem levado bastões para os Açores e depois fabricaram-nos pelo caminho. Embora usem-nos, alguns têm vergonha de fazerem figuras e deitam-nos fora no último km. No Faial, o depósito de muletas localizava-se a 500m da meta, no início do trilho de cinzas do vulcão dos Capelinhos. Outros há que não têm vergonha nenhuma e cruzaram a linha de meta nestes preparos:

 

13308713_1069590233114302_8897316037680924176_o.jp

Rescaldo EGT 2016

por Pedro Caprichoso, em 26.05.16

12094961_851902468256595_3705363412703755378_o.jpg

 

Parece que a RTP tem um novo concurso chamado «The Big Picha». Ouvi bem? O meu Inglês é muito fraquinho, mas juro-vos que é isso o que eles anunciam na promo. Escrevi esta pseudo-piada aqui há atrasado—e, pelos vistos, confirma-se. A ficção ultrapassou a realidade. Novamente. O concurso chama-se mesmo «The Big Picha». Ouvi bem. Não estou demente. Louvado seja São Francisco de Sales—padroeiro dos de difícil audição. O nome bem que me soava bem. Só assim se justifica o assédio sofrido pelo apresentador Pedro Fernandes às mãos do mulherio que com ele quiseram tirar uma selfie antes da partida do EGT46k. Disseram-me.

 

13244143_962907230502128_7871243633544193096_o.jpg

 

Os famosos são uma espécie superior ao comum dos mortais. Custa admitir, mas é verdade. Fiquei hospedado no mesmo hotel do apresentador acima aludido, do cozinheiro Kiko e de um actor de telenovelas—cujo nome não tenho pachorra de googlar—e pude estudá-los durante o pequeno-almoço de Domingo. Sentei-me na mesa ao lado da deles e observei-os como um adolescente observa uma mulher nua pela primeira vez. Avaliei-os de cima a baixo e senti que estava na presença de seres incomparavelmente melhores do que eu. São tipos com muito swag, nomeadamente ao nível do andar. Há quem também lhe chame empeno. Robot style.

 

13293004_10208354596637075_2107175448_n.jpg

 

Deixando as piadas porcas de lado, digam-me, com toda a sinceridade, o que vos faz lembrar a imagem acima publicada? Sejam sinceros. Digam-me que eu não sou um porco imundo que só pensa naquilo. Leia-se: pornografia geológica. Não tenho medo das palavras. Pornografia geológica é uma patologia sexual como outra qualquer. Se há quem olhe para as nuvens e nelas veja personagens da Disney a pinocar, qual é o problema de vislumbrar partes da anatomia feminina num afloramento rochoso? Dizem que passámos por dentro da Fenda da Talisca por volta do k13. Não me lembro—e olhem que eu lembro-me de tudo. Tenho memória de elefante. Lembro-me, inclusive, do meu nascimento—e estou em condições de vos assegurar que não foi cesariana.

 

atlas-1230-snowshoes-[3]-3891-p.jpg

 

Muitos consideram que a Organização foi demasiado exigente em relação ao equipamento obrigatório. Discordo. A meu ver, pelo contrário, não foi exigente o suficiente. Exigiram casaco e calças impermeáveis, ligaduras, camisola térmica de manga comprida e dois frontais. No entanto, esqueceram-se do mais importante: raquetes de neve. O meu colega de equipa Jorge “Relógio Suíço” Rocha tentou correr na neve sem raquetes e o resultado saldou-se por um valente bate-cu. Por milagre, da queda não resultou nenhuma lesão. Por outro lado, bem vistas as coisas, a neve só lhe fez bem: anestesiou-lhe as nalgas da queda, arrefeceu-lhe o motor—que vinha em sobreaquecimento—e permitiu-lhe entrar no top10 da classificação geral.

 

13268008_962631260529725_5116645216580229557_o.jpg

 

O feedback dos atletas com quem falei é altamente positivo: sinalização perfeita, percurso deslumbrante, organização competente, secretariado eficiente, PACS bem apetrechados, brindes fixolas, solo duro aconchegante, fotógrafos bem-dispostos, Carlos Natividade Silva e voluntárias giras. Queixas ouvi poucas: muito estradão nos últimos 30k, banho de água fria (para os atletas dos 90k) e zonas com algum mato. Apenas isso. Percebo o descontentamento dos descontentes, mas não concordo. Bem pelo contrário. O que para uns são pontos negativos, para mim são vantagens: venho da estrada, gosto de rolar e foi nos estradões onde ganhei mais lugares; o mato esfoliou-me a pele e esta semana já poupei 25€ em tratamentos de beleza; o duche em modo crioterapia minimizou-me o empeno e ainda fiquei com pernas suficientes com vista ao Azores Trail Run. A minha única crítica a sério—atenção que esta parte é a sério—tem a ver com a ausência de prémios por equipas. Não sei se a responsabilidade é do EGT ou da ATRP. O que eu sei é que não faz sentido que uma prova do Campeonato Nacional não atribua prémios por equipas. A razão é simples: se há classificação por equipas no âmbito do Campeonato Nacional, é evidente que as provas a contar para esse Campeonato devem prever uma cerimónia protocolar a nível colectivo.

 

stock-vector-a-cartoon-man-upset-because-he-has-a-

 

Rebentou-se-me uma veia do nariz por volta do k65 e tive de improvisar um tampão para estancar a hemorragia. Enrolei uma embalagem vazia de gel—como quem enrola um charro—e enfiei-a pela minha narina esquerda acima. Descobri, assim, por mero acaso, que o efeito de absorção do gel é maior snifado do que ingerido. Por instantes, senti-me na pele da Uma Thurman no Pulp Fiction após levar uma injecção de adrenalina no coração. Parecia um foguete na aproximação ao abastecimento dos 70k, onde cometi o erro de ingerir canja de galinha. A canja cancelou o efeito do gel e tive de penar na última e interminável contagem de montanha. É pena, pois acho que ainda ia a tempo de ganhar se tivesse enfiado outro gel pelo nariz acima. Agora que penso nisso, será que o efeito é o mesmo se o enfiar no rabo? Já estou habituado a enfiar objectos fálicos no rabo, mas embalagens de gel é novidade. Vai tudo correr bem. Também, se correr mal, é só telefonar ao meu contacto no Hospital de Viana do Castelo. Ele já está habituado a tirar-me coisas do rabo—e é de um profissionalismo à prova de bala.

 

cassette_tape_X-Ray.jpg

 

O meu colega de equipa Tiago “Todo-o-Terreno” Teixeira é um dos tipos mais duros que eu conheço. “Vi a morte à minha frente”, exclamou ele quando o encontrei mais branco do que cal no PAC3 (30k). O TT bebeu água à guloso, sofreu uma paragem digestiva, viu a morte à frente, olho-a nos olhos, mandou-a à merda, meteu os dedos à garganta, chamou o Gregório e fez-se homem. 2h depois, o mesmo Tiago chegava à Torre com o 7.º tempo mais rápido do km vertical entre os finishers. Tiro-te o chapéu, Tiago. Bastava-me metade da tua força. Em baixo vemo-lo a estudar o perfil da prova numa fatia de pão. Já tinha ouvido falar de gente que vislumbra a figura de Jesus Cristo em torradas e manchas de humidade, mas nunca o perfil de uma prova numa fatia de Panrico.

 

13263764_1299001860114743_6994093982272389719_n.jp

 

O colete de finisher do EGT é o melhor colete de finisher do mundo. Por quê? Porque livrou-me de uma multa. Passo a explicar: a polícia mandou-me parar à entrada de Seia quando regressava a casa da Serra da Estrela. Pediram-me os documentos da viatura, pediram-me para soprar ao balão e pediram-me o triângulo e o colete reflector. Tinha o triângulo; não tinha o colete. Havia-o emprestado ao meu primo Asdrúbal, que mo cravou para ir a Fátima a pé pagar uma promessa. O coitado perdeu finalmente a virgindade aos 41 anos e eu presenteei-o com o colete. Perdeu-a com uma reformada corcunda de 69 anos. São gostos. O berbicacho é que me esqueci de comprar um colete novo e o agente já estava com ela fisgada para me multar… quando me lembrei do colete do EGT. “Espere lá, chefe! Eu afinal tenho aqui um colete.” Mostrei-lho e ele condescendeu: “Bem, não é reflector mas é florescente. Por hoje passa, mas compre um como manda a lei. Certo?” Só por isso já valeu a pena ser finisher.

 

13238858_709027412569981_4580048576496382235_n.jpg

 

A Ana Rocha confessou, na sua página de facebook, que a Sofia Roquete deu-lhe um abraço quando esta a ultrapassou na última subida do EGT. É bonito? É. Acontece que elas não foram as únicas a espalharem mimo pelos trilhos da Serra da Estrela. Eu também espalhei. Ai se não espalhei! Sempre que ultrapassava um atleta, apalpava-lhe o rabinho. Não acreditam? Perguntem ao Gonçalo Mota. Ultrapassei-o doze vezes. Além disso, sempre que nos abastecimentos me cruzava com o Farfas Farfinhas, dava-lhe um xi-coração.

 

untamed-beast-attacks-buttocks.jpg

 

Com a chancela de uma das referências incontornáveis do Trail Nacional, o Armando Teixeira conseguiu reunir no EGT muitos dos melhores atletas nacionais. A vitória sorriu, todavia, a um estrangeiro. Oriundo dos Estados Unidos da America, Thiago Jurek—irmão mais novo da lenda viva Scott Jurek—venceu de forma convincente, cumprindo os 90k e 5.300D+ do EGT no brilhante tempo de 10h09. As semelhanças são evidentes: mesmo cabelo encaracolado, mesma bandolete e mesma marca de mochila.

 

jurek.JPG

Rescaldo TLSM 2016

por Pedro Caprichoso, em 18.05.16

1532146_635961173163614_8331680516148149374_n.png

Quero dedicar a minha prestação no TLSM—Trail Longo de São Mamede a uma pessoa muito especial. Sem ela, nada disto seria possível. É nela em que eu penso nos maus momentos—e nos bons também. No fundo, estou sempre a pensar nela. Obrigado, Jérôme. O meu 6.º lugar também é teu. O Lince disse-me que precisava de “soltar-se” e eu aceitei aquecer com ele meia-hora antes do tiro de partida. Atenção que o “soltar-se” do Jérôme tem dois sentidos: há o “soltar-se” a nível muscular e há o “soltar-se” a nível intestinal. Certo é que ele abafou-me nos dois sentidos—e eu, em boa hora, resolvi abdicar da estratégia que havia preparado para a prova. O plano era partir a matar, aproveitar o facto do Jérôme e do Ricardo virem de lesões, queimá-los e dar-lhes um bigode de maneira a cair nas boas graças da direcção da EDV-Viana Trail. Estou farto de ser o número 3 aos olhos do nosso Presidente. No entanto, depressa tirei o cavalinho da chuva quando senti que o careca estava mais forte do que eu—e fui obrigado a encarar a prova com mais juízo. Escapei assim ao homem da marreta, terminei a prova a dançar o vira e ainda sobraram-me pernas para fazer o EGT.

 

maxresdefault.jpg

 

O felino aproveitou o aquecimento para ir ao monte aliviar a tripa. Tudo normal. O que não é normal é o cocó ter saído florescente. Como é que eu sei? Sei porque era de noite. A prova começou à meia-noite, lembram-se? Eu estava a 20 metros do cagão e os excrementos eram visíveis a essa distância. Não admira que depois tenha havido pessoal a perder-se nos primeiros 500m de prova. Confundiram o cocó com a sinalização da organização e lixaram-se. Parece que as fezes florescentes são resultado de um novo protótipo das barras Olimpo. As Barras “Simpson” são polvilhadas com pepitas de urânio e plutónio—e foram desenvolvidas em homenagem ao trabalhador de central nuclear mais famoso do mundo: Homer Simpson. Aproveitando a deixa, uma vez que «quando caga um português, cagam logo dois ou três», também eu arreei o calhão de maneira a partir mais leve. Como não tinha toalhitas comigo, vi-me porém obrigado a limpar o rabo a uma fita. Voltei a colocá-la no sítio, como é evidente, pese embora lhe ter dado o vento e ter levado com o lado borrado na cara. É a Lei de Murphy em acção.

 

13233299_10153575286624599_1041350300_n.jpg

 

Uma grande equipa vê-se nos detalhes. Exemplo: para a EDV-Viana Trail, uma prova não começa com o tiro de partida. Começa muito antes do que isso. Foi por isso lindo assistir ao trabalho de equipa levado a cabo pelo Jérôme e pela Fernanda Verde. Estávamos já todos reunidos, como gado, à espera da largada, quando um grupo de meninas se junta à minha frente. A saber: Cristina Couceiro, Fernanda Verde, Sara Brito e Salete Tavares. Inicialmente falavam de moda, censuravam as atletas decotadas e cortavam na casaca dos seus respectivos. Nisto, do nada, a Fernanda atira: “Já viram a mochila do Jérôme? Está muito gira.” E enquanto as outras admiravam a dita mochila, a Fernanda aproveitou e, pelas costas, encheu-lhes as mochilas com pedras. É verdade que de pouco lhe serviu, já que a atleta da EDV-Viana Trail foi obrigada a desistir no seguimento de uma gripe mal curada. Ainda assim, seja como for, foi lindo de ver. Orgulho!

