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TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

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Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

UltraPiropos

por Pedro Caprichoso, em 29.12.15

Parece que agora «os piropos com teor sexual podem valer pena de prisão até três anos, fruto das alterações ao Código Penal estabelecidas em Agosto passado».

 

«Piropos com teor sexual»? Por quê? Há-os de outro tipo? Existem piropos sem teor sexual? Desconheço. Piropo que é piropo tem obrigatoriamente de sugerir a intenção de saltar à cueca do seu destinatário. Removendo-lhe o seu carácter sexual, deixa de ser um piropo. «A menina deixa-me louco ao ponto de enfiar-lhe uma aliança no dedo e fazer de si uma mulher honrada». Isto, meus amigos, não é um piropo. É o refrão foleiro de uma música pimba—passe a redundância. O que foi? Que cara é essa? Não vais agora defender a música pimba, pois não? Queres ver que há refrões de música pimba não foleiros. Há? Tem juízo. Vai dar uma volta e vê se está a chover. Se estiver, aproveita e dá banho ao cão.

 

Quanto à lei em si, concordo. Leram bem. Peço desculpa ao trolha que existe em cada um de vós, mas considero que esta alteração legislativa já fazia falta. Soubessem o que eu tenho sofrido e compreenderiam a minha posição. Nada contra os piropos atirados às mulheres na vizinhança de estaleiros de construção civil. Quero lá saber. Não sou gaja. Nada contra os piropos gays lançados aos homens nos balneários dos estádios de futebol. É-me igual ao litro. Aceito e respeito o facto do futebol ser um desporto de e para panisgas. Só fico sentido quando os piropos são projectados em direcção à minha pessoa, em especial durante a competição. Aí já não gosto. É uma falta de respeito.

 

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Já não me lembro da última vez que fiz uma prova sem ser verbalmente violado por uma fã do TopMáquina. A intensidade do  assédio é sempre pior nas Ultras. Nas Ultras tudo é a dobrar: os km são a dobrar, o desnível é a dobrar, os abastecimentos são a dobrar, o xixi e o cocó é a dobrar, às vezes até vemos o trilho a dobrar—e os piropos, esses, também são a dobrar. Estamos a falar, portanto, de UltraPiropos. Exemplo: «Comia-te como um gel: apertava-te esse pacote e chupava-te todo!», bradou aos sete ventos uma Alentejana que foi de propósito a Barcelos ver-me correr os Amigos da Montanha.

 

O piropo em si não faz mal a ninguém. O problema é que o piropo representa a fase intermédia entre a boa-educação e a javardice completa. O piropo, no fundo, é como a cannabis: é uma droga leve que, se não tivermos cuidado, pode levar ao consumo de drogas duras. Um tipo manda uns piropos e, quando dá por ela, está a violar um inocente à partida de uma prova:

 

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Episódio na vida de um casal

por Pedro Caprichoso, em 22.12.15

Ele é praticante de Trail. Ela é uma pessoa normal.

 

– Para o ano quero ir às Canárias. – atira ela.

– Pode ser. – responde ele, contendo-se para não parecer muito excitado.

– A sério? Tu detestas praia e só queres saber de monte. – diz ela desconfiada.

– Sim, é verdade. Mas eu faço o esforço e vou por ti.

– Oh… Que querido! Anda cá xuxu.

 

Ela salta para cima dele, despem-se e fazem amor louco na alcatifa da sala durante dezanove minutos. Exaustos, ele vira-se para ela e pergunta:

 

– E quando é que vamos? – pergunta ele.

– Onde?

– Às Canárias.

– Não sei.

– Que tal no início de Março? – sugere o manhoso.

 

Na véspera da viagem, ele confessa-lhe que se inscreveu na Transgrancanaria. Ela fica pior do que estragada e obriga-o a dormir no chão do quarto de Hotel. Ele finge-se chateado, mas no fundo não se importa. Vale a pena.

 

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Prémios Monetários no Trail Running

por Pedro Caprichoso, em 21.12.15

Sou a favor da introdução de prémios monetários no Trail. A minha linha de argumentação é muito simples: se se anda a fazer dinheiro com o Trail, parte desse dinheiro tem de reverter para os atletas – e uma das formas de fazê-lo é através dos prémios monetários.

 

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Se vos perguntar qual é o elemento mais importante da Indústria do Trail, nove em cada dez dirão que são os Atletas. Se assim é, por que carga de água é que o elemento mais importante é o único que não vê a cor do dinheiro? As organizações fazem dinheiro, as empresas de cronometragem fazem dinheiro, as lojas de material desportivo fazem dinheiro, as lojas de suplementação fazem dinheiro, a comunicação social faz dinheiro, o comércio local faz dinheiro, os ginásios fazem dinheiro, etc. Só o Zé-Povinho—Atleta é que não faz dinheiro. Sim, todos os apoios são bem-vindos e já vão aparecendo alguns para os melhores atletas da nossa praça. No entanto, mesmo para os melhores atletas, os apoios ainda são insipientes. Limitam-se a material desportivo, fisioterapia e suplementação. Dinheiro, bagulho, massa, guita, pastel, grana, carcanhol… isso nem vê-lo.

