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TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

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Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

Rescaldo UTRP 2016

por Pedro Caprichoso, em 15.08.16

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Tinha todos os motivos do mundo para não escrever esta crónica. Levei com a marreta no UTRP—Ultra Trilhos Rocha da Pena, desisti aos 40k e podia fazer o que faz o Zé-Povinho—Atleta quando as coisas correm mal: ficar calado e assobiar para o lado. O Zé só escreve quando as coisas correm bem—e eu, se fosse esperto, faria o mesmo. Era da maneira que não perdia os meus patrocinadores. Acontece que eu tenho cu—e, como diz o povo, quem tem cu tem medo. O meu medo chama-se Mary Vieira. Cruzei-me com ela, aos 40k, depois de levar a maior marretada da minha carreira desportiva—e ela fez-me prometer que eu faria referência ao facto na presente. Caso contrário, ela dava-me um enxerto de porrada de criar bicho. Repito: enxerto de porrada de criar bicho. E assim foi: ela ameaçou-me e eu venho aqui dar o corpo ao manifesto, a mão à palmatória e o rabinho ao clister. Juro que direi a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Aos 29k disseram-me que ia a 1min do Javali Rui Pacheco e, com vista à classificação colectiva, decidi arriscar nos 10k seguintes com vista a apanhá-lo. Resultado: levei uma marretada tão grande, mas tão grande, que nem vos passa pela cabeça. Não passa pela vossa, mas passou pela minha. Desta vez não foi o Homem da Marreta que me atacou. Foi aquele herói da Marvel que anda sempre de marreta em riste, de cujo nome agora não me lembro e não tenho pachorra de googlar. É esse mesmo. Fiquei tonto com o calor, comecei a correr em sentido contrário, cruzei-me com a Mary e ela riu-se do meu estado quasi comatoso. Foi triste! Tenho rezado todos os dias a nossa senhora dos empenhados para que não haja registos fotográficos do meu abanico.

 

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Ainda a propósito do meu furo no UTRP, façam-me um favor: parem de partilhar frases inspiradoras estúpidas [ex: «Never Give Up», «Nothing is Impossible», «It does not matter how slow you go as long as you don’t stop.»] e partilhem a sabedoria de quem percebe da poda:

 

«Chegar ao limite é uma coisa. Ultrapassá-lo é outra.»

—Jorge Serrazina na revista "Running" #14.

 

A ti, que nunca desistes, tenho o seguinte a dizer: ultrapassem os vossos limites e eu prometo que vou à vossa missa de 7.º dia.

 

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Nunca tinha dormido em solo duro. Foi a primeira vez em 5 anos de Trail e posso dizer, com todo o amor e carinho, que foi uma experiência horrível. Há 3 verbos que me vêm à cabeça quando me recordo daquela noite fatídica: gritar, ressonar e peidar. Para supostos desportistas, andam por aí muitos praticantes de Trail com apneia do sono. Homens e mulheres. Aliás, para mim o ronco das mulheres é bem pior do que o ronco dos homens. É um ronco assobiado, por oposição ao ressonar melodioso dos homens. O ronco do meu companheiro moçambicano está ao nível de uma canção de embalar. [Já agora, aproveito para mandar um beijinho ao meu Eusébio.] Pontualmente, recortando o concerto de roncos, alguém acordava estremunhado de um pesadelo e gritava: “Marreta!”. Também acordei estremunhado inúmeras vezes. No meu caso, os pesadelos não foram o problema. Não os tive. A minha cruz foram as gajas que se tentaram enrolar com as vedetas da EDV-Viana Trail. De um lado tinha o Pedro Rodrigues e o Rui Seixo; do outro tinha o Jérôme Rodrigues e o Presidente Alcobia. Não preguei olho a noite toda e não podia ter ficado mais aborrecido, pois eles recusam a minha companhia sempre que me tento enrolar com eles. Quanto à flatulência, estava montada uma “Guerra de Traques” entre o lado sul do pavilhão (comandado pela vara do Arrábida Trail Team) e o lado norte (comandado pela EDV-Viana Trail). Em termos qualitativos (i.e. ruído), venceram os Javalis. Os Porcos-Bravos dispunham de colchões insufláveis e estes ampliavam o volume das bufas projectadas de barriga para cima. O Lino Luz chegou a furar o seu colchão em resultado de uma bufa mais violenta. Já em termos quantitativos, os nortenhos não deram hipótese. Resultado: 524 – 178. A esta distância dos acontecimentos, podemos considerar que os peidos foram o prenúncio do que aconteceu no dia seguinte. Em baixo publicamos um vídeo exclusivo do "Solo Duro" do Ultra Trilhos Rocha da Pena. Atenção: este vídeo contem imagens e sons que podem ferir a susceptibilidade dos telespectadores mais sensíveis.

 

 

Ao fechar a equipa da EDV-Viana Trail na 9.ª posição à geral, Tiago Teixeira (a.k.a. Todo-o-Terreno) protagonizou um dos momentos altos do UTRP, garantindo a vitória colectiva na prova algarvia e o Tri-Campeonato Nacional de Trail Ultra para as cores auri-negras. Este momento foi apenas suplantado pelo triplo sato mortal encarpado à retaguarda realizado pelo atleta abaixo identificado. A técnica apurada e a entrada sem splash valeu-lhe 9.5 numa escala de 10. Eis o momento da entrada na água:

 

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Para melhor relatar a proeza do TT, passo a palavra ao Jérôme Rodrigues—ele que se deslocou ao Algarve (e gramou 12h de autocarro) com o único propósito de dar apoio aos seus colegas de equipa. No seguimento da inacreditável prestação do Tiago, o Lince escreveu o seguinte no grupo secreto da EDV-Viana Trail no Facebook:

 

Comovido.

Hoje assisti a algo ímpar. Já estamos habituados aos sucessos do Ricardo e às boas prestações da equipa e dos seus atletas. Mesmo assim nada fazia prever este desfecho.

As provas rolantes não são de todo a praia dos auri-negros (à excepção da polivalência do Ricardo) e, por isso, todos foram afectados pelo cansaço e pela velocidade inicial da prova.

Aos 39 km, o abastecimento concentrou 4 atletas nossos com um atraso considerável sobre os líderes da prova. Aconselhei os nossos rapazes a abrandarem para não se comprometerem e terminarem a prova.

O TT não se convenceu e disse: ” Hoje vamos ganhar!” Confesso que o achei no delírio. Era impossível recuperar cerca de 10 minutos, nos 11km que faltavam, sobre os atletas que fechavam as equipas adversárias.

Resultado: o TT recupera de forma inexplicável e termina em 9 lugar, passando os atletas supramencionadas e dando a vitória à equipa. Se fechámos a equipa, devemo-lo ao nosso menino de ouro. O único que acreditou, quando os seus próprios amigos de equipa duvidaram!

Obrigado TT por conquistares o título por nós!

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O dia terminou em beleza. Num bonito convívio entre os atletas da EDV-Viana Trail e as atletas da equipa Dr. Merino / Nutrifit, estas queixaram-se dos homens da sua equipa. A queixa é sempre a mesma: eles não dividem tarefas e elas têm de fazer o trabalho todo. Eles furam; elas vão às provas todas e fartam-se de pontuar para a equipa. O nosso Presidente já me confidenciou que vai fazer uma OPA ao contingente feminino da Dr. Merino/Nutrifit.

As «fashion victims» do Trail Nacional

por Pedro Caprichoso, em 29.07.16

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Enquanto fashion victim, admito que tenho uma erecção sempre que o Zé-Povinho—Atleta adquire uma nova peça de equipamento desportivo e publica-a no facebook. As pessoas normais vêem pornografia; eu vejo o unboxing de sapatilhas. Não sei do que gosto mais: se comprar, se ver o que os outros compram. Não fico apenas satisfeito por saber que a crise é coisa do passado e que o Zé tem dinheiro para estoirar um ordenado em material. Do que eu gosto, mesmo, é de me rir com o mau-gosto de alguns atletas semi-amadores*. Há gente que precisa urgentemente de um consultor de moda. Estou disponível. Orçamento por mensagem privada. Por outro lado, há runners com extremo bom-gosto e que têm a inteligência de usar os trapos a seu favor. Exemplo: uma Maria-Povinha—Atleta pode exibir a beleza de uma hiena com leishmaniose, mas qual é o homem que lhe resiste se ela trajar de Salomon dos pés à cabeça? Pela parte que me toca, eu salto à cueca de qualquer barbie made in Salomon. Palavra de ninfomaníaco.

 

As bandoletes, as calças à boca-de-sino e os casacos com enchumaços são hoje olhados com desdém e universalmente rotulados como foleiros. Da mesma forma, é inevitável que desse triste fim não escapem alguns dos acessórios de Trail que hoje mais furor fazem nos trilhos nacionais. Se hoje são o último grito, amanhã serão motivo de riso. A única certeza no mundo da moda é que a moda passa de moda. Falou o especialista. Podem citar-me. Daqui a 20 anos, estaremos a olhar para a foto de um atleta com meias de compressão da mesma forma como hoje olhamos para uma foto dos nossos pais em finais dos anos 70. Mais acessórios de moda foleiros: viseira, manguitos, calções de basquetebol, calções de compressão compridos por baixo de calções curtos, saia de ténis, kinesio taping, calçado maximalista, telemóvel atarraxado ao ombro, GoPro atarraxada à cabeça e todo o tipo de acessórios com o vosso nome inscrito nos mesmos.

 

Para terminar em beleza esta primeira edição da rubrica de moda do TopMáquina, expliquem-me uma coisa: o que significa quando um atleta-de-pelotão agradece a uma loja de desporto? Obrigado a este, obrigado àquele, obrigado àqueloutro. Obrigado por quê? Será por ter sido bem atendido? Será por terem-lhe feito um desconto de 5%? Será por o dono da loja ser seu familiar? O paradoxo é este: fica subentendido que as lojas lhes deram de borla o equipamento por eles serem top máquinas, mas eu garanto-vos que isso não é verdade. Nem a oferta de material, nem a ilusão de que são top máquinas. Palavra de TopMáquina.

 

*Não confundir semi-amador com semi-profissional.

Rescaldo UTPCN 2016

por Pedro Caprichoso, em 28.07.16

Por duas ocasiões, em 17 anos de corridas, senti-me como um atleta a sério. A primeira foi há coisa de 2 anos. Estava a cuscar a página de facebook do Kilian quando, num desvario tresloucado, passou-me pela cabeça fazer uma página de atleta. Foram os 10 segundos mais bonitos da minha carreira desportiva. Graças a Deus-Nosso-Senhor-Jesus Cristo que tal não passou de uma quebra de tensão—e descartei a ideia assim que recuperei os sentidos. Nesse dia tinha-me cortado a depilar a tomateira. Deve ter sido por isso. Não gosto de ver sangue e alucinei.

 

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A segunda foi na passada sexta-feira. Ter boleia da organização de uma prova não é para qualquer um. A comitiva da EDV-Viana Trail aterrou no Funchal, com vista a disputar o UTPCN—Ultra Trail Porto da Cruz Natura, e tínhamos a Olívia Sousa à nossa espera. Não merecíamos tão ilustre motorista. Senti-me a melhor importação da Madeira. Sim, a frase anterior é uma referência ao anúncio protagonizado pela progenitora do Cristiano Ronaldo. Esqueci-me de referir que na limusine também seguia o Presidente do Conselho de Administração da ATRP. É para vocês verem quão simpáticos são os Madeirenses. Até ao Rui Pinho deram boleia. Não era eu que dava boleia àquele fala-barato. Que fosse de táxi. É para isso que serve a cota de associado.

 

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“Onde é que se bebe a melhor poncha da Madeira?”, perguntou o Pedro Rodrigues mal entrou na limusine. “Primeiro temos de caçar o nosso Jantar. Primeiro o Jantar, depois a Poncha”, retorquiu a Olívia. Depois de estabelecido quem mandava, levantámos os dorsais numa bomba de gasolina, fizemos o check-in no Hotel de 7 estrelas do Cristiano Ronaldo e rumámos a todo o gás com destino ao Pico Areeiro. Daí partimos a pé em direcção ao Pico Ruivo na companhia dos moços do Madeira Trail Tours, onde encetámos a tão aguardada caça à perdiz.

 

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O dia estava perfeito nos picos: céu limpo; um mar de nuvens de algodão, virado ao oceano atlântico, do nosso lado direito; e o Curral das Freiras, lá ao fundo, do nosso lado esquerdo. Como diz o Vitor de Sousa: “Os Alpes são bonitos, mas a Madeira é mais barata.” O meu colega de equipa Hugo Sousa acusou vertigens, mas ainda assim conseguiu apanhar uma perdiz. Senti-me mal ao vê-lo caçar uma cria. As crias de perdiz são pequeninas, não têm muito que comer e ele ia passar fome. Tive pena dele. Coitado. Muito ou pouco, certo é que a macarronada de perdiz estava divinal. «De trás da orelha», como se diz no Continente.

 

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Para além de duas perdizes gordas como cachalotes, o Pedro Rodrigues também apanhou um Pokémon no Pico Ruivo. É raro, chama-se Empenatchu, bebe 2 litros de poncha por dia e usa uma marreta como arma. Os participantes do MIUT sabem de quem eu estou a falar.

 

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Domingo. 06h00. Tiro de partida e primeira fuga do dia. Um velhote belga tentou isolar-se ao quilómetro zero, mas foi coisa de pouca dura. A EDV-Viana Trail organizou-se no pelotão e anulou rapidamente a fuga ao fim de 200 metros. Isto só comprova a minha teoria de que há 2 tipos de pessoas a evitar nas partidas: (1) os velhos que ainda pensam que são novos e (2) os atletas de ginásio artilhados com tecnologia-de-ponta dos dedos dos pés à ponta dos cabelos. Estas duas espécies de gente fazem de tudo para partir à frente dos outros. Será que acreditam, mesmo, que são os 10 segundos que ganham no arranque que fazem a diferença numa prova de 100k? Deve ser só mesmo para aparecerem na fotografia. É pena, pois os que partem à frente são justamente os mais feios—e as fotografias ficam estragadas.

 

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 [Penha D’Águia]

 

Anulada a fuga, levámos logo com uma parede nas trombas para abrir o apetite. Já levaram uma chapada de um jogador da NBA? Não? Eu também não, mas desconfio que a sensação é parecida. O topo da “Penha D’Águia” foi alcançado aos 4k e 580m de altitude. Dada a dureza da primeira subida, seguiram-se os 1.600D+ da subida ao “Poiso” para relaxar. Coisa pouca. Mais longa do que dura, o ponto mais alto do percurso (com 1.400m de altitude) foi alcançado de forma gradual, com uma boa gestão do esforço e uma perna às costas (ver duas fotos abaixo). “Se o ponto mais alto tem 1.400m, como é que a subida tem 1.600mD+?”, pensa o leitor armado em esperto. Vocês são mesmo burros, não são? Tem 1.600mD+ porque a subida iniciou-se abaixo do nível do mar. É só fazer as contas: 1.400 - 1.600 = -200m. Percebem agora? Burros.

 

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 [Lombinho]

 

Ultrapassado o aquecimento providenciado pela “Penha D’Águia” e pelo “Poiso”, o verdadeiro divertimento começou aos 35k com a subida do “Lombinho”. Uma vez que foi ele quem sugeriu o “Lombinho” à Organização, sinto que ao subi-lo fiquei a conhecer melhor o Luís Fernandes. Tenho agora a certeza de que o Luís é sádico. Lamento, mas 600mD+ em 1,8km é coisa de sádico. É. Não há outro adjectivo para descrever o desejo de ver os outros a sofrer. Querem provas? Pois bem: reparem no sorriso dele no cartaz da prova acima publicado. Ele está a subir o “Lombinho” e aquilo não é sorriso de quem está feliz por alcançar o seu topo. Aquilo é sorriso de está a imaginar o sofrimento dos que aí iriam levar com a marreta no dia da prova.

 

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Não tenham pena do Tiago. O tipo não é perneta. Toca corneta mas não é perneta. Bem pelo contrário. O nosso «Todo-o-Terreno» achou a prova de tal forma fácil que fê-la com uma perna às costas. Pegou numa guita, atou a perna esquerda à mochila e fez 4.º lugar à geral. Conhecem a expressão fiz não-sei-o-quê “com uma perna às costas”? Pois bem, este é um desses casos. Nem quero imaginar o resultado que ele teria alcançado se tivesse corrido com as duas pernas às costas.

 

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Detesto puxar a brasa à minha alheira, mas o facto é que a EDV-Viana Trail foi a grande dominadora do UTPCN. Sem espinhas. Com 4 atletas no top10 e 6 no top15, vencemos colectivamente e demos um passo de gigante com vista à revalidação do título de Campeões Nacionais de Trail Ultra. A nível individual, o destaque vai para os dois primeiros da classificação geral. Ricardo Silva fez primeiro e Pedro Rodrigues fez segundo, ambos posteriormente entrevistados na meta pela RTP Madeira. O «Robocop» confessou que tinha comprado uma garrafa de poncha na véspera da prova e, por lapso, troco-a pelo seu isotónico habitual. A poncha e o isotónico são da mesma cor, daí a confusão. O «Troncos» havia assado as partes baixas durante o MIUT e mostrou-se felicíssimo com os seus novos calções.

 

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Fui ao pódio em representação do meu colega de equipa Victor Correia (1.º M45) e estava à espera que me dissessem que era novo demais para M45. “Tens uma pele muito macia e um rabinho jeitoso demais para M45”, diriam eles. Mas ninguém disse nada. Estarei assim tão acabado? É que ainda são 10 anos de diferença. Tenho 35 e, para o Ministério da Agricultura, 35 anos ainda é jovem. É-se Jovem Agricultor até aos 40. Seja como for, certo é que o Victor e o Tiago (3.º SM) tinham voo de regresso ao Continente à hora da entrega de prémios. No entanto, isso não os impediu de estarem presentes. É para estas coisas que serve o Photoshop.

 

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Por fim, é com tristeza que noticiamos mais um caso de violência doméstica no Trail Nacional. Cristina Couceiro venceu destacada o UTPCN e o seu marido, José Feteira, deu-lhe um banano por ela ter tido o desplante de ficar à frente dele. Que se passa com vocês? Quem vos viu e quem vos vê. Antes só beijinhos e agora só bananos. Em baixo, como prova do crime, vemos a Cristina a meter gelo na vista esquerda.

 

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Querem saber mais? Vejam a reportagem:

 

 

7 Comportamentos Estúpidos do Zé-Povinho Atleta em Provas de Endurance

por Pedro Caprichoso, em 13.07.16

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1. Partir à frente do pelotão

Partir à frente só para aparecer na fotografia, ainda que depois se seja rapidamente engolido pelo pelotão. Há 2 tipos de pessoas a evitar nas partidas: (1) os velhos que ainda pensam que são novos e (2) os atletas de ginásio artilhados com tecnologia-de-ponta dos dedos dos pés à ponta dos cabelos. Estas duas espécies de gente fazem de tudo para partir à frente dos outros. Será que acreditam, mesmo, que são os 10 segundos que ganham no arranque que fazem a diferença numa prova de 100k? Deve ser só mesmo para aparecerem na fotografia. É uma pena, pois aqueles que partem à frente são justamente os mais feios—e as fotografias ficam estragadas.

 

2. Correr ofendido

Já vos aconteceu ultrapassarem um tipo—apenas os homens exibem este comportamento—e ele ficar ofendido com a vossa ultrapassagem? O tipo partiu a matar, levou com a marreta aos 40k e vai a dar as últimas. Vocês ultrapassam-no e, cheios de boas intenções, largam um “Tudo bem?”. Ele ofende-se com a pergunta e, para se vingar, ultrapassa-vos de seguida fazendo um sprint à Usain Bolt. Vinte metros mais à frente, vocês voltam a ultrapassá-lo. Desta feita, ao passarem novamente por ele, deixam escapar um “Força!” em jeito de gozo. É o que eu faço. Se ainda não chegámos a meio da prova, um “Já falta pouco” também fica bem.

 

3. Questionar a idade dos outros

Conto pelas palmas de 7 mãos os atletas veteranos que em competição questionaram a minha idade para saberem em que lugar se encontravam no seu escalão. Nada contra. Creio é que não seja boa política correr com o pensamento centrado na classificação. Como pode uma pessoa divertir-se numa prova de Endurance focando-se apenas na possibilidade de fazer pódio? Só para foder com a cabela deles, em vez de indicar-lhes a minha idade, indico-lhes antes a data do meu nascimento. Depois mijo-me a rir ao vê-los fazer contas de cabeça.

 

4. Desistir por machismo

Há tipos que desistem a meio de uma prova quando são ultrapassados por uma mulher e sabem que acabarão atrás dela. Este fenómeno ocorre quando um homem (que nas Ultras fica à frente das mulheres) é papado por uma mulher numa prova de Endurance. Elas gerem melhor o esforço—não partem à maluca como muitos homens fazem—e depois eles são “comidos de cebolada” na segunda parte das provas. Quando isto acontece, cai-lhes a pila e desistem. Para terem noção da estupidez que isto representa, basta dizer que top3 masculino nacional está ao mesmo nível do top3 feminino mundial. Ou seja, contam-se pela palma de uma mão os Tugas com capacidade para ganhar às melhores do mundo. Não vão obrigar-me a relembrar-vos o que se passou no MIUT, pois não? Ah… acho bem.

 

5. Desistir por orgulho

Há tipos que desistem a meio de uma prova quando sabem que não conseguirão alcançar os seus objectivos definidos à partida. Isto é estúpido em geral, mas é particularmente estúpido em provas de Endurance. O objectivo à partida de uma prova de Endurance deve ser só um: chegar ao fim. Tudo o resto deve ser ditado pelo desenrolar da prova. A Endurance implica superação—e superação não é ficar na posição x ou fazer o tempo y. Superação é ultrapassar os obstáculos com que nos deparamos. Quem não encarar as coisas desta forma é porque está no desporto errado. A expressão “Never Quit” é igualmente estúpida, pois desistir por motivos de saúde não é sinal de fraqueza; é sinal de inteligência. Por outro lado, desistir por orgulho—pois é disso que se trata—é bué estúpido. [No meu tempo, bué era tótil.] No fundo, o raciocínio é: mais vale desistir do que assumir que não alcancei os meus objectivos pré-definidos e estupidamente publicados no facebook. Publicar objectivos nas redes sociais antes de uma prova tem um nome: auto-sabotagem.

 

6. Lutar contra o Homem da marreta

Há quem cerre os dentes e lute contra o homem da marreta depois de levar com ela nos cornos. É errado. Mais do que errado, é estúpido. É impossível derrotar o homem da marreta. O máximo que podemos fazer é recuperar o mais depressa possível da marretada. Para tal há que ter calma, não entrar em pânico, alimentar-se e reduzir o ritmo. Quem faz provas de Endurance precisa mentalizar-se de que vai passar por pontos baixos—e há que encarar esses momentos com naturalidade. Usando uma analogia fofa: o remédio para recuperar de uma marretada não é andar à porrada com o homem da marreta, mas antes aceitá-lo e recebê-lo de braços abertos.

 

7. Fixação com a bandeira nacional

Muitos são os atletas de pelotão que vão correr ao estrangeiro e levam a bandeira nacional na mochila para desfraldá-la quando cortam a meta. Pessoalmente, acho estúpido o patriotismo bacoco da exibição da bandeira. Se ainda houvesse algum subtexto inerente à bandeira, de que é exemplo a bandeira basca sempre que esta é usada em contexto desportivo. Agora, exibir a bandeira por exibi-la? Para quê? Para anunciar ao mundo que somos Portugueses? Que mérito há em ser Português por oposição a ser Francês, Alemão, Chinês ou de outra nacionalidade qualquer? Seja como for, ainda vejo algum sentido em desfraldar a bandeira quando se participa numa prova em representação do nosso país. O mesmo não se aplica quando se participa numa prova a título individual. Nesse caso, quando muito, representamo-nos a nós próprios e à nossa equipa. A nível colectivo, se querem desfraldar uma bandeira, que tal desfraldarem a bandeira da vossa equipa?

 

Parece-me que o desfraldar da bandeira nacional é reflexo de algum complexo de inferioridade do povo português, pois não vejo os atletas de pelotão de outras nacionalidades desfraldarem a sua bandeira na mesma proporção. Os atletas de elite estrangeiros fazem-no quando vencem em representação do seu país. Mas, no caso dos atletas de pelotão, tal comportamento é muito português. Basta atender aos finishers do UTMB (que na meta desfraldam a bandeira do seu país) para verificar que a maioria são portugueses. Há aqui uma certa necessidade de afirmação nacionalista que é transversal aos povos oprimidos, como é o caso dos bascos. É evidente, também, que o hábito recente de exibição da bandeira está intimamente relacionado com a Selecção Nacional de Futebol pós-Euro2004. 

Rescaldo nos bastidores do UTSF

por Pedro Caprichoso, em 30.06.16

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A APA—Agência Portuguesa do Ambiente emitiu ontem um comunicado no seguimento de inúmeros avistamentos de um indivíduo macho da espécie Lince Ibérico. Os avistamentos foram reportados, no passado Sábado, em diversas localidades da Serra da Freita. A APA pretende tranquilizar a população, assegurando às gentes da Freita que este Lince é domesticado e dá pelo nome de Jérôme Rodrigues. As cabras e galinhas dos populares estão a salvo. O mesmo não se poderá dizer dos coelhos e dos porcos, pois o Jérôme é exímio na caça ao [Bruno] Coelho e é uma enfardadeira de presunto.

 

[vídeo de Luis Costa.] 