 

13139251_1142539315785983_3625558447118315513_n.jp

 

O Jérôme ficou amuado porque não foi o único a estrear equipamento novo em Portalegre. Pedro Marques—também conhecido como o Ranheta Cinquentão—participou no UTSM e estreou uma t-shirt em homenagem a este post do TopMáquina. Quanta honra! Quanto caganço! Quanto desespero! Tanto trabalho só para aparecer novamente neste espaço. É triste ao ponto a que as pessoas chegam. Há quem já me tenha oferecido o seu corpinho como forma de pagamento. A propósito, aproveito para informar que não gosto de homens de meia-idade. Prefiro-os mais novinhos—e tenrinhos. Só é pena o Facada ter-se cortado—deve estar a poupar-se para uma prova de aldeia—e o Cocó tenha escolhido participar no TLSM. Tivessem todos disputado o UTSM e teriam certamente vencido por equipas.

 

12888790_1049044638517249_5470027342150105144_o.jp

 

O Rui Luz enganou-se no último km, cortou caminho e acabou à frente do Jérôme sem tê-lo ultrapassado. Perante isto, exibindo o fair play que o caracteriza, o javali escreveu o seguinte na sua página do facebook: “Caso algum dos atletas/equipas se sinta prejudicado com o facto de eu ter sido classificado na prova, poderá escrever aqui, enviar mensagem privada ou contactar a Organização.” Assim sendo, dirijo-me por este meio ao Rui de maneira a informá-lo de que me sinto extremamente prejudicado. Não pelo teu erro involuntário—o percurso no local em causa mudou em relação aos anos anteriores e eu próprio ter-me-ia enganado se o Semedo não me tivesse avisado—mas antes pelo teu penteado. Eu gosto de ser o centro das atenções e tu, com o teu penteado, roubaste-me o protagonismo. Basta dizer que, em Portalegre, só autografei 2 soutiens e 3 cuecas de homem. Resta dizer que o Rui foi inicialmente alvo de uma penalização de 5min e que o Jérôme recusou-a. Achou pouco. Queria mais. O Rui fez-lhe então uma nova proposta: juntou-lhe mais 2min de penalização e uma massagem relaxante depois do duche. Escusado será dizer que o Lince aceitou na hora. “Nesse caso, esquece os 2min. Chega-me a massagem”, rematou ele.

 

Capture2.JPG

 

A Organização está de parabéns. Finalmente uma prova que presenteia os atletas com um conjunto de prémios com utilidade e aplicabilidade no dia-a-dia. Pessoalmente, estou farto de bibelots. Foram 8h de viagem entre Viana do Castelo e Portalegre e, à vinda, demos uso às cadeiras de cortiça e às garrafas de vinho para fazer um piquenique a meio da viagem. O nosso Presidente está infelizmente com excesso de peso (ver vídeo abaixo) e sentou-se no troféu do Ricardo, partindo-o. Vendo-o partido, o vencedor do TLSM amuou e mamou uma garrafa de penalti.

 

 

Termino partilhando alguns exercícios de descompressão recomendados pelo departamento médico da EDV-Viana Trail. Realizem-nos 1h após a prova e prometo-vos de que no dia seguinte sentir-se-ão como novos. São exercícios anti-empeno. Em baixo, em primeiro plano, vemos o nosso Presidente a descomprimir os meus glúteos com a sua zona pélvica. Em segundo plano, temos o nosso Director Técnico a alongar os Isquiotibiais da nossa campeã Fernanda Verde. Não têm de quê.

 

13092144_10153567540374599_2173060409505433036_n.j

 

Lista de Favoritos Tugas ao EGT

por Pedro Caprichoso, em 18.05.16

12.JPG

 

1. Luís Duarte 

O homem ganhou o UTAX e é um autêntico “bombardeiro” neste tipo de terreno, onde a força é o que mais conta. Além disso, fez o EGT2015 e conhece bem o percurso. Lembro-vos que ele em 2015 seguia isolado a poucos kms da meta—e depois perdeu-se ou sofreu uma insolação. Já não me recordo bem. Foi uma das duas.

 

2. Nuno Silva

É preciso dizer mais alguma coisa em relação ao Nuno? São muitos anos a virar frangos em provas de Endurance, sempre ao mais alto nível. Vê-lo fazer 5h24 na Taça Ibérica de Trail em ritmo de treino é um excelente indicador. Só não o coloco a par do Luís porque o bombardeiro ficou à frente dele no UTAX.

 

3. Ricardo Silva / André Rodrigues

O Ricardo tem maior e melhor historial em provas de Endurance. Por outro lado, o Ricardo vem de lesão e o André parece-me em melhor forma. Equivalem-se, portanto. Ainda vão acabar de mãozinhas dadas como nos Abutres.

 

5. Tiago Aires

Apareceu de surpresa no mundo do Trail Nacional—e, o mínimo que se pode dizer, é que chegou, viu e venceu. No entanto, nunca fez uma prova de Endurance. Poderá fazer pódio. Não digo que não. Mas para isso terá de fazer uma prova muito inteligente no sentido de gerir as dificuldades inerentes a tipo de prova—e fazer essa gestão sem a experiência da competição (em Endurance) não é fácil.

 

6. Jérôme Rodrigues

Só não meto o meu Xuxu à frente do Tiago porque o Lince vem de lesão e ainda não se encontra nas melhores condições. Todos sabemos, no entanto, que o seu ponto forte é a Endurance. Prometi-lhe uma massagem completa caso ele fique no top50.

 

[Não me pronuncio em relação aos “estranjas”, uma vez que não os conheço bem. Reconheço os nomes, mas não os tenho acompanhado. No entanto, é evidente que vão estar na luta.]

O fraco orgulho dos adeptos de futebol

por Pedro Caprichoso, em 16.05.16

Em vez de andar a correr como um maluquinho, vou começar a andar com um cachecol ao pescoço e reclamar a vitória de uma equipa como se fosse minha—como se tivesse sido eu a marcar os golos. Para quê fazer desporto se posso ser aplaudido ao ver os outros a fazê-lo? Os adeptos de futebol não dão um único pontapé na bola, mas recebem parabéns dos adeptos rivais e dizem-se orgulhosos.

 

Orgulhosos? De quê exactamente? De festejarem os golos dos outros? De fazerem figas quando o adversário falha um penalti? De irem a Fátima a pé se o clube do coração for campeão? De fazerem muita força, cerrarem o olho do cu e enviarem energia positiva aos jogadores via telepática? Orgulho, por definição, implica mérito. Se sentimos orgulho por algo é porque tivemos mérito na sua conquista. Por outras palavras: como podemos ter orgulho em algo sobre o qual não tivemos qualquer influência?

 

Alguns argumentam que sentem orgulho porque são sócios, pagam as cotas e vão ao estádio apoiar a sua equipa. Tudo bem. Por mais insignificante que essa influência seja, é certo que ela existe. No entanto, só um lunático acredita, verdadeiramente, que são as suas cotas e o seu apoio que fazem com que as bolas entrem na baliza do adversário.

 

Outros argumentam que sentem orgulho porque tiveram a sensatez de escolher o clube A em vez do clube B. A sério? Escolheram? Escolheram merda nenhuma. Um tipo é de determinado clube por acaso: por influência de familiares, amigos ou, simplesmente, porque esse é o clube que mais vezes ganha—e todos gostamos de vencedores.

 

Se têm “orgulho” do vosso clube, experimentem fazerem em vez de verem os outros fazerem. Em vez de verem os outros jogarem, joguem vocês. Pratiquem desporto, compitam e ganhem alguma coisa pelas vossas próprias mãos. Talvez então saibam o que é sentir orgulho a sério.

 

O meu orgulho é este:

 

13231082_1059028554170470_431874570_n.jpg

 EDV-Viana Trail: Vencedores por equipas do TLSM—Trail Longo de São Mamede

[3.ª Etapa do Campeonato Nacional de Trail Ultra]

TrailCoaching

por Pedro Caprichoso, em 05.05.16

HireALifeCoachToday.jpg

 

É preciso uma cara-de-pau do caralho para ser-se Lifecoaching. Auto-intitular-se “Lifecoach” é o mesmo que afirmar, de nariz empinado, que se é melhor do que os outros. Não há outra forma de encarar esta pseudo-profissão. O adjectivo “arrogante” é simpático demais para qualificar esta gente. Burlão é mais adequado. Olhar uma pessoa nos olhos e afirmar que somos melhores do que ela (nesta coisa a que chamamos vida) tem um nome: fraude. Não há outra palavra.

 

Já repararam que os Lifecoaches são todos jovens? Seria expectável que fossem mais velhos: gente vivida, experimentada, calejada—cuja sabedoria ser-nos-ia transmitida em função da sua experiência de vida. Mas não: são todos jovens, na casa dos trintas e quarentas, de corpo ripado e sorriso branqueado. Sabem quem é o meu Lifecoach? O meu avô.

 

O que me alegra é saber que estes parasitas, mais tarde ou mais cedo, vão meter o pé na poça. É uma questão de tempo. E, quando esse dia chegar, serão expostos por aquilo que são na realidade: fraudes; vendedores de banha da cobra; burlões dos tempos modernos; campeões da treta; especialistas da verborreia; técnicos superiores da aldrabice; bocas de esterco; trafulhas com o dom da palavra; vigaristas munidos com um cardápio de frases feitas e lugares comuns vomitados sem um pingo de vergonha. É só uma questão de tempo.

 

Vivemos num mundo de certezas, em que os mais certos—ou, pelo menos, os mais assertivos na sua certeza—são retractados como os mais fortes. Certeza é sinónimo de força, de carácter, de liderança—e hoje em dia temos todos de ser lideres, não é? Hoje não há espaço para dúvidas, hesitações ou perguntas. Tudo são frases feitas, vomitadas por um sorriso branqueado entre o jornal da noite e os bastidores da selecção. A felicidade é-nos vendida em pequenas concentrações de certeza—e à certeza vem sempre associada a simplicidade, a rapidez, a solução milagrosa, tanto faz se para a prisão de ventre se para os problemas amorosos. Há solução para todos os males, conquanto esta não nos tome mais do que 5 minutos por dia e traga como oferta um conjunto de facas de carne se formos um dos primeiros a ligar. Se aprendi alguma coisa em 35 anos de vida, é que a vida é muito complexa. Duvidem sempre das pessoas que parecem muito certas do que dizem e apresentam soluções simplistas para problemas complexos. Eu incluído. A verdade é que ninguém sabe o que anda a fazer: andamos todos às apalpadelas, a tentar perceber como é que “isto” se faz. E se isto é verdade na nossa vida social e profissional, é-o ainda mais na nossa vida pessoal.

 

17906100_qbKC3.jpeg

 

Dito isto, se o Gustavo Santos pode, eu também posso. O Gustavo Santos não é melhor do que eu. Eu também sou bonito, musculado e tenho uma cara-de-pau do caralho. Passe a modéstia, considero-me um vigarista de alto gabarito. O meu conceito é, porém, menos ambicioso. Não pretendo ser Lifecoach; contentar-me-ei em ser Trailcoach. Trailcoach é um conceito que vai para além do treino. O treino não me interessa. Para isso existem Treinadores com formação na área da Educação Física. No fundo, trata-se de aplicar a filosofia do Lifecoaching ao Trail Running. O meu pacote de TrailCoach inclui 10 sessões de empowerment com a aquisição de capacidades mentais ao nível de um super-herói da Marvel; um workshop de fotografia no âmbito das selfies; um catálogo de dicas para sacar patrocínios; um calendário de provas de aldeia para obter resultados à campeão; um tutorial de caganço nas redes sociais; um manual de engate de atletas de Trail; e um curso à distância de escrita criativa aplicada às crónicas de corrida. Tudo isto pela módica quantia de €499/mês—ou em suaves prestações de €200/semana. Não se atropelem, que eu chego para todos!

Rescaldo nos bastidores do MIUT 2016

por Pedro Caprichoso, em 29.04.16

Marquei voo para a Madeira no mesmo dia em que um colega de equipa me ofereceu a sua inscrição no MIUT. Surgiu-lhe um imprevisto e eu não tinha nada melhor para fazer nesse fim-de-semana. Era isso ou ficar em casa, de pijama, a preencher a declaração de IRS e a tirar macacos do nariz. Tirar macacos do nariz e colá-los por baixo do sofá é um dos meus passatempos preferidos. Pensei, na minha hercúlea ingenuidade, que a 2 meses da prova seria possível mudar o nome da inscrição. Não foi. O ponto 3 do regulamento do MIUT não permite a transmissão da inscrição para outro atleta. Apenas o reembolso é permitido, mediante apresentação de certificado médico. Mas quem é que no seu juízo perfeito se lembra de ler regulamentos? O regulamento de uma prova é o equivalente ao rótulo das embalagens de douradinhos, às instruções de utilização de preservativos, aos contratos de crédito habitação e aos procedimentos de segurança dos aviões. Ninguém lê essa merda! Não obstante, por muito quer me custe, hoje não tenho outro remédio senão agradecer à Organização. Obrigado por me terem impedido de participar no MIUT. Se tivesse participado, o mais provável é que tivesse falecido a meio do Pico Ruivo e amanhã por esta hora estaríamos todos a assistir à minha missa de sétimo dia.

 

01.JPG

 

Com a minha declaração de IRS preenchida, validada e devidamente submetida, resolvi ficar com o voo e parti rumo à Madeira com vista a dar assistência aos meus colegas de equipa. O objectivo era acompanhar os últimos 40k da prova no terreno e aproveitar para fazer um treino longo. No total ainda fiz 55k com 3.000D+, mais do que aqueles que logo aos 30k fizeram pisca à direita e encostaram a carroça em Estanquinhos. Segundo testemunhos no local, alguns meteram logo 4 piscas. Partiram a embraiagem a meio da subida e nem tempo de encostarem tiveram. Coitados. Que pena. Estão a ouvir isto? Isto é o violino mais pequeno do mundo a tocar uma melodia surda em honra das vítimas do MIUT.

  

13047810_947635732029278_3226719533844570502_o.jpg

 [As vítimas da EDV-Viana Trail estavam todas alinhadas à partida. É como se já desconfiassem. Que patos!]

  

Para outros, o mais difícil da prova foi mesmo chegar ao Funchal. Para mim também não foi pêra doce. Primeiro, no Aeroporto do Porto, confundiram o meu isotónico com droga—tinha-o escondido em saquinhos de plástico transparente no meio da minha roupa interior, entre cuecas e ceroulas—e chamaram-me à parte para ser revistado. Depois, o avião aterrou na ilha errada (Porto Santo) por causa do mau tempo e tive de esperar 3h no lobby do hotel até sermos informados de que, afinal, não havia quartos para todos—e que os restantes (eu incluído) teriam de ficar noutro hotel. Pior do que tudo, ainda assim, foi ver o efeito que esta situação teve no Jérôme. O meu Xuxu tinha aterrado no dia anterior, foi-me esperar ao Aeroporto do Funchal e ficou desconsolado quando o informei de que passaria a noite em Porto Santo. O coitado teve de dormir sozinho. Sugeri-lhe que metesse mais uma manta na cama para não ter frio. A minha viajem de ida só não foi uma seca maior porque deu para meter conversa com outros atletas. Sabem como identificar um atleta de Trail num aeroporto? É fácil: são aqueles que exibem as suas t-shirts, camisolas, casacos e coletes de finisher das provas mais duras que fizeram até à data. Mais fácil ainda é identificar as fãs do TopMáquina: são aquelas que se atiram aos meus pés, histéricas, exigindo um seio autografado.

 

02.jpg

 [Muita camisola de finisher do UTAX andou a passear pela Madeira.]

 

No dia da prova levantei-me às 6h00 da manhã e fui à pata do Funchal ao Pico Areeiro, primeiro por estrada até ao Poiso (abastecimento dos 90k) e depois daí ao Areeiro usando o percurso da prova em sentido contrário. Uma vez que a Organização previa a passagem do primeiro atleta por volta das 10h30, qual não foi o meu espanto quando me cruzei com o líder da prova na descida após o Areeiro. Eram 9h40 e o americano javardolas já levava 50min de vantagem em relação ao recorde da prova. Incentivei-o à sua passagem no meu inglês macarrónico e ele agradeceu de boca cheia com um simples “Obrigado”, projectando uma manada de gafanhotos de chocolate na minha direcção. Sei que os gafanhotos eram de chocolate por causa da cor (castanha) e porque depois vi-o num posto de abastecimento a comer chocolate como um javardo. Resultado: fiquei com a minha t-shirt de finisher do Trail de Afife toda borrada. Era a minha t-shirt preferida. Digo “era” porque já a vendi no ebay por uma pequena fortuna. Uma t-shirt simples vale pouco, mas borrada com o ADN do Zé Miller vale 500 dólares.

 

 

Os especialistas prevêem que a vitória esmagadora do Zé Miller terá efeitos profundos no Trail Nacional. Os portugueses nunca viram nada assim, e muitos são os atletas “tugas” que já alteraram o seu plano de treinos. “Correr à labrego” e “comer à javardo” são duas actividades que muitos passaram a incorporar nas suas sessões de treino semanal. A EDV-Viana Trail não anda a dormir e já pediu patrocínio aos chocolates Avianense e encomendou 5 passadeiras com vista a instalá-las no navio Gil Eanes. Relembro que o Zé trabalhava em cruzeiros e passava as noites a treinar nas passadeiras do ginásio e escadarias do barco enquanto os seus colegas relaxavam no bar. Pessoalmente, fiquei contente por saber que ele usa os mesmos géis que eu. Quer isto dizer que estou no bom caminho. Agora só me falta comprar umas Nike manhosas na Sportzone e um Casio na feira de Ponte de Lima para ganhar o MIUT 2017. Tenho pena dos representantes portugueses da Suunto e da Garmin, pois vão ressentir-se nas vendas. O pessoal já se apercebeu de que, afinal, não é preciso um relógio GPS para ganhar o MIUT. E que panenleirice é essa dos impermeáveis e corta-ventos? Isso é para meninos! Homem que é homem faz o MIIUT todo em mangas cavas.

 

03.JPG

 

O MIUT, não só foi um sucesso organizativo, como também lançou novas tendências. Bastões artesanais e manguitos cor-de-lagosta foram algumas das inovações com estreia mundial na Madeira. Vi alguns atletas—nomeadamente estrangeiros—com bastões de madeira. Aos olhos dos mais distraídos, quase parecia que os bifes se tinham arrependido de não terem trazido os seus bastões de carbono e subiram o Pico Ruivo com o auxílio de muletas fabricadas pelo caminho. Quanto aos manguitos cor-de-lagosta, estes ainda tiveram mais sucesso. Ninguém partiu com eles, mas todos os exibiam na meta.

 

04.JPG

 

A Organização esteve ao mais alto nível: logística impecável, segurança exemplar, abastecimentos fartos e marcações perfeitas. O MIUT não se livrou, porém, de um escândalo de dimensões apocalípticas. Designá-lo-emos por “Isotónicogate”. No primeiro abastecimento (Fanal, 17,7k), os voluntários informavam os atletas de que o isotónico aí disponibilizado só podia ser consumido no local por meio de copo. Ou seja, os atletas não podiam abastecer-se e bebê-lo pelo caminho. Não dava para todos, justificavam eles. E eu pergunto: se não dava para todos, para que raio disponibilizá-lo in the first place? Nesse caso, queria ver quem é que me impediria de beber 69 copos de penalti? Posto isto, muitos saíram do abastecimento com a boca cheia de isotónico, cuspiram-no depois no seu reservatório de hidratação e diluíram-no em água. Estamos, portanto, perante o primeiro abastecimento homeopático da história do Trail Mundial.

 

05.jpg

 

Perdi a minha boleia no Poiso e fiz os últimos 26k na companhia do trilho maravilha—Cocó, Ranheta e Facada. Que é como quem diz: Faria, Marques e Martins. O primeiro deu o litro e fechou a equipa EDV-Viana Trail, levando-a a um brilhante 3.º lugar à Geral. O segundo fez a prova toda com a palmilha da sapatilha esquerda a sair-lhe pelo calcanhar e, ainda assim, venceu o escalão M50. O terceiro tem um rabo muito bom. Emocionei-me ao ver a forma como os três percorreram os últimos quilómetros. Sempre que um caminhava, os outros caminhavam; sempre que um corria, os outros corriam; sempre que um bebia, os outros bebiam; sempre que um parava para mijar, os outros mijavam também; sempre que um apalpava o rabo a uma caminheira, os outros apalpavam também. O Trail é isto: entreajuda, camaradagem, aliviar a tripa e apalpar rabos. A competição pouco importa, tanto que hoje em dia somos todos campeões. Tantas foram as cerimónias de pódio do MIUT, que perdi a conta ao número de vencedores. Com classificações à Geral, ATRP, Regional e Escalões Etários, é quase impossível não sacar uma classificação à campeão. Ouvi um tipo gabar-se por ter sido o 6.º Madeirense M45 no Mini-Trail. Só faltava dizer que tinha sido o melhor da sua rua.

 

06.jpg

 

Fiz questão de não tirar uma selfie com o Zé Miller. Ele bem implorou, mas eu mandei-o passear. Chato de merda! Passou o Domingo todo a pedir aos portugueses para tirarem uma selfie com ele. Eu cá não tenho tempo para americanos javardos. Prefiro portuguesas com boas maneiras à mesa!

NÃO SER MAU JÁ É MUITO BOM

por Pedro Caprichoso, em 15.04.16

Capture.JPG

 

Não me critiquem por não fazer o bem. Antes elogiem-me por não fazer o mal. Não fazer mal já é muito bom. Não ajudo velhotes a atravessar a rua, mas também não lhes ando a impingir suplementos ricos em cálcio e magnésio. Nunca comprei o pirilampo mágico, mas também nunca andei à porrada com uma criança deficiente. Não aviso os meus adversários de um obstáculo no trilho, mas também não lhes passo rasteiras nem os empurro por uma ribanceira abaixo. Creio que já perceberam a lógica do meu raciocínio.

 

Não sejas muito exigente com os outros. Não exijas bondade ao teu semelhante. Contenta-te com o facto de nele não existir maldade. Não ser mau é uma bênção em si mesmo. Ser bom é sobrevalorizado. Não são necessárias Madres Teresas de Calcutá para construir um mundo melhor. É apenas necessário gente que não faça merda. Não fazer merda é subvalorizado. Da mesma forma, não sejas muito exigente contigo próprio. Não te exijas bondade. Não te esforces para seres bondoso. Opta por um objectivo mais realista: esforça-te por não seres uma besta! Não ser uma besta já é muito bom.

 

Não sou bondoso—e não me condeno por isso. Prefiro antes congratular-me por não ser uma besta. Acordo, dirijo-me à casa de banho, olho-me ao espelho e penso: “Não és uma besta quadrada.” Gosto de mim na certeza de não ser uma besta. Basta-me isso. No fundo, não sou mau—e isso já é muito bom.

E se fosse eu?

por Pedro Caprichoso, em 08.04.16

Inspirado pela Joana Vasconcelos, também eu decidi colocar-me na pele de um refugiado. Eis o que eu levaria na minha mochila:

 

Rescaldo: IV Inatel Piódão Trail Running 2016

por Pedro Caprichoso, em 07.04.16

O principal problema do Piódão é que fica longe de tudo. Para quem não conhece, fica no meio do nada: ali para os lados dos quintos dos infernos, entre o cu de Judas e onde o Diabo perdeu as botas. Muitos levantaram-se às 3h da manhã e fizeram 4h de carro para estarem à partida do IV Inatel Piódão Trail Running. Heróis. É claro que depois deu-lhes o sono durante a prova e fizeram figuras tristes. Querem dormir? Tudo bem, mas façam-no fora do trilho. Os outros atletas podem tropeçar em vocês e cair—e cair aleija.

 

12909446_934605573332294_7967164484328426729_o.jpg

 

Da mesma forma, considero que testar material durante a prova é uma tremenda falta de respeito para com os outros atletas. É o equivalente a um automobilista parar na faixa de rodagem para falar com um peão e entupir o trânsito atrás de si. Novamente: querem testar material? Tudo bem, mas façam-no fora dos trilhos.

 

12923257_935440373248814_8044042224582279334_n.jpg

 

Tenho um ritual pré-prova, mas não sou uma pessoa supersticiosa. O ritual nada tem de supersticioso. Uns aquecem, alongam, bebem 5 cafés e dão uma valente cagada antes da prova. Eu não. Aquecer e alongar é uma canseira, não gosto de café e não me importo de cagar no meio do monte. Para aquecer os motores prefiro apalpar as glândulas mamárias dos meus colegas de equipa. Um tipo fica excitado, a circulação sanguínea aumenta, os músculos aquecem e arrancamos com um sorriso nos lábios. Parece-me bem mais saudável. A única desvantagem é ficar com a tenda armada e enrabar acidentalmente um inocente aquando do tiro de partida. Tal já me aconteceu por duas ocasiões, mas as vítimas não se importaram. Não apresentaram queixa e, pelos vistos, até gostaram. Ainda tenho o telemóvel delas. 

 

12900998_1069665746439651_7478178253737403682_o.jp

 

Soube que a prova ia correr bem ao Délio quando o vi a mijar atrás de um carro dos bombeiros. Uma bombeira dirigiu-se em direcção à viatura, estacou quando o viu de pirilau na mão e paralisou de boca aberta durante alguns segundos. “Estás a ver aquele atleta de vermelho a afastar-se do nosso carro? Ele está equipado com material de ponta. De certeza que vai fazer um bom resultado”, disse a bombeira a uma colega. Dito e feito: fez 3.º lugar. Esta é a posição que o Délio usa para fazer xixi:

 

Dédio.jpg

 

O Flamengo fez uma pausa no Brasileirão e deslocou-se ao Piódão para estrear-se nas lides do Trail. O clube do Rio de Janeiro não deixou o seu crédito por mãos alheias e cilindrou a concorrência. Colocando 3 javalis no top10, obtiveram uma victória merecidíssima. Chafurdada mas merecida. Sem espinhas.