[Daqui: https://www.facebook.com/PortGuns/videos/10153514394627676/]

 

Se o Zack Miller ficou famoso por comer chocolate à "javardo", o Jérôme ficará famoso por comer presunto à "lambão". Em resultado, agora vão todos começar a enfardar presunto nas provas de Endurance. Muito fará este vídeo pelas charcutarias e talhos deste país. Nenhum atleta do AMCF—Arrábida Trail Team foi ferido durante a realização deste vídeo. O presunto não é de javali. É de porco preto.

 

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Repararam no sex appeal do indivíduo que no vídeo acima publicado dá presunto na boquinha do Lince? Que brasa! Considero que esta brasa fez um excelente trabalho de assistência ao vencedor do UTSF. Muito longe, ainda assim, do profissionalismo exibido pela equipa de apoio do Tiago Aires. “Abastecimento à patrão” é a expressão que melhor encontro para descrever o tratamento que o Tiago recebeu em cada posto de abastecimento. Parecia a boxe de uma equipa de fórmula 1: cadeirinha de praia para o marmanjo se alapar, mudança de pneus soft flasks, nestum na boquinha, substituição de meias, cara lavada, barba feita e cabelo aparado. Só faltava pô-lo a fazer cocó e limpar-lhe o rabinho! Mas nem todos estão talhados para fazer esse serviço. Só eu é que o faço. Não é, Jérôme?

 

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As passagens pelos cursos de água do UTSF têm-nos dado imagens emblemáticas ao longo dos anos. Desta feita, não só nos deu imagens como também nos deu vídeos. No que toca às imagens, destaco a foto em que o Jérôme se prepara para se despir e dar um mergulho. Tivemos acesso às imagens em nu integral, mas a linha editorial do TopMáquina impede-nos de publicá-las. Metade do nosso público é pré-adolescente. O atleta da EDV-Viana Trail tirou primeiro a viseira e depois o resto do equipamento. Ficou apenas com as sapatilhas. Apercebendo-se de que o Lince se ia despir, o Bruno procurou logo arrefecer a zona genital de maneira a não ser apanhado pelos fotógrafos com a tenda armada. Quanto ao vídeo, vamos pegar na rubrica da Euronews e fazer deste o nosso momento «No Comment»:

 

[No Comment]

 

A Liliana trouxe a sua saia rodada para dançar. Infelizmente, não se podia dançar no único abastecimento onde havia música. Era proibido. Refiro-me à Póvoa das Leiras (k60). Ter música e não poder dançar é tortura psicológica—o que para muitos torna-se insuportável quando a esta se junta a tortura física imposta pela dureza da prova. Não admira, por isso, que este tenha sido o abastecimento onde mais atletas desistiram. Fizeram mal. Não deviam ter desistido. Não tê-lo-iam feito se soubessem que teriam oportunidade de dançar mais à frente. Perderam a dança da corda-bamba na subida da Besta.

 

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O UTSF divide opiniões. É o UTSF e o Cristiano Ronaldo. Uns adoram-no; os outros detestam-no. Não há meio-termo. Uns adoraram o UTSF e prometem voltar; os outros detestaram-no e garantem que “na Freita nunca mais”. Excelente! Tal significa que a Freita é uma prova única. Citando o pai do Trail Nacional: “Quero lá saber se gostam ou não! Sempre que vierem à Freita é isto que vão ter, por isso é que lhe chamo Trail para Elite”. Uns gostaram tanto que, durante a prova, mudaram dos 65k para os 100k. Outros gostaram tanto que se entusiasmaram para além da conta e deu nisto:

 

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Ainda estou para perceber como é que o Paulo Lopes não foi desclassificado. Ele e o Rui Luz ficaram sem água ao k45 e mamaram das tetas da vaca que aparece na selfie abaixo publicada. Como se isto não bastasse, temos ainda o beijinho ilegal da Carla Reis ao k48. Acontece que o regulamento do UTSF é claro no que diz respeito ao apoio externo aos atletas. Reporto-me ao capítulo 4, artigo 254, alínea 6: “O apoio externo só é permitido nos postos de abastecimento, incluindo o apoio nutricional, emocional, afectivo e/ou amoroso.” Não estou contra as vacas. Querem mamar nas tetas da vaca? Tudo bem. Mamem. Mamem o que quiserem, mas mamem nos postos de abastecimento. Ponham o vosso porta-dorsais ao pescoço da bicha, levem-na até ao próximo posto de abastecimento e depois, aí sim, mamem à-vontade. E também não estou contra os beijinhos. Eu também dei beijinhos ao Jérôme, mas sempre a menos de 10 metros dos postos de abastecimento. Regras são regras. Já se devem ter esquecido disto. No estrangeiro cumprem as regras. Aqui é a bandalheira do costume.

 

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A organização do UTSF disponibilizou voluntários, polícia, bombeiros, enfermeiros, médicos, massagistas, psicólogos e o GOBS—Grupo Operacional de Busca e Salvamento. Dado o número de vítimas, faltou contudo providenciar um padre para dar a extrema-unção aos falecidos. Resgates, massagens e curativos é bom. No entanto, o que é isso comparado com entrar no purgatório com a alma limpa de pecados? O Faria e o Marcolino faleceram—e quem é que lá estava para salvar as suas almas? Pois é, nisto não pensam as organizações. O Rui Luz também chegou morto à meta, mas mesmo morto apresentava-se numa pose sexy. A isto chama-se “falecer com estilo”.

 

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Voltando aos bovinos, proponho fazermos todos uma vaquinha para comprar umas sapatilhas novas ao proprietário das pernas abaixo publicadas. Desengane-se quem pensa que a Freita é responsável pela destruição das sapatilhas. A foto foi tirada na partida, pelo que o rapaz não tem é mesmo dinheiro para comprar calçado. Eu, pela parte que me toca, já lhe estou a tricotar um par de meias. Aquele dedo ainda apanha um resfriado e depois é que são elas. O dinheiro que sobrar será aplicado num vale de compras de uma reconhecida clínica de podologia de Ermesinde. A foto não precisa de cheiro para chegarmos à conclusão de que o rapaz sofre de chulé crónico.

 

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Há dois momentos do UTSF 2016 que me ficaram na memória. O primeiro diz respeito à procissão das equipas de apoio que acompanharam os atletas de posto em posto de abastecimento, pedindo indicações uns aos outros, dando palpites sobre o desenrolar da prova, dividindo a merenda para matarem a fome. Prefiro correr, mas tenho de admitir que nos bastidores não se está nada mal. O segundo, só de pensar nele, deixa-me o rosto em lágrimas: estar entre os milhões de resistentes, que cagaram para o futebol (Portugal Vs Croácia) para estarem na meta a aplaudir os atletas, deixou-me com um nó na garganta. Chorei. Admito. Ainda assim, não tanto quanto algumas atletas que acabaram a prova à hora do jogo e foram encontrar a sua cara-metade no café a ver a bola.

 

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Por fim, para descontrair um pouco, proponho um momento Trivial Pursuit. Pergunta: quem são os tolinhos que este ano cometeram a proeza de completarem as 4 provas do Campeonato Nacional de Endurance (UTAX, MIUT, EGT e UTSF) e as 100 milhas do Oh Meu Deus? Estamos a falar de 575k e 30.700D+ em 6 meses. Conheço 2. Um gosta de chafurdar na lama; o outro enfarda cachos de uvas na véspera das provas. É fácil, não é? Refiro-me aos inigualáveis Lino Abel Luz e José Faria, que levam para casa o prémio da combatividade referente ao primeiro semestre de 2016. É favor levantarem o vosso prémio na sede da ATRP.

Rescaldo Hard Trail Monte da Padela 2016

por Pedro Caprichoso, em 21.06.16

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Não consumo leite e seus derivados. Bebi-o até aos 16 anos como o nosso amigo Brad, mas depois ganhei vergonha na cara e deixei-me disso. Já não mamo. Agora só apalpo. O cancro da mama é lixado e a prevenção é o melhor remédio. A OMS diz que devemos apalpar—e eu apalpo. Levo a apalpação muito a sério. Comigo nunca fica uma mama por apalpar. Nunca me aconteceu apalpar só uma mama. Nunca me aconteceu apalpar uma mama e depois dizer: “Pronto, já chega. Estou bem assim. Fico-me por esta. Apalpo a outra amanhã.“ Nunca. Sempre que apalpei uma, apalpei a outra. Apalpo sempre aos pares. Isto tem um nome: profissionalismo. Pelas minhas contas, já salvei a vida a 116 mulheres. Não têm de quê. Sei que sou um herói aos olhos de muita gente, mas prefiro manter o anonimato. Sou muito humilde, lido mal com a fama e não gosto de me misturar com o povo. Cheiram mal.

 

Também apreciava leite de vaca, mas este causava-me flatulência e fui vítima de bullying por ser um cagão inveterado. Cagão de vento. Cheguei ao ponto de não conseguir controlar a tripa. Não tinha mão sobre ela. Padecia da síndrome do rabo esquizofrénico. Imaginem-me numa sala de aula no mais absoluto silêncio e, de repente, o meu rabo irrompe num festival de fogo-de-artifício a meio da prova global de Matemática. Do nada, de um momento para o outro, sem que nada o fizesse prever. Nesse dia, 18 de Junho de 1996, cheguei ao meu limite e jurei para nunca mais. Nunca mais bebi leite. Tive alguns problemas de saúde devido à falta de cálcio, mas agora tenho o meu amigo Calcitrin.

 

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Se no caso do leite fui obrigado a deixá-lo, no caso dos lacticínios foram eles que me deixaram. Nunca gostei de manteiga, iogurte e queijo—e quem não gosta de queijo não gosta de pizza. Já viram a volta que eu dei para fazer a ligação com a caixa de pizza oferecida pela organização do HTMP—Hard Trail Monte da Padela? Dizem que era um kit de participação. A mim calhou-me uma pizza. Crocante? Siciliana? Bolonhesa? Calabresa? Frio. Era uma pizza Caminheira. A pizza era feita à base de eritropoietina e trazia como brinde um autocolante com a inscrição «Hard Runner Inside» para colar numa superfície envidraçada. Tinha duas hipóteses: ou colava-o no vidro do carro ou no espelho do tecto do meu quarto. Uma vez que a ênfase está na palavra «Hard», optei pela segunda.

 

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Cheguei a Barroselas às 06h45 e executei à risca o meu ritual pré-prova: rezei um terço para dar sorte, alonguei para evitar lesões e fiz o n.º 2 para partir levezinho. Até parece que já estou a ver os moralistas do teclado a cortarem-me na casaca por poluir o monte com papel higiénico borrado. Calma. Menos. Os meus amigos ambientalistas podem sossegar a franga. Admito que não faço reciclagem e vazo embalagens vazias de gel no monte, mas sou muito fresquinho no que toca à minha higiene pessoal. Nesse sentido, usei toalhitas recicláveis e posso garantir que as minhas fezes não são radioactivas. Alimento-me apenas à base de produtos biológicos, pelo que o meu cocó é rico em fertilizantes naturais. No fundo, não caguei. Adubei. Não têm de quê.

 

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Fiz um buraquinho, aliviei a tripa para dentro do buraquinho, limpei o rabinho da frente para trás, depositei as toalhitas borradas com os dejectos, tapei o buraquinho, esfreguei as mãos em folhas de eucalipto, regressei ao carro, equipei-me, lembrei-me—no ano passado esqueci-me—de colocar o chip na sapatilha, esgacei o pessegueiro—é mais saudável do que tomar comprimidos para os nervos—e fui informado de que um elemento da Organização havia sido espancado por um popular. O tipo andava de moto 4 a verificar as marcações e um octogenário chegou-lhe a roupa ao pêlo. O motociclista pisou as nabiças do idoso com a mota e o idoso esmagou os tomates do motociclista com o cabo da sachola. Com medo de me cruzar com o reformado durante a prova, os meus intestinos cederam e borrei a cueca. Novamente. Ou seja: mais um buraquinho, mais uma cagada, mais uma limpeza do rabinho da frente para trás—sempre da frente para trás—e mais um pacote de toalhitas. Desta feita, com a pressa, esqueci-me de limpar as mãos e só me apercebi disso depois de cumprimentar o Jérôme Rodrigues. Malditos octogenários! É por estas e por outras que eu sou a favor da eutanásia. Muito forte? Azar. Para quem não sabe, Je Suis Le Gay Cordes.

 

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Na foto acima publicada vemos o Presidente da Junta da ATRP a refrescar a moleirinha do vencedor do HTMP. Tal comportamento não é grave em si mesmo. Grave é o André ter sido o único a ter direito a semelhante tratamento. Se molhou o cocuruto de um, molhava o cocuruto de todos os associados da ATRP. De todos sem excepção. Se isto não configura tratamento preferencial… Enfim, é mais do mesmo. Uns são filhos e outros são enteados. Já estou habituado. O Rui a mim só me deu uma palmada no rabo como fazem aos ciclistas na volta à França. Não vou insinuar que foi por isso que o André ganhou, mas também não vou insinuar que não foi por isso que o André não ganhou. Percebem? Eu não trabalho com insinuações. Só com factos. E o facto é que o André ficou com remorsos e tirou-me o chip das sapatilhas em jeito de pedido de desculpas. Estava com dificuldades para me segurar em pé devido a uma queda de açúcar e ele ajudou-me a desapertar a sapatilha. Só me voltei a sentir bem após a décima sétima bola de berlim. Colocar bolas de berlim no abastecimento final foi, de longe, a melhor decisão do HTMP em termos organizativos. A segunda, se a queda de açúcar não me trai, foi colocar gajas em topless a entregar as medalhas de finisher. Estão todas de parabéns.

 

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Para além da situação descrita no parágrafo anterior, o HTMP ficou manchado por outro caso de conduta anti-desportiva. Bruno Coelho e Diogo Fernandes lutavam pelo segundo lugar na subida à Lage Negra quando o primeiro usou os bastões na pedra para lançar limalhas para os olhos do segundo. A imagem abaixo publicada não deixa margem para dúvidas. Depois de analisada pelo Conselho de Disciplina da ATRP, o Bruno pode incorrer numa pena de 6 meses a 2 anos de trabalhos forçados na Serra da Freita.

 

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O Diogo ficou compreensivelmente aborrecido com a injustiça e só o consegui acalmar no duche. Não tenho por hábito falar da minha vida privada, pelo que não vou entrar em detalhes. Direi apenas que o Sheriff possui um revólver de grande calibre.

TraiLoveMatch

por Pedro Caprichoso, em 07.06.16

O MIUT 2016 teve o condão de pôr a nu duas realidades distintas. A primeira é positiva: o MIUT foi um sucesso organizativo, colocando Portugal na rota do Trail Mundial. A segunda é negativa: os atletas nacionais ainda estão longe da elite mundial. Nesse sentido, de maneira a corrigir a segunda, venho por este meio oferecer uma sugestão de maneira a elevar o nível do atleta tuga e garantir o futuro competitivo do Trail Nacional. Não podemos esperar que o próximo Carlos Sá apareça como o original. Isto é, do nada. Temos de pensar a longo prazo e começar a implementar medidas no sentido de potenciar o aparecimento de novos valores. Os românticos acreditam que os grandes atletas fazem-se com treino. É falso. O treino é importante, mas a componente principal é genética. Pode-se treinar mais e melhor, que sem genética não se vai a lado nenhum. Essa é a crua realidade.

 

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Posto isto, proponho a criação de um site de encontros online para que os melhores atletas nacionais procriem uns com os outros e “produzam” os próximos Carlos Sás. A plataforma informática chamar-se-ia “TraiLoveMatch” e estaria sobre a alçada da ATRP, funcionando como uma espécie de agência matrimonial. É claro que a plataforma só estaria acessível a atletas descomprometidos. Não queremos estragar os “arranjinhos” que já existem no pelotão nacional, embora ande por aí muito casal que ainda não procriou—e já o devia ter feito. Eu e a Analice também estamos em falta, mas andamos a fazer por isso. Treze vezes por semana.

 

Para além do site, atrevo-me a enumerar mais algumas medidas de apoio à natalidade no âmbito do Trail Nacional.

  1. Disponibilização de babysitters em provas dos Campeonatos Nacionais;
  2. Vales de desconto em lojas de desporto para famílias numerosas em que ambos os progenitores são atletas;
  3. Deduções à colecta de despesas de psicotrópicos por parte dos avós que tomam conta dos piralhos enquanto os pais destes estão a treinar / competir.
  4. Introdução de novas categorias (à semelhança dos escalões etários) tendo por base o número de filhos: F1, F2, F3, F4, etc.
  5. Em vez de cabazes com produtos regionais, ofertar produtos para lactantes (fraldas, toalhitas, pó de talco, papa, leite de transição e bomba tira-leite) como prémios de pódio.
  6. Introdução, por parte da Prozis, de uma linha de suplementação para recém-nascidos;
  7. 50 pontos de bónus no Campeonato Nacional por cada filho nascido no ano correspondente;
  8. Ensino gratuito na Escola Abutrica para todos os filhos de atletas de elite;
  9. Inclusão da vacina de “pé de atleta” no plano nacional de vacinação, tornando-a assim gratuita.
  10. Agravar as consequências para as equipas que não cumpram as leis já existentes sobre protecção de atletas grávidas, passando a contra-ordenação de leve para grave; e impedindo as equipas, que tenham sido condenadas por despedimento ilegal de grávidas, de virem a receber quaisquer subsídios ou subvenções da ATRP.

Rescaldo Azores Trail Run 2016

por Pedro Caprichoso, em 03.06.16

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[video de Manuel Morais] 

 

Andam todos de trombas comigo. Dizem-se enganados. Marcam treinos e não me convidam. Ignoram-me. Garanti aos meus colegas de equipa que o Azores Trail Run era uma prova fácil—leia-se corrível—e eles ficaram de trombas. Acham que eu estava a gozar com eles e levaram a mal. Há 2 anos participei na primeira edição e os trombudos vieram-se aconselhar junto da minha pessoa. Aconselhei-os de graça e é assim que eles me agradecem. Já viram o desplante? Em 2014, a prova disputou-se em tempo seco e eu fi-la praticamente toda em passo de corrida. Que culpa tenho eu se este ano se abateu um temporal sobre a ilha do Faial? Sou responsável pelas acções do meu homónimo São Pedro? É isso? Seja como for, pese embora disputada num lamaçal, continuo a considerar a prova rolante. Parafraseando a minha amiga Liliana Gomes: “O percurso era rolante. A lama rolava que é uma beleza!” Rolava e deslizava como um caracol no orvalho. Nunca pensei dizer isto, mas fui aos Açores matar saudades dos Trilhos dos Abutres.

 

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Zaid Ait Malek era o favorito à partida do Azores Trail Run—Faial Coast to Coast (45k, 2.300D+). O campeão marroquino viu-se porém forçado a desistir logo à passagem do k2. A versão oficial é a de que ele ressentiu-se de uma lesão contraída em Zegama, disputada no fim-de-semana anterior. Mentira. Ele não estava lesionado. Não procurem justificações elaboradas para ocorrências simples. A verdade é simples: o Zaid borrou a cueca e desistiu porque não aguentou a pressão. O Presidente do EDV-Viana Trail recorreu à guerra psicológica, meteu conversa com ele e disse-lhe que o Jérôme Rodrigues lhe ia fazer a folha. O Jérôme olhou-o nos olhos, fez cara de mau e o Zaid começou a chorar como uma criança a quem lhe roubaram o chupa-chupa. Embora tremendo como varas verdes, ele ainda assim teve tomates para se apresentar à partida. Pior foi quando a Lucinda Sousa se começou a meter com ele. Ela disse-lhe que lhe ia estragar as sapatilhas e ameaçou atarraxar o porta-dorsais à cintura do marroquino, de maneira a que ele a rebocasse vulcão acima. Resultado: borrou a cueca.

 

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Fez-se história nos Açores. Fernanda Verde (EDV-Viana Trail) e Mary Vieira (Dr. Merino / Nutrifit) foram as primeiras atletas femininas do mundo a cortarem a meta de uma prova de Trail de mãos dadas. Fizeram praticamente toda a prova juntas, alcançaram o 4.º lugar ex-aequo e demonstraram que a amizade e o companheirismo não são exclusivos do pelotão masculino. Embora não tenham cortado a meta de mãos dadas, Miguel Martins (Dr. Merino / Nutrifit) e Jérôme Rodrigues (EDV-Viana Trail) também espalharam amor e carinho na meta do Azores Trail Run. Abraçaram-se e apalparam o rabinho um ao outro como fazem os jogadores e voleibol após ganharem um ponto. É caso para dizer: arranjem um quarto! Eu não devia dizer isto, mas não resisto: todos os atletas do EDV-Viana Trail têm um amigo colorido na equipa Dr. Merino / Nutrifit. O meu é o Diogo Fernandes. Os “Amigos Coloridos do Trail” é um projecto inter-equipas concebido pelos visionários Eduardo Merino e José Carlos Alcobia. Ainda ontem liguei ao Diogo porque estava com prisão de ventre e precisava de apoio psicológico para evacuar. Eram duas da manhã, o Sheriff atendeu o telemóvel de trombas, mandou-me à merda—e eu esguichei a dita cuja como se não houvesse amanhã. É disto de que falamos quando falamos em espírito do Trail. Por vezes cheira mal, mas sabe sempre bem.

 

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Por sorte do destino, demos de caras com o grande Gustave Lafume, um dos pioneiros do Trail Mundial. Uma referência, um exemplo e um modelo a seguir. Muito deu este homem ao Trail. Só é pena que a nova geração não saiba quem ele é. Foi emocionante assistir, num banal café do Faial, ao encontro de dois monstros do Trail Mundial. Separados por três décadas, Gustave e Jérôme relacionaram-se um com o outro como se fossem velhos amigos. Vitalidade capilar à parte, quase pareciam almas gémeas. A verdade verdadeira é que não faço a mínima ideia quem é o tipo. Gustave Lafume é nome fictício, resultado da conjugação de Gustavo (nome do gato do Jérôme) com Lafuma (a famosa marca francesa de desporto outdoor). Tanto quanto sabemos, ele pode chamar-se Gilberto da Silva. Simplesmente achámos-lhe graça e tirámos uma foto com ele. Depois afirmei, na brincadeira, que ele é um dos pioneiros do Trail Mundial e muitos engoliram a peta. Isto só serve para demonstrar, novamente, que há pessoas dispostas a acreditar em tudo. Por um lado, estão dispostas a acreditar em tudo; por outro, são preguiçosas ao ponto de emitir opiniões sobre assuntos que ignoram e sobre os quais não se dão ao trabalho de pesquisar. Espero que aprendam a lição: duvidem de tudo o que vos dizem e pesquisem. Cepticismo e pesquisa é o único caminho para evitar burlões e fazer figura de urso.

 

Os açorianos jogavam em casa e quiseram mostrar serviço. Alguns partiram a matar, foram perdendo gás e, depois, ao serem ultrapassados, questionavam a nossa naturalidade: “És açoriano?”, perguntavam eles. Isto porque, pelos vistos, havia prémios a nível regional. É a mesma coisa com os atletas veteranos, quando estes são ultrapassados e questionam a nossa idade para saberem em que lugar se encontram no seu escalão. Nada contra. Parece-me, porém, que não seja boa política correr com o pensamento centrado na classificação. Como pode uma pessoa divertir-se focando-se apenas na possibilidade de fazer pódio? Só para foder com a cabeça deles, em vez de lhes indicar o meu escalão ou idade, indico-lhes antes a data do meu nascimento. Depois mijo-me a rir ao vê-los fazer contas de cabeça. Quanto aos açorianos, ainda tentei enganá-los imitando o seu sotaque, mas acho que eles não foram na conversa.

 

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Lamento o que parece estar a tornar-se hábito por parte das organizações: atribuir classificação por equipas e, no fim, nem prever cerimónia de pódio colectivo nem atribuir o merecido prémio. Perde a festa, perdem as equipas, perdem os atletas e perdem os patrocinadores que apoiam as equipas e merecem o devido destaque. Mais lamentável ainda é quando estas provas fazem parte do Campeonato Nacional. A EDV-Viana Trail já declarou, em de sede própria, que no próximo ano seleccionará as provas em que irá participar: “A ATRP terá que garantir que as organizações cumprem os regulamentos se quiser continuar a contar com a presença da nossa equipa nos seus Campeonatos. As organizações obrigam os atletas a cumprir regulamentos, pelo que estas também têm de cumpri-los sob pena de serem excluídas dos Campeonatos. Algumas organizações simplesmente não respeitam os sacrifícios pessoais e financeiros que os atletas fazem para estarem presentes nas suas provas, preocupando-se essencialmente com a maximização do lucro. Os atletas e as equipas estão a fazer o trabalho de casa; é tempo dos restantes envolvidos no processo fazerem o mesmo.”

 

As Organizações não são obrigadas a atribuir prémios por equipas. Cada uma atribui o que lhe apetece; até há algumas que escolhem não atribuir prémios por escalões. São escolhas. Cabe depois aos atletas escolherem se querem ou não participarem nessas provas. Até aqui tudo bem. O problema surge quando o regulamento faz referência à classificação colectiva (e à forma como esta é determinada) e depois não há cerimónia protocolar para premiar a dita classificação—e foi justamente isso o que aconteceu nos Açores. A Organização do Azores Trail Run fazia referência à classificação colectiva no regulamento, mas não previu uma cerimónia de pódio para premiar as equipas. Está mal. Tal, porém, não nos impediu de subir ao pódio. Protestámos, fizemos barulho, fizemos as nossas contas, juntámos as 3 equipas vencedoras (EDV-Viana Trail, Morcegos Trail e Dr. Merino / Nutrifit) e subimos ao pódio à mesma. Os nossos patrocinadores merecem.