 

javali.jpg

 

Qualquer semelhança entre a segunda metade da prova e a série The Walking Dead não é mera coincidência. Os mortos-vivos foram vítimas da Fórnea, do Colcurinho e de uma primeira metade muito rápida. Não é por acaso que quem conhecia o percurso decidiu poupar-se nos primeiros 30k para conseguir manter o ritmo nos últimos 20k. Exemplo: o javali Rui Luz—3.º classificado em 2014—ganhou 16 posições na segunda metade e alcançou um excelente 4.º lugar à geral. O berbicacho para muitos é que chegaram ao topo da Fórnea e pensaram: “Bem, a subida está feita. Agora é só fazer 8k no topo da Serra e descer rumo ao Piódão”. O problema é que ainda faltava o Colcurinho e a meio deste estava escondido o homem da marreta.

 

SSBFE-Sledgehammers.jpg

 

Massacrante foi o adjectivo utilizado por muitos para qualificar a prova. Muitos dizem terem ficado dois dias de molho à conta das descidas. Não percebo. Não faço ideia do que esta gente está a falar. No dia seguinte, Domingo, fiz 1h20 de corrida com o meu cão, joguei à macaca com a minha afilhada, fiz uma aula de pilates e andei à porrada com um cigano. Havia participado na segunda edição (2014) e já sabia ao que ia. Pelo contrário, parece-me evidente que muitos novatos foram ao engano. Os coitados não faziam a mínima ideia onde se foram meter. Se fizessem, não se punham a rir na base da subida mais dura do percurso. Eu gostava era de ver uma foto do casal abaixo retractado no topo da Fórnea. Queria ver onde é que eles iam buscar forças para arreganharem a fronha.

 

12376668_1085494761472186_8011757894622860410_n.jp

 

Quem me viu a cortar a meta pode ter ficado com a ideia errada. Não estava a morrer. Não era cansaço. Estava simplesmente engasgado com os 3 géis que enfardei ao longo da penosa subida das escadas do Hotel rumo à meta. Um gel a cada 10 degraus. Em boa verdade, cheguei ao fim tão fresco, mas tão fresco, que ainda tive forças para dançar o vira. O speaker fez de homem e eu de mulher.

 

morto vira.jpg

 

Detestei o prémio de finisher. Uma colher de pau? A sério? Façam-me o favor! Detestei-o porque a minha mulher adorou-o. Deu-me com ela no rabo por ter ido para os copos com os meus colegas de equipa e ter chegado a casa às 4h da manhã. Quatro dias passados, ainda não me consigo sentar.

 

boy_and_spoon.jpg

 

Perdi 2kg no UTAX e mais 3kg no Piódão. Como é que um tipo perde 2kg em 110k e perde 3kg em 50k? Não faço ideia. É um dos mistérios do Trail Running. Seja como for, acredito que ainda consigo perder mais 2kg. Para tal farei uma redução do pénis. Ficarei mais leve e deixarei de tropeçar no meu malaquias. Tenho agendada uma redução peniana para Junho e penso que em Setembro já estarei em condições de alcançar o objectivo principal da minha época desportiva: ser finisher da Légua Nudista.

 

12898192_934584576667727_3727135730246970000_o.jpg

 

Para terminar, informo-vos de que serei atleta oficial da inov-8 a partir do Trail da Baixa da Banheira. O meu contrato com a Adipas acabou em Março, o meu empresário declinou a sua renovação e no Piódão já tive oportunidade de testar o equipamento da marca inglesa. A Adipas queria que eu fizesse publicidade grátis aos seus produtos em troca de um desconto de 15% nos produtos da marca—e eu fiz-lhes um manguito. A sério? Fazer o trabalho comercial de uma marca em troca de 15% em desconto? 15%? Quem é que se sujeita a tal coisa? Não acredito que haja quem se deixe explorar desta forma. Para quê? Para encherem o peito e anunciarem que são patrocinadas? Por quê? Por que acreditam que ser patrocinado aumenta a percepção que os outros têm das suas capacidades atléticas? Mais patrocínios = melhor atleta? É isso? Estamos perdidos!

Antevisão: Ultra Trail do Piódão 2016

por Pedro Caprichoso, em 31.03.16

O Piódão é o Chamonix português. Não tem a dimensão, nem o glamour, nem o glaciar, nem o funicular, nem os ferraris, nem as gajas boas, nem esparguete à bolonhesa a 25€ a dose. Tem fiats puntos, velhotas com bigode, neve esporádica no Pico da Cebola e broa de batata a 2,99€. Chamonix é melhor. É um facto. Não obstante, embora numa escala mais pequena, o Piódão consegue-nos igualmente transmitir uma estranha sensação claustrofóbica imposta pelos declives acentuados da Serra do Açor. A montanha parece cair sobre nós. Faz-nos sentir pequeninos—e eu gosto de me sentir pequenino. Põe as coisas em perspectiva.

 

broadebatata.jpg

 

Será a minha segunda vez no Piódão. A primeira foi em 2014. Participei na segunda edição e jurei para nunca mais. Só regresso por imposição do meu empresário. Gostei do percurso: é ao meu jeito: corrível. Gostei da organização d’O Mundo da Corrida: discreta, eficiente e sem merdas. Gostei das gentes, sobretudo de uma sueca que exibiu as suas magníficas mamas à passagem dos 28k. Pensando bem, podia ser japonesa. A hippie veio ao parapeito da janela da sua renovada casa-de-xisto e “meteu-as de fora”. Tirei os olhos do trilho, tropecei num calhau e não rachei os cornos por milagre. O Rui Luz seguia à minha frente e as suas nalgas rechonchudas ampararam-me a queda. Não percebo como ele não se despistou. Só há uma explicação: não gosta de mamas.

 

Swedish-Girls_o_91472.jpg

 

Gostei de muita coisa, mas não gostei nada de ter levado com a marreta aos 33k. Cinco quilómetros depois de levar com as mamas, levei com a marreta. E que marretada! Até vi estrelas. Literalmente. Estrelas verdes, em modo pisca-pisca, afectando a minha visão periférica. Subia a Fórnea a todo o gás e, de repente, sem que nada o fizesse prever, o homem da marreta assomou por detrás de um arbusto e atacou-me. Deve ter ido cagar. Deixou escapar o Rui enquanto evacuava e eu é que me lixei. PUMBA! Não ide em cantigas: o UTP começa na base da Fórnea. A subida é potencialmente corrível. Potencialmente. No entanto, com 32k nas pernas, podem estar descansados de que será toda feita a passo, vergando a mola com o focinho rente ao chão. Aconselho a ingestão de um gel, barra, comprimido de cafeína, sandes de presunto, cogumelo do tempo, testosterona ou nandrolona por volta dos 30k. Há 2 anos ia desmaiando no topo da Fórnea e fiz os primeiros 100 metros da descida a passo. Não tenho memória da segunda metade da subida. Acho que o homem da marreta deixou-me KO e posteriormente esbandalhou-me o rabinho. Só assim se explica a forma como acabei a prova: todo torcido.

 

meta.jpg

 

Já dei esta ideia aqui há atrasado e volto a repeti-la: que tal fazerem uma secção cronometrada—semelhante ao que se faz na Padela—nas escadas do Hotel do Piodão? Só os últimos 100 metros de escadas. Ver três centenas de desgraçados a arrastar a carcaça até à meta seria lindo de se ver. O André que o diga.

 

Os Atletas mais Subvalorizados do Trail Nacional

por Pedro Caprichoso, em 29.03.16

Estive para fazer uma lista dos atletas mais sobrevalorizados do Trail Nacional, mas depois arrependi-me. Apercebi-me que tal seria de mau-gosto. Até para mim. Tanto que para alguns seria injusto. Há quem não seja responsável pela sua sobrevalorização—e não merece que se lhe seja apontado o dedo. Assim sendo, decidi fazer o contrário: elaborar uma lista dos atletas mais subvalorizados no sentido de valorizá-los aos olhos dos mais desatentos.

 

Os atletas mais subvalorizados são aqueles em que se verifica maior discrepância entre o seu valor desportivo e a percepção que o público tem deles. Ao contrário do que possam pensar, os melhores atletas não são necessariamente aqueles que têm mais “patrocinadores”; que mais hashtags usam nas suas publicações; que mais vezes são promovidos pela comunicação social; ou que, tendo um blogue como este, são mais conhecidos por aquilo que escrevem do que por aquilo que correm.

 

1. PEDRO RODRIGUES

 

pedro.jpg

 

Embora seja um dos melhores, o “Troncos” continua a ser um dos atletas mais subvalorizados pelas marcas. Ainda para mais, é uma pessoa de quem todos gostam. O Pedro conhece toda a gente. É o Relações Públicas do Trail Nacional. A única explicação, portanto, é que as marcas andam a dormir. Este homem merece todo o apoio do mundo. Eu recuso-me a ser patrocinado antes do Pedro. Sim, leram bem: até a mim já me ofereceram patrocínios. Primeiro a mim do que ao Pedro. Cabe isto na cabeça de alguém? Posto isto, o meu recado para as marcas é o seguinte: só aceito apoios depois do Pedro ser apoiado. Percebido?

 

2. PAULO LOPES

 

paulo.jpg

 

O Paulo “(Ex)Terminador” Lopes é o tipo de atleta que eu gostaria de ser quando fosse grande. Inteligente pela forma como aborda as provas, fazendo-as sempre de trás para a frente. Ele não se poupa para atacar na segunda metade; ele tem é a capacidade de não entrar em loucuras e fazer as provas ao mesmo ritmo do início ao fim. Nos últimos 10k, não é ele que está mais rápido; somos nós que estamos mais lentos. O homem é M40 e ficou em 5.º no Campeonato Nacional de Trail Ultra. Ainda assim, só os mais atentos parecem conhecê-lo e apreciá-lo. É uma pena.

 

3. JORGE ROCHA

 

jorge.jpg

 

Jorge “O Relógio Suíço” Rocha é uma das minhas referências. Humilde e reservado, o Jorge é o paradigma da consistência. Dando sempre prioridade aos interesses da equipa, é o abono de família da EDV-Viana Trail. Sabiam, por exemplo, que ele fez top10 nas 3 últimas edições do UTAX? Sexto, sexto e oitavo? De certeza que não sabiam. Aliás, como poderiam vocês saber se vocês estão mais interessados em analisar o Strava de um tipo qualquer que não corre um peido?

 

4. PEDRO MARQUES

 

marques.jpg

 

O Pedro é um dos pioneiros do Trail Nacional. Eu ainda não sabia que o Trail existia e ele já andava a cortar a meta do UTSF de mãos dadas com o Nuno Silva. Aos 50 anos—repito: 50 anos—continua a fazer resultados ao nível de um top10 no UTAX. As pessoas desvalorizam-no porque ele não depila as pernas e publica fotos com sandes de presunto e minis em vez de isotónico e bidons de suplementação.

 

5. LUÍS DUARTE

 

luis.jpg

 

Fui interpelado por muitos atletas (das provas mais curtas) enquanto lavava as vergonhas nas piscinas de Miranda do Corvo—e muitos não sabiam quem é o Luís Duarte. Verdade. Queriam saber quem tinha ganho o UTAX, eu respondi-lhes e muitos pediram explicações. Luís? Quem? Fiquei estupefacto—e, só por isso, merece ser mencionado aqui. O Luís é outro dos que comete o erro de ser muito humilde. Sim, os conhecedores do Trail sabem quem ele é. Para nós é um dos melhores, senão o melhor. Acontece que ele faz poucas provas—e isso prejudica-o ao nível da sua projecção mediática. O “Bombardeiro” não precisa de fazer provas todos os fins-de-semana para sentir-se validado. Isto tem um nome: classe. Também pode ser que ele não compita mais por motivos profissionais. Que seja. Não me interessa. É classe à mesma, pois não o vejo queixar-se por causa disso. Gosto do facto de haver quem aparece de vez em quando só para mostrar aos outros como é que se faz.

 

O problema dos tipos acima aludidos é que raramente se gabam. Atleta que é atleta tem de gabar-se no facebook. Onde estão as selfies no topo dos montes? As fotos dos troféus? As sapatilhas enlameadas? As desculpas esfarrapadas? A publicação diária dos quilómetros percorridos? O relógio com o tempo de corrida e a t-shirt de finisher? Onde, pessoal? Há tipos que nem o relato das provas fazem. Assim é difícil. Tenho uma palavra para vocês: cagão. Têm de ser mais cagões. Anda por aí gente que vende o cu por 2 tostões, mas vocês não. Vocês acham-se especiais. Acham-se melhores do que os outros. Não vejo outra explicação.

Rescaldo: UTAX 2016

por Pedro Caprichoso, em 24.03.16

utax.jpg

 

Começo com o pensamento de um dos maiores vultos do Trail Nacional: “Se não estás a sentir é porque não está a acontecer.” José Faria sabe do que fala. Eu não sei, mas ele sabe. Para mim isso é suficiente. O importante não é saber. Sentir é mais importante do que saber. O que é que vocês sentem ao ler Faria? Ler Faria é como ler Saramago. O que sentem? Esse é o sentimento que importa. Se não sentem, é porque não está a acontecer—e é triste não sentir. No UTAX, porém, não há esse risco. O UTAX sente-se e as coisas acontecem. Por vezes bem, por vezes mal. Mas acontecem. Eis como elas aconteceram:

 

Há coisas do outro mundo? Há. Mas também há coisas deste mundo. Geralmente, o que há mais são coisas deste mundo que parecem do outro mundo—coisas sobrenaturais como os rumores de que houve batota no UTAX. Qualquer coisa a ver com popós entre Povorais e Coentral. Não percebi bem. Seja como for, não acredito em teorias da conspiração. Prefiro acreditar nas pessoas. Se as pessoas dizem que não são batoteiras, é porque não são batoteiras. Os mentirosos vão para o inferno e não acredito que as pessoas queiram ir para o inferno. É um sítio muito quente, onde as garrafas têm buraco e as mulheres não. Dito isto, importa sublinhar que eu também não sou batoteiro. Se digo que não sou, é porque não sou. Vocês acreditam em mim, não acreditam?

 

É indesmentível que carreguei a Fernanda Verde às costas durante 30km, mas isso não constitui batotice. Talvez constitua burrice, mas não batotice. Burrice no sentido em que agora estou entrevado e terei de ser operado à coluna. Tudo isto para dizer que fiz o UTAX todo (110k) na companhia da Fernanda e, quase todo, com o nosso colega de equipa José Domingos—que acabou por alcançar a 3.ª posição no escalão M50. Seguimos em tripla até ao Observatório (94k), altura em que o Domingos teve de ir ao WC aliviar a tripa. Só é pena ele não ter cortado a meta connosco. Teria sido a cereja em cima do bolo. Felizmente existe o Photoshop:

 

10273709_682642375209252_7613232200755456852_n.jpg

 

16 horas a acompanhar uma atleta feminina ensinou-me muito. Quero por isso partilhar convosco alguns desses ensinamentos, caso no futuro pretendam assumir o papel de lebre de uma senhora. Não partilho todos porque há crianças a ler estas coisas e eu não quero ser processado.

 

10 DICAS PARA SER LEBRE DE UMA SENHORA

 

  1. Seguir atrás dela nas subidas para não interferir com o seu ritmo. Para não interferir com o seu ritmo e para que ela não apanhe com as vossas bufas. É uma questão de boa educação;

 

  1. Se ela der um traque ruidoso, finjam que não o ouviram. Peçam perdão, dêem a entender que foram vocês que se largaram, tapem o nariz e respirem pela boca até o perfume se dissipar;

 

  1. Ela tem uma farmácia na mochila. Se passarem mal, peçam-lhe que ela tem a solução para todas as vossas maleitas. Se não fossem aqueles dois trifens a meio da prova, não sei o que me teria acontecido. Estava num naqueles dias;

 

  1. Quando ela quiser fazer xixi, continuem devagar que ela depois apanha-vos. Não esperem ao pé dela enquanto ela rega as plantas. Pode tornar-se embaraçoso;

 

  1. Da mesma forma, quando fizerem xixi não peçam para que ela fique ao vosso lado. Digam para ela seguir e depois apanhem-na mais à frente. Pode tornar-se embaraçoso se não a conseguirem apanhar;

 

  1. Dado o facto de elas serem mais precavidas, sigam à frente dela nas descidas técnicas de maneira a testarem as zonas mais instáveis do trilho. Isto fará com que ela ganhe mais confiança. Se caírem à frente dela, melhor ainda: é da maneira que ela dá uma boa risada e fica mais relaxada;

 

  1. Se lhe entrar uma pedra nas sapatilhas, ajoelhem-se, descalcem-na, tirem a pedra, calcem-na e não se queixem do cheiro a chulé. Fica mal. Uma senhora não tem chulé. Quer dizer, tem… mas o seu chulé não cheira mal. Cheira a rosas;

 

  1. Levem-na às cavalitas nas passagens de linhas de água. Esta regra só se aplica, porém, se elas forem mais leves do que vocês. Se forem mais pesadas, esqueçam. O cavalheirismo é muito bonito, mas não paga cirurgias à coluna. Para memória futura: a Fernanda é MUITO mais leve do que eu;

 

  1. Se apanharem um grupo de caminheiros num single-track a atrapalhar a vossa progressão, peçam com jeitinho para que eles deixem a menina passar. A maioria são cavalheiros e desviam-se imediatamente. Dica: também podem usar esta técnica quando seguem sozinhos. Os morcões ficam a olhar para trás à espera de uma menina e nada! Escangalho-me a rir sempre que faço isso!

 

  1. Por fim, o mais importante: se uma adversária ultrapassar a vossa colega, ide atrás dela e façam-lhe bullying. Não é preciso muito. Basta um “estás gorda” que ela encosta logo a chorar—e a vossa colega recupera logo o lugar perdido.

 

697a9d95ad0c4be9bf4abbf55f5e8d9a.jpg

 

Conhecem aquela cena típica das comédias românticas em que ele e ela estão cheios de frio e a única forma que eles têm de se aquecerem é tirando a roupa e aquecerem-se esfregando os seus corpos nus um contra o outro? [Sabia que conseguiria escrever esta frase sem vírgulas]. Pois bem, o que se passa é que eu comecei a tremer descontroladamente depois da prova. Devia ter vestido o impermeável nos últimos 16km, mas não o tirei da mochila e acabei por ir mesmo assim até à meta. Na meta, ensopado, fui interpelado por 5 meios de comunicação e, quando dei por mim, estava a tremer como varas verdes. Precisava de me aquecer rapidamente. A água dos balneários estava morna e não havia outra solução: um dos meus colegas de equipa teria de se enrolar comigo de maneira a aquecer-me. Nus. Num saco cama. O Jérôme e o Faria ofereceram-se de pronto—e quase andavam à porrada. Separei-os e sugeri que o escolhido fosse seleccionado por meio de cara ou coroa. Saiu coroa e ganhou o Faria. O Jérôme fez beicinho, amuou e tive de prometer-lhe que ele depois poder-me-ia lavar as costas no duche.

 

19365085_z0y7k.jpeg

 

Referi, na antevisão da prova, que seria o tipo do balão das 17h. Peço imensa desculpa por vos ter levado ao engano. Não consegui fazer 17h. O comboio adiantou-se 3 minutos e acabei por fazer 16:57. A culpa é da Fernanda, que nos últimos kms ficou furibunda quando a informaram de que era terceira. Ela fez a prova praticamente toda em 2.º e nunca foi ultrapassada, pelo que provavelmente seria erro. Mas ela não quis saber: ligou o turbo, recuperou 3min para a frente da corrida e ia-me abafando. Só não me abafou porque eu tive medo da vergonha e enfiei 7 comprimidos de cafeína pela goela abaixo.

 

Capture.JPG

 

O Nuno Silva devia ser penalizado por estas brincadeiras. Isto é a gozar com os desgraçados que passaram por essa zona a arrastarem-se. É espetar-lhe com 2h de penalização. Da próxima já não goza com os coxos!

 

1.jpg

 

No dia seguinte, em Miranda do Corvo, tomando partido da realização da Taça de Portugal Trail Ultra Endurance, a ATRP decidiu realizar a Cerimónia de Entrega de Troféus referentes à última época. Nesta Cerimónia vimos os atletas da EDV-Viana Trail subirem 9 vezes ao pódio. Ricardo Silva desmaiou à segunda subida ao pódio e tiveram de lhe dar água com açúcar para que ele conseguisse subir mais duas. Jérôme Rodrigues agravou a lesão que contraiu durante a prova ao subi-lo por 4 vezes—e diz que a partir de agora vai fazer os possível para nunca mais ir ao pódio: “A partir de agora, o meu objectivo é o 4-º lugar.”

 

Já perdi 4kg desde que parti a clavícula. Só no UTAX perdi dois. Acho que ficaram na subida ao Observatório. Estou a ficar no ponto! Não sei para quê, mas estou.

 

12182766_684434341696722_3340189807597056330_o.jpg

ANTEVISÃO: UTAX 2016

por Pedro Caprichoso, em 17.03.16

utax.jpg

 

Costuma-se dizer que não há duas sem três. Mentira. Nem sempre conseguem-se dar três. Mente quem diz que consegue. Sempre? Não acredito. Eu não consigo. Por vezes dou duas e já não consigo dar mais. Fico-me pelas duas. Não no UTAX. No UTAX já dei três—e não haverá três sem quatro. 2012, 2013, 2014, ano sabático em 2015 e regresso apoteótico em 2016. Não vos deixarei mal. Os meus fãs e patrocinadores podem contar comigo. Prometo-vos. Nem que tenha de repetir a minha última performance. Terei todo o gosto de adubar novamente a Serra da Lousã por meio do meu aparelho digestivo.

 

borrartodo.jpg

 

Não quero saber que tenha estado 3 semanas em coma induzido em resultado de um acidente de viação; não quero saber que tenha engordado 30kg durante esse período; não quero saber que o meu mapa astrológico desaconselhe a minha presença em eventos desportivos a sul do rio Douro. Caguei. Siga. Desistir não faz parte do meu vocabulário. Perigoso é o meu segundo apelido. O terceiro é Tesudo. Acredito em todos os clichés e frases feitas vomitadas nas redes sociais. Tenho fé. Acredito que basta acreditar. Como lama com estrelitas ao pequeno-almoço, depilo-me com carqueja da Serra da Freita e por vezes não publico os meus treinos nas redes sociais. Nunca empreguei um hashtag. Vivo no limite.

 

Posto isto, na minha autoproclamada qualidade de veterano do Ultra Trail Aldeias do Xixi, leiam bem o que eu tenho para vos dizer. É muito importante. Ide buscar um bloco de notas e uma esferográfica. Este meu conselho pode representar a diferença entre desistir num charco de lágrimas ou ser finisher e eventualmente papar uma voluntária. O segredo para ser finisher do UTAX (e ainda acabar com força suficiente para papar a voluntária) está na vossa cabeça. É mental. À partida de uma prova destas há que interiorizar o seguinte: a determinado momento irei passar mal e vou querer desistir. Repitam 110 vezes: “A determinado momento irei passar mal e vou querer desistir”. Uma repetição por cada km de sofrimento, como se de um mantra budista se tratasse. Ninguém faz o UTAX sem passar por períodos maus. Ninguém. Nem o Vitorino Coragem. Coragem. Perante tal inevitabilidade, restar-vos-á receber o homem da marreta de braços abertos, abrandar, repor calorias e esperar que ele vos deixe em paz. O maior erro dos novatos (e de alguns burros velhos) é ranger os dentes e tentar lutar contra o homem da marreta. Lutar contra a marreta é estúpido. Não sejas estúpido. Ninguém vence a marreta.

 

Tenho uma boa notícia para quem fez os Abutres e ainda não fez o UTAX: os Abutres são um bom teste para o UTAX. A única diferença é que o UTAX tem mais 60km. Coisa pouca. Quem faz 50, faz 110. Façam assim: multipliquem o vosso tempo dos Abutres por 2,5 para que a vossa cara-metade saiba a que horas vos deve esperar na recta de meta. É desumano ver crianças ao colo das mães durante horas a fio na expectativa de fazerem os últimos 50 metros com o pai. Já vi gente ser acusada de maus-tratos por menos.

 

balloon-940x626.jpg

 

Poder-me-ão facilmente identificar à partida do UTAX. Serei o tipo com o balão das 17h. Vou fazer de lebre da minha colega de equipa Fernanda Verde. Tentarei aguentar-me com ela o maior tempo possível. Pelo menos até ao nascer do dia. Isto se ela não me abafar antes, deixando-me a comer o seu pó.

 

Lamento informar-vos, mas nem todos conseguirão acabar o UTAX. Tudo depende do vosso peso corporal e da marca das sapatilhas. Uma vez que estou com 30kg a mais, terei de compensar o excesso de peso recorrendo ao modelo de calçado mais caro do mercado. Falo, como é evidente, das novíssimas Adidas Speedcross.

 

17871040_BBoah.jpeg

 

Glossário Masculino dos Emojis

por Pedro Caprichoso, em 10.03.16

emojis.jpg

 

Esta publicação foi feita a pensar nas mulheres. No sentido de facilitar a comunicação entre o sexo masculino e feminino no âmbito do Trail, dei-me ao trabalho de elaborar o glossário masculino dos emojis. Neste glossário podem encontrar o significado dos emojis utilizados por um atleta masculino em resposta à publicação de uma atleta do sexo feminino. Meninas, agora já não têm desculpa. Já não podem dizer que não sabem o que os homens querem.

 

emojis3.jpg

 

 

 

Os Inimigos do Trail

por Pedro Caprichoso, em 09.03.16

524b45bde691b20c72c4428f_736.jpg

 

Há inúmeros motivos para entrar no mundo do Trail: competição, superação, saúde, contacto com a natureza, divertimento, camaradagem, masoquismo, engatar gajas boas. Tudo razões válidas. Há porém uma subespécie de atletas que praticam Trail por outra razão: pelos aplausos. Apenas e só pelos aplausos. Custa-me dizê-lo, mas a procura de aplausos é mais evidente nas Ultras. Há tipos que fazem Ultras com o único propósito de se destacarem do comum dos mortais. Querem sentir que pertencem a um grupo restrito de “super-atletas” e que merecem os aplausos condizentes com esse estatuto, seja na forma de likes ou de comentários lambe-cu. Comentário lambe-cu é aquele tipo de comentário que nos dá a sensação de que nos estão a lamber o cu. Três exemplos: “És uma Máquina!”; “Campeão!”; “O céu é o limite.”