 

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As equipas não tiveram direito a participar na cerimónia protocolar, mas os gordos tiveram. Sabemos que estamos perante uma prova pouco competitiva quando pessoas com barriga sobem ao pódio. Falo de alguns vencedores de escalão do Family Trail. Anafados no pódio? A sério? Não custava nada medirem o perímetro abdominal dos vencedores antes de subirem ao pódio. Mais de 60cm e não subiam. É a imagem da prova que está em jogo.

 

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Jérôme Rodrigues e Tiago Aires—o eventual e merecidíssimo vencedor da prova—seguiam na frente quando falharam uma viragem por volta do k30. Ao falharem-na, seguiram no sentido errado, perderam a liderança da prova e cerca de 7min. Ler fitas faz parte do Trail e não vale a pena entrar na discussão se o dito entroncamento estava bem ou mal marcado. Só lamento o facto dos elementos da organização (que se encontravam nesse ponto) não terem avisado os atletas de que iam na direcção errada. Mais pessoas viriam a enganar-se no mesmo local, com os referidos elementos dentro dos automóveis, possivelmente a actualizarem a sua página de facebook. Assim que se aperceberam que se tinham enganado, ambos voltaram para trás e cruzaram-se novamente com os automobilistas. Estes baixaram o vidro embaciado do carro e perguntaram-lhes: “Vocês perderam-se, não perderam?” Imagino, com a minha imaginação tresloucada, que estariam a fazer o amor enquanto fumavam canábis e actualizavam a sua página de facebook. O facebook tem culpas no cartório—quanto a isso não tenho dúvidas.

 

Muitos arrependeram-se de não terem levado bastões para os Açores e depois fabricaram-nos pelo caminho. Embora usem-nos, alguns têm vergonha de fazerem figuras e deitam-nos fora no último km. No Faial, o depósito de muletas localizava-se a 500m da meta, no início do trilho de cinzas do vulcão dos Capelinhos. Outros há que não têm vergonha nenhuma e cruzaram a linha de meta nestes preparos:

 

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Rescaldo EGT 2016

por Pedro Caprichoso, em 26.05.16

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Parece que a RTP tem um novo concurso chamado «The Big Picha». Ouvi bem? O meu Inglês é muito fraquinho, mas juro-vos que é isso o que eles anunciam na promo. Escrevi esta pseudo-piada aqui há atrasado—e, pelos vistos, confirma-se. A ficção ultrapassou a realidade. Novamente. O concurso chama-se mesmo «The Big Picha». Ouvi bem. Não estou demente. Louvado seja São Francisco de Sales—padroeiro dos de difícil audição. O nome bem que me soava bem. Só assim se justifica o assédio sofrido pelo apresentador Pedro Fernandes às mãos do mulherio que com ele quiseram tirar uma selfie antes da partida do EGT46k. Disseram-me.

 

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Os famosos são uma espécie superior ao comum dos mortais. Custa admitir, mas é verdade. Fiquei hospedado no mesmo hotel do apresentador acima aludido, do cozinheiro Kiko e de um actor de telenovelas—cujo nome não tenho pachorra de googlar—e pude estudá-los durante o pequeno-almoço de Domingo. Sentei-me na mesa ao lado da deles e observei-os como um adolescente observa uma mulher nua pela primeira vez. Avaliei-os de cima a baixo e senti que estava na presença de seres incomparavelmente melhores do que eu. São tipos com muito swag, nomeadamente ao nível do andar. Há quem também lhe chame empeno. Robot style.

 

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Deixando as piadas porcas de lado, digam-me, com toda a sinceridade, o que vos faz lembrar a imagem acima publicada? Sejam sinceros. Digam-me que eu não sou um porco imundo que só pensa naquilo. Leia-se: pornografia geológica. Não tenho medo das palavras. Pornografia geológica é uma patologia sexual como outra qualquer. Se há quem olhe para as nuvens e nelas veja personagens da Disney a pinocar, qual é o problema de vislumbrar partes da anatomia feminina num afloramento rochoso? Dizem que passámos por dentro da Fenda da Talisca por volta do k13. Não me lembro—e olhem que eu lembro-me de tudo. Tenho memória de elefante. Lembro-me, inclusive, do meu nascimento—e estou em condições de vos assegurar que não foi cesariana.

 

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Muitos consideram que a Organização foi demasiado exigente em relação ao equipamento obrigatório. Discordo. A meu ver, pelo contrário, não foi exigente o suficiente. Exigiram casaco e calças impermeáveis, ligaduras, camisola térmica de manga comprida e dois frontais. No entanto, esqueceram-se do mais importante: raquetes de neve. O meu colega de equipa Jorge “Relógio Suíço” Rocha tentou correr na neve sem raquetes e o resultado saldou-se por um valente bate-cu. Por milagre, da queda não resultou nenhuma lesão. Por outro lado, bem vistas as coisas, a neve só lhe fez bem: anestesiou-lhe as nalgas da queda, arrefeceu-lhe o motor—que vinha em sobreaquecimento—e permitiu-lhe entrar no top10 da classificação geral.

 

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O feedback dos atletas com quem falei é altamente positivo: sinalização perfeita, percurso deslumbrante, organização competente, secretariado eficiente, PACS bem apetrechados, brindes fixolas, solo duro aconchegante, fotógrafos bem-dispostos, Carlos Natividade Silva e voluntárias giras. Queixas ouvi poucas: muito estradão nos últimos 30k, banho de água fria (para os atletas dos 90k) e zonas com algum mato. Apenas isso. Percebo o descontentamento dos descontentes, mas não concordo. Bem pelo contrário. O que para uns são pontos negativos, para mim são vantagens: venho da estrada, gosto de rolar e foi nos estradões onde ganhei mais lugares; o mato esfoliou-me a pele e esta semana já poupei 25€ em tratamentos de beleza; o duche em modo crioterapia minimizou-me o empeno e ainda fiquei com pernas suficientes com vista ao Azores Trail Run. A minha única crítica a sério—atenção que esta parte é a sério—tem a ver com a ausência de prémios por equipas. Não sei se a responsabilidade é do EGT ou da ATRP. O que eu sei é que não faz sentido que uma prova do Campeonato Nacional não atribua prémios por equipas. A razão é simples: se há classificação por equipas no âmbito do Campeonato Nacional, é evidente que as provas a contar para esse Campeonato devem prever uma cerimónia protocolar a nível colectivo.

 

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Rebentou-se-me uma veia do nariz por volta do k65 e tive de improvisar um tampão para estancar a hemorragia. Enrolei uma embalagem vazia de gel—como quem enrola um charro—e enfiei-a pela minha narina esquerda acima. Descobri, assim, por mero acaso, que o efeito de absorção do gel é maior snifado do que ingerido. Por instantes, senti-me na pele da Uma Thurman no Pulp Fiction após levar uma injecção de adrenalina no coração. Parecia um foguete na aproximação ao abastecimento dos 70k, onde cometi o erro de ingerir canja de galinha. A canja cancelou o efeito do gel e tive de penar na última e interminável contagem de montanha. É pena, pois acho que ainda ia a tempo de ganhar se tivesse enfiado outro gel pelo nariz acima. Agora que penso nisso, será que o efeito é o mesmo se o enfiar no rabo? Já estou habituado a enfiar objectos fálicos no rabo, mas embalagens de gel é novidade. Vai tudo correr bem. Também, se correr mal, é só telefonar ao meu contacto no Hospital de Viana do Castelo. Ele já está habituado a tirar-me coisas do rabo—e é de um profissionalismo à prova de bala.

 

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O meu colega de equipa Tiago “Todo-o-Terreno” Teixeira é um dos tipos mais duros que eu conheço. “Vi a morte à minha frente”, exclamou ele quando o encontrei mais branco do que cal no PAC3 (30k). O TT bebeu água à guloso, sofreu uma paragem digestiva, viu a morte à frente, olho-a nos olhos, mandou-a à merda, meteu os dedos à garganta, chamou o Gregório e fez-se homem. 2h depois, o mesmo Tiago chegava à Torre com o 7.º tempo mais rápido do km vertical entre os finishers. Tiro-te o chapéu, Tiago. Bastava-me metade da tua força. Em baixo vemo-lo a estudar o perfil da prova numa fatia de pão. Já tinha ouvido falar de gente que vislumbra a figura de Jesus Cristo em torradas e manchas de humidade, mas nunca o perfil de uma prova numa fatia de Panrico.

 

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O colete de finisher do EGT é o melhor colete de finisher do mundo. Por quê? Porque livrou-me de uma multa. Passo a explicar: a polícia mandou-me parar à entrada de Seia quando regressava a casa da Serra da Estrela. Pediram-me os documentos da viatura, pediram-me para soprar ao balão e pediram-me o triângulo e o colete reflector. Tinha o triângulo; não tinha o colete. Havia-o emprestado ao meu primo Asdrúbal, que mo cravou para ir a Fátima a pé pagar uma promessa. O coitado perdeu finalmente a virgindade aos 41 anos e eu presenteei-o com o colete. Perdeu-a com uma reformada corcunda de 69 anos. São gostos. O berbicacho é que me esqueci de comprar um colete novo e o agente já estava com ela fisgada para me multar… quando me lembrei do colete do EGT. “Espere lá, chefe! Eu afinal tenho aqui um colete.” Mostrei-lho e ele condescendeu: “Bem, não é reflector mas é florescente. Por hoje passa, mas compre um como manda a lei. Certo?” Só por isso já valeu a pena ser finisher.

 

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A Ana Rocha confessou, na sua página de facebook, que a Sofia Roquete deu-lhe um abraço quando esta a ultrapassou na última subida do EGT. É bonito? É. Acontece que elas não foram as únicas a espalharem mimo pelos trilhos da Serra da Estrela. Eu também espalhei. Ai se não espalhei! Sempre que ultrapassava um atleta, apalpava-lhe o rabinho. Não acreditam? Perguntem ao Gonçalo Mota. Ultrapassei-o doze vezes. Além disso, sempre que nos abastecimentos me cruzava com o Farfas Farfinhas, dava-lhe um xi-coração.

 

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Com a chancela de uma das referências incontornáveis do Trail Nacional, o Armando Teixeira conseguiu reunir no EGT muitos dos melhores atletas nacionais. A vitória sorriu, todavia, a um estrangeiro. Oriundo dos Estados Unidos da America, Thiago Jurek—irmão mais novo da lenda viva Scott Jurek—venceu de forma convincente, cumprindo os 90k e 5.300D+ do EGT no brilhante tempo de 10h09. As semelhanças são evidentes: mesmo cabelo encaracolado, mesma bandolete e mesma marca de mochila.

 

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Rescaldo TLSM 2016

por Pedro Caprichoso, em 18.05.16

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Quero dedicar a minha prestação no TLSM—Trail Longo de São Mamede a uma pessoa muito especial. Sem ela, nada disto seria possível. É nela em que eu penso nos maus momentos—e nos bons também. No fundo, estou sempre a pensar nela. Obrigado, Jérôme. O meu 6.º lugar também é teu. O Lince disse-me que precisava de “soltar-se” e eu aceitei aquecer com ele meia-hora antes do tiro de partida. Atenção que o “soltar-se” do Jérôme tem dois sentidos: há o “soltar-se” a nível muscular e há o “soltar-se” a nível intestinal. Certo é que ele abafou-me nos dois sentidos—e eu, em boa hora, resolvi abdicar da estratégia que havia preparado para a prova. O plano era partir a matar, aproveitar o facto do Jérôme e do Ricardo virem de lesões, queimá-los e dar-lhes um bigode de maneira a cair nas boas graças da direcção da EDV-Viana Trail. Estou farto de ser o número 3 aos olhos do nosso Presidente. No entanto, depressa tirei o cavalinho da chuva quando senti que o careca estava mais forte do que eu—e fui obrigado a encarar a prova com mais juízo. Escapei assim ao homem da marreta, terminei a prova a dançar o vira e ainda sobraram-me pernas para fazer o EGT.

 

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O felino aproveitou o aquecimento para ir ao monte aliviar a tripa. Tudo normal. O que não é normal é o cocó ter saído florescente. Como é que eu sei? Sei porque era de noite. A prova começou à meia-noite, lembram-se? Eu estava a 20 metros do cagão e os excrementos eram visíveis a essa distância. Não admira que depois tenha havido pessoal a perder-se nos primeiros 500m de prova. Confundiram o cocó com a sinalização da organização e lixaram-se. Parece que as fezes florescentes são resultado de um novo protótipo das barras Olimpo. As Barras “Simpson” são polvilhadas com pepitas de urânio e plutónio—e foram desenvolvidas em homenagem ao trabalhador de central nuclear mais famoso do mundo: Homer Simpson. Aproveitando a deixa, uma vez que «quando caga um português, cagam logo dois ou três», também eu arreei o calhão de maneira a partir mais leve. Como não tinha toalhitas comigo, vi-me porém obrigado a limpar o rabo a uma fita. Voltei a colocá-la no sítio, como é evidente, pese embora lhe ter dado o vento e ter levado com o lado borrado na cara. É a Lei de Murphy em acção.

 

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Uma grande equipa vê-se nos detalhes. Exemplo: para a EDV-Viana Trail, uma prova não começa com o tiro de partida. Começa muito antes do que isso. Foi por isso lindo assistir ao trabalho de equipa levado a cabo pelo Jérôme e pela Fernanda Verde. Estávamos já todos reunidos, como gado, à espera da largada, quando um grupo de meninas se junta à minha frente. A saber: Cristina Couceiro, Fernanda Verde, Sara Brito e Salete Tavares. Inicialmente falavam de moda, censuravam as atletas decotadas e cortavam na casaca dos seus respectivos. Nisto, do nada, a Fernanda atira: “Já viram a mochila do Jérôme? Está muito gira.” E enquanto as outras admiravam a dita mochila, a Fernanda aproveitou e, pelas costas, encheu-lhes as mochilas com pedras. É verdade que de pouco lhe serviu, já que a atleta da EDV-Viana Trail foi obrigada a desistir no seguimento de uma gripe mal curada. Ainda assim, seja como for, foi lindo de ver. Orgulho!

 

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O Jérôme ficou amuado porque não foi o único a estrear equipamento novo em Portalegre. Pedro Marques—também conhecido como o Ranheta Cinquentão—participou no UTSM e estreou uma t-shirt em homenagem a este post do TopMáquina. Quanta honra! Quanto caganço! Quanto desespero! Tanto trabalho só para aparecer novamente neste espaço. É triste ao ponto a que as pessoas chegam. Há quem já me tenha oferecido o seu corpinho como forma de pagamento. A propósito, aproveito para informar que não gosto de homens de meia-idade. Prefiro-os mais novinhos—e tenrinhos. Só é pena o Facada ter-se cortado—deve estar a poupar-se para uma prova de aldeia—e o Cocó tenha escolhido participar no TLSM. Tivessem todos disputado o UTSM e teriam certamente vencido por equipas.

 

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O Rui Luz enganou-se no último km, cortou caminho e acabou à frente do Jérôme sem tê-lo ultrapassado. Perante isto, exibindo o fair play que o caracteriza, o javali escreveu o seguinte na sua página do facebook: “Caso algum dos atletas/equipas se sinta prejudicado com o facto de eu ter sido classificado na prova, poderá escrever aqui, enviar mensagem privada ou contactar a Organização.” Assim sendo, dirijo-me por este meio ao Rui de maneira a informá-lo de que me sinto extremamente prejudicado. Não pelo teu erro involuntário—o percurso no local em causa mudou em relação aos anos anteriores e eu próprio ter-me-ia enganado se o Semedo não me tivesse avisado—mas antes pelo teu penteado. Eu gosto de ser o centro das atenções e tu, com o teu penteado, roubaste-me o protagonismo. Basta dizer que, em Portalegre, só autografei 2 soutiens e 3 cuecas de homem. Resta dizer que o Rui foi inicialmente alvo de uma penalização de 5min e que o Jérôme recusou-a. Achou pouco. Queria mais. O Rui fez-lhe então uma nova proposta: juntou-lhe mais 2min de penalização e uma massagem relaxante depois do duche. Escusado será dizer que o Lince aceitou na hora. “Nesse caso, esquece os 2min. Chega-me a massagem”, rematou ele.

 

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A Organização está de parabéns. Finalmente uma prova que presenteia os atletas com um conjunto de prémios com utilidade e aplicabilidade no dia-a-dia. Pessoalmente, estou farto de bibelots. Foram 8h de viagem entre Viana do Castelo e Portalegre e, à vinda, demos uso às cadeiras de cortiça e às garrafas de vinho para fazer um piquenique a meio da viagem. O nosso Presidente está infelizmente com excesso de peso (ver vídeo abaixo) e sentou-se no troféu do Ricardo, partindo-o. Vendo-o partido, o vencedor do TLSM amuou e mamou uma garrafa de penalti.

 

 

Termino partilhando alguns exercícios de descompressão recomendados pelo departamento médico da EDV-Viana Trail. Realizem-nos 1h após a prova e prometo-vos de que no dia seguinte sentir-se-ão como novos. São exercícios anti-empeno. Em baixo, em primeiro plano, vemos o nosso Presidente a descomprimir os meus glúteos com a sua zona pélvica. Em segundo plano, temos o nosso Director Técnico a alongar os Isquiotibiais da nossa campeã Fernanda Verde. Não têm de quê.

 

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Lista de Favoritos Tugas ao EGT

por Pedro Caprichoso, em 18.05.16

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1. Luís Duarte 

O homem ganhou o UTAX e é um autêntico “bombardeiro” neste tipo de terreno, onde a força é o que mais conta. Além disso, fez o EGT2015 e conhece bem o percurso. Lembro-vos que ele em 2015 seguia isolado a poucos kms da meta—e depois perdeu-se ou sofreu uma insolação. Já não me recordo bem. Foi uma das duas.

 

2. Nuno Silva

É preciso dizer mais alguma coisa em relação ao Nuno? São muitos anos a virar frangos em provas de Endurance, sempre ao mais alto nível. Vê-lo fazer 5h24 na Taça Ibérica de Trail em ritmo de treino é um excelente indicador. Só não o coloco a par do Luís porque o bombardeiro ficou à frente dele no UTAX.

 

3. Ricardo Silva / André Rodrigues

O Ricardo tem maior e melhor historial em provas de Endurance. Por outro lado, o Ricardo vem de lesão e o André parece-me em melhor forma. Equivalem-se, portanto. Ainda vão acabar de mãozinhas dadas como nos Abutres.

 

5. Tiago Aires

Apareceu de surpresa no mundo do Trail Nacional—e, o mínimo que se pode dizer, é que chegou, viu e venceu. No entanto, nunca fez uma prova de Endurance. Poderá fazer pódio. Não digo que não. Mas para isso terá de fazer uma prova muito inteligente no sentido de gerir as dificuldades inerentes a tipo de prova—e fazer essa gestão sem a experiência da competição (em Endurance) não é fácil.

 

6. Jérôme Rodrigues

Só não meto o meu Xuxu à frente do Tiago porque o Lince vem de lesão e ainda não se encontra nas melhores condições. Todos sabemos, no entanto, que o seu ponto forte é a Endurance. Prometi-lhe uma massagem completa caso ele fique no top50.

 

[Não me pronuncio em relação aos “estranjas”, uma vez que não os conheço bem. Reconheço os nomes, mas não os tenho acompanhado. No entanto, é evidente que vão estar na luta.]

O fraco orgulho dos adeptos de futebol

por Pedro Caprichoso, em 16.05.16

Em vez de andar a correr como um maluquinho, vou começar a andar com um cachecol ao pescoço e reclamar a vitória de uma equipa como se fosse minha—como se tivesse sido eu a marcar os golos. Para quê fazer desporto se posso ser aplaudido ao ver os outros a fazê-lo? Os adeptos de futebol não dão um único pontapé na bola, mas recebem parabéns dos adeptos rivais e dizem-se orgulhosos.

 

Orgulhosos? De quê exactamente? De festejarem os golos dos outros? De fazerem figas quando o adversário falha um penalti? De irem a Fátima a pé se o clube do coração for campeão? De fazerem muita força, cerrarem o olho do cu e enviarem energia positiva aos jogadores via telepática? Orgulho, por definição, implica mérito. Se sentimos orgulho por algo é porque tivemos mérito na sua conquista. Por outras palavras: como podemos ter orgulho em algo sobre o qual não tivemos qualquer influência?

 

Alguns argumentam que sentem orgulho porque são sócios, pagam as cotas e vão ao estádio apoiar a sua equipa. Tudo bem. Por mais insignificante que essa influência seja, é certo que ela existe. No entanto, só um lunático acredita, verdadeiramente, que são as suas cotas e o seu apoio que fazem com que as bolas entrem na baliza do adversário.

 

Outros argumentam que sentem orgulho porque tiveram a sensatez de escolher o clube A em vez do clube B. A sério? Escolheram? Escolheram merda nenhuma. Um tipo é de determinado clube por acaso: por influência de familiares, amigos ou, simplesmente, porque esse é o clube que mais vezes ganha—e todos gostamos de vencedores.

 

Se têm “orgulho” do vosso clube, experimentem fazerem em vez de verem os outros fazerem. Em vez de verem os outros jogarem, joguem vocês. Pratiquem desporto, compitam e ganhem alguma coisa pelas vossas próprias mãos. Talvez então saibam o que é sentir orgulho a sério.

 

O meu orgulho é este:

 

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 EDV-Viana Trail: Vencedores por equipas do TLSM—Trail Longo de São Mamede

[3.ª Etapa do Campeonato Nacional de Trail Ultra]

TrailCoaching

por Pedro Caprichoso, em 05.05.16

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É preciso uma cara-de-pau do caralho para ser-se Lifecoaching. Auto-intitular-se “Lifecoach” é o mesmo que afirmar, de nariz empinado, que se é melhor do que os outros. Não há outra forma de encarar esta pseudo-profissão. O adjectivo “arrogante” é simpático demais para qualificar esta gente. Burlão é mais adequado. Olhar uma pessoa nos olhos e afirmar que somos melhores do que ela (nesta coisa a que chamamos vida) tem um nome: fraude. Não há outra palavra.

 

Já repararam que os Lifecoaches são todos jovens? Seria expectável que fossem mais velhos: gente vivida, experimentada, calejada—cuja sabedoria ser-nos-ia transmitida em função da sua experiência de vida. Mas não: são todos jovens, na casa dos trintas e quarentas, de corpo ripado e sorriso branqueado. Sabem quem é o meu Lifecoach? O meu avô.

 

O que me alegra é saber que estes parasitas, mais tarde ou mais cedo, vão meter o pé na poça. É uma questão de tempo. E, quando esse dia chegar, serão expostos por aquilo que são na realidade: fraudes; vendedores de banha da cobra; burlões dos tempos modernos; campeões da treta; especialistas da verborreia; técnicos superiores da aldrabice; bocas de esterco; trafulhas com o dom da palavra; vigaristas munidos com um cardápio de frases feitas e lugares comuns vomitados sem um pingo de vergonha. É só uma questão de tempo.

 

Vivemos num mundo de certezas, em que os mais certos—ou, pelo menos, os mais assertivos na sua certeza—são retractados como os mais fortes. Certeza é sinónimo de força, de carácter, de liderança—e hoje em dia temos todos de ser lideres, não é? Hoje não há espaço para dúvidas, hesitações ou perguntas. Tudo são frases feitas, vomitadas por um sorriso branqueado entre o jornal da noite e os bastidores da selecção. A felicidade é-nos vendida em pequenas concentrações de certeza—e à certeza vem sempre associada a simplicidade, a rapidez, a solução milagrosa, tanto faz se para a prisão de ventre se para os problemas amorosos. Há solução para todos os males, conquanto esta não nos tome mais do que 5 minutos por dia e traga como oferta um conjunto de facas de carne se formos um dos primeiros a ligar. Se aprendi alguma coisa em 35 anos de vida, é que a vida é muito complexa. Duvidem sempre das pessoas que parecem muito certas do que dizem e apresentam soluções simplistas para problemas complexos. Eu incluído. A verdade é que ninguém sabe o que anda a fazer: andamos todos às apalpadelas, a tentar perceber como é que “isto” se faz. E se isto é verdade na nossa vida social e profissional, é-o ainda mais na nossa vida pessoal.

 

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Dito isto, se o Gustavo Santos pode, eu também posso. O Gustavo Santos não é melhor do que eu. Eu também sou bonito, musculado e tenho uma cara-de-pau do caralho. Passe a modéstia, considero-me um vigarista de alto gabarito. O meu conceito é, porém, menos ambicioso. Não pretendo ser Lifecoach; contentar-me-ei em ser Trailcoach. Trailcoach é um conceito que vai para além do treino. O treino não me interessa. Para isso existem Treinadores com formação na área da Educação Física. No fundo, trata-se de aplicar a filosofia do Lifecoaching ao Trail Running. O meu pacote de TrailCoach inclui 10 sessões de empowerment com a aquisição de capacidades mentais ao nível de um super-herói da Marvel; um workshop de fotografia no âmbito das selfies; um catálogo de dicas para sacar patrocínios; um calendário de provas de aldeia para obter resultados à campeão; um tutorial de caganço nas redes sociais; um manual de engate de atletas de Trail; e um curso à distância de escrita criativa aplicada às crónicas de corrida. Tudo isto pela módica quantia de €499/mês—ou em suaves prestações de €200/semana. Não se atropelem, que eu chego para todos!

Rescaldo nos bastidores do MIUT 2016

por Pedro Caprichoso, em 29.04.16

Marquei voo para a Madeira no mesmo dia em que um colega de equipa me ofereceu a sua inscrição no MIUT. Surgiu-lhe um imprevisto e eu não tinha nada melhor para fazer nesse fim-de-semana. Era isso ou ficar em casa, de pijama, a preencher a declaração de IRS e a tirar macacos do nariz. Tirar macacos do nariz e colá-los por baixo do sofá é um dos meus passatempos preferidos. Pensei, na minha hercúlea ingenuidade, que a 2 meses da prova seria possível mudar o nome da inscrição. Não foi. O ponto 3 do regulamento do MIUT não permite a transmissão da inscrição para outro atleta. Apenas o reembolso é permitido, mediante apresentação de certificado médico. Mas quem é que no seu juízo perfeito se lembra de ler regulamentos? O regulamento de uma prova é o equivalente ao rótulo das embalagens de douradinhos, às instruções de utilização de preservativos, aos contratos de crédito habitação e aos procedimentos de segurança dos aviões. Ninguém lê essa merda! Não obstante, por muito quer me custe, hoje não tenho outro remédio senão agradecer à Organização. Obrigado por me terem impedido de participar no MIUT. Se tivesse participado, o mais provável é que tivesse falecido a meio do Pico Ruivo e amanhã por esta hora estaríamos todos a assistir à minha missa de sétimo dia.

 

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Com a minha declaração de IRS preenchida, validada e devidamente submetida, resolvi ficar com o voo e parti rumo à Madeira com vista a dar assistência aos meus colegas de equipa. O objectivo era acompanhar os últimos 40k da prova no terreno e aproveitar para fazer um treino longo. No total ainda fiz 55k com 3.000D+, mais do que aqueles que logo aos 30k fizeram pisca à direita e encostaram a carroça em Estanquinhos. Segundo testemunhos no local, alguns meteram logo 4 piscas. Partiram a embraiagem a meio da subida e nem tempo de encostarem tiveram. Coitados. Que pena. Estão a ouvir isto? Isto é o violino mais pequeno do mundo a tocar uma melodia surda em honra das vítimas do MIUT.

  

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 [As vítimas da EDV-Viana Trail estavam todas alinhadas à partida. É como se já desconfiassem. Que patos!]

  

Para outros, o mais difícil da prova foi mesmo chegar ao Funchal. Para mim também não foi pêra doce. Primeiro, no Aeroporto do Porto, confundiram o meu isotónico com droga—tinha-o escondido em saquinhos de plástico transparente no meio da minha roupa interior, entre cuecas e ceroulas—e chamaram-me à parte para ser revistado. Depois, o avião aterrou na ilha errada (Porto Santo) por causa do mau tempo e tive de esperar 3h no lobby do hotel até sermos informados de que, afinal, não havia quartos para todos—e que os restantes (eu incluído) teriam de ficar noutro hotel. Pior do que tudo, ainda assim, foi ver o efeito que esta situação teve no Jérôme. O meu Xuxu tinha aterrado no dia anterior, foi-me esperar ao Aeroporto do Funchal e ficou desconsolado quando o informei de que passaria a noite em Porto Santo. O coitado teve de dormir sozinho. Sugeri-lhe que metesse mais uma manta na cama para não ter frio. A minha viajem de ida só não foi uma seca maior porque deu para meter conversa com outros atletas. Sabem como identificar um atleta de Trail num aeroporto? É fácil: são aqueles que exibem as suas t-shirts, camisolas, casacos e coletes de finisher das provas mais duras que fizeram até à data. Mais fácil ainda é identificar as fãs do TopMáquina: são aquelas que se atiram aos meus pés, histéricas, exigindo um seio autografado.

 

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 [Muita camisola de finisher do UTAX andou a passear pela Madeira.]

 

No dia da prova levantei-me às 6h00 da manhã e fui à pata do Funchal ao Pico Areeiro, primeiro por estrada até ao Poiso (abastecimento dos 90k) e depois daí ao Areeiro usando o percurso da prova em sentido contrário. Uma vez que a Organização previa a passagem do primeiro atleta por volta das 10h30, qual não foi o meu espanto quando me cruzei com o líder da prova na descida após o Areeiro. Eram 9h40 e o americano javardolas já levava 50min de vantagem em relação ao recorde da prova. Incentivei-o à sua passagem no meu inglês macarrónico e ele agradeceu de boca cheia com um simples “Obrigado”, projectando uma manada de gafanhotos de chocolate na minha direcção. Sei que os gafanhotos eram de chocolate por causa da cor (castanha) e porque depois vi-o num posto de abastecimento a comer chocolate como um javardo. Resultado: fiquei com a minha t-shirt de finisher do Trail de Afife toda borrada. Era a minha t-shirt preferida. Digo “era” porque já a vendi no ebay por uma pequena fortuna. Uma t-shirt simples vale pouco, mas borrada com o ADN do Zé Miller vale 500 dólares.

 

 

Os especialistas prevêem que a vitória esmagadora do Zé Miller terá efeitos profundos no Trail Nacional. Os portugueses nunca viram nada assim, e muitos são os atletas “tugas” que já alteraram o seu plano de treinos. “Correr à labrego” e “comer à javardo” são duas actividades que muitos passaram a incorporar nas suas sessões de treino semanal. A EDV-Viana Trail não anda a dormir e já pediu patrocínio aos chocolates Avianense e encomendou 5 passadeiras com vista a instalá-las no navio Gil Eanes. Relembro que o Zé trabalhava em cruzeiros e passava as noites a treinar nas passadeiras do ginásio e escadarias do barco enquanto os seus colegas relaxavam no bar. Pessoalmente, fiquei contente por saber que ele usa os mesmos géis que eu. Quer isto dizer que estou no bom caminho. Agora só me falta comprar umas Nike manhosas na Sportzone e um Casio na feira de Ponte de Lima para ganhar o MIUT 2017. Tenho pena dos representantes portugueses da Suunto e da Garmin, pois vão ressentir-se nas vendas. O pessoal já se apercebeu de que, afinal, não é preciso um relógio GPS para ganhar o MIUT. E que panenleirice é essa dos impermeáveis e corta-ventos? Isso é para meninos! Homem que é homem faz o MIIUT todo em mangas cavas.

 

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O MIUT, não só foi um sucesso organizativo, como também lançou novas tendências. Bastões artesanais e manguitos cor-de-lagosta foram algumas das inovações com estreia mundial na Madeira. Vi alguns atletas—nomeadamente estrangeiros—com bastões de madeira. Aos olhos dos mais distraídos, quase parecia que os bifes se tinham arrependido de não terem trazido os seus bastões de carbono e subiram o Pico Ruivo com o auxílio de muletas fabricadas pelo caminho. Quanto aos manguitos cor-de-lagosta, estes ainda tiveram mais sucesso. Ninguém partiu com eles, mas todos os exibiam na meta.

 

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A Organização esteve ao mais alto nível: logística impecável, segurança exemplar, abastecimentos fartos e marcações perfeitas. O MIUT não se livrou, porém, de um escândalo de dimensões apocalípticas. Designá-lo-emos por “Isotónicogate”. No primeiro abastecimento (Fanal, 17,7k), os voluntários informavam os atletas de que o isotónico aí disponibilizado só podia ser consumido no local por meio de copo. Ou seja, os atletas não podiam abastecer-se e bebê-lo pelo caminho. Não dava para todos, justificavam eles. E eu pergunto: se não dava para todos, para que raio disponibilizá-lo in the first place? Nesse caso, queria ver quem é que me impediria de beber 69 copos de penalti? Posto isto, muitos saíram do abastecimento com a boca cheia de isotónico, cuspiram-no depois no seu reservatório de hidratação e diluíram-no em água. Estamos, portanto, perante o primeiro abastecimento homeopático da história do Trail Mundial.

 

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Perdi a minha boleia no Poiso e fiz os últimos 26k na companhia do trilho maravilha—Cocó, Ranheta e Facada. Que é como quem diz: Faria, Marques e Martins. O primeiro deu o litro e fechou a equipa EDV-Viana Trail, levando-a a um brilhante 3.º lugar à Geral. O segundo fez a prova toda com a palmilha da sapatilha esquerda a sair-lhe pelo calcanhar e, ainda assim, venceu o escalão M50. O terceiro tem um rabo muito bom. Emocionei-me ao ver a forma como os três percorreram os últimos quilómetros. Sempre que um caminhava, os outros caminhavam; sempre que um corria, os outros corriam; sempre que um bebia, os outros bebiam; sempre que um parava para mijar, os outros mijavam também; sempre que um apalpava o rabo a uma caminheira, os outros apalpavam também. O Trail é isto: entreajuda, camaradagem, aliviar a tripa e apalpar rabos. A competição pouco importa, tanto que hoje em dia somos todos campeões. Tantas foram as cerimónias de pódio do MIUT, que perdi a conta ao número de vencedores. Com classificações à Geral, ATRP, Regional e Escalões Etários, é quase impossível não sacar uma classificação à campeão. Ouvi um tipo gabar-se por ter sido o 6.º Madeirense M45 no Mini-Trail. Só faltava dizer que tinha sido o melhor da sua rua.

 

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Fiz questão de não tirar uma selfie com o Zé Miller. Ele bem implorou, mas eu mandei-o passear. Chato de merda! Passou o Domingo todo a pedir aos portugueses para tirarem uma selfie com ele. Eu cá não tenho tempo para americanos javardos. Prefiro portuguesas com boas maneiras à mesa!

NÃO SER MAU JÁ É MUITO BOM

por Pedro Caprichoso, em 15.04.16

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Não me critiquem por não fazer o bem. Antes elogiem-me por não fazer o mal. Não fazer mal já é muito bom. Não ajudo velhotes a atravessar a rua, mas também não lhes ando a impingir suplementos ricos em cálcio e magnésio. Nunca comprei o pirilampo mágico, mas também nunca andei à porrada com uma criança deficiente. Não aviso os meus adversários de um obstáculo no trilho, mas também não lhes passo rasteiras nem os empurro por uma ribanceira abaixo. Creio que já perceberam a lógica do meu raciocínio.

 

Não sejas muito exigente com os outros. Não exijas bondade ao teu semelhante. Contenta-te com o facto de nele não existir maldade. Não ser mau é uma bênção em si mesmo. Ser bom é sobrevalorizado. Não são necessárias Madres Teresas de Calcutá para construir um mundo melhor. É apenas necessário gente que não faça merda. Não fazer merda é subvalorizado. Da mesma forma, não sejas muito exigente contigo próprio. Não te exijas bondade. Não te esforces para seres bondoso. Opta por um objectivo mais realista: esforça-te por não seres uma besta! Não ser uma besta já é muito bom.

 

Não sou bondoso—e não me condeno por isso. Prefiro antes congratular-me por não ser uma besta. Acordo, dirijo-me à casa de banho, olho-me ao espelho e penso: “Não és uma besta quadrada.” Gosto de mim na certeza de não ser uma besta. Basta-me isso. No fundo, não sou mau—e isso já é muito bom.

E se fosse eu?

por Pedro Caprichoso, em 08.04.16

Inspirado pela Joana Vasconcelos, também eu decidi colocar-me na pele de um refugiado. Eis o que eu levaria na minha mochila:

 

Rescaldo: IV Inatel Piódão Trail Running 2016

por Pedro Caprichoso, em 07.04.16

O principal problema do Piódão é que fica longe de tudo. Para quem não conhece, fica no meio do nada: ali para os lados dos quintos dos infernos, entre o cu de Judas e onde o Diabo perdeu as botas. Muitos levantaram-se às 3h da manhã e fizeram 4h de carro para estarem à partida do IV Inatel Piódão Trail Running. Heróis. É claro que depois deu-lhes o sono durante a prova e fizeram figuras tristes. Querem dormir? Tudo bem, mas façam-no fora do trilho. Os outros atletas podem tropeçar em vocês e cair—e cair aleija.

 

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Da mesma forma, considero que testar material durante a prova é uma tremenda falta de respeito para com os outros atletas. É o equivalente a um automobilista parar na faixa de rodagem para falar com um peão e entupir o trânsito atrás de si. Novamente: querem testar material? Tudo bem, mas façam-no fora dos trilhos.

 

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Tenho um ritual pré-prova, mas não sou uma pessoa supersticiosa. O ritual nada tem de supersticioso. Uns aquecem, alongam, bebem 5 cafés e dão uma valente cagada antes da prova. Eu não. Aquecer e alongar é uma canseira, não gosto de café e não me importo de cagar no meio do monte. Para aquecer os motores prefiro apalpar as glândulas mamárias dos meus colegas de equipa. Um tipo fica excitado, a circulação sanguínea aumenta, os músculos aquecem e arrancamos com um sorriso nos lábios. Parece-me bem mais saudável. A única desvantagem é ficar com a tenda armada e enrabar acidentalmente um inocente aquando do tiro de partida. Tal já me aconteceu por duas ocasiões, mas as vítimas não se importaram. Não apresentaram queixa e, pelos vistos, até gostaram. Ainda tenho o telemóvel delas. 

 

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Soube que a prova ia correr bem ao Délio quando o vi a mijar atrás de um carro dos bombeiros. Uma bombeira dirigiu-se em direcção à viatura, estacou quando o viu de pirilau na mão e paralisou de boca aberta durante alguns segundos. “Estás a ver aquele atleta de vermelho a afastar-se do nosso carro? Ele está equipado com material de ponta. De certeza que vai fazer um bom resultado”, disse a bombeira a uma colega. Dito e feito: fez 3.º lugar. Esta é a posição que o Délio usa para fazer xixi:

 

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O Flamengo fez uma pausa no Brasileirão e deslocou-se ao Piódão para estrear-se nas lides do Trail. O clube do Rio de Janeiro não deixou o seu crédito por mãos alheias e cilindrou a concorrência. Colocando 3 javalis no top10, obtiveram uma victória merecidíssima. Chafurdada mas merecida. Sem espinhas.

 

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Qualquer semelhança entre a segunda metade da prova e a série The Walking Dead não é mera coincidência. Os mortos-vivos foram vítimas da Fórnea, do Colcurinho e de uma primeira metade muito rápida. Não é por acaso que quem conhecia o percurso decidiu poupar-se nos primeiros 30k para conseguir manter o ritmo nos últimos 20k. Exemplo: o javali Rui Luz—3.º classificado em 2014—ganhou 16 posições na segunda metade e alcançou um excelente 4.º lugar à geral. O berbicacho para muitos é que chegaram ao topo da Fórnea e pensaram: “Bem, a subida está feita. Agora é só fazer 8k no topo da Serra e descer rumo ao Piódão”. O problema é que ainda faltava o Colcurinho e a meio deste estava escondido o homem da marreta.

 

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Massacrante foi o adjectivo utilizado por muitos para qualificar a prova. Muitos dizem terem ficado dois dias de molho à conta das descidas. Não percebo. Não faço ideia do que esta gente está a falar. No dia seguinte, Domingo, fiz 1h20 de corrida com o meu cão, joguei à macaca com a minha afilhada, fiz uma aula de pilates e andei à porrada com um cigano. Havia participado na segunda edição (2014) e já sabia ao que ia. Pelo contrário, parece-me evidente que muitos novatos foram ao engano. Os coitados não faziam a mínima ideia onde se foram meter. Se fizessem, não se punham a rir na base da subida mais dura do percurso. Eu gostava era de ver uma foto do casal abaixo retractado no topo da Fórnea. Queria ver onde é que eles iam buscar forças para arreganharem a fronha.

 

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Quem me viu a cortar a meta pode ter ficado com a ideia errada. Não estava a morrer. Não era cansaço. Estava simplesmente engasgado com os 3 géis que enfardei ao longo da penosa subida das escadas do Hotel rumo à meta. Um gel a cada 10 degraus. Em boa verdade, cheguei ao fim tão fresco, mas tão fresco, que ainda tive forças para dançar o vira. O speaker fez de homem e eu de mulher.

 

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Detestei o prémio de finisher. Uma colher de pau? A sério? Façam-me o favor! Detestei-o porque a minha mulher adorou-o. Deu-me com ela no rabo por ter ido para os copos com os meus colegas de equipa e ter chegado a casa às 4h da manhã. Quatro dias passados, ainda não me consigo sentar.

 

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Perdi 2kg no UTAX e mais 3kg no Piódão. Como é que um tipo perde 2kg em 110k e perde 3kg em 50k? Não faço ideia. É um dos mistérios do Trail Running. Seja como for, acredito que ainda consigo perder mais 2kg. Para tal farei uma redução do pénis. Ficarei mais leve e deixarei de tropeçar no meu malaquias. Tenho agendada uma redução peniana para Junho e penso que em Setembro já estarei em condições de alcançar o objectivo principal da minha época desportiva: ser finisher da Légua Nudista.

 

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Para terminar, informo-vos de que serei atleta oficial da inov-8 a partir do Trail da Baixa da Banheira. O meu contrato com a Adipas acabou em Março, o meu empresário declinou a sua renovação e no Piódão já tive oportunidade de testar o equipamento da marca inglesa. A Adipas queria que eu fizesse publicidade grátis aos seus produtos em troca de um desconto de 15% nos produtos da marca—e eu fiz-lhes um manguito. A sério? Fazer o trabalho comercial de uma marca em troca de 15% em desconto? 15%? Quem é que se sujeita a tal coisa? Não acredito que haja quem se deixe explorar desta forma. Para quê? Para encherem o peito e anunciarem que são patrocinadas? Por quê? Por que acreditam que ser patrocinado aumenta a percepção que os outros têm das suas capacidades atléticas? Mais patrocínios = melhor atleta? É isso? Estamos perdidos!

Antevisão: Ultra Trail do Piódão 2016

por Pedro Caprichoso, em 31.03.16

O Piódão é o Chamonix português. Não tem a dimensão, nem o glamour, nem o glaciar, nem o funicular, nem os ferraris, nem as gajas boas, nem esparguete à bolonhesa a 25€ a dose. Tem fiats puntos, velhotas com bigode, neve esporádica no Pico da Cebola e broa de batata a 2,99€. Chamonix é melhor. É um facto. Não obstante, embora numa escala mais pequena, o Piódão consegue-nos igualmente transmitir uma estranha sensação claustrofóbica imposta pelos declives acentuados da Serra do Açor. A montanha parece cair sobre nós. Faz-nos sentir pequeninos—e eu gosto de me sentir pequenino. Põe as coisas em perspectiva.

 

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Será a minha segunda vez no Piódão. A primeira foi em 2014. Participei na segunda edição e jurei para nunca mais. Só regresso por imposição do meu empresário. Gostei do percurso: é ao meu jeito: corrível. Gostei da organização d’O Mundo da Corrida: discreta, eficiente e sem merdas. Gostei das gentes, sobretudo de uma sueca que exibiu as suas magníficas mamas à passagem dos 28k. Pensando bem, podia ser japonesa. A hippie veio ao parapeito da janela da sua renovada casa-de-xisto e “meteu-as de fora”. Tirei os olhos do trilho, tropecei num calhau e não rachei os cornos por milagre. O Rui Luz seguia à minha frente e as suas nalgas rechonchudas ampararam-me a queda. Não percebo como ele não se despistou. Só há uma explicação: não gosta de mamas.

 

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Gostei de muita coisa, mas não gostei nada de ter levado com a marreta aos 33k. Cinco quilómetros depois de levar com as mamas, levei com a marreta. E que marretada! Até vi estrelas. Literalmente. Estrelas verdes, em modo pisca-pisca, afectando a minha visão periférica. Subia a Fórnea a todo o gás e, de repente, sem que nada o fizesse prever, o homem da marreta assomou por detrás de um arbusto e atacou-me. Deve ter ido cagar. Deixou escapar o Rui enquanto evacuava e eu é que me lixei. PUMBA! Não ide em cantigas: o UTP começa na base da Fórnea. A subida é potencialmente corrível. Potencialmente. No entanto, com 32k nas pernas, podem estar descansados de que será toda feita a passo, vergando a mola com o focinho rente ao chão. Aconselho a ingestão de um gel, barra, comprimido de cafeína, sandes de presunto, cogumelo do tempo, testosterona ou nandrolona por volta dos 30k. Há 2 anos ia desmaiando no topo da Fórnea e fiz os primeiros 100 metros da descida a passo. Não tenho memória da segunda metade da subida. Acho que o homem da marreta deixou-me KO e posteriormente esbandalhou-me o rabinho. Só assim se explica a forma como acabei a prova: todo torcido.

 

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Já dei esta ideia aqui há atrasado e volto a repeti-la: que tal fazerem uma secção cronometrada—semelhante ao que se faz na Padela—nas escadas do Hotel do Piodão? Só os últimos 100 metros de escadas. Ver três centenas de desgraçados a arrastar a carcaça até à meta seria lindo de se ver. O André que o diga.

 

Os Atletas mais Subvalorizados do Trail Nacional

por Pedro Caprichoso, em 29.03.16

Estive para fazer uma lista dos atletas mais sobrevalorizados do Trail Nacional, mas depois arrependi-me. Apercebi-me que tal seria de mau-gosto. Até para mim. Tanto que para alguns seria injusto. Há quem não seja responsável pela sua sobrevalorização—e não merece que se lhe seja apontado o dedo. Assim sendo, decidi fazer o contrário: elaborar uma lista dos atletas mais subvalorizados no sentido de valorizá-los aos olhos dos mais desatentos.

 

Os atletas mais subvalorizados são aqueles em que se verifica maior discrepância entre o seu valor desportivo e a percepção que o público tem deles. Ao contrário do que possam pensar, os melhores atletas não são necessariamente aqueles que têm mais “patrocinadores”; que mais hashtags usam nas suas publicações; que mais vezes são promovidos pela comunicação social; ou que, tendo um blogue como este, são mais conhecidos por aquilo que escrevem do que por aquilo que correm.

 

1. PEDRO RODRIGUES

 

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Embora seja um dos melhores, o “Troncos” continua a ser um dos atletas mais subvalorizados pelas marcas. Ainda para mais, é uma pessoa de quem todos gostam. O Pedro conhece toda a gente. É o Relações Públicas do Trail Nacional. A única explicação, portanto, é que as marcas andam a dormir. Este homem merece todo o apoio do mundo. Eu recuso-me a ser patrocinado antes do Pedro. Sim, leram bem: até a mim já me ofereceram patrocínios. Primeiro a mim do que ao Pedro. Cabe isto na cabeça de alguém? Posto isto, o meu recado para as marcas é o seguinte: só aceito apoios depois do Pedro ser apoiado. Percebido?

 

2. PAULO LOPES

 

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O Paulo “(Ex)Terminador” Lopes é o tipo de atleta que eu gostaria de ser quando fosse grande. Inteligente pela forma como aborda as provas, fazendo-as sempre de trás para a frente. Ele não se poupa para atacar na segunda metade; ele tem é a capacidade de não entrar em loucuras e fazer as provas ao mesmo ritmo do início ao fim. Nos últimos 10k, não é ele que está mais rápido; somos nós que estamos mais lentos. O homem é M40 e ficou em 5.º no Campeonato Nacional de Trail Ultra. Ainda assim, só os mais atentos parecem conhecê-lo e apreciá-lo. É uma pena.

 

3. JORGE ROCHA

 

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Jorge “O Relógio Suíço” Rocha é uma das minhas referências. Humilde e reservado, o Jorge é o paradigma da consistência. Dando sempre prioridade aos interesses da equipa, é o abono de família da EDV-Viana Trail. Sabiam, por exemplo, que ele fez top10 nas 3 últimas edições do UTAX? Sexto, sexto e oitavo? De certeza que não sabiam. Aliás, como poderiam vocês saber se vocês estão mais interessados em analisar o Strava de um tipo qualquer que não corre um peido?

 

4. PEDRO MARQUES

 

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O Pedro é um dos pioneiros do Trail Nacional. Eu ainda não sabia que o Trail existia e ele já andava a cortar a meta do UTSF de mãos dadas com o Nuno Silva. Aos 50 anos—repito: 50 anos—continua a fazer resultados ao nível de um top10 no UTAX. As pessoas desvalorizam-no porque ele não depila as pernas e publica fotos com sandes de presunto e minis em vez de isotónico e bidons de suplementação.

 

5. LUÍS DUARTE

 

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Fui interpelado por muitos atletas (das provas mais curtas) enquanto lavava as vergonhas nas piscinas de Miranda do Corvo—e muitos não sabiam quem é o Luís Duarte. Verdade. Queriam saber quem tinha ganho o UTAX, eu respondi-lhes e muitos pediram explicações. Luís? Quem? Fiquei estupefacto—e, só por isso, merece ser mencionado aqui. O Luís é outro dos que comete o erro de ser muito humilde. Sim, os conhecedores do Trail sabem quem ele é. Para nós é um dos melhores, senão o melhor. Acontece que ele faz poucas provas—e isso prejudica-o ao nível da sua projecção mediática. O “Bombardeiro” não precisa de fazer provas todos os fins-de-semana para sentir-se validado. Isto tem um nome: classe. Também pode ser que ele não compita mais por motivos profissionais. Que seja. Não me interessa. É classe à mesma, pois não o vejo queixar-se por causa disso. Gosto do facto de haver quem aparece de vez em quando só para mostrar aos outros como é que se faz.

 

O problema dos tipos acima aludidos é que raramente se gabam. Atleta que é atleta tem de gabar-se no facebook. Onde estão as selfies no topo dos montes? As fotos dos troféus? As sapatilhas enlameadas? As desculpas esfarrapadas? A publicação diária dos quilómetros percorridos? O relógio com o tempo de corrida e a t-shirt de finisher? Onde, pessoal? Há tipos que nem o relato das provas fazem. Assim é difícil. Tenho uma palavra para vocês: cagão. Têm de ser mais cagões. Anda por aí gente que vende o cu por 2 tostões, mas vocês não. Vocês acham-se especiais. Acham-se melhores do que os outros. Não vejo outra explicação.