 

Esta gente não quer que o Trail cresça. A massificação, do seu ponto de vista, é a pior coisa que pode acontecer à modalidade. Pretendem, pelo contrário, que permaneça um desporto de nicho. Que saudades dos bons velhos tempos, quando eram apenas meia-dúzia os “maluquinhos” que se aventuravam por esses montes fora, percorrendo distâncias de três dígitos. Eram autênticos heróis aos olhos do comum dos mortais. Sentiam-se especiais. O problema é que o Trail entretanto empubesceu—ide consultar o dicionário que eu espero—e massificou-se. As pessoas começaram a perceber que fazer uma Ultra não é uma coisa do outro mundo; que todos, com um mínimo de preparação, conseguem fazer 100k; que tudo depende do ritmo; que uns fazem-nos mais depressa do que outros—e que essa é a única diferença.

 

Neste contexto, os aludidos já não se sentem especiais. Sentem-se desdenhados com tanta gente a fazer o mesmo que eles. Em vez de regozijarem com o crescimento do Trail, grunhem justamente o oposto. Atiram a desculpa esfarrapada de que o “Trail já não é o que era”. Daí a abandonarem a modalidade é um passo, trocando-a por outra que lhes ofereça o mesmo que o Trail lhes oferecia inicialmente: os tão cobiçados aplausos. Meus caros, falei com a modalidade e ela disse-me que não vos conhece de lado nenhum: “Não me apercebi que esses tipos me praticavam”, exclamou surpreendida a modalidade. Parece que o Ironman e o Crossfit é o que agora está na moda.

 

Dito isto, o leitor pergunta e com razão: e qual é o problema de um tipo deixar o Trail e trocá-lo por outra modalidade? Ao que eu respondo: tirando a hipocrisia, nenhum. Hipocrisia é quando se apregoa aos sete ventos de que se está no Trail pela superação, pelo contacto com a natureza e pela camaradagem—e depois abandona-se a modalidade, de um dia para o outro, com o argumento de que esta massificou-se. Em que é que a massificação altera a tua capacidade de superação, contacto com a natureza e camaradagem? Quem está no Trail por paixão, está-se a cagar para a massificação. Parece que fiz uma rima sem querer e encontrei a epígrafe do meu túmulo:

 

Quem está no Trail por paixão

Está-se a cagar para a massificação

REALITY CHECK

por Pedro Caprichoso, em 04.03.16

reality-check.jpg

 

Não percebo a necessidade dos atletas amadores justificarem os seus resultados. Se são profissionais, ainda vá que não vá. Sempre faz mais sentido. Estão a assumir a responsabilidade de um “trabalho” mal feito. Agora, os amadores? Por que carga d’água? De onde vem essa necessidade? Reality check: vossas excelências são amadores! Façam o melhor que podem—que a mais não são obrigados.

 

No rescaldo das provas, vira o disco e toca o mesmo: o Zé Povinho—Atleta acerca-se de um dispositivo ligado à rede e nele computa as razões que o levaram a produzir um resultado de bosta. Ainda com sal na cara e lama nas pernas, o Zé saca do telemóvel e lá vem a velha história do “não abasteci convenientemente”, “parti depressa demais”, “dormi mal na noite anterior”, “o meu signo não me favorecia”, “a patroa meteu-me os cornos” e o clássico “na véspera participei numa suruba com 4 ucranianas”. Para quê? Por quê? Não há neeeccceeesssiiidddaaadddeee!

 

Dissequem o percurso, analisem a organização, avaliem o vosso desempenho, promovam os vossos pseudo-patrocinadores, mandem beijinhos à família, mandem papaias à concorrência e agradeçam a nosso senhor jesus cristo. Façam isso tudo, mas não se justifiquem. Nem nas derrotas, nem nas vitórias. Para quê? A quem é que vocês devem explicações? Se correu mal, as justificações soam a desculpas. Se correu bem, soam a soberba. Como dizem os anglo-saxónicos: it’s a no-win situation.

Jesus também tinha uma pilinha

por Pedro Caprichoso, em 27.02.16

A maior crítica que me fazem é a de que estou sempre do lado do contra. Mentira. Nem sempre. É certo que amiúde nado contra a corrente, mas por vezes também sigo a carneirada. A foto abaixo publicada é exemplo disso mesmo. Muitos foram os carneiros praticantes de Trail Running que hoje publicaram uma foto na neve—e eu não podia faltar à chamada. Mais uma foto na neve e o facebook explode. Esta é a gota que faz transbordar o copo.

 

123.jpg

 

Não censurei o meu "malaquias" porque tenho medo de ser acusado de atentado ao pudor. Censurei-o porque ele é mesmo muito pequinino—e mais pequinino ficou porque estava um frio de rachar. Ou melhor: um frio de encolher pilinhas. A tapar o meu “malaquias” está uma imagem de Jesus com a seguinte inscrição: “Jesus também tinha uma pilinha”.

 

mw-768.jpg

 

Uma foto na neve e uma observação sobre a polémica do cartaz do Bloco de Esquerda. Se isto não é seguir o rebanho…

Os Casalinhos do Trail Nacional

por Pedro Caprichoso, em 24.02.16

aqui escrevi que um dos erros mais comuns cometidos pelos praticantes de Trail Running é apaixonarem-se uns pelos outros. No entanto, pelos vistos, não valeu de nada. Andam-se todos a marimbar para os meus conselhos. Depois digam-me que eu não vos avisei. Depois venham pedir-me colinho. Ombro posso dar. Colinho nem pensar.

 

Emelie-Forsberg-Kilian-Jornet-fot.-facebok.com-tin

 

Nunca como agora se viu tanto casal pelos montes do nosso Portugal e arredores. Antigamente viam-se alguns, mas esses não chegavam a sair das viaturas. Que praga! Tanto mel, tanto «fofinho», tanto “bebé», tanto «xuxu», tanto sorriso rasgado, tanta selfie a dois, tanta mão dada ao nascer-do-sol, tanto linguado ao pôr-do-sol, tanta declaração armada ao pingarelho, tanta jura de amor eterno. Como se o amor não lhes bastasse, ainda fazem questão de esfregar a sua felicidade na cara dos outros. Até metem nojo! Só pensam neles. Não pensam nos atletas que vivem na solidão e—cuidado que vem aí uma metáfora da construção civil—ainda não tiveram a sorte de encontrar a porca para a sua bucha.

 

12657402_10208607139678319_8853176262483008813_o.j

 

Não percebem que exibir a sua felicidade diminui a felicidade dos outros. Depilar as pernas da nossa cara-metade é muito bonito; fazer uma massagem de recuperação à nossa respectiva é muito bonito; passar creme antifricção no rabinho da nossa mais-do-que-tudo é muito bonito. Agora imaginem fazê-lo sozinho. É muito triste. Quando era solteiro, lembro-me de carpir enquanto passava vaselina nas virilhas. Não ter quem nos passe vaselina nas partes baixas é muito triste. Nisto ninguém pensa. A crise dos refugiados também é triste, mas não se compara.

 

12661852_483827121801172_3926861462264086552_n.jpg

 

O Trail é um desporto propício ao amor: calções de lycra justinhos, rabos empinados, decotes convidativos, o ar da serra e a libertação de dopamina (associada ao exercício) são o combustível que faz acender o fogo da paixão. Há que, por isso, resistir à tentação. Por quê? Porque não vai funcionar. Metam isso na vossa cabeça: não vai funcionar. Falo por experiência própria: apaixonei-me loucamente pela Analice, mas a nossa relação foi de pouca dura. Eu queria fazer os Abutres; ela fez a Marathon des Sables. Eu depilo-me; ela prefere homens peludos. Eu queria que usássemos equipamentos a condizer; ela veste o que lhe apetece. Eu queria assentar; ela quer divertir-se. Até que passei o prazo de validade e ela trocou-me por um mais novo. Deu-me à troca.

 

12031460_1623575514572201_8786082419826626168_o.jp

 

Dito isto, esta é mais uma daquelas situações em que se aplica a máxima: “Faz aquilo que te digo. Não faças aquilo que eu faço.” Pois parece que não aprendi a lição e já me meti noutra embrulhada:

 

11202596_638869662919857_6384049729005859072_n.jpg

 

Atropelei um Carro

por Pedro Caprichoso, em 19.02.16

Há muito tempo que não ficava tanto tempo sem correr. Da última vez que me lesionei ainda corria de t-shirt de algodão, relógio Casio e pêlos nas pernas. Corria o ano de 2001. A bem dizer não foi lesão. Foi desgosto amoroso. Apaixonei-me por uma fisioterapeuta estrábica, roubei-lhe um beijo e ela partiu-me o coração—e coração partido não configura lesão. A catraia não gostou do beijo e tencionava partir-me os cornos. Acabou por partir-me apenas o coração. Por sorte era estrábica. Apontou para a cabeça e acertou-me no coração. Do mal o menos.

 

Já passaram duas semanas e a clavícula ainda me doí. Esta, sim, uma lesão a sério. Também quem é que me mandou atropelar um carro? Estava a pedi-las. Mesmo. A vítima deslocava-se num veículo automóvel e eu—o culpado—fazia-me transportar num veículo de duas rodas desprovido de tracção motorizada—vulgo bicicleta. Eu ia de cima para baixo. Ele vinha de baixo para cima. Eu pretendia seguir em frente. Ele virou à esquerda, invadiu a minha via de trânsito, atravessou-se à minha frente, travou quando me viu e eu ainda tive a desfaçatez de ir contra ele. Minha culpa. Minha tão grande culpa.

 

12644767_1094720630571996_5189902291754400029_n.jp

[créditos: Duarte Nuno Oliveira-Zahir]

 

O estimado leitor está neste momento a questionar os seus conhecimentos do código da estrada. Não esteja. Lamento confundi-lo. Não é essa a minha intenção. A prioridade era minha? Era. Nada porém justifica ter-me amandado para cima da viatura. Não havia necessidade. Popó a cheirar a novo, acabado de sair do stand, branco como a neve—e eu vou e risco-lhe a pintura? Não está certo. Faltaram-me os reflexos. Nem travar consegui. Devia ter guinado para a direita, evitado a viatura e embatido no muro contiguo à estrada. Antes o muro que o carro. Podia não estar agora aqui a contar a história, mas ao menos não estaria com peso na consciência. Morto não tem consciência. Mas não morri. Ao invés de falecer, fui projectado 3 metros a 40km/h por cima do capô da viatura, fiz um mortal à frente, dei finalmente uso ao capacete, beijei o chão com a clavícula direita e fui arrastado 4 metros sobre alcatrão fofinho. Culpa da velocidade cinética em conluio com a gravidade. Resultado: fractura da clavícula, costas pisadas e o rabinho assado.

 

DAAA.jpg

 

Embora não o tenha verbalizado, o condutor estava visivelmente aborrecido com o meu comportamento. Onde é que já se viu? Um tipo deslocando-se de carro para o trabalho e, vindo do nada, aparece-lhe um ciclista para riscar a pintura da sua nova viatura? No lugar dele ficaria pior que fodido. Daí que logo lhe tenha pedido desculpas. Ele aceitou-as e depressa se acalmou. Foi ele, aliás, que ainda me fez o favor de chamar a ambulância. Disse-lhe que não era preciso; que não tinha partido os braços; que conseguia alcançar o bolso do telemóvel. Mas ele insistiu. Santo homem.

Análise dos Resultados dos Melhores da Corrida 2015

por Pedro Caprichoso, em 09.02.16

19226657_E3O6C.jpeg

 

Os resultados de 12 das 13 categorias (da votação promovida pelo blogue Correr na Cidade) não me chocam. Alteraria a ordem dos pódios em algumas categorias, mas não me chocam. Parecem-me surpreendentemente aceitáveis. No entanto, no melhor pano cai a nódoa—e a última categoria estraga tudo.

 

David Quelhas (votação do público) e Armando Teixeira (votação do júri) foram considerados os melhores atletas nacionais masculinos. A sério? Mas vocês estão a brincar comigo? Não é comigo: vocês estão é a brincar com a tropa! Só pode. Melhores atletas de Trail? Tudo bem. Não digo que não. Seria discutível, mas não me chocaria. Agora, melhores atletas nacionais? Nacionais?

 

Deixem-me ver se eu percebi bem: vocês estão-me a dizer que atletas de uma modalidade amadora são melhores atletas do que atletas profissionais de atletismo? Em que planeta? Lembro-vos que alguns destes atletas são atletas olímpicos. Lembro-vos que um deles é campeão olímpico—o mesmo que no ano passado fez bronze no Campeonato do Mundo de Atletismo. Estamos a falar de um Campeão Olímpico, por amor do Santíssimo!