Rescaldo: UTAX 2016

por Pedro Caprichoso, em 24.03.16

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Começo com o pensamento de um dos maiores vultos do Trail Nacional: “Se não estás a sentir é porque não está a acontecer.” José Faria sabe do que fala. Eu não sei, mas ele sabe. Para mim isso é suficiente. O importante não é saber. Sentir é mais importante do que saber. O que é que vocês sentem ao ler Faria? Ler Faria é como ler Saramago. O que sentem? Esse é o sentimento que importa. Se não sentem, é porque não está a acontecer—e é triste não sentir. No UTAX, porém, não há esse risco. O UTAX sente-se e as coisas acontecem. Por vezes bem, por vezes mal. Mas acontecem. Eis como elas aconteceram:

 

Há coisas do outro mundo? Há. Mas também há coisas deste mundo. Geralmente, o que há mais são coisas deste mundo que parecem do outro mundo—coisas sobrenaturais como os rumores de que houve batota no UTAX. Qualquer coisa a ver com popós entre Povorais e Coentral. Não percebi bem. Seja como for, não acredito em teorias da conspiração. Prefiro acreditar nas pessoas. Se as pessoas dizem que não são batoteiras, é porque não são batoteiras. Os mentirosos vão para o inferno e não acredito que as pessoas queiram ir para o inferno. É um sítio muito quente, onde as garrafas têm buraco e as mulheres não. Dito isto, importa sublinhar que eu também não sou batoteiro. Se digo que não sou, é porque não sou. Vocês acreditam em mim, não acreditam?

 

É indesmentível que carreguei a Fernanda Verde às costas durante 30km, mas isso não constitui batotice. Talvez constitua burrice, mas não batotice. Burrice no sentido em que agora estou entrevado e terei de ser operado à coluna. Tudo isto para dizer que fiz o UTAX todo (110k) na companhia da Fernanda e, quase todo, com o nosso colega de equipa José Domingos—que acabou por alcançar a 3.ª posição no escalão M50. Seguimos em tripla até ao Observatório (94k), altura em que o Domingos teve de ir ao WC aliviar a tripa. Só é pena ele não ter cortado a meta connosco. Teria sido a cereja em cima do bolo. Felizmente existe o Photoshop:

 

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16 horas a acompanhar uma atleta feminina ensinou-me muito. Quero por isso partilhar convosco alguns desses ensinamentos, caso no futuro pretendam assumir o papel de lebre de uma senhora. Não partilho todos porque há crianças a ler estas coisas e eu não quero ser processado.

 

10 DICAS PARA SER LEBRE DE UMA SENHORA

 

  1. Seguir atrás dela nas subidas para não interferir com o seu ritmo. Para não interferir com o seu ritmo e para que ela não apanhe com as vossas bufas. É uma questão de boa educação;

 

  1. Se ela der um traque ruidoso, finjam que não o ouviram. Peçam perdão, dêem a entender que foram vocês que se largaram, tapem o nariz e respirem pela boca até o perfume se dissipar;

 

  1. Ela tem uma farmácia na mochila. Se passarem mal, peçam-lhe que ela tem a solução para todas as vossas maleitas. Se não fossem aqueles dois trifens a meio da prova, não sei o que me teria acontecido. Estava num naqueles dias;

 

  1. Quando ela quiser fazer xixi, continuem devagar que ela depois apanha-vos. Não esperem ao pé dela enquanto ela rega as plantas. Pode tornar-se embaraçoso;

 

  1. Da mesma forma, quando fizerem xixi não peçam para que ela fique ao vosso lado. Digam para ela seguir e depois apanhem-na mais à frente. Pode tornar-se embaraçoso se não a conseguirem apanhar;

 

  1. Dado o facto de elas serem mais precavidas, sigam à frente dela nas descidas técnicas de maneira a testarem as zonas mais instáveis do trilho. Isto fará com que ela ganhe mais confiança. Se caírem à frente dela, melhor ainda: é da maneira que ela dá uma boa risada e fica mais relaxada;

 

  1. Se lhe entrar uma pedra nas sapatilhas, ajoelhem-se, descalcem-na, tirem a pedra, calcem-na e não se queixem do cheiro a chulé. Fica mal. Uma senhora não tem chulé. Quer dizer, tem… mas o seu chulé não cheira mal. Cheira a rosas;

 

  1. Levem-na às cavalitas nas passagens de linhas de água. Esta regra só se aplica, porém, se elas forem mais leves do que vocês. Se forem mais pesadas, esqueçam. O cavalheirismo é muito bonito, mas não paga cirurgias à coluna. Para memória futura: a Fernanda é MUITO mais leve do que eu;

 

  1. Se apanharem um grupo de caminheiros num single-track a atrapalhar a vossa progressão, peçam com jeitinho para que eles deixem a menina passar. A maioria são cavalheiros e desviam-se imediatamente. Dica: também podem usar esta técnica quando seguem sozinhos. Os morcões ficam a olhar para trás à espera de uma menina e nada! Escangalho-me a rir sempre que faço isso!

 

  1. Por fim, o mais importante: se uma adversária ultrapassar a vossa colega, ide atrás dela e façam-lhe bullying. Não é preciso muito. Basta um “estás gorda” que ela encosta logo a chorar—e a vossa colega recupera logo o lugar perdido.

 

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Conhecem aquela cena típica das comédias românticas em que ele e ela estão cheios de frio e a única forma que eles têm de se aquecerem é tirando a roupa e aquecerem-se esfregando os seus corpos nus um contra o outro? [Sabia que conseguiria escrever esta frase sem vírgulas]. Pois bem, o que se passa é que eu comecei a tremer descontroladamente depois da prova. Devia ter vestido o impermeável nos últimos 16km, mas não o tirei da mochila e acabei por ir mesmo assim até à meta. Na meta, ensopado, fui interpelado por 5 meios de comunicação e, quando dei por mim, estava a tremer como varas verdes. Precisava de me aquecer rapidamente. A água dos balneários estava morna e não havia outra solução: um dos meus colegas de equipa teria de se enrolar comigo de maneira a aquecer-me. Nus. Num saco cama. O Jérôme e o Faria ofereceram-se de pronto—e quase andavam à porrada. Separei-os e sugeri que o escolhido fosse seleccionado por meio de cara ou coroa. Saiu coroa e ganhou o Faria. O Jérôme fez beicinho, amuou e tive de prometer-lhe que ele depois poder-me-ia lavar as costas no duche.

 

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Referi, na antevisão da prova, que seria o tipo do balão das 17h. Peço imensa desculpa por vos ter levado ao engano. Não consegui fazer 17h. O comboio adiantou-se 3 minutos e acabei por fazer 16:57. A culpa é da Fernanda, que nos últimos kms ficou furibunda quando a informaram de que era terceira. Ela fez a prova praticamente toda em 2.º e nunca foi ultrapassada, pelo que provavelmente seria erro. Mas ela não quis saber: ligou o turbo, recuperou 3min para a frente da corrida e ia-me abafando. Só não me abafou porque eu tive medo da vergonha e enfiei 7 comprimidos de cafeína pela goela abaixo.

 

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O Nuno Silva devia ser penalizado por estas brincadeiras. Isto é a gozar com os desgraçados que passaram por essa zona a arrastarem-se. É espetar-lhe com 2h de penalização. Da próxima já não goza com os coxos!

 

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No dia seguinte, em Miranda do Corvo, tomando partido da realização da Taça de Portugal Trail Ultra Endurance, a ATRP decidiu realizar a Cerimónia de Entrega de Troféus referentes à última época. Nesta Cerimónia vimos os atletas da EDV-Viana Trail subirem 9 vezes ao pódio. Ricardo Silva desmaiou à segunda subida ao pódio e tiveram de lhe dar água com açúcar para que ele conseguisse subir mais duas. Jérôme Rodrigues agravou a lesão que contraiu durante a prova ao subi-lo por 4 vezes—e diz que a partir de agora vai fazer os possível para nunca mais ir ao pódio: “A partir de agora, o meu objectivo é o 4-º lugar.”

 

Já perdi 4kg desde que parti a clavícula. Só no UTAX perdi dois. Acho que ficaram na subida ao Observatório. Estou a ficar no ponto! Não sei para quê, mas estou.

 

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ANTEVISÃO: UTAX 2016

por Pedro Caprichoso, em 17.03.16

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Costuma-se dizer que não há duas sem três. Mentira. Nem sempre conseguem-se dar três. Mente quem diz que consegue. Sempre? Não acredito. Eu não consigo. Por vezes dou duas e já não consigo dar mais. Fico-me pelas duas. Não no UTAX. No UTAX já dei três—e não haverá três sem quatro. 2012, 2013, 2014, ano sabático em 2015 e regresso apoteótico em 2016. Não vos deixarei mal. Os meus fãs e patrocinadores podem contar comigo. Prometo-vos. Nem que tenha de repetir a minha última performance. Terei todo o gosto de adubar novamente a Serra da Lousã por meio do meu aparelho digestivo.

 

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Não quero saber que tenha estado 3 semanas em coma induzido em resultado de um acidente de viação; não quero saber que tenha engordado 30kg durante esse período; não quero saber que o meu mapa astrológico desaconselhe a minha presença em eventos desportivos a sul do rio Douro. Caguei. Siga. Desistir não faz parte do meu vocabulário. Perigoso é o meu segundo apelido. O terceiro é Tesudo. Acredito em todos os clichés e frases feitas vomitadas nas redes sociais. Tenho fé. Acredito que basta acreditar. Como lama com estrelitas ao pequeno-almoço, depilo-me com carqueja da Serra da Freita e por vezes não publico os meus treinos nas redes sociais. Nunca empreguei um hashtag. Vivo no limite.

 

Posto isto, na minha autoproclamada qualidade de veterano do Ultra Trail Aldeias do Xixi, leiam bem o que eu tenho para vos dizer. É muito importante. Ide buscar um bloco de notas e uma esferográfica. Este meu conselho pode representar a diferença entre desistir num charco de lágrimas ou ser finisher e eventualmente papar uma voluntária. O segredo para ser finisher do UTAX (e ainda acabar com força suficiente para papar a voluntária) está na vossa cabeça. É mental. À partida de uma prova destas há que interiorizar o seguinte: a determinado momento irei passar mal e vou querer desistir. Repitam 110 vezes: “A determinado momento irei passar mal e vou querer desistir”. Uma repetição por cada km de sofrimento, como se de um mantra budista se tratasse. Ninguém faz o UTAX sem passar por períodos maus. Ninguém. Nem o Vitorino Coragem. Coragem. Perante tal inevitabilidade, restar-vos-á receber o homem da marreta de braços abertos, abrandar, repor calorias e esperar que ele vos deixe em paz. O maior erro dos novatos (e de alguns burros velhos) é ranger os dentes e tentar lutar contra o homem da marreta. Lutar contra a marreta é estúpido. Não sejas estúpido. Ninguém vence a marreta.

 

Tenho uma boa notícia para quem fez os Abutres e ainda não fez o UTAX: os Abutres são um bom teste para o UTAX. A única diferença é que o UTAX tem mais 60km. Coisa pouca. Quem faz 50, faz 110. Façam assim: multipliquem o vosso tempo dos Abutres por 2,5 para que a vossa cara-metade saiba a que horas vos deve esperar na recta de meta. É desumano ver crianças ao colo das mães durante horas a fio na expectativa de fazerem os últimos 50 metros com o pai. Já vi gente ser acusada de maus-tratos por menos.

 

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Poder-me-ão facilmente identificar à partida do UTAX. Serei o tipo com o balão das 17h. Vou fazer de lebre da minha colega de equipa Fernanda Verde. Tentarei aguentar-me com ela o maior tempo possível. Pelo menos até ao nascer do dia. Isto se ela não me abafar antes, deixando-me a comer o seu pó.

 

Lamento informar-vos, mas nem todos conseguirão acabar o UTAX. Tudo depende do vosso peso corporal e da marca das sapatilhas. Uma vez que estou com 30kg a mais, terei de compensar o excesso de peso recorrendo ao modelo de calçado mais caro do mercado. Falo, como é evidente, das novíssimas Adidas Speedcross.

 

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Glossário Masculino dos Emojis

por Pedro Caprichoso, em 10.03.16

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Esta publicação foi feita a pensar nas mulheres. No sentido de facilitar a comunicação entre o sexo masculino e feminino no âmbito do Trail, dei-me ao trabalho de elaborar o glossário masculino dos emojis. Neste glossário podem encontrar o significado dos emojis utilizados por um atleta masculino em resposta à publicação de uma atleta do sexo feminino. Meninas, agora já não têm desculpa. Já não podem dizer que não sabem o que os homens querem.

 

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Os Inimigos do Trail

por Pedro Caprichoso, em 09.03.16

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Há inúmeros motivos para entrar no mundo do Trail: competição, superação, saúde, contacto com a natureza, divertimento, camaradagem, masoquismo, engatar gajas boas. Tudo razões válidas. Há porém uma subespécie de atletas que praticam Trail por outra razão: pelos aplausos. Apenas e só pelos aplausos. Custa-me dizê-lo, mas a procura de aplausos é mais evidente nas Ultras. Há tipos que fazem Ultras com o único propósito de se destacarem do comum dos mortais. Querem sentir que pertencem a um grupo restrito de “super-atletas” e que merecem os aplausos condizentes com esse estatuto, seja na forma de likes ou de comentários lambe-cu. Comentário lambe-cu é aquele tipo de comentário que nos dá a sensação de que nos estão a lamber o cu. Três exemplos: “És uma Máquina!”; “Campeão!”; “O céu é o limite.”

 

Esta gente não quer que o Trail cresça. A massificação, do seu ponto de vista, é a pior coisa que pode acontecer à modalidade. Pretendem, pelo contrário, que permaneça um desporto de nicho. Que saudades dos bons velhos tempos, quando eram apenas meia-dúzia os “maluquinhos” que se aventuravam por esses montes fora, percorrendo distâncias de três dígitos. Eram autênticos heróis aos olhos do comum dos mortais. Sentiam-se especiais. O problema é que o Trail entretanto empubesceu—ide consultar o dicionário que eu espero—e massificou-se. As pessoas começaram a perceber que fazer uma Ultra não é uma coisa do outro mundo; que todos, com um mínimo de preparação, conseguem fazer 100k; que tudo depende do ritmo; que uns fazem-nos mais depressa do que outros—e que essa é a única diferença.

 

Neste contexto, os aludidos já não se sentem especiais. Sentem-se desdenhados com tanta gente a fazer o mesmo que eles. Em vez de regozijarem com o crescimento do Trail, grunhem justamente o oposto. Atiram a desculpa esfarrapada de que o “Trail já não é o que era”. Daí a abandonarem a modalidade é um passo, trocando-a por outra que lhes ofereça o mesmo que o Trail lhes oferecia inicialmente: os tão cobiçados aplausos. Meus caros, falei com a modalidade e ela disse-me que não vos conhece de lado nenhum: “Não me apercebi que esses tipos me praticavam”, exclamou surpreendida a modalidade. Parece que o Ironman e o Crossfit é o que agora está na moda.

 

Dito isto, o leitor pergunta e com razão: e qual é o problema de um tipo deixar o Trail e trocá-lo por outra modalidade? Ao que eu respondo: tirando a hipocrisia, nenhum. Hipocrisia é quando se apregoa aos sete ventos de que se está no Trail pela superação, pelo contacto com a natureza e pela camaradagem—e depois abandona-se a modalidade, de um dia para o outro, com o argumento de que esta massificou-se. Em que é que a massificação altera a tua capacidade de superação, contacto com a natureza e camaradagem? Quem está no Trail por paixão, está-se a cagar para a massificação. Parece que fiz uma rima sem querer e encontrei a epígrafe do meu túmulo:

 

Quem está no Trail por paixão

Está-se a cagar para a massificação

REALITY CHECK

por Pedro Caprichoso, em 04.03.16

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Não percebo a necessidade dos atletas amadores justificarem os seus resultados. Se são profissionais, ainda vá que não vá. Sempre faz mais sentido. Estão a assumir a responsabilidade de um “trabalho” mal feito. Agora, os amadores? Por que carga d’água? De onde vem essa necessidade? Reality check: vossas excelências são amadores! Façam o melhor que podem—que a mais não são obrigados.

 

No rescaldo das provas, vira o disco e toca o mesmo: o Zé Povinho—Atleta acerca-se de um dispositivo ligado à rede e nele computa as razões que o levaram a produzir um resultado de bosta. Ainda com sal na cara e lama nas pernas, o Zé saca do telemóvel e lá vem a velha história do “não abasteci convenientemente”, “parti depressa demais”, “dormi mal na noite anterior”, “o meu signo não me favorecia”, “a patroa meteu-me os cornos” e o clássico “na véspera participei numa suruba com 4 ucranianas”. Para quê? Por quê? Não há neeeccceeesssiiidddaaadddeee!

 

Dissequem o percurso, analisem a organização, avaliem o vosso desempenho, promovam os vossos pseudo-patrocinadores, mandem beijinhos à família, mandem papaias à concorrência e agradeçam a nosso senhor jesus cristo. Façam isso tudo, mas não se justifiquem. Nem nas derrotas, nem nas vitórias. Para quê? A quem é que vocês devem explicações? Se correu mal, as justificações soam a desculpas. Se correu bem, soam a soberba. Como dizem os anglo-saxónicos: it’s a no-win situation.

Jesus também tinha uma pilinha

por Pedro Caprichoso, em 27.02.16

A maior crítica que me fazem é a de que estou sempre do lado do contra. Mentira. Nem sempre. É certo que amiúde nado contra a corrente, mas por vezes também sigo a carneirada. A foto abaixo publicada é exemplo disso mesmo. Muitos foram os carneiros praticantes de Trail Running que hoje publicaram uma foto na neve—e eu não podia faltar à chamada. Mais uma foto na neve e o facebook explode. Esta é a gota que faz transbordar o copo.

 

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Não censurei o meu "malaquias" porque tenho medo de ser acusado de atentado ao pudor. Censurei-o porque ele é mesmo muito pequinino—e mais pequinino ficou porque estava um frio de rachar. Ou melhor: um frio de encolher pilinhas. A tapar o meu “malaquias” está uma imagem de Jesus com a seguinte inscrição: “Jesus também tinha uma pilinha”.

 

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Uma foto na neve e uma observação sobre a polémica do cartaz do Bloco de Esquerda. Se isto não é seguir o rebanho…

Os Casalinhos do Trail Nacional

por Pedro Caprichoso, em 24.02.16

aqui escrevi que um dos erros mais comuns cometidos pelos praticantes de Trail Running é apaixonarem-se uns pelos outros. No entanto, pelos vistos, não valeu de nada. Andam-se todos a marimbar para os meus conselhos. Depois digam-me que eu não vos avisei. Depois venham pedir-me colinho. Ombro posso dar. Colinho nem pensar.

 

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Nunca como agora se viu tanto casal pelos montes do nosso Portugal e arredores. Antigamente viam-se alguns, mas esses não chegavam a sair das viaturas. Que praga! Tanto mel, tanto «fofinho», tanto “bebé», tanto «xuxu», tanto sorriso rasgado, tanta selfie a dois, tanta mão dada ao nascer-do-sol, tanto linguado ao pôr-do-sol, tanta declaração armada ao pingarelho, tanta jura de amor eterno. Como se o amor não lhes bastasse, ainda fazem questão de esfregar a sua felicidade na cara dos outros. Até metem nojo! Só pensam neles. Não pensam nos atletas que vivem na solidão e—cuidado que vem aí uma metáfora da construção civil—ainda não tiveram a sorte de encontrar a porca para a sua bucha.

 

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Não percebem que exibir a sua felicidade diminui a felicidade dos outros. Depilar as pernas da nossa cara-metade é muito bonito; fazer uma massagem de recuperação à nossa respectiva é muito bonito; passar creme antifricção no rabinho da nossa mais-do-que-tudo é muito bonito. Agora imaginem fazê-lo sozinho. É muito triste. Quando era solteiro, lembro-me de carpir enquanto passava vaselina nas virilhas. Não ter quem nos passe vaselina nas partes baixas é muito triste. Nisto ninguém pensa. A crise dos refugiados também é triste, mas não se compara.

 

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O Trail é um desporto propício ao amor: calções de lycra justinhos, rabos empinados, decotes convidativos, o ar da serra e a libertação de dopamina (associada ao exercício) são o combustível que faz acender o fogo da paixão. Há que, por isso, resistir à tentação. Por quê? Porque não vai funcionar. Metam isso na vossa cabeça: não vai funcionar. Falo por experiência própria: apaixonei-me loucamente pela Analice, mas a nossa relação foi de pouca dura. Eu queria fazer os Abutres; ela fez a Marathon des Sables. Eu depilo-me; ela prefere homens peludos. Eu queria que usássemos equipamentos a condizer; ela veste o que lhe apetece. Eu queria assentar; ela quer divertir-se. Até que passei o prazo de validade e ela trocou-me por um mais novo. Deu-me à troca.

 

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Dito isto, esta é mais uma daquelas situações em que se aplica a máxima: “Faz aquilo que te digo. Não faças aquilo que eu faço.” Pois parece que não aprendi a lição e já me meti noutra embrulhada:

 

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Atropelei um Carro

por Pedro Caprichoso, em 19.02.16

Há muito tempo que não ficava tanto tempo sem correr. Da última vez que me lesionei ainda corria de t-shirt de algodão, relógio Casio e pêlos nas pernas. Corria o ano de 2001. A bem dizer não foi lesão. Foi desgosto amoroso. Apaixonei-me por uma fisioterapeuta estrábica, roubei-lhe um beijo e ela partiu-me o coração—e coração partido não configura lesão. A catraia não gostou do beijo e tencionava partir-me os cornos. Acabou por partir-me apenas o coração. Por sorte era estrábica. Apontou para a cabeça e acertou-me no coração. Do mal o menos.

 

Já passaram duas semanas e a clavícula ainda me doí. Esta, sim, uma lesão a sério. Também quem é que me mandou atropelar um carro? Estava a pedi-las. Mesmo. A vítima deslocava-se num veículo automóvel e eu—o culpado—fazia-me transportar num veículo de duas rodas desprovido de tracção motorizada—vulgo bicicleta. Eu ia de cima para baixo. Ele vinha de baixo para cima. Eu pretendia seguir em frente. Ele virou à esquerda, invadiu a minha via de trânsito, atravessou-se à minha frente, travou quando me viu e eu ainda tive a desfaçatez de ir contra ele. Minha culpa. Minha tão grande culpa.

 

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[créditos: Duarte Nuno Oliveira-Zahir]

 

O estimado leitor está neste momento a questionar os seus conhecimentos do código da estrada. Não esteja. Lamento confundi-lo. Não é essa a minha intenção. A prioridade era minha? Era. Nada porém justifica ter-me amandado para cima da viatura. Não havia necessidade. Popó a cheirar a novo, acabado de sair do stand, branco como a neve—e eu vou e risco-lhe a pintura? Não está certo. Faltaram-me os reflexos. Nem travar consegui. Devia ter guinado para a direita, evitado a viatura e embatido no muro contiguo à estrada. Antes o muro que o carro. Podia não estar agora aqui a contar a história, mas ao menos não estaria com peso na consciência. Morto não tem consciência. Mas não morri. Ao invés de falecer, fui projectado 3 metros a 40km/h por cima do capô da viatura, fiz um mortal à frente, dei finalmente uso ao capacete, beijei o chão com a clavícula direita e fui arrastado 4 metros sobre alcatrão fofinho. Culpa da velocidade cinética em conluio com a gravidade. Resultado: fractura da clavícula, costas pisadas e o rabinho assado.

 

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Embora não o tenha verbalizado, o condutor estava visivelmente aborrecido com o meu comportamento. Onde é que já se viu? Um tipo deslocando-se de carro para o trabalho e, vindo do nada, aparece-lhe um ciclista para riscar a pintura da sua nova viatura? No lugar dele ficaria pior que fodido. Daí que logo lhe tenha pedido desculpas. Ele aceitou-as e depressa se acalmou. Foi ele, aliás, que ainda me fez o favor de chamar a ambulância. Disse-lhe que não era preciso; que não tinha partido os braços; que conseguia alcançar o bolso do telemóvel. Mas ele insistiu. Santo homem.

Análise dos Resultados dos Melhores da Corrida 2015

por Pedro Caprichoso, em 09.02.16

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Os resultados de 12 das 13 categorias (da votação promovida pelo blogue Correr na Cidade) não me chocam. Alteraria a ordem dos pódios em algumas categorias, mas não me chocam. Parecem-me surpreendentemente aceitáveis. No entanto, no melhor pano cai a nódoa—e a última categoria estraga tudo.

 

David Quelhas (votação do público) e Armando Teixeira (votação do júri) foram considerados os melhores atletas nacionais masculinos. A sério? Mas vocês estão a brincar comigo? Não é comigo: vocês estão é a brincar com a tropa! Só pode. Melhores atletas de Trail? Tudo bem. Não digo que não. Seria discutível, mas não me chocaria. Agora, melhores atletas nacionais? Nacionais?

 

Deixem-me ver se eu percebi bem: vocês estão-me a dizer que atletas de uma modalidade amadora são melhores atletas do que atletas profissionais de atletismo? Em que planeta? Lembro-vos que alguns destes atletas são atletas olímpicos. Lembro-vos que um deles é campeão olímpico—o mesmo que no ano passado fez bronze no Campeonato do Mundo de Atletismo. Estamos a falar de um Campeão Olímpico, por amor do Santíssimo!