 

Comigo os hipócritas não fazem farinha, por isso tenham lá calma antes de me crucificarem na praça pública. Para evitar eventuais equívocos, quero deixar bem claro que eu não estou a desvalorizar em nada o valor do Armando e do Quelhas—dois dos atletas que mais admiro no Trail Nacional. Acontece que estamos a comparar coisas que não são comparáveis. Estamos a comparar atletas amadores de Trail— uma modalidade que está a dar os primeiros passos—com atletas profissionais de Atletismo—cujo nível competitivo é infinitamente superior ao do Trail. A nível nacional, seria o mesmo que comparar jogadores de futebol da Primeira Liga com jogadores de Futebol de Praia.

 

Digo mais: neste momento, em Portugal, tirando uma ou duas excepções, qualquer atleta profissional de atletismo é, em termos comparativos, melhor atleta do que qualquer atleta de Trail. Quem não perceber isto, não percebe nada de desporto. Os actuais praticantes de Trail parecem esquecer-se de que são os pioneiros da modalidade. Daqui a 20 anos, segundo a lei da evolução, os atletas de Trail serão infinitamente melhores do que os atletas actuais. Voltem a fazer esta votação em 2036 e, talvez, nessa altura, haja um atleta de Trail melhor do que um atleta profissional de Atletismo. Talvez.

 

Estou-me positivamente a cagar para a votação do público. O público vota por afinidade e isso deturpa os resultados. Agora, o júri? O que vos deu? Aceitaram algum suborno da ATRP? Só pode. Conheço alguns dos elementos do júri, mas tenho de perguntar isto na mesma: vocês percebem alguma coisa da poda?

 

É evidente que deveriam ter sido criadas duas subcategorias dentro da categoria de melhor atleta: uma para o Trail e outra para o Atletismo (Pista / Estrada). Fizeram-no com as outras categorias e não se percebe por que não o fizeram com esta. Vá lá que a Sara Moreira foi eleita a melhor atleta feminina. Do mal o menos.

Os Verdadeiros Vencedores da Corrida no Monte

por Pedro Caprichoso, em 09.02.16

Um dia depois do blogue Correr na Cidade ter divulgado os resultados d'Os Melhores da Corrida 2015, o TopMáquina ficou com ciúmes e deliberou, em reunião de conselho de administração, divulgar os resultados da votação por nós promovida no passado dia 23 de Janeiro.

 

Embora o universo de respostas da nossa votação seja inferior (270) ao da votação promovida pelo Correr na Cidade (751), é incontestável que os nossos dados são mais fiáveis. Isto explica-se pelo facto de que os nossos leitores têm, em média, um QI superior ao dos leitores do Correr na Cidade.

 

Parabéns aos vencedores. Ei-los:

 

01.jpg

 

02.jpg

 

03.jpg 

 

The Dream Team

por Pedro Caprichoso, em 06.02.16

vt.jpg

 

A EDV-Viana Trail (VT) não é melhor do que as outras equipas. Seria demagógico afirmar o contrário. Seria como afirmar que Portugal é o melhor país do mundo sem de ele nunca ter saído. Pior do que demagógico, seria ignorante. Não conheço por dentro as outras equipas e, como diz o povo, é feio meter a pilinha em penico alheio. Não obstante, se as outras equipas forem a soma dos seus membros, posso apenas inferir que equipas espectaculares é coisa que não falta no Trail Nacional. De gente boa está o Trail cheio.

 

Também nós somos espectaculares. Mais do que espectaculares, somos fofinhos. A melhor forma de nos definirmos é a seguinte: somos espectaculares, bué fofinhos e dotados de identidade guerreira. Não nos subestimem. Não cometam esse erro. Se fôssemos um animal, teríamos corpo de panda e temperamento de rinoceronte.

 

Não há equipa como a nossa. Por quê? Pela simples razão de que somos únicos. Não somos melhores. Somos diferentes. Os atletas do VT não existem fora do VT. Não é metafísica. É a opinião de quem está presentemente e fortemente sob o efeito de analgésicos.

 

Não somos clonáveis. Não andamos a reboque dos outros. Antes abrimos o nosso próprio caminho. Por vezes à catanada. Somos um grupo aberto. Somos de e para todos. Uns correm mais, outros correm menos e todos correm o que podem. A corrida é o instrumento, a amizade a fita-cola e o anti-vedetismo o ingrediente secreto. O VT "é um estado de espírito", como diz o nosso Presidente.

 

 

Moral da história: não corram sozinhos. Juntem-se a uma equipa. O resto é papo-furado.

Rescaldo dos Abutres 2016

por Pedro Caprichoso, em 04.02.16

12573075_480043328846218_9155463496049465113_n.jpg

 

Tirando aquela vez em que dei o rabinho ao vigário da minha paróquia, estes foram os 500 paus que menos me custaram ganhar até hoje. Com cachês destes vou deixar de trabalhar. Gosto muito de dar o rabinho, mas prefiro ganhar dinheiro abrindo a boca de outra forma. Abri a boca 5 vezes, 4 das quais para bocejar. Não que a tertúlia não estivesse a ser interessante. Estava. Eu é que estava morto de sono. Havia passado a noite anterior a dar o rabinho. Já vos disse que dou o rabinho? Não é sempre. Só de vez em quando: quando tenho o saldo bancário negativo e preciso de sapatilhas novas. Prometo que não falo mais do meu rabinho neste parágrafo.

 

 

Viram como eu cumpro as minhas promessas? Cumprida a promessa, voltemos ao rabinho. Desta feita não ao meu. Vamos antes focar-nos no rabinho do Sérgio Duarte. O rabinho do Sérgio—mais conhecido como o tipo das Barras Olimpo—fez deflagrar uma bomba de metano a escassos minutos do tiro de partida dos Trilhos dos Abutres. Instantes após a explosão, formou-se uma cratera à volta do Sr. Olimpo—e este foi avançando pelotão acima de maneira a partir à frente do mesmo. Não estou a insinuar. Estou a afirmar, enquanto perito em flatulência, que o traque foi premeditado. O tipo peidou-se intencionalmente para partir melhor posicionado. Estão a ver aquela passagem da bíblia em que Moisés abre o Mar Vermelho para possibilitar a travessia dos filhos de Israel? É a mesma coisa.

 

Era ver o pessoal a tirar os buffs da cabeça e a colocá-los à frente da boca; um atleta asmático, que se encontrava no epicentro do rebentamento, viu-se forçado a sacar do inalador; um espanhol, que se encontrava ao lado do Paulo César, teve um ataque de pânico ao julgar que estávamos a ser alvo de um ataque químico perpetrado pelo Estado Islâmico; e eu, que me encontrava atrás do Sérgio a atacar as sapatilhas, fiquei com as sobrancelhas chamuscadas. Já me perguntaram se ando a fazer quimioterapia.

 

Posto isto, impõe-se a pergunta: que raio têm as Barras Olimpo para produzirem tamanha devastação?

 

moises.jpg

 

Passei a noite de Sexta para Sábado no Centro de Trail de Miranda do Corvo e não dormi nada. Estava lá um tipo que ressonava como um tractor e não preguei olho. Se soubesse teria ficado com os meus colegas de equipa no solo duro. Poderia acordar com dores nas costas, mas ao menos teria descansado. Além de que o ambiente era mais aconchegante, como se pode verificar pela foto abaixo publicada. Agora percebo por que lhe chamam “solo duro”. Ênfase no duro.

 

12645214_10153329568304599_2738504355288715212_n.j

 

Ai se vocês soubessem o quanto eu gosto daqueles tipos que dizem mal das Organizações durante as provas—e, depois, quando chegam a casa, vão para as redes sociais anunciar que, neste caso, os Trilhos dos Abutres são mágicos, deslumbrantes, a life changing experience e o raio que o parta. Só para informar que me cruzei com meia dúzia destes espécimes. O que durante a prova eram trilhos com lama a mais, depois da prova transformaram-se em trilhos pesados; o que durante a prova eram trilhos que punham em perigo a vida dos atletas, depois da prova transformaram-se em trilhos desafiantes; o que durante a prova eram trilhos para caminheiros, depois da prova transformaram-se em trilhos para duros. A estes aconselho adquirirem um fazedor de coerência. Este electrodoméstico está em promoção no Lidl. Aproveitem.

 

Os atletas são unanimes ao reconhecerem que a Organização dos Abutres esteve ao mais alto nível, nomeadamente ao nível das marcações. Das marcações ninguém se pode queixar. Estavam perfeitas. De uma fita via-se a fita seguinte; e o sentido errado, nos cruzamentos mais duvidosos, encontrava-se devidamente barrado. Estavam tão, mas tão boas, que nem se notou o facto de serem brancas. Por outro lado, a presença de gajas boas na prova curta (25k) é o único aspecto negativo que aponto à Organização. Não é a união de provas que me incomoda. Pode haver união; o que não pode haver é gajas boas a disputar a prova curta. Eu gordos ultrapasso bem: passo-lhes uma rasteira. O problema são as gajas boas. Um gajo distrai-se quando seguimos atrás delas naqueles single-tracks apertadinhos: estamos constantemente a tropeçar, roçamo-nos nelas sem querer e quedamo-nos junto delas mais tempo do que o necessário. Contei 22 gajas boas e, junto a cada uma, perdi cerca de 3 minutos. Percebem agora por que fiquei a mais de 1h do primeiro?

 

12647001_10153462206183261_8432900748754309875_n.j

 

Os Abutres são uma prova de Trail. No entanto, por vezes, dada a quantidade de linhas de água, parecem uma prova de natação; por vezes, dado o piso escorregadio, parecem uma prova de ski; e, a determinado momento, a edição deste ano assemelhou-se, inclusive, a uma partida de bowling. Na descida assistida por corda antes do abastecimento de Nossa Senhora da Piedade (29k), um pedregulho do tamanho de uma melancia soltou-se e desatou a rebolar encosta abaixo. Não fosse o aviso de um colega de equipa e a Fernanda Verde teria sido abalroada pelo calhau como se de um pino se tratasse. Por sorte estava um cavalheiro nas imediações. O José Feiteira fez-se homem, pegou na pedra e carregou-a até à base da descida. Partiram o molde quando fizeram o José. Um senhor.

 

12669444_1698134733766453_8719182321481959166_n.jp

 

Os Trilhos dos Abutres são sinónimo de dureza. Tal dureza ficou bem demostrada este ano, não tanto pelo perfil ou altimetria, mas antes pelo facto de muitos atletas terem alucinado durante a prova: uns afirmam que viram um casal de javalis a acasalar; outros juram a pés juntos que se cruzaram com um veado; e até há um que diz que foi mordido por um cão. A meu ver, o que aconteceu foi: pensam que viram javalis, mas na verdade eram dois atletas do Arrábida Trail Team a fazerem miminhos um ao outro; pensam que se cruzaram com um veado, mas na realidade tratava-se de uma Gazela—a tal que ficou em 8.º lugar da geral; e o Délio foi mordido por um cão d’avenida com hipoglicemia, como é evidente.

 

12241301_475990665917082_8337024874687386484_n.jpg

 

As cãibras não quiseram faltar à festa e marcaram presença em força nos Abutres 2016. Muitos foram os atletas que se queixaram delas no fim da prova. Uns tiveram-nas a subir, outros tiveram-nas a descer e até houve um desgraçado que as teve nos tomates. Perguntem ao Jorge que ele conta-vos os pormenores. Ainda na zona da genitália, o que dizer do homem com o maior badalo dos Abutres? Chama-se Romeu Gouveia, tem 12 anos e já lhe dá no badalo como gente grande. É de jovens atletas apaixonados pela modalidade que o Trail precisa. Mandem vir mais 3 paletes e 5 resmas de Romeus, sff. Farto-me de dizê-lo e volto a repeti-lo: mais malucos do que os malucos que correm no monte, são os malucos que vão para o monte ver outros malucos correr.

 

12640395_10205423936980131_867982395390746543_o.jp

 

O trio constituído por Ricardo Silva, André Rodrigues e David Quelhas dominou os primeiros 2/3 da prova, altura  (37k) em que o último decidiu atacar rumo à aldeia de Gondramaz. O atleta da equipa Coimbra Trail Running arriscou tudo na descida e seguiu isolado até à meta, deixando a luta em aberto pelo segundo lugar. No entanto, num bonito gesto de desportivismo, Ricardo e André decidiram cortar a meta juntos. Uma vez que seguiam juntos à entrada dos últimos 2km, não faria sentido resolver no alcatrão o que não ficou resolvido nos trilhos. E ainda andam por aí uns iluminados que dizem que o Trail já não é o que era. Façam-me um favor: ide dar banho ao cão.

 

12650949_481891751994709_3664604112197948926_n.jpg

 

Tendo em conta a diferença de 10 minutos entre o primeiro e os segundos classificados, poder-se-á supor que o David ganhou com facilidade. É falso. Foi tudo menos fácil. Os seus joelhos ensanguentados contam outra história: a história de uma descida estabanada. É certo que o rapaz tem tomates de aço e o lastro fá-lo ganhar velocidade, mas não subestimem a sua técnica. Esta tem de ser apuradíssima. De outra forma, estaríamos no próximo Sábado a celebrar a sua missa de sétimo dia. Seja como for, certo é que o David teve ainda tempo de fazer 20 pull-ups. Testemunhas na meta afirmam que ele justificou o exercício pelo facto de usar aqueles trilhos como circuito de manutenção e que, por instantes, se esqueceu de que estava em prova.