 

Comigo os hipócritas não fazem farinha, por isso tenham lá calma antes de me crucificarem na praça pública. Para evitar eventuais equívocos, quero deixar bem claro que eu não estou a desvalorizar em nada o valor do Armando e do Quelhas—dois dos atletas que mais admiro no Trail Nacional. Acontece que estamos a comparar coisas que não são comparáveis. Estamos a comparar atletas amadores de Trail— uma modalidade que está a dar os primeiros passos—com atletas profissionais de Atletismo—cujo nível competitivo é infinitamente superior ao do Trail. A nível nacional, seria o mesmo que comparar jogadores de futebol da Primeira Liga com jogadores de Futebol de Praia.

 

Digo mais: neste momento, em Portugal, tirando uma ou duas excepções, qualquer atleta profissional de atletismo é, em termos comparativos, melhor atleta do que qualquer atleta de Trail. Quem não perceber isto, não percebe nada de desporto. Os actuais praticantes de Trail parecem esquecer-se de que são os pioneiros da modalidade. Daqui a 20 anos, segundo a lei da evolução, os atletas de Trail serão infinitamente melhores do que os atletas actuais. Voltem a fazer esta votação em 2036 e, talvez, nessa altura, haja um atleta de Trail melhor do que um atleta profissional de Atletismo. Talvez.

 

Estou-me positivamente a cagar para a votação do público. O público vota por afinidade e isso deturpa os resultados. Agora, o júri? O que vos deu? Aceitaram algum suborno da ATRP? Só pode. Conheço alguns dos elementos do júri, mas tenho de perguntar isto na mesma: vocês percebem alguma coisa da poda?

 

É evidente que deveriam ter sido criadas duas subcategorias dentro da categoria de melhor atleta: uma para o Trail e outra para o Atletismo (Pista / Estrada). Fizeram-no com as outras categorias e não se percebe por que não o fizeram com esta. Vá lá que a Sara Moreira foi eleita a melhor atleta feminina. Do mal o menos.

Os Verdadeiros Vencedores da Corrida no Monte

por Pedro Caprichoso, em 09.02.16

Um dia depois do blogue Correr na Cidade ter divulgado os resultados d'Os Melhores da Corrida 2015, o TopMáquina ficou com ciúmes e deliberou, em reunião de conselho de administração, divulgar os resultados da votação por nós promovida no passado dia 23 de Janeiro.

 

Embora o universo de respostas da nossa votação seja inferior (270) ao da votação promovida pelo Correr na Cidade (751), é incontestável que os nossos dados são mais fiáveis. Isto explica-se pelo facto de que os nossos leitores têm, em média, um QI superior ao dos leitores do Correr na Cidade.

 

Parabéns aos vencedores. Ei-los:

 

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The Dream Team

por Pedro Caprichoso, em 06.02.16

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A EDV-Viana Trail (VT) não é melhor do que as outras equipas. Seria demagógico afirmar o contrário. Seria como afirmar que Portugal é o melhor país do mundo sem de ele nunca ter saído. Pior do que demagógico, seria ignorante. Não conheço por dentro as outras equipas e, como diz o povo, é feio meter a pilinha em penico alheio. Não obstante, se as outras equipas forem a soma dos seus membros, posso apenas inferir que equipas espectaculares é coisa que não falta no Trail Nacional. De gente boa está o Trail cheio.

 

Também nós somos espectaculares. Mais do que espectaculares, somos fofinhos. A melhor forma de nos definirmos é a seguinte: somos espectaculares, bué fofinhos e dotados de identidade guerreira. Não nos subestimem. Não cometam esse erro. Se fôssemos um animal, teríamos corpo de panda e temperamento de rinoceronte.

 

Não há equipa como a nossa. Por quê? Pela simples razão de que somos únicos. Não somos melhores. Somos diferentes. Os atletas do VT não existem fora do VT. Não é metafísica. É a opinião de quem está presentemente e fortemente sob o efeito de analgésicos.

 

Não somos clonáveis. Não andamos a reboque dos outros. Antes abrimos o nosso próprio caminho. Por vezes à catanada. Somos um grupo aberto. Somos de e para todos. Uns correm mais, outros correm menos e todos correm o que podem. A corrida é o instrumento, a amizade a fita-cola e o anti-vedetismo o ingrediente secreto. O VT "é um estado de espírito", como diz o nosso Presidente.

 

 

Moral da história: não corram sozinhos. Juntem-se a uma equipa. O resto é papo-furado.

Rescaldo dos Abutres 2016

por Pedro Caprichoso, em 04.02.16

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Tirando aquela vez em que dei o rabinho ao vigário da minha paróquia, estes foram os 500 paus que menos me custaram ganhar até hoje. Com cachês destes vou deixar de trabalhar. Gosto muito de dar o rabinho, mas prefiro ganhar dinheiro abrindo a boca de outra forma. Abri a boca 5 vezes, 4 das quais para bocejar. Não que a tertúlia não estivesse a ser interessante. Estava. Eu é que estava morto de sono. Havia passado a noite anterior a dar o rabinho. Já vos disse que dou o rabinho? Não é sempre. Só de vez em quando: quando tenho o saldo bancário negativo e preciso de sapatilhas novas. Prometo que não falo mais do meu rabinho neste parágrafo.

 

 

Viram como eu cumpro as minhas promessas? Cumprida a promessa, voltemos ao rabinho. Desta feita não ao meu. Vamos antes focar-nos no rabinho do Sérgio Duarte. O rabinho do Sérgio—mais conhecido como o tipo das Barras Olimpo—fez deflagrar uma bomba de metano a escassos minutos do tiro de partida dos Trilhos dos Abutres. Instantes após a explosão, formou-se uma cratera à volta do Sr. Olimpo—e este foi avançando pelotão acima de maneira a partir à frente do mesmo. Não estou a insinuar. Estou a afirmar, enquanto perito em flatulência, que o traque foi premeditado. O tipo peidou-se intencionalmente para partir melhor posicionado. Estão a ver aquela passagem da bíblia em que Moisés abre o Mar Vermelho para possibilitar a travessia dos filhos de Israel? É a mesma coisa.

 

Era ver o pessoal a tirar os buffs da cabeça e a colocá-los à frente da boca; um atleta asmático, que se encontrava no epicentro do rebentamento, viu-se forçado a sacar do inalador; um espanhol, que se encontrava ao lado do Paulo César, teve um ataque de pânico ao julgar que estávamos a ser alvo de um ataque químico perpetrado pelo Estado Islâmico; e eu, que me encontrava atrás do Sérgio a atacar as sapatilhas, fiquei com as sobrancelhas chamuscadas. Já me perguntaram se ando a fazer quimioterapia.

 

Posto isto, impõe-se a pergunta: que raio têm as Barras Olimpo para produzirem tamanha devastação?

 

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Passei a noite de Sexta para Sábado no Centro de Trail de Miranda do Corvo e não dormi nada. Estava lá um tipo que ressonava como um tractor e não preguei olho. Se soubesse teria ficado com os meus colegas de equipa no solo duro. Poderia acordar com dores nas costas, mas ao menos teria descansado. Além de que o ambiente era mais aconchegante, como se pode verificar pela foto abaixo publicada. Agora percebo por que lhe chamam “solo duro”. Ênfase no duro.

 

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Ai se vocês soubessem o quanto eu gosto daqueles tipos que dizem mal das Organizações durante as provas—e, depois, quando chegam a casa, vão para as redes sociais anunciar que, neste caso, os Trilhos dos Abutres são mágicos, deslumbrantes, a life changing experience e o raio que o parta. Só para informar que me cruzei com meia dúzia destes espécimes. O que durante a prova eram trilhos com lama a mais, depois da prova transformaram-se em trilhos pesados; o que durante a prova eram trilhos que punham em perigo a vida dos atletas, depois da prova transformaram-se em trilhos desafiantes; o que durante a prova eram trilhos para caminheiros, depois da prova transformaram-se em trilhos para duros. A estes aconselho adquirirem um fazedor de coerência. Este electrodoméstico está em promoção no Lidl. Aproveitem.

 

Os atletas são unanimes ao reconhecerem que a Organização dos Abutres esteve ao mais alto nível, nomeadamente ao nível das marcações. Das marcações ninguém se pode queixar. Estavam perfeitas. De uma fita via-se a fita seguinte; e o sentido errado, nos cruzamentos mais duvidosos, encontrava-se devidamente barrado. Estavam tão, mas tão boas, que nem se notou o facto de serem brancas. Por outro lado, a presença de gajas boas na prova curta (25k) é o único aspecto negativo que aponto à Organização. Não é a união de provas que me incomoda. Pode haver união; o que não pode haver é gajas boas a disputar a prova curta. Eu gordos ultrapasso bem: passo-lhes uma rasteira. O problema são as gajas boas. Um gajo distrai-se quando seguimos atrás delas naqueles single-tracks apertadinhos: estamos constantemente a tropeçar, roçamo-nos nelas sem querer e quedamo-nos junto delas mais tempo do que o necessário. Contei 22 gajas boas e, junto a cada uma, perdi cerca de 3 minutos. Percebem agora por que fiquei a mais de 1h do primeiro?

 

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Os Abutres são uma prova de Trail. No entanto, por vezes, dada a quantidade de linhas de água, parecem uma prova de natação; por vezes, dado o piso escorregadio, parecem uma prova de ski; e, a determinado momento, a edição deste ano assemelhou-se, inclusive, a uma partida de bowling. Na descida assistida por corda antes do abastecimento de Nossa Senhora da Piedade (29k), um pedregulho do tamanho de uma melancia soltou-se e desatou a rebolar encosta abaixo. Não fosse o aviso de um colega de equipa e a Fernanda Verde teria sido abalroada pelo calhau como se de um pino se tratasse. Por sorte estava um cavalheiro nas imediações. O José Feiteira fez-se homem, pegou na pedra e carregou-a até à base da descida. Partiram o molde quando fizeram o José. Um senhor.

 

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Os Trilhos dos Abutres são sinónimo de dureza. Tal dureza ficou bem demostrada este ano, não tanto pelo perfil ou altimetria, mas antes pelo facto de muitos atletas terem alucinado durante a prova: uns afirmam que viram um casal de javalis a acasalar; outros juram a pés juntos que se cruzaram com um veado; e até há um que diz que foi mordido por um cão. A meu ver, o que aconteceu foi: pensam que viram javalis, mas na verdade eram dois atletas do Arrábida Trail Team a fazerem miminhos um ao outro; pensam que se cruzaram com um veado, mas na realidade tratava-se de uma Gazela—a tal que ficou em 8.º lugar da geral; e o Délio foi mordido por um cão d’avenida com hipoglicemia, como é evidente.

 

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As cãibras não quiseram faltar à festa e marcaram presença em força nos Abutres 2016. Muitos foram os atletas que se queixaram delas no fim da prova. Uns tiveram-nas a subir, outros tiveram-nas a descer e até houve um desgraçado que as teve nos tomates. Perguntem ao Jorge que ele conta-vos os pormenores. Ainda na zona da genitália, o que dizer do homem com o maior badalo dos Abutres? Chama-se Romeu Gouveia, tem 12 anos e já lhe dá no badalo como gente grande. É de jovens atletas apaixonados pela modalidade que o Trail precisa. Mandem vir mais 3 paletes e 5 resmas de Romeus, sff. Farto-me de dizê-lo e volto a repeti-lo: mais malucos do que os malucos que correm no monte, são os malucos que vão para o monte ver outros malucos correr.

 

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O trio constituído por Ricardo Silva, André Rodrigues e David Quelhas dominou os primeiros 2/3 da prova, altura  (37k) em que o último decidiu atacar rumo à aldeia de Gondramaz. O atleta da equipa Coimbra Trail Running arriscou tudo na descida e seguiu isolado até à meta, deixando a luta em aberto pelo segundo lugar. No entanto, num bonito gesto de desportivismo, Ricardo e André decidiram cortar a meta juntos. Uma vez que seguiam juntos à entrada dos últimos 2km, não faria sentido resolver no alcatrão o que não ficou resolvido nos trilhos. E ainda andam por aí uns iluminados que dizem que o Trail já não é o que era. Façam-me um favor: ide dar banho ao cão.

 

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Tendo em conta a diferença de 10 minutos entre o primeiro e os segundos classificados, poder-se-á supor que o David ganhou com facilidade. É falso. Foi tudo menos fácil. Os seus joelhos ensanguentados contam outra história: a história de uma descida estabanada. É certo que o rapaz tem tomates de aço e o lastro fá-lo ganhar velocidade, mas não subestimem a sua técnica. Esta tem de ser apuradíssima. De outra forma, estaríamos no próximo Sábado a celebrar a sua missa de sétimo dia. Seja como for, certo é que o David teve ainda tempo de fazer 20 pull-ups. Testemunhas na meta afirmam que ele justificou o exercício pelo facto de usar aqueles trilhos como circuito de manutenção e que, por instantes, se esqueceu de que estava em prova.

 

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A EDV-Viana Trail foi a grande vencedora colectiva dos Trilhos dos Abutres 2016. A meio da prova, no entanto, para surpresa de todos, era a equipa da Satecnosol que liderava com 3 atletas posicionados entre o primeiro (Ricardo Silva) e os restantes atletas da equipa de Viana do Castelo. Atacando a prova desde o início, os amarelos da Satecnosol perderam gás na segunda metade e caíram para o segundo lugar. Nada que porém desvalorize aquilo que todos consideraram um resultado brilhante. Em terra de veados, o Gazela foi um dos que mais correu.

 

O nome “Satecnosol” deriva do apelido “Sá”, do diminutivo “tec” e do detergente “Sonasol”. “Sá” porque José Sá é o Presidente/Director-Desportivo/Atleta da equipa com sede em Paredes; “tec” porque o seu equipamento vem artilhado com tecnologia de ponta; e “Sonasol” porque esse é o ingrediente secreto que os seus atletas colocam no isotónico. É um nome com pedigree, embora um tanto ou quanto fleumático. Vai daí sugeri ao Sá que mudassem o nome para “Bandido Trail Running Fucking Team”. Tudo indica que ele fez ouvidos moucos da minha brilhante sugestão.

 

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A nota negativa desta edição dos Trilhos dos Abutres vai para a equipa Dr. Merino/Nutrifit. Não estou a falar da sua performance desportiva, que foi excelente. Não estou a falar do seu fair-play, que foi admirável. Estou antes a falar da forma como os homens da aludida equipa tratam as suas mulheres. Sabem o que os marmanjos fizeram? Terminaram a prova, foram ao banho, não esperaram pelas meninas, fugiram com a chave da viatura da equipa e deixaram-nas ao frio. Aliás, este parágrafo está a ser escrito a pedido das manas Vieira. Parece-me pois evidente que já não há cavalheiros em Paredes. Em nome da EDV-Viana Trail, venho nesse sentido demonstrar a nossa disponibilidade em acolher as manas Vieiras e restante contingente feminino da Dr. Merino/Nutrifit. Meninas, peçam recomendações à Fernanda Verde e releiam o episódio do pedregulho acima descrito. Nós tomamos conta das nossas mulheres.

 

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Por fim, suplico-vos: não corram sozinhos. Juntem-se a uma equipa. O resto é papo-furado.

 

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Antevisão dos Abutres 2016

por Pedro Caprichoso, em 27.01.16

Vejo muita gente assustada com os Abutres. Sobretudo os novatos. No facebook só leio publicações acagaçadas. Andam todos borrados de medo. Os finishers da última edição classificaram-na como a mais dura de sempre—e os novatos, com medo, andam por aí todos a borrar a cueca.

 

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Tenho inclusive um colega de equipa que tem padecido de pesadelos recorrentes. Não vou identificá-lo por uma questão de respeito. Dar-lhe-emos o nome fictício de Diogo Lopes. O Diogo confessou-me que já não dorme há uma semana e que o seu pesadelo é sempre o mesmo: escorrega, cai de cu em cima de um ouriço, esgaça o rabinho, não consegue levantar-se e é engolido pela lama. Perante isto, fiz o que estava ao meu alcance no sentido de tranquilizá-lo. Assegurei-lhe que o seu pesadelo jamais se concretizaria: «Em finais de Janeiro já não há ouriços», disse-lhe. «A época dos ouriços é no Outono, pelo que a probabilidade de algum se alojar no teu ânus é praticamente nula.» E rematei reconfortando-o: «Escorregar é garantido. Cair de cu uma certeza. Ser engolido pela lama uma possibilidade. Agora, esgaçar o rabinho num ouriço? Isso está fora de questão. Podes esgaçá-lo, mas não num ouriço. Talvez num eucalipto bebé ou numa pedra aguçada.» Penso que fui um bom amigo. Acredito que ele hoje já vai dormir mais descansado. Como um bebé.

 

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Dito isto, não tenham medo dos Abutres. Não acreditem em tudo o que vos dizem. Os Abutres não são esse bicho-papão que vos tentam vender. São muito piores. Preparem-se para o pior. Confessem-se, redijam o vosso testamento, acendam uma vela a São Olmo e escrevam uma carta de despedida aos vossos familiares. Pelo sim, pelo não. Acham que estou a exagerar? Então façam o favor de visualizarem o vídeo abaixo publicado. Tiro-vos o chapéu se conseguirem fazê-lo com as calças secas. O xixi vai estar em alerta vermelho. Depois digam que eu não vos avisei. A Dodot está em promoção no Continente. Aproveitem.

 

 

Por fim, um convite: apareçam e participem na tertúlia a realizar, sexta-feira, dia 29, no Mercado Municipal de Miranda do Corvo, por volta das 20h00. Para quê? Olha, por exemplo, para atirem ovos e tomates podres à minha pessoa sempre que eu disser um disparate. O que me dizem?

Os Melhores do Trail Nacional 2015

por Pedro Caprichoso, em 23.01.16

Plagiando (à descarada) o blogue Correr na Cidade, o TopMáquina vem por este meio promover uma votação no sentido de determinar os Melhores do Trail Nacional 2015. Os resultados serão divulgados a seu tempo. Ou seja, quando bem me apetecer.

 

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Os Melhores da Corrida 2015

por Pedro Caprichoso, em 20.01.16

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O blogue Correr na Cidade encontra-se a promover uma votação no sentido de determinar os Melhores da Corrida 2015. A votação é constituída por 3 temas agrupados em várias categorias e o júri composto por pessoas ou grupos convidados pelo supracitado blogue. Ainda estou em choque por não ter sido convidado. Falta de consideração. É o que é. Até aposto que o tipo do Tripas e Nortadas foi convidado. É por estas e por outras que. Vocês sabem o que eu quero dizer. Uns são filhos e outros enteados. É o sistema. Tráfico de influências. Corrupção. Cunhas. Padrinhos. Maçonaria.

 

Mas não julguem que me calam. Jamais calar-me-ão. Muito menos silenciarão. O que agora ficava bem era uma rima com tesão. Ou com feijão. Vocês ainda têm de comer muito arroz com feijão. E farofa. E picanha. Tal desconsideração não me vai porém impedir de influenciar a decisão dos jurados. And the running oscar goes to…

 

MATERIAL E MARCAS DE CORRIDAS

 

Melhor Marca de Running

Meia da Raquete.

 

Melhor Modelo de Sapatilha de Estrada

Crocs Z-Lab Sense 5.

 

Melhor Modelo de Sapatilha de Trail Running

Adidas Speedcross.

 

Melhor Acessório de Corrida

COMPREX – O Preservativo para o Trailer do Século XXI.

 

 

TREINOS E PROVAS

 

Melhor Treino Social

5F Bravas à Hora do Bagacinho na Cova da Moura.

 

Melhor Prova de Estrada

Ermesinde Night Urban Trail Fucking Running.

 

Melhor Prova de Trail Running

Légua Nudista.

 

Melhor Circuito de Provas

Maratona de Provas de Enchidos de Aguiar da Beira.

 

 

FACTOS E PESSOAS

 

Melhor contribuição do ano

Os 2,5 milhões de euros da Prozis à ATRP.

 

Melhor atleta Feminino

Missy TraiLab.

 

Melhor atleta Masculino

Não vou nomear ninguém para não ferir susceptibilidades. Digamos apenas que é aquele que acumula as seguintes características:

 

  1. Tem página de atleta;
  2. Exibe o nome no equipamento;
  3. Publica fotos em lojas de desporto ainda que por estas não seja patrocinado;
  4. Tira uma selfie sempre que sai para treinar;
  5. Liga para as organizações das provas para conhecer a lista de inscritos;
  6. Escolhe as provas com menos concorrência;
  7. Justifica os maus resultados com desculpas esfarrapadas;
  8. Escarrapacha nas redes sociais todos os seus treinos: os quilómetros percorridos, o desnível vencido e as calorias gastas;
  9. No fim das provas, publica a foto do conjuntinho formado pelos brindes, medalha, sapatilhas enlameadas, relógio com o tempo de corrida, t-shirt de finisher e dorsal;
  10. Na véspera das provas, publica a foto do dorsal, acessórios, alimentação e equipamento dobrado em cima da cama.

12 Coisas que detesto no Trail Running

por Pedro Caprichoso, em 18.01.16

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1.

Encontrar uma secção de trilho totalmente alagada, fazer um desvio de maneira a contornar a água e, mesmo assim, molhar os pés.

 

2.

Dar de focinhos com uma poça de água, contorná-la com todo o cuidado para não molhar os pés e depois o nosso companheiro de treino desatar a chapinhar na água, encharcando-me dos pés à cabeça. Isto é o prato do dia nas 5F Bravas.

 

3.

Gajas feias que inundam a minha caixa de correio com pedidos de envio de roupa interior autografada. Já só tenho 2 pares de cuecas.

 

4.

Gente que faz provas de estrada com mochilas de hidratação. Dão mau nome ao Trail.

 

5.

Sair para um treino de 4h e a meio aperceber-me que me esqueci de passar creme antifricção nas virilhas. Dica: passar água na zona afectada só agrava a situação.

 

6.

Começar a chover assim que começamos o treino e parar de chover assim que chegamos a casa.

 

7.

Apanhar uma gaja de rabo-de-cavalo a correr à nossa frente, aumentar o ritmo para apanhá-la e, ao ultrapassá-la, aperceber-me de que é um homem.

 

8.

Ter de aliviar a tripa num descampado em dia de ventania invernal. Aquele frio entra por ali adentro e erriça os pêlos do rabo. Além disso, o cocó larga vapor—o que é particularmente nojento. Prefiro que o meu cocó não largue vapor. Acho mais higiénico.

 

9.

Esquecer um par sapatilhas molhadas na mala do carro e, no dia seguinte, abrir o carro com a sensação de que morreu um animal dentro da viatura.

 

10.

Treinar em grupo, esperar nas subidas por aquele nosso amigo badochas e este depois disparar nas descidas, deixando-me para trás. Como os treinos no monte acabam geralmente em descida, é depois vê-lo achando-se o maior. Atenção: isto não é dirigido ao José Carlos Alcobia.

 

11.

Nas partidas ter de ultrapassar em gincana os dois tipos de gente que fazem de tudo (incluindo cotoveladas) para partir à frente das provas: (1) os velhos que ainda pensam que são novos e (2) os atletas de ginásio artilhados com tecnologia de ponta dos dedos dos pés à ponta dos cabelos.

 

12.

Páginas de atleta de atletas amadores. Eu também faço um bacalhau à brás de ‘comer e chorar por mais’ e não é por isso que tenho uma página de chef no facebook.

Os Jogos Olímpicos dos Caminheiros

por Pedro Caprichoso, em 14.01.16

Estou triste. Não fui seleccionado para o UTMB. Sinto que a minha vida deixou de fazer sentido. O UTMB é tudo para mim. Não há vida para além do UTMB. Participar no UTMB seria como participar nos Jogos Olímpicos dos Caminheiros. Recuso-me a encontrar alternativas ao UTMB. Comigo é tudo ou nada. É o UTMB ou o sedentarismo. Adeus UTMB. Olá sofá.

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Tinha a certeza de que era desta que seria seleccionado. Contei aos meus amigos, ao pessoal do trabalho e à minha emprega de limpeza. Disse-lhes que era desta. Tinha inclusive reservado um restaurante para comemorarmos o feito. Tive de desmarcar tudo. Agora até tenho vergonha de encarar o Jorge da contabilidade.

 

Tinha dado entrada para a compra de uma GoPro, pedi emprestado um stick para tirar selfies e já tinha garantido alojamento em casa da prima de um amigo da minha ex-mulher. A rapariga vive a 1h30 de Chamonix e é boa como o milho. Podia ser que…

 

O meu erro foi achar que o meu nível de notoriedade faria com que a organização me endereçasse um convite VIP. Esperei, esperei, desesperei e o convite nunca chegou. Parece que este ano vou ter mesmo de coleccionar os pontos obrigatórios e candidatar-me com o comum dos mortais.

 

Este ano limitar-me-ei às funções de mochileiro do Jérôme Rodrigues. É degradante, eu sei. Mas não tenho alternativa. Foi uma aposta. Tê-lo-ia de fazer se ele fosse seleccionado—e não é que o cagão foi mesmo seleccionado? Sorte de principiante. Candidatou-se pela primeira vez e foi logo seleccionado. Deus dá dentes a quem não tem nozes.