 

12642475_1687261934845819_1556791736097643098_n.jp

 

A EDV-Viana Trail foi a grande vencedora colectiva dos Trilhos dos Abutres 2016. A meio da prova, no entanto, para surpresa de todos, era a equipa da Satecnosol que liderava com 3 atletas posicionados entre o primeiro (Ricardo Silva) e os restantes atletas da equipa de Viana do Castelo. Atacando a prova desde o início, os amarelos da Satecnosol perderam gás na segunda metade e caíram para o segundo lugar. Nada que porém desvalorize aquilo que todos consideraram um resultado brilhante. Em terra de veados, o Gazela foi um dos que mais correu.

 

O nome “Satecnosol” deriva do apelido “Sá”, do diminutivo “tec” e do detergente “Sonasol”. “Sá” porque José Sá é o Presidente/Director-Desportivo/Atleta da equipa com sede em Paredes; “tec” porque o seu equipamento vem artilhado com tecnologia de ponta; e “Sonasol” porque esse é o ingrediente secreto que os seus atletas colocam no isotónico. É um nome com pedigree, embora um tanto ou quanto fleumático. Vai daí sugeri ao Sá que mudassem o nome para “Bandido Trail Running Fucking Team”. Tudo indica que ele fez ouvidos moucos da minha brilhante sugestão.

 

12615203_894669520659233_4558856615785230728_o.jpg

 

A nota negativa desta edição dos Trilhos dos Abutres vai para a equipa Dr. Merino/Nutrifit. Não estou a falar da sua performance desportiva, que foi excelente. Não estou a falar do seu fair-play, que foi admirável. Estou antes a falar da forma como os homens da aludida equipa tratam as suas mulheres. Sabem o que os marmanjos fizeram? Terminaram a prova, foram ao banho, não esperaram pelas meninas, fugiram com a chave da viatura da equipa e deixaram-nas ao frio. Aliás, este parágrafo está a ser escrito a pedido das manas Vieira. Parece-me pois evidente que já não há cavalheiros em Paredes. Em nome da EDV-Viana Trail, venho nesse sentido demonstrar a nossa disponibilidade em acolher as manas Vieiras e restante contingente feminino da Dr. Merino/Nutrifit. Meninas, peçam recomendações à Fernanda Verde e releiam o episódio do pedregulho acima descrito. Nós tomamos conta das nossas mulheres.

 

12651165_1667994123449902_5787296988946095388_n.jp

 

Por fim, suplico-vos: não corram sozinhos. Juntem-se a uma equipa. O resto é papo-furado.

 

12592752_1725163754369364_458946729576689222_n.jpg

Antevisão dos Abutres 2016

por Pedro Caprichoso, em 27.01.16

Vejo muita gente assustada com os Abutres. Sobretudo os novatos. No facebook só leio publicações acagaçadas. Andam todos borrados de medo. Os finishers da última edição classificaram-na como a mais dura de sempre—e os novatos, com medo, andam por aí todos a borrar a cueca.

 

10626749_451578445026040_7789329824985484789_n.jpg

 

Tenho inclusive um colega de equipa que tem padecido de pesadelos recorrentes. Não vou identificá-lo por uma questão de respeito. Dar-lhe-emos o nome fictício de Diogo Lopes. O Diogo confessou-me que já não dorme há uma semana e que o seu pesadelo é sempre o mesmo: escorrega, cai de cu em cima de um ouriço, esgaça o rabinho, não consegue levantar-se e é engolido pela lama. Perante isto, fiz o que estava ao meu alcance no sentido de tranquilizá-lo. Assegurei-lhe que o seu pesadelo jamais se concretizaria: «Em finais de Janeiro já não há ouriços», disse-lhe. «A época dos ouriços é no Outono, pelo que a probabilidade de algum se alojar no teu ânus é praticamente nula.» E rematei reconfortando-o: «Escorregar é garantido. Cair de cu uma certeza. Ser engolido pela lama uma possibilidade. Agora, esgaçar o rabinho num ouriço? Isso está fora de questão. Podes esgaçá-lo, mas não num ouriço. Talvez num eucalipto bebé ou numa pedra aguçada.» Penso que fui um bom amigo. Acredito que ele hoje já vai dormir mais descansado. Como um bebé.

 

17980459_EQE2K.jpeg

 

Dito isto, não tenham medo dos Abutres. Não acreditem em tudo o que vos dizem. Os Abutres não são esse bicho-papão que vos tentam vender. São muito piores. Preparem-se para o pior. Confessem-se, redijam o vosso testamento, acendam uma vela a São Olmo e escrevam uma carta de despedida aos vossos familiares. Pelo sim, pelo não. Acham que estou a exagerar? Então façam o favor de visualizarem o vídeo abaixo publicado. Tiro-vos o chapéu se conseguirem fazê-lo com as calças secas. O xixi vai estar em alerta vermelho. Depois digam que eu não vos avisei. A Dodot está em promoção no Continente. Aproveitem.

 

 

Por fim, um convite: apareçam e participem na tertúlia a realizar, sexta-feira, dia 29, no Mercado Municipal de Miranda do Corvo, por volta das 20h00. Para quê? Olha, por exemplo, para atirem ovos e tomates podres à minha pessoa sempre que eu disser um disparate. O que me dizem?

Os Melhores do Trail Nacional 2015

por Pedro Caprichoso, em 23.01.16

Plagiando (à descarada) o blogue Correr na Cidade, o TopMáquina vem por este meio promover uma votação no sentido de determinar os Melhores do Trail Nacional 2015. Os resultados serão divulgados a seu tempo. Ou seja, quando bem me apetecer.

 

Anton-running.jpg

 

Os Melhores da Corrida 2015

por Pedro Caprichoso, em 20.01.16

Melhores 2015.jpg

 

O blogue Correr na Cidade encontra-se a promover uma votação no sentido de determinar os Melhores da Corrida 2015. A votação é constituída por 3 temas agrupados em várias categorias e o júri composto por pessoas ou grupos convidados pelo supracitado blogue. Ainda estou em choque por não ter sido convidado. Falta de consideração. É o que é. Até aposto que o tipo do Tripas e Nortadas foi convidado. É por estas e por outras que. Vocês sabem o que eu quero dizer. Uns são filhos e outros enteados. É o sistema. Tráfico de influências. Corrupção. Cunhas. Padrinhos. Maçonaria.

 

Mas não julguem que me calam. Jamais calar-me-ão. Muito menos silenciarão. O que agora ficava bem era uma rima com tesão. Ou com feijão. Vocês ainda têm de comer muito arroz com feijão. E farofa. E picanha. Tal desconsideração não me vai porém impedir de influenciar a decisão dos jurados. And the running oscar goes to…

 

MATERIAL E MARCAS DE CORRIDAS

 

Melhor Marca de Running

Meia da Raquete.

 

Melhor Modelo de Sapatilha de Estrada

Crocs Z-Lab Sense 5.

 

Melhor Modelo de Sapatilha de Trail Running

Adidas Speedcross.

 

Melhor Acessório de Corrida

COMPREX – O Preservativo para o Trailer do Século XXI.

 

 

TREINOS E PROVAS

 

Melhor Treino Social

5F Bravas à Hora do Bagacinho na Cova da Moura.

 

Melhor Prova de Estrada

Ermesinde Night Urban Trail Fucking Running.

 

Melhor Prova de Trail Running

Légua Nudista.

 

Melhor Circuito de Provas

Maratona de Provas de Enchidos de Aguiar da Beira.

 

 

FACTOS E PESSOAS

 

Melhor contribuição do ano

Os 2,5 milhões de euros da Prozis à ATRP.

 

Melhor atleta Feminino

Missy TraiLab.

 

Melhor atleta Masculino

Não vou nomear ninguém para não ferir susceptibilidades. Digamos apenas que é aquele que acumula as seguintes características:

 

  1. Tem página de atleta;
  2. Exibe o nome no equipamento;
  3. Publica fotos em lojas de desporto ainda que por estas não seja patrocinado;
  4. Tira uma selfie sempre que sai para treinar;
  5. Liga para as organizações das provas para conhecer a lista de inscritos;
  6. Escolhe as provas com menos concorrência;
  7. Justifica os maus resultados com desculpas esfarrapadas;
  8. Escarrapacha nas redes sociais todos os seus treinos: os quilómetros percorridos, o desnível vencido e as calorias gastas;
  9. No fim das provas, publica a foto do conjuntinho formado pelos brindes, medalha, sapatilhas enlameadas, relógio com o tempo de corrida, t-shirt de finisher e dorsal;
  10. Na véspera das provas, publica a foto do dorsal, acessórios, alimentação e equipamento dobrado em cima da cama.

12 Coisas que detesto no Trail Running

por Pedro Caprichoso, em 18.01.16

12-THings-Hate-About-Landlording-j.jpg

 

1.

Encontrar uma secção de trilho totalmente alagada, fazer um desvio de maneira a contornar a água e, mesmo assim, molhar os pés.

 

2.

Dar de focinhos com uma poça de água, contorná-la com todo o cuidado para não molhar os pés e depois o nosso companheiro de treino desatar a chapinhar na água, encharcando-me dos pés à cabeça. Isto é o prato do dia nas 5F Bravas.

 

3.

Gajas feias que inundam a minha caixa de correio com pedidos de envio de roupa interior autografada. Já só tenho 2 pares de cuecas.

 

4.

Gente que faz provas de estrada com mochilas de hidratação. Dão mau nome ao Trail.

 

5.

Sair para um treino de 4h e a meio aperceber-me que me esqueci de passar creme antifricção nas virilhas. Dica: passar água na zona afectada só agrava a situação.

 

6.

Começar a chover assim que começamos o treino e parar de chover assim que chegamos a casa.

 

7.

Apanhar uma gaja de rabo-de-cavalo a correr à nossa frente, aumentar o ritmo para apanhá-la e, ao ultrapassá-la, aperceber-me de que é um homem.

 

8.

Ter de aliviar a tripa num descampado em dia de ventania invernal. Aquele frio entra por ali adentro e erriça os pêlos do rabo. Além disso, o cocó larga vapor—o que é particularmente nojento. Prefiro que o meu cocó não largue vapor. Acho mais higiénico.

 

9.

Esquecer um par sapatilhas molhadas na mala do carro e, no dia seguinte, abrir o carro com a sensação de que morreu um animal dentro da viatura.

 

10.

Treinar em grupo, esperar nas subidas por aquele nosso amigo badochas e este depois disparar nas descidas, deixando-me para trás. Como os treinos no monte acabam geralmente em descida, é depois vê-lo achando-se o maior. Atenção: isto não é dirigido ao José Carlos Alcobia.

 

11.

Nas partidas ter de ultrapassar em gincana os dois tipos de gente que fazem de tudo (incluindo cotoveladas) para partir à frente das provas: (1) os velhos que ainda pensam que são novos e (2) os atletas de ginásio artilhados com tecnologia de ponta dos dedos dos pés à ponta dos cabelos.

 

12.

Páginas de atleta de atletas amadores. Eu também faço um bacalhau à brás de ‘comer e chorar por mais’ e não é por isso que tenho uma página de chef no facebook.

Os Jogos Olímpicos dos Caminheiros

por Pedro Caprichoso, em 14.01.16

Estou triste. Não fui seleccionado para o UTMB. Sinto que a minha vida deixou de fazer sentido. O UTMB é tudo para mim. Não há vida para além do UTMB. Participar no UTMB seria como participar nos Jogos Olímpicos dos Caminheiros. Recuso-me a encontrar alternativas ao UTMB. Comigo é tudo ou nada. É o UTMB ou o sedentarismo. Adeus UTMB. Olá sofá.

2014-01-29.png

Tinha a certeza de que era desta que seria seleccionado. Contei aos meus amigos, ao pessoal do trabalho e à minha emprega de limpeza. Disse-lhes que era desta. Tinha inclusive reservado um restaurante para comemorarmos o feito. Tive de desmarcar tudo. Agora até tenho vergonha de encarar o Jorge da contabilidade.

 

Tinha dado entrada para a compra de uma GoPro, pedi emprestado um stick para tirar selfies e já tinha garantido alojamento em casa da prima de um amigo da minha ex-mulher. A rapariga vive a 1h30 de Chamonix e é boa como o milho. Podia ser que…

 

O meu erro foi achar que o meu nível de notoriedade faria com que a organização me endereçasse um convite VIP. Esperei, esperei, desesperei e o convite nunca chegou. Parece que este ano vou ter mesmo de coleccionar os pontos obrigatórios e candidatar-me com o comum dos mortais.

 

Este ano limitar-me-ei às funções de mochileiro do Jérôme Rodrigues. É degradante, eu sei. Mas não tenho alternativa. Foi uma aposta. Tê-lo-ia de fazer se ele fosse seleccionado—e não é que o cagão foi mesmo seleccionado? Sorte de principiante. Candidatou-se pela primeira vez e foi logo seleccionado. Deus dá dentes a quem não tem nozes.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D