Toda a Verdade sobre o TopMáquina

por Pedro Caprichoso, em 13.01.16

O JN Running pediu-me uma entrevista e a primeira coisa que eu fiz foi elaborar um discurso todo xpto. Tenho pânico de falar em público e pensei que me safaria melhor se tivesse a lição estudada. Enganei-me redondamente. Vocês já viram este vídeo e sabem do que eu estou a falar. Algumas partes escaparam-se-me e outras não resistiram à edição. Um desastre completo. Posto isto, de maneira a não acharem que eu sou um perfeito anormal, transcrevo em baixo a versão completa. Eis toda a verdade sobre o TopMáquina:

 

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 [TopMáquina na véspera de ir para a tropa]

 

Infelizmente não comecei a correr porque pesava 220kg e fumava 5 maços de tabaco por dia, pois nesse caso teria uma história emocionante de superação para vos contar. A realidade é bem menos interessante.

 

Comecei a correr no século passado. Provavelmente em 1997. Na altura jogava futebol nos escalões de formação, e foi-me proposto por um colega de equipa começarmos a correr nas férias grandes para chegarmos melhor preparados ao início da época futebolística. Lembro-me de sentir que aquele circuito—que nos levava 25min a subir e outros 15 a descer—era o nosso Kilimanjaro. Sempre pensei que teria uns 10km. Anos mais tarde, equipado com um relógio GPS, descobri que nem 4km tinha.

 

Entretanto, em 1998, fui estudar para fora. Deixei o Futebol, continuei a correr e fiz a minha primeira prova em 2000—então com 20 anos. Sobrevivi à Meia-Maratona de Viseu com 1h35, federei-me e continuei a fazer provas de estrada até 2012—ano em que fiz a minha primeira prova de Trail.

 

Como sou um tipo que gosta de fazer as coisas com calma e não dar um passo maior do que a perna, escolhi os 70km do Ultra Trail Serra da Freita (UTSF 2012) para me estrear no Trail. A Freita é perto de casa dos meus pais, já tinha feito 3 Maratonas de estrada e julgava, do alto da minha sobranceria, que acabar o UTSF eram favas contadas. Fui ao engano. Completamente. Caí 10 vezes—sim, contei-as—e pensei em desistir outras tantas. Ainda hoje não sei como, mas lá consegui cortar a meta ao cabo de 11h30—já por essa altura o Mota havia tomado o seu duche e enfardado 3 bifanas. Depois da Freita fiz o UTAX, e depois outra e mais outra e mais outra… E agora aqui estou eu a ser entrevistado por aquilo que escrevo e não por aquilo que corro. No fundo, sou um atleta frustrado. Verdade.

 

Sempre escrevi. Tive muitos blogues ao longo dos anos, daqueles extremamente egocêntricos e nada interessantes. Entretanto, no final de 2014, comecei a escrever no facebook umas palermices relacionadas com o Trail e as pessoas pareciam reagir de forma positiva aos meus textos. Daí a criar o blogue foi um passo. O TopMáquina é a forma que eu tenho de não me levar a sério e de me rir de mim próprio. As provas são para competir, quanto mais não seja comigo próprio. Entre o tiro de partida e a meta só penso na competição. Fora isso, para não cair na obsessão da competição, sinto necessidade de apalhaçar. É quase como uma terapia, sendo que o melhor remédio é rirmo-nos de nós próprios.

 

Já que estou na televisão, posso mandar beijinhos para os meus Trail Runners preferidos? Refiro-me, como é evidente, aos primos Rodrigues (Pedro Rodrigues, Jérôme Rodrigues e André Rodrigues) e aos primos Silva (Nuno Silva, Ricardo Siva e Carlos Natividade Silva). Por fim, quero ainda mandar uma lambidela molhada à Missy TrailLab—a melhor atleta de 4 patas do Trail Nacional. [Nota para mim próprio: pegar na câmara e dar uma valente lambidela na lente de maneira a deixá-la embaciada.]

 

Já agora, em que canal é que isto vai dar?

7 Resoluções para 2016

por Pedro Caprichoso, em 12.01.16

Na passagem do ano decretei 7 resoluções para 2016. Decretei-as em voz alta enquanto dava as 12 tradicionais passas num charro de ervas daninhas e bebia uma taça do meu próprio xixi. Não me julguem. É uma tradição de família. O nosso xixi é extremamente efervescente. Faz bolhinhas. É genético.

 

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Sem surpresa, todas as resoluções tinham a ver com o Trail. Igualmente sem surpresa, 5 dias depois já tinha quebrado todas as promessas que havia jurado cumprir—e agora sinto-me um falhado. Ainda para mais eram resoluções totalmente realistas e exequíveis. Tive o cuidado de não dar um passo maior do que a perna, mas mesmo assim falhei em toda a linha.

 

1. Comer melhor.

 

Tenho tentado comer da forma o mais variada possível, mas em 2016 só tenho comido brasileiras. Suecas e Dinamarquesas nem vê-las. Todos sabem que as nórdicas são ricas em vitamina C, pelo que receio ficar com escorbuto.

 

2. Melhorar a minha técnica.

 

O André Rodrigues—também conhecido como o Rei da Cinestesia—aconselhou-me a correr no monte de olhos vendados como forma de aumentar os meus níveis de propriocepção. Aceitei a sugestão e, no dia seguinte, rachei os cornos ao embater com estes num poio de javali fossilizado. Ele veio visitar-me ao hospital e admitiu que estava a gozar contigo: «Nunca pensei que tentasses mesmo correr de olhos vendados. Tu és maluco? Não vês que isso é muito perigoso. O que eu faço é correr de noite sem frontal. É muito mais seguro.» O André não seria capaz de me enganar duas vezes, pois não?

 

3. Comprar menos sapatilhas.

Havia estipulado comprar apenas 2 pares de sapatilhas por ano. Já vou em 7: 1 para competir em piso molhado, 1 para competir em piso seco, 1 para os treinos longos, 1 para os treinos intervalados e 3 para andar no dia-a-dia de maneira a exibir-me com estilo. O que me vale é que são todas contrafeitas. Custaram-me 17€ o par no Aliexpress.

 

4. Treinar em grupo.

 

Todos me dizem que treinar em grupo é que é bom. A única vantagem que eu vejo é se correr com tipos mais fraquinhos do que eu: dou-lhes um bigode e depois gozo com eles ‘forte e feio’. Acontece que até hoje só 3 pessoas se mostraram interessadas em treinar comigo: o Ricardo Silva, o Jérôme Rodrigues e o Tino de Rans—e com esses eu não faço farinha. São muita areia para o meu camião. Nomeadamente o Tino.

 

5. Correr de meias.

 

Tentei. Acreditem que tentei. Mas não dá. Poder-vos-ia dizer que de meias fico com os pés ensopados, que de meias o pé escorrega-me dentro da sapatilha nas descidas, que de meias preciso de esganar o pé para conseguir um mínimo de estabilidade, ou que de meias o cheiro a chulé é insuportável. Tudo isso é verdade. A maior verdade de todas, porém, é que correr sem meias é uma das minhas imagens de marca e eu sou um tipo extremamente cagão. Se agora começar a correr de meias, sabem no que é que eu me transformo? Passo ao anonimato num estalar de dedos e transformo-me em mais um runner, mais um igual a tantos outros—e o meu objectivo de vida não é esse. Eu quero justamente o oposto: quero destacar-me entre a carneirada, ter muitos gostos no facebook e viver feliz para sempre. Também já tentei usar suplementação em pó, mas acabo sempre por voltar à Sopa da Mamã. Por quê? Porque, embora rançosa, é outra das minhas imagens de marca. Lamento, mamã, mas tu não sabes cozinhar.

 

6. Largar o doping.

 

Confessei-me antes da missa do galo e o padre da minha paróquia mandou-me largar o doping. O vigário garantiu-me que largá-lo melhora as minhas hipóteses de conseguir um lugar no paraíso. Perante tal dilema, pus a mão na consciência, tirei-a do rabinho passado 5 minutos, fiz um piço com a mesma, apontei-o ao sacerdote e mandei-o passear. Escolho o doping. Tudo indica, portanto, que passarei a eternidade nos quintos dos infernos. Paciência.

Aquilo que a Santa Sé não percebe é que o doping tem uma grande vantagem: faz-nos correr mais. Além disso, como os atletas ainda não são controlados, não há qualquer risco de sermos apanhados. Só os pelintras—sem dinheiro para comprar droga—é que não se dopam. E eu não sou pelintra. O rendimento mínimo chega-me e sobra.

 

7. Responder a todos os meus fãs.

 

Ao correio electrónico do TopMáquina chegam-me diariamente centenas de mensagens. A maioria são ameaças de morte e convites de cariz sexual. Cheguei contudo à conclusão de que é humanamente impossível responder a todos os meus fãs. Das duas uma: ou arranjo uma assistente, ou inverto as minhas prioridades. Não estou porém disposto a fazer nem uma coisa nem outra. Arranjar uma assistente está fora de questão: não há orçamento. Quanto às minhas prioridades, esta lista está por ordem decrescente e em primeiro está a minha alimentação (ver ponto 1).

 

Desde então tenho vindo a penitenciar-me por meio de palmadas no rabinho. Sempre que falho uma resolução, telefono ao Joel José Ginga e ele vem a minha casa açoitar-me as nalgas. Pode não parecer grande castigo, mas o que vocês não sabem é que ele trabalha na agricultura e tem aquelas mãos bem calejadas. O homem, afinal de contas, é praticamente queniano: quando não está a correr, está a cultivar a terra.

Entrevista Top a uma Máquina

por Pedro Caprichoso, em 08.01.16

Aqui há uns tempos, uma tal de Ivete meteu conversa comigo no facebook e eu pensei: “Pronto, mais uma que quer um par de cuecas autografadas.” Afinal queria uma entrevista. Ei-la:

 

Balanço 2016

por Pedro Caprichoso, em 05.01.16

Quem diria que 2016 ficaria na história como o ano da revolução no Trail Nacional? 2016 teve de tudo: controlos anti-doping positivos, prémios monetários de 4 dígitos, cancelamento de provas por falta de participantes, o primeiro português campeão do mundo de Trail, o primeiro escândalo de corrupção, o primeiro escândalo sexual e a coincidência dos 6 Campeões Nacionais de Trail serem todos do signo Balança.

 

Parte I

 

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Como bem se lembram, os primeiros casos positivos ocorreram logo no rescaldo dos Trilhos dos Abutres. Se um dos casos detectados pela Agência Portuguesa de Anti-dopagem (APA) não foi surpresa para ninguém, o mesmo não se pode dizer do outro.

 

Só os mais distraídos ficaram admirados com a confissão da Analice aos microfones da TSF Runners. Relembro que à atleta Luso-Brasileira foi aplicada uma pena de suspensão por um período de 2 anos, ao que acresce serviço comunitário por igual período. Sinceramente não sei o que é pior: se a suspensão, se ser forçada a rebentar as bolhas dos finishers das provas que fazem parte do Campeonato Nacional de Trail Endurance. Ainda que só fossem as bolhas do José Faria, tal já seria castigo suficiente.

 

Sejamos sinceros: a Analice já vinha a pedi-las e teve o que merecia. O que dizer, porém, do controlo positivo do Rui Pinho? Ao contrário da sua amiga, o Rui remeteu-se ao silêncio durante todo o processo. Os seus advogados continuam a afirmar que o seu cliente desconhecia que o Calcitrin é composto por uma substância proibida pela APA. A extroderimetadonatina, vulgo ‘extracto de colhão de touro’, foi detectada numa amostra de xixi do Rui e posteriormente confirmada através de uma segunda análise.

 

Na única vez que falou em público sobre o assunto, na já famosa conferência de imprensa realizada numa Tasquinha do Porto, o autor do blog Tripas e Nortadas comeu 3 francesinhas e depois leu uma breve declaração perante os jornalistas. Transpomo-la em baixo na sua totalidade:

 

«A idade não perdoa e comecei a tomar Calcitrin por recomendação do meu amigo Eduardo Merino. Ele disse-me que a minha estrutura músculo-esquelética não ia aguentar por muito mais tempo, que isto já lá não ia com fisioterapia e que a única solução passaria por recorrer aos químicos. E assim fiz. Ainda experimentei o cogumelo do tempo, mas aquilo só me fazia gases. O José Capela é testemunha.»

 

Alguns juram a pés juntos que o Rui é inocente; outros querem despi-lo, mergulhá-lo num barril de óleo queimado, despejar-lhe um saco de penas de galinha em cima e obrigá-lo a fazer o UTSF nesses preparos. Seja como for, facto é que a ATRP teve mão pesada e aplicou-lhe um castigo exemplar. A ATRP obrigou o Rui a aceitar o cargo de Director de Comunicação da associação em troca da redução da pena de suspensão que lhe foi aplicada de 3 para 1 ano. Escusado será dizer que ele foi entretanto despedido por “promover a discussão sobre o estado do Trail Nacional” e a sua pena agravada em 5 anos.

 

Parte II

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Segundo os especialistas, o pico de popularidade do Trail atingiu-se por volta das 17h04 (UTC) do passado dia 29 de Julho de 2016. A modalidade atingiu aquele ponto em que todos os nossos amigos fazem Trail e já não temos mais ninguém para impressionar com os nossos feitos trailiteiros. Qual o interesse em praticar uma modalidade que todos praticam? Qual é a gaja que fica ‘com o pito aos saltos’ por um tipo que pratica a mesma modalidade da mãe dela? Namorado e mãe a praticarem a mesma modalidade não é, definitivamente, a coisa mais sexy do mundo. A prática do Trail, em meados de 2016, tornou-se assim o equivalente à prática de levantamento de copos na esplanada da Associação Cultural e Recreativa da Pontinha; ou, se quisermos, na versão feminina, à prática de croché numa tarde soalheira de inverno sob o calor das duas da tarde.

 

O Trail banalizou-se e a maior motivação do Zé-Povinho—Atleta, que consistia em cagar os seus feitos nas redes sociais, foi perdendo o seu encanto. Daí aos primeiros atletas trocarem o Trail pelo Ironman foi um passo. Começaram-se a verificar os primeiros cancelamentos de provas por falta de atletas, as Organizações viram-se obrigadas a abrir os cordões à bolsa e, no dia 18 de Dezembro, o V Curral de Moinas Christmas Trail atribuiu ao vencedor o inaudito prémio monetário no valor de €9.000. Começou-se também a verificar uma vaga de afogamentos entre o pessoal que se meteu no Triatlo sem saber nadar, mas isso são outros quinhentos.

 

Parte III

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Aqui há uns anos, se bem se lembram, o BPI respondeu a uma OPA do BCP com uma contra-OPA ao BCP. Ou seja, o gigante BCP ameaçou adquirir o pequenino BPI e este, em resposta, pôs-se em bicos de pés e ameaçou adquirir o BCP. Na altura, tais manobras não deram em nada. Acontece que a ATRP pegou no exemplo do BPI e, como é do conhecimento público, apresentou uma OPA à FPA no dia 28 de Maio de 2016. Aproveitando o crescimento do Trail e o definhamento do Atletismo, a ATRP pegou nas cotas dos seus 350 mil associados e fez uma Oferta Pública de Aquisição à Federação Portuguesa de Atletismo. Em 2015, a ATRP integrava a FPA enquanto “associado extraordinário”. Hoje, dia 5 de Janeiro de 2017, é a FPA que integra a ATRP enquanto “secção amadora”. No seguimento desta aquisição têm-se vindo a verificar algumas alterações ao nível do Atletismo em Portugal, das quais destacamos as seguintes:

 

  1. Criação de novas disciplinas, de que são exemplo os ‘100 metros com lama até aos joelhos’ e o ‘quadruplo-salto por cima de bosta de cavalo’;
  2. A designação “Maratona” passou a ser atribuída a qualquer prova entre 30k a 70k;
  3. O lançamento do bastão foi introduzido em substituição do lançamento do dardo;

 

Parte IV

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A ATRP, em conluio com a ATRB (*), promoveu uma festa de pijama entre uma dezena de brasileiras e os principais candidatos estrangeiros à vitória no Campeonato do Mundo de Trail, disputado no Parque Nacional da Peneda-Gerês no passado mês de Outubro. A festa teve lugar na véspera da prova e metade dos favoritos não se conseguiram sequer apresentar à partida. Os restantes ficaram-se pelo primeiro abastecimento, com problemas intestinais e dores insuportáveis ao nível do rabinho. Veio-se mais tarde a descobrir que as brasileiras eram transexuais.

 

O escândalo sexual foi espremido até à última gota pela comunicação social e não vale a pena estar a chover no molhado. O que muitos desconhecem, porém, é que ao escândalo sexual está associado um igualmente escandaloso escândalo de corrupção envolvendo as altas esferas da ITRA. Embora não se tenha provado a existência de pagamentos em dinheiro, a acusação alega que teve lugar o crime de corrupção por terem sido encontrados produtos regionais nos quartos de hotel dos representantes da ITRA. Para que estes fechassem os olhos à referida festa do pijama, cada elemento terá alegadamente recebido um cabaz recheado com um sortido de produtos de fumeiro, dois garrafões de vinho carrascão, três queijos de bode e um presunto de porco malhado.

 

No meio disto tudo, Jérôme Rodrigues acabou por sagrar-se Campeão do Mundo de Trail e Barcelos decretou 7 dias de festa. As buscas levadas a cabo pela PGR encontraram ainda uma peruca (semelhante às usadas pelas brasileiras) na residência do atleta barcelense. Uma vez que se tratam de provas circunstanciais, nenhuma acusação foi instaurada contra o Lince Ibérico.

 

(*) Associação de Trail Running do Brasil.

 

Parte V

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Se 2016 não foi um bom ano para o Trail, foi-o ainda pior para a Astrologia. A coincidência dos 6 Campeões Nacionais de Trail serem todos do signo Balança fez cair em descrédito a pseudociência do oculto. Relembro-vos que todos os Astrólogos garantiram que 2016 seria um ano péssimo para os nativos de Balança, apontando Carneiro como um dos signos mais beneficiados pelo ano que agora acabou. Há milhares de estudos científicos que refutam os princípios da Astrologia, mas foi preciso uma coincidência destas para que as pessoas abrissem finalmente os olhos. Acabaram-se os grupos de treino com signos compatíveis; acabaram-se os planos de treinos baseados no Mapa Astral do atleta; e acabaram-se os Treinadores / Astrólogos, de que é exemplo esta menina.

 

to be discontinued…

UltraPiropos

por Pedro Caprichoso, em 29.12.15

Parece que agora «os piropos com teor sexual podem valer pena de prisão até três anos, fruto das alterações ao Código Penal estabelecidas em Agosto passado».

 

«Piropos com teor sexual»? Por quê? Há-os de outro tipo? Existem piropos sem teor sexual? Desconheço. Piropo que é piropo tem obrigatoriamente de sugerir a intenção de saltar à cueca do seu destinatário. Removendo-lhe o seu carácter sexual, deixa de ser um piropo. «A menina deixa-me louco ao ponto de enfiar-lhe uma aliança no dedo e fazer de si uma mulher honrada». Isto, meus amigos, não é um piropo. É o refrão foleiro de uma música pimba—passe a redundância. O que foi? Que cara é essa? Não vais agora defender a música pimba, pois não? Queres ver que há refrões de música pimba não foleiros. Há? Tem juízo. Vai dar uma volta e vê se está a chover. Se estiver, aproveita e dá banho ao cão.

 

Quanto à lei em si, concordo. Leram bem. Peço desculpa ao trolha que existe em cada um de vós, mas considero que esta alteração legislativa já fazia falta. Soubessem o que eu tenho sofrido e compreenderiam a minha posição. Nada contra os piropos atirados às mulheres na vizinhança de estaleiros de construção civil. Quero lá saber. Não sou gaja. Nada contra os piropos gays lançados aos homens nos balneários dos estádios de futebol. É-me igual ao litro. Aceito e respeito o facto do futebol ser um desporto de e para panisgas. Só fico sentido quando os piropos são projectados em direcção à minha pessoa, em especial durante a competição. Aí já não gosto. É uma falta de respeito.

 

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Já não me lembro da última vez que fiz uma prova sem ser verbalmente violado por uma fã do TopMáquina. A intensidade do  assédio é sempre pior nas Ultras. Nas Ultras tudo é a dobrar: os km são a dobrar, o desnível é a dobrar, os abastecimentos são a dobrar, o xixi e o cocó é a dobrar, às vezes até vemos o trilho a dobrar—e os piropos, esses, também são a dobrar. Estamos a falar, portanto, de UltraPiropos. Exemplo: «Comia-te como um gel: apertava-te esse pacote e chupava-te todo!», bradou aos sete ventos uma Alentejana que foi de propósito a Barcelos ver-me correr os Amigos da Montanha.

 

O piropo em si não faz mal a ninguém. O problema é que o piropo representa a fase intermédia entre a boa-educação e a javardice completa. O piropo, no fundo, é como a cannabis: é uma droga leve que, se não tivermos cuidado, pode levar ao consumo de drogas duras. Um tipo manda uns piropos e, quando dá por ela, está a violar um inocente à partida de uma prova:

 

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Episódio na vida de um casal

por Pedro Caprichoso, em 22.12.15

Ele é praticante de Trail. Ela é uma pessoa normal.

 

– Para o ano quero ir às Canárias. – atira ela.

– Pode ser. – responde ele, contendo-se para não parecer muito excitado.

– A sério? Tu detestas praia e só queres saber de monte. – diz ela desconfiada.

– Sim, é verdade. Mas eu faço o esforço e vou por ti.

– Oh… Que querido! Anda cá xuxu.

 

Ela salta para cima dele, despem-se e fazem amor louco na alcatifa da sala durante dezanove minutos. Exaustos, ele vira-se para ela e pergunta:

 

– E quando é que vamos? – pergunta ele.

– Onde?

– Às Canárias.

– Não sei.

– Que tal no início de Março? – sugere o manhoso.

 

Na véspera da viagem, ele confessa-lhe que se inscreveu na Transgrancanaria. Ela fica pior do que estragada e obriga-o a dormir no chão do quarto de Hotel. Ele finge-se chateado, mas no fundo não se importa. Vale a pena.

 

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Prémios Monetários no Trail Running

por Pedro Caprichoso, em 21.12.15

Sou a favor da introdução de prémios monetários no Trail. A minha linha de argumentação é muito simples: se se anda a fazer dinheiro com o Trail, parte desse dinheiro tem de reverter para os atletas – e uma das formas de fazê-lo é através dos prémios monetários.

 

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Se vos perguntar qual é o elemento mais importante da Indústria do Trail, nove em cada dez dirão que são os Atletas. Se assim é, por que carga de água é que o elemento mais importante é o único que não vê a cor do dinheiro? As organizações fazem dinheiro, as empresas de cronometragem fazem dinheiro, as lojas de material desportivo fazem dinheiro, as lojas de suplementação fazem dinheiro, a comunicação social faz dinheiro, o comércio local faz dinheiro, os ginásios fazem dinheiro, etc. Só o Zé-Povinho—Atleta é que não faz dinheiro. Sim, todos os apoios são bem-vindos e já vão aparecendo alguns para os melhores atletas da nossa praça. No entanto, mesmo para os melhores atletas, os apoios ainda são insipientes. Limitam-se a material desportivo, fisioterapia e suplementação. Dinheiro, bagulho, massa, guita, pastel, grana, carcanhol… isso nem vê-lo.

 

Muitos recusam a introdução do dinheiro no Trail com o argumento de que exterminará o espírito do Trail. Desde logo, não faço ideia o que seja o espírito do Trail. Deve ser uma mistura do espírito do Natal com a mística desportiva. O que eu sei é que há pessoas boas e más neste mundo – e que a esmagadora maioria das pessoas que tenho conhecido no Trail são boas. Quanto ao mais, se o dinheiro fizer com que certas pessoas se comecem a comportar de maneira diferente, isso quererá apenas dizer que eu estava enganado em relação a elas.

 

Esta não é a única medida nem sequer a mais importante, mas só o campeão olímpico da ingenuidade acredita que o dinheiro não é um factor motivador para os atletas. Como se os atletas vivessem do ar e não precisassem do dinheiro (como complemento ao seu salário) para pagar a creche da Tânia Vanessa e as fraldas do Jorge Nuno. Não se esqueçam de que estamos a falar de uma modalidade completamente amadora.

 

O aumento exponencial do número de participantes e a história de que as provas só servem para nos divertirmos – ideia com a qual discordo por completo – é o que tem alimentado esta situação. Estou careca de dizê-lo e vou repeti-lo até ao meu último pintelho capilar: as provas são para competir. Ver mais sobre este fascinante tema aqui.

 

Aquilo que eu crítico em muitas organizações, com o crescimento exponencial da modalidade, é que o enfoque passou da competição para a massificação. O enfoque passou de tentar fazer a melhor prova a nível competitivo para tentar fazer a melhor prova no sentido de garantir o maior número de participantes. Muitas organizações têm recursos para atribuir prémios monetários, mas não o fazem. Por quê? Porque não precisam. Estamos no auge da popularidade da corrida e o critério que hoje mais conta é a quantidade e não a qualidade. É tão simples quanto isso.

 

Seja como for, em última análise, o que verdadeiramente conta é a lei do mercado. Quando a moda passar (porque vai passar), quando começarem a surgir provas anuladas por falta de participantes (porque vão começar a surgir) e quando os melhores atletas começarem a competir mais em Espanha do que em Portugal, nessa altura podem ter a certeza de que os prémios monetários aparecerão. Quero é ver com que legitimidade iremos no futuro imediato encarar os Campeonatos Nacionais de Trail, quando os nossos melhores atletas optarem por fazer provas em Espanha em detrimento das provas que integram os Campeonatos. Em boa verdade, se pensarmos bem, já há alguns que preferem competir no país vizinho, onde têm obtido resultados de relevo. Agora imaginem que todos começam a fazê-lo de forma regular. Ainda vamos ver o Pedro Caprichoso sagrar-se Campeão Nacional e depois é o descrédito total.

 

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[Prémios Monetários do Ehmumilak] 

 

Posto isto, a minha sugestão passa pela ATRP obrigar as organizações a introduzirem prémios monetários nas provas que fazem parte dos Campeonatos Nacionais. Deveria ser um requisito obrigatório. Não tenho noção dos valores. Inicialmente, pode ser muito ou pouco. Não interessa. O que interessa é que se comece a criar o princípio de que também tem de chover para o lado dos atletas. "Quem não chora não mama" é uma verdade universal. Daí este texto em forma de choradeira.

Portugal é Feio

por Pedro Caprichoso, em 17.12.15

É preciso fumar muita droga para afirmar que Portugal é bonito. Façam-me um favor: comparem as imagens captadas pela Volta à França e pela Volta a Portugal – e depois venham-me dizer que Portugal é que é bonito.

 

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Bonitas são algumas zonas da nossa costa, as ilhas, a planície alentejana, o Douro e algumas zonas demarcadas da floresta original que nos resta – Gerês, Lousã, Açor, Montesinho, Arrábida, Estrela, etc. Tirando isso, Portugal, no geral, é feio.

 

As pessoas confundem paisagem com natureza. Portugal tem paisagem (i.e. vistas), mas a natureza – em termos de fauna e flora – já não é o que era. E a culpa, em grande medida, é da praga do eucalipto e pinheiro bravo. As montanhas portuguesas são bonitas de longe; de perto é só pinheiro e eucalipto.

 

20 dos 38% de território nacional ocupado por floresta é constituído por pinheiro e eucalipto, muito por força da indústria da madeira e da pasta e papel. A floresta portuguesa não é eucalipto (espécie invasora originária da Austrália) e pinheiro-bravo. Que se lixe o eucalipto e o pinheiro. Que arda tudo!

 

Onde estão os carvalhos? As azinheiras? Os salgueiros? Os castanheiros? Os loureiros? Os sabugueiros? Sabem onde eles estão? Estão nas zonas protegidas que ainda não foram invadidas pelo eucalipto e pelo pinheiro.

 

Pinhal não é floresta. Eucaliptal não é floresta. Num pinhal e num eucaliptal não existe mais nada para além de mato. Não há solo, não há água, não há biodiversidade. Não há vida.

 

Dito isto, não me venham dizer que um Trail feito exclusivamente em Pinhal e Eucaliptal é bonito. Não é. É medonho!

“Movimento Machista” Luta Contra Discriminação de Género no Trail

por Pedro Caprichoso, em 15.12.15

Apresento-me como o rosto de um novo movimento nas redes sociais, que visa a igualdade de género nas provas. Ainda que de forma marginal, o “grunho do macho latino” já ecoa no submundo do Trail Nacional.

 

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O meu “grunho” soltou-se por verificar que o número de machos latinos a participar em provas de Trail aumentou substancialmente nos últimos anos. No entanto, pese embora o referido aumento, o macho latino continua a ser descriminado pelas Organizações.

 

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As Organizações impõem regras cada vez mais feministas e nós, enquanto machos latinos, não podemos simplesmente meter o rabinho entre as pernas, anuir em consonância e ficar calados. Era o que faltava! Há regulamentos que impõem a utilização de camisolas térmicas de gola alta, impedindo que o macho exiba a sua farfalheira peitoral. Outros penalizam o porte de cordões de ouro, pulseiras anti-stress e unhacas com mais de 5cm de comprimento, com o argumento de que tais elementos colocam em perigo a integridade física dos atletas. Outros vão ainda mais longe e proíbem a utilização de pochetes, coagindo os machos latinos a correrem, obrigatoriamente, com um “sistema de hidratação com capacidade para 1litro”.

 

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Como se não bastasse, querem-nos ainda tirar a essência daquilo que nos faz ser machos. Se já não se podia atirar lixo para o chão, agora também não se pode arrotar, arrear o calhau no meio do trilho ou coçar a tomateira. As Organizações precisam de perceber que as pessoas são diferentes e que há que respeitar essa diferença. Exemplo: os rabetas usam cremes antifricção; os machos coçam a tomateira com a unhaca. Todos diferentes, todos iguais.

 

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Estou a tentar encabeçar um movimento machista e é com satisfação que recebo mensagens de atletas machistas que já começaram a tomar uma posição. Alguns deles, inclusive, já não se inscrevem em provas onde não há minis nos abastecimentos ou gajas com mamas grandes nos pontos de controlo. Outros, em protesto, agrafam o dorsal aos mamilos e correm em tronco nu. Estas são apenas algumas das formas de protesto que temos realizado no sentido de consciencializar a opinião pública para este drama.

 

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A solução passa por haver uma maior união entre os machos. Maior mas não demais, pois a união em excesso pode levar a actividades abichanadas e nós não gostamos disso.

BALANÇO 2015

por Pedro Caprichoso, em 10.12.15

2015_16.jpgFoi um ano para esquecer. Pior era impossível. Faço um balanço muito negativo do ano que está prestes a terminar. O facebook está constantemente a dizer-me que «não há impossíveis» e que «para ganhar basta acreditar». Pois bem, eu acreditei, nunca desisti, evitei as provas com mais concorrência e caguei-me no facebook com todas as forças que tinha. E o que é que eu ganhei? Eu digo-vos: nada.

 

Ao contrário de outros, que andam nisto pelo convívio e contacto com a natureza, eu ando no Trail para ganhar. Estou-me a cagar para a superação pessoal. O que eu quero é ganhar. Não me interpretem mal. Não é só ganhar. Para além de ganhar, também quero ter muitos gostos no facebook.

 

Se exceptuarmos o homem da marreta, não tive o prazer de conhecer ninguém em particular. Se exceptuarmos fazer xixi em andamento, não aprendi nada de especial. Por outro lado, uma vez que a corrida não é só amizades e beleza natural, em 2015 fiz muitos inimigos e fartei-me de vazar lixo no monte.

 

Competir com os melhores não é o que mais me motiva. A minha maior motivação é identificar-me nas fotos dos outros e ficar horas a ver os gostos a cair às pinguinhas. Brinco com a pilinha sempre que uma publicação minha chega aos 100 gostos. É assim que eu alcanço os meus objectivos e ultrapasso os meus limites.

 

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Nos Abutres, à falta de melhor adjectivo, foi um desastre. Fiquei aquém das espectativas e fui torturado pela Mafia Chinesa de Barcelos, que em mim apostou 1 milhão de euros na Betclic. Os mafiosos tiraram-me um rim e venderam-no no mercado negro para cobrir parte do prejuízo. O atleta desilusão dos Abutres não conseguiu sequer atingir o seu principal objectivo: chegar ao fim com os pés secos. Cheguei com eles ensopados e cheios de lama. Um verdadeiro desastre.

 

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Em Sicó, passei a integrar os quadros do TopMáquina. Calcei os ténis, rezei dois Pai-Nossos e duas Avé-Marias, besuntei o rêgo do cu com vaselina PACU e parti para os 111km com o objectivo de chegar ao fim com a cueca enxuta. Relembro-vos que havia borrado a cueca na minha última prova de 3 dígitos. O UTAX e o Município da Lousã ainda estão em dívida comigo pela qualidade com que adobei a Serra da Lousã. A cueca chegou enxuta e isso, em si mesmo, já foi uma vitória.  Por outro lado, estive com o homem da marreta ao km 95. Ele mandou cumprimentos. A conversa com o marreteiro foi tão boa, mas tão boa, que fiz os 5km seguintes a passo. Inclusive as descidas. Despedi-me dele no abastecimento dos 100km, quando entornei um caldinho verde que me soube pela vida.

 

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No Paleozóico, passei a prova toda a ouvir falar de um “elevador”. O “elevador” isto; o “elevador” aquilo. Enganaram-me. Não havia nenhum elevador. Nem elevador, nem teleférico, nem funicular, nem bondinho. A culpa é minha. Fui eu que percebi mal: não é “elevador”; é “eleva-a-dor”. Assim já faz mais sentido, pois aquela subida elevou-me a dor a níveis estratosféricos. Malditos sejam.

 

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Em Cerveira, dado enorme contigente espanhol, aprendi mais palavras em Castelhano durante a primeira contagem de montanha do dia (com 450D+) do que em toda a minha adolescência vendo o Canal Íntimo. Eis algumas das bonitas expressões que agora utilizo sempre que me desloco ao país vizinho: Estoy hasta los cojones; Que coño; Me cago en la leche; A tomar por culo; Que putada; No jodas!; Que coñazo; Que hijo(a) de puta!; Eso está de puta madre; Está cojonudo;

 

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Em Poiares, recebi um troféu muito esquisito. O dito cujo exibe focinho de bode (pois tem barbicha) e corpo de cabra (pois tem tetas). Ou seja, trata-se de um caprino transexual – e nós aqui no TopMáquina não gostamos dessas modernices. Ou bem que era uma cabra; ou bem que era um bode. Assim não.

 

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Na Padela, corri com um veterano do Trail Nacional e cheguei à conclusão de que o Pedro Marques é um estroina. De maneira a não ferir susceptibilidades, vou dar apenas 3 exemplos ligeirinhos do terror que é correr com o Pedro: (1) O Pedro mete conversa connosco para que a gente se desconcentre e bata com os cornos no chão; (2) O Pedro come bananas e depois atira as cascas em direcção aos nossos pés para ver se a gente escorrega e bate com os cornos no chão; (3) O Pedro dispara subida acima, pára, espera por nós, incentiva-nos como se estivéssemos em Zegama, depois arranca novamente, ultrapassa-nos e volta a fazer o mesmo. Tudo para psicologicamente nos deitar a baixo e ver se a gente leva com a marreta.

 

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No Mont-Blanc, a minha estratégia – que passava por fazer marcação cerrada ao Kilian Jornet – ficou comprometida pelo facto do espanhol não ter participado na Maratona. O morcão fez (e ganhou) as últimas 3 edições, mas este ano lembrou-se de disputar apenas no km vertical. Ser vedeta é isto: é ser egoísta; é pensar apenas em si próprio; é ignorar as necessidades dos outros – sobretudo nas minhas. O Kilian era um ídolo para mim, mas hoje morreu. Atirei um paralelo à vitrine de uma loja da Salomão, risquei-lhe a roulotte com a minha medalha de finisher, rasguei os posters dele que tinha colados no meu guarda-fatos e estou a usar o livro "Correr ou Morrer" para limpar o rabinho.

 

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Em Óbidos, apanhei boleia no autocarro da minha futura equipa e fiquei surpreendido com o ambiente que encontrei. As vedetas da equipa vianense partilharam experiências para facilitar a minha integração no grupo – e foi muito gratificante ouvir histórias bonitas de entreajuda e superação, como daquela vez em que o Jérôme foi atacado por um Lince Ibérico no Gêres enquanto arreava o calhau – o Jérôme, não o Lince. O Ricardo e o Faria passaram a viagem a cantar ao desafio e a mamar do garrafão do vinho: enquanto um cantava, o outro mamava. O Saleiro conduzia o pão-de-forma, o Rocha enfardava rissóis directamente do Tupperware, a Iva e o Pedra jogavam à sardinha, o Amândio automotivava-se falando sozinho, a Sónia fazia um gorro em malha para o Jérôme – muito frio apanha aquela careca – e os restantes mostravam o rabo aos transeuntes. Sinto a mística do Viana-Trail a apoderar-se de mim como uma doença contagiosa. Só não gostei da segregação de género imposta pelo Presidente, com as mulheres na parte da frente do autocarro e os homens escorraçados para a parte de trás. “Temos de poupar energia para a prova”, dizia ele. Ao menos deu o exemplo, já que a sua cara-metade fez a viagem toda na bagageira.

 

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Em Arga, o Rui Seixo e o André Rodrigues resolveram adubar a Serra D’Arga como se não houvesse amanhã. Apanhei os dois, de cócoras, a cagar à caçador. Quem não soubesse melhor, diria que eles haviam sido contratados pelo Ministério da Agricultura. Se os problemas gastrointestinais do Seixo não tiveram reflexo na classificação colectiva da sua equipa, o mesmo não se pode dizer em relação ao André. A Juventude Vidigalense contava com apenas 3 atletas, pelo que estes teriam obrigatoriamente de terminar a prova para classificar a equipa. Ou seja, a desistência do André deitou por terra as aspirações da equipa de Leiria. «As fezes do André souberam-me a mousse de chocolate», confessou o Presidente do Viana Trail a este vosso mui estimado cronista.

 

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Na Senhora do Salto, levei uma penalização de 6h por ter engravidado uma caminheira durante a prova. Jamais esquecerei esta prova. Ao km 16 concebi o meu primeiro filho. Vou ser pai... Pelo menos isso é o que diz a caminheira contra a qual embati pela retaguarda no passado Domingo. A culpa é do viagra. Troquei os comprimidos de imodium pelos de viagra – ambos azúis – e tomei dois a meio da prova. O problema é que fiz a segunda metade com a tenda armada e depois deu-se o azar de ter apanhado a futura mãe do meu filho numa curva mais apertada. A coitada, ainda por cima, estava de rabo empinado à procura de uma lente de contacto. É o destino. A rapariga não é da terra. A Christine é uma estudante francesa a fazer Erasmus em Ermesinde.

 

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Em Afife, constatei que sou o único gajo do Trail Nacional que não rapa os pêlos da pila. Os meus pêlos púbicos são como o cabelo do Sansão. Se os cortar, perco a força! Não percebo o que se passa com os jovens de hoje em dia. Que moda é essa de deixar crescer a pelugem facial e rapar a tomateira? Por um lado são lumbersexuais; por outro parecem actores porno. Cá para mim é tudo uma questão de insegurança. Só rapam porque rapado parece maior.

 

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Por fim, nos Amigos da Montanha, descobri que o meu limite situa-se entre as bolhas de sangue e as bolhas de terra. Uma coisa é um tipo fazer bolhas de sangue em resultado da sujidade que inevitavelmente entra nas sapatilhas; outra coisa são as bolhas de sangue rebentarem e transformarem-se em bolhas de terra quando a sujidade se aloja entre a pele e a carne, provocando dores dilacerantes sempre que o pé toca o chão. Imagino que isto é o equivalente a ser torturado por um mestre de acupunctura. Assim sendo, parece que é desta que vou começar a usar meias. Fiquei convencido pela cara de nojo com que o Ricardo Silva olhou para os meus pés depois da prova. O coitado teve um refluxo gástrico e só não vomitou à minha frente para não parecer mal. Para além das meias, também vou começar a pintar as unhas como a Tu Xa. A pintura, porém, é apenas por questões estéticas. Acho que me vai ficar a matar.

 

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Apesar de uma época miserável, tenho de agradecer a todos os que me apoiam. Não é que me apeteça muito, mas sou contratualmente obrigado a fazê-lo. O meu Contrato de Casamento é bem claro nesse ponto, pelo que o meu primeiro agradecimento vai para o meu companheiro moçambicano.

 

Obrigado Xuxu. Tens sido o meu apoio emocional desde que me estreei nas lides do Trail Running. Contigo não me falta motivação para treinar, pois treinar é a melhor desculpa para sair de casa e não ter de te aturar. Obrigado por seres a pessoa mais chata do mundo.

 

Obrigado Meia da Raquete. Não conseguiria sobreviver sem os 500 paus que vocês me enviam todos os meses. Embora não corra com elas, as meias da raquete são óptimas como forma de evitar queimaduras ao usar saco de água quente, ou para dar uma berlaitada na falta de papel higiénico. Não posso recomendá-las mais.

 

Obrigado Adipas. Com o vosso apoio tive oportunidade de experimentar e usar material top. O representante da Adipas na Feira de Ponte de Lima tem sido incansável, mimando-me com os melhores produtos do mercado. Sem o meu amigo Lelo ainda estaria a correr nas distritais.

  

Obrigado Sopa da Mamã. Graças a ti não me recordo de nenhuma queda de tensão durante as provas. Lembro-me de um ataque violento de flatulência, mas isso foi porque uma vez exagerei na dose e enfardei 5 sopas de feijão de seguida. Graças à tua hortaliça, terei a afinação perfeita para mais um ano de grandes desafios!

 

Siga para 2016!

Os Cagões

por Pedro Caprichoso, em 04.12.15

Estão a ver aqueles atletas que correm extremamente bem equipados, trasbordando estilo e ostentando pelo corpo uma caderneta de logotipos das melhores marcas? Aqueles cujo nível desportivo é inversamente proporcional ao dinheiro que gastam em equipamento? Aqueles que são extremamente activos nas redes sociais, atirando-nos constantemente à cara todos os treinos, provas, medalhas de finisher e “unboxing” de novo equipamento? Pois bem, os nossos vizinhos espanhóis têm um nome para esta subespécie de desportistas. Qualificam-nos de “postureadores”.

 

 

 

 

“Postureador” é aquele que se dedica ao “postureo” – neologismo usado nomeadamente no contexto das redes sociais e novas tecnologias, para expressar determinadas formas de comportamento e de pose (i.e. armanço), mais pelas aparências do que por uma verdadeira motivação. Acontece que, em bom português, também há um neologismo excelente para aplicar neste caso.

 

Eu, Máquina da Fonseca, reverendo da Igreja Universal do Reino do Trail, baptizo-vos de “cagões”.

Se não os consegues vencer, junta-te a eles

por Pedro Caprichoso, em 03.12.15

Como dizia o José Castelo Branco: “Se não os consegues vencer, junta-te a eles.” Penso que era ele que dizia isso. Se não era ele, era a minha avó. Era um deles.

 

Seja como for, espero que as outras equipas não fiquem chateadas por eu copiar a sua estratégia de motivação. Tenho a certeza de que não vão ficar. É tudo gente do mais melhor bom no mundo que há.

 

Nesse sentido, de maneira a melhor motivar os meus colegas de equipa, também eu vou distribuir alguns títulos recorrendo à hipérbole e à falta de bom senso. Creio que não há nenhum mal nisso.

 

José "Presidente" Alcobia

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  “O melhor Presidente de uma Equipa de Trail Running da Península Ibérica e ilhas.”

 

 

Jérôme "Lince Ibérico" Rodrigues

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 “O melhor Atleta Careca de Trail Running do Sistema Solar. Plutão incluído.”

 

 

Gabriel "Chaimite" Meira

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 “O atleta mais «Todo-o-Terreno» do Panorama Internacional. Síria não incluída.”  

 

 

Rui "Leão" Seixo

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  “O atleta mais fofinho e mais assustador do Universo e não só.”  

 

 

Pedro "Fininho" Caprichoso

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 “O atleta sexualmente mais activo do Hemisfério Norte.”  

 

 

Ricardo "Robocop" Silva

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 “Um dos melhores.”

(Engraçado verificar que com este não precisei de recorrer à hipérbole.)

A Sobrevalorização dos Atletas nas Redes Sociais

por Pedro Caprichoso, em 01.12.15

Começo por deixar bem claro que o meu alvo não são os atletas. Estes merecem o meu maior respeito, pois enquanto atletas amadores fazem o melhor que podem com muito esforço e dedicação. O meu alvo são determinadas equipas de Trail Running, que aproveitam-se da ignorância desportiva do Zé-Povinho e dizem os maiores disparates sem que ninguém as questione. Hoje em dia, aparentemente, vale tudo.

 

Dois exemplos recentes:

 

1. GAIA TRAIL

 

A propósito do excelente resultado do Luís Gil na Maratona do Gerês, a sua equipa qualificou-o como “o atleta mais completo do panorama português do atletismo”. A sério?

 

http://tinyurl.com/jb2hoyr

 

Antes de mais, tenho de felicitar o Luís Gil pela sua excelente performance. Convivi um pouco com o Luís quando corríamos pela Juventude Vidigalense e só tenho boas coisas a dizer sobre ele. Excelente atleta e melhor pessoa. Agora, qual é a necessidade de cair no exagero? O atleta mais completo do panorama português do atletismo? A sério? O Luís é um atleta completo? Sim, podemos considerar que sim: campeão de Marcha, bom atleta amador de estrada e bom atleta de trail. Agora, o mais completo? Por quê?

 

  1. Se é porque fez Marcha, nesse caso não há termo de comparação, pois não conheço outro campeão de marcha que compita em estrada e no trail. Ou seja, nesse caso o “mais” não faz sentido. Só faria sentido em comparação com outros atletas em iguais circunstâncias.

 

  1. Andamos aqui todos a brincar ao desporto amador e alguns de nós fazem-no com muito mérito, como é o caso do Luís. Mas não há comparação possível entre um atleta amador e um atleta profissional. Vamos comparar 2h40 com 2h10 na Maratona, é isso? 2h40 é um excelente tempo para um amador, mas ainda assim fica a anos-luz da performance alcançada por um atleta profissional – de que é exemplo o Rui Pedro Silva. Há que ter noção das coisas.

 

  1. Todos somos amadores e estar a afirmar que um de nós é o “mais”, seja em que categoria for, não faz qualquer sentido. Ainda para mais, tal comparação é totalmente injusta para o Luís (pois estão a compará-lo com o que não é comparável) e injusta para os atletas profissionais da nossa praça (que estão muitos patamares acima de qualquer um de nós).

 

 2. FAFE RUNNERS

 

A propósito do «Prémio de Mérito Desportivo» atribuído pela Cidade de Fafe ao Nuno Fernandes, a sua equipa qualificou-o como um dos “um dos melhores atletas de Trail Running Nacional.” A sério? Um dos melhores? Mas estamos a brincar com a tropa ou quê?

 

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Ao contrário do Gil, não conheço o Nuno pessoalmente. Em boa verdade, até tive de pesquisar para saber quem ele é. E o que eu descobri é que ele tem feito uns resultados engraçados. Nada mais do que isso. Resultados esses que foram alcançados maioritariamente em provas de segunda linha, em que a concorrência deixa muito a desejar. Não estou a retirar mérito ao atleta. O atleta, enquanto amador, faz o que pode com todo o sacrifício e dedicação – e a mais não é obrigado. Estou simplesmente a constatar um facto: as suas melhores classificações foram alcançadas em provas que não fazem parte dos Campeonatos Nacionais de Trail, onde aí sim se vê quem são os melhores.

 

O busílis da questão é que hoje em dia há 1254 provas de trail por semana, e só quem está por dentro do trail é que sabe avaliar o mérito de um resultado tendo em conta a concorrência que se apresenta à partida de cada prova. Para o Zé-Povinho uma vitória é uma vitória, independente de ter sido obtida nos Trilhos dos Abutres ou no Trail de Curral de Moinas, e há equipas que se estão a aproveitar disso para sobrevalorizar os seus atletas. A verdade, para um conhecedor do trail, é que um Top20 nos Abutres é melhor do que uma vitória em Curral de Moinas. É tão simples quanto isso.

 

Posto isto, quando se diz que o Nuno é “um dos melhores atletas de Trail Running Nacional”, estamos a compará-lo exactamente com quem? É que assim, de repente, por ordem alfabética, apresento-vos 30 atletas melhores do que o Nuno. Quero ver quem se atreve a questionar esta lista:

 

1. Albino Daniel

2. André Castro

3. André Rodrigues

4. Armando Teixeira

5. Bruno Coelho

6. Carlos Sá

7. Délio Ferreira

8. Diogo Fernandes

9. Gabriel Meira

10. Hélder Ferreira

11. Jérôme Rodrigues

12. Leonardo Diogo

13. Luís Duarte

14. Luís Fernandes

15. Luís Mota

16. Luís Semedo

17. Manuel Faria

18. Marcolino Veríssimo

19. Nelson Graça

20. Nuno Silva

21. Paulo Lopes

22. Pedro Marques

23. Pedro Rodrigues

24. Ricardo Silva

25. Romeu Gouveia

26. Rui Luz

27. Rui Pacheco

28. Rui Seixo

29. Telmo Veloso

30. Vítor Cordeiro

Desporto de Macho

por Pedro Caprichoso, em 30.11.15

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O que eu mais gosto no Trail Running é que é um desporto para machos. De e para machos. No Trail não há lugar para aquelas paneleirices que se vêem no Futebol. Os jogadores da bola simulam faltas, simulam agressões, abraçam-se, dão palmadinhas no rabo uns dos outros e, em certas situações, até se beijam. Tais comportamentos abichanados não são tolerados no Trail Running. Quando muito, em último recurso, dá-se a mão para retirar um companheiro atascado numa poça de lama. Mais do que isso é visto com desconfiança.

 

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Os praticantes de Trail não se depilam. Deixam a farfalheira ao natural como o Tony Ramos. É das pernas peludas que elas gostam mais.

 

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Os macho-runners não usam roupa justa de lycra. Correm com sapatilhas de futsal e fato-de-treino da feira, com o cordão de ouro oscilando sobre um vistoso tapete de pêlos que do peito irrompem de forma viçosa. Os macho-runners não usam roupa a combinar, não têm 20 pares de sapatilhas, não tiram selfies e não vão para o monte mostrar o rabo.

 

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Um sujeito homem não passa creme antifricção nas partes baixas. Um cabra-macho não tem medo de chamuscar a tomateira. Nem de chamuscar a tomateira, nem de queimar o rabinho. Lubrificante é para maricas!

 

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Para terem noção do nível de macheza – não confundir macheza com machismo – dos homens do Trail, basta dizer que nem os massagistas têm autorização para nos tocar nos glúteos.

 

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Homem do Trail que é homem do Trail nunca diz que não. Homem do Trail que é homem do Trail aguenta uma noite inteira sem falhar uma única vez. Homem do Trail que é homem do Trail é um verdadeiro macho latino. Homem do Trail que é homem do Trail tem força de vontade suficiente para recusar um convite tão apetitoso quanto este:

 

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