 

Muitos recusam a introdução do dinheiro no Trail com o argumento de que exterminará o espírito do Trail. Desde logo, não faço ideia o que seja o espírito do Trail. Deve ser uma mistura do espírito do Natal com a mística desportiva. O que eu sei é que há pessoas boas e más neste mundo – e que a esmagadora maioria das pessoas que tenho conhecido no Trail são boas. Quanto ao mais, se o dinheiro fizer com que certas pessoas se comecem a comportar de maneira diferente, isso quererá apenas dizer que eu estava enganado em relação a elas.

 

Esta não é a única medida nem sequer a mais importante, mas só o campeão olímpico da ingenuidade acredita que o dinheiro não é um factor motivador para os atletas. Como se os atletas vivessem do ar e não precisassem do dinheiro (como complemento ao seu salário) para pagar a creche da Tânia Vanessa e as fraldas do Jorge Nuno. Não se esqueçam de que estamos a falar de uma modalidade completamente amadora.

 

O aumento exponencial do número de participantes e a história de que as provas só servem para nos divertirmos – ideia com a qual discordo por completo – é o que tem alimentado esta situação. Estou careca de dizê-lo e vou repeti-lo até ao meu último pintelho capilar: as provas são para competir. Ver mais sobre este fascinante tema aqui.

 

Aquilo que eu crítico em muitas organizações, com o crescimento exponencial da modalidade, é que o enfoque passou da competição para a massificação. O enfoque passou de tentar fazer a melhor prova a nível competitivo para tentar fazer a melhor prova no sentido de garantir o maior número de participantes. Muitas organizações têm recursos para atribuir prémios monetários, mas não o fazem. Por quê? Porque não precisam. Estamos no auge da popularidade da corrida e o critério que hoje mais conta é a quantidade e não a qualidade. É tão simples quanto isso.

 

Seja como for, em última análise, o que verdadeiramente conta é a lei do mercado. Quando a moda passar (porque vai passar), quando começarem a surgir provas anuladas por falta de participantes (porque vão começar a surgir) e quando os melhores atletas começarem a competir mais em Espanha do que em Portugal, nessa altura podem ter a certeza de que os prémios monetários aparecerão. Quero é ver com que legitimidade iremos no futuro imediato encarar os Campeonatos Nacionais de Trail, quando os nossos melhores atletas optarem por fazer provas em Espanha em detrimento das provas que integram os Campeonatos. Em boa verdade, se pensarmos bem, já há alguns que preferem competir no país vizinho, onde têm obtido resultados de relevo. Agora imaginem que todos começam a fazê-lo de forma regular. Ainda vamos ver o Pedro Caprichoso sagrar-se Campeão Nacional e depois é o descrédito total.

 

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[Prémios Monetários do Ehmumilak] 

 

Posto isto, a minha sugestão passa pela ATRP obrigar as organizações a introduzirem prémios monetários nas provas que fazem parte dos Campeonatos Nacionais. Deveria ser um requisito obrigatório. Não tenho noção dos valores. Inicialmente, pode ser muito ou pouco. Não interessa. O que interessa é que se comece a criar o princípio de que também tem de chover para o lado dos atletas. "Quem não chora não mama" é uma verdade universal. Daí este texto em forma de choradeira.

Portugal é Feio

por Pedro Caprichoso, em 17.12.15

É preciso fumar muita droga para afirmar que Portugal é bonito. Façam-me um favor: comparem as imagens captadas pela Volta à França e pela Volta a Portugal – e depois venham-me dizer que Portugal é que é bonito.

 

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Bonitas são algumas zonas da nossa costa, as ilhas, a planície alentejana, o Douro e algumas zonas demarcadas da floresta original que nos resta – Gerês, Lousã, Açor, Montesinho, Arrábida, Estrela, etc. Tirando isso, Portugal, no geral, é feio.

 

As pessoas confundem paisagem com natureza. Portugal tem paisagem (i.e. vistas), mas a natureza – em termos de fauna e flora – já não é o que era. E a culpa, em grande medida, é da praga do eucalipto e pinheiro bravo. As montanhas portuguesas são bonitas de longe; de perto é só pinheiro e eucalipto.

 

20 dos 38% de território nacional ocupado por floresta é constituído por pinheiro e eucalipto, muito por força da indústria da madeira e da pasta e papel. A floresta portuguesa não é eucalipto (espécie invasora originária da Austrália) e pinheiro-bravo. Que se lixe o eucalipto e o pinheiro. Que arda tudo!

 

Onde estão os carvalhos? As azinheiras? Os salgueiros? Os castanheiros? Os loureiros? Os sabugueiros? Sabem onde eles estão? Estão nas zonas protegidas que ainda não foram invadidas pelo eucalipto e pelo pinheiro.

 

Pinhal não é floresta. Eucaliptal não é floresta. Num pinhal e num eucaliptal não existe mais nada para além de mato. Não há solo, não há água, não há biodiversidade. Não há vida.

 

Dito isto, não me venham dizer que um Trail feito exclusivamente em Pinhal e Eucaliptal é bonito. Não é. É medonho!

“Movimento Machista” Luta Contra Discriminação de Género no Trail

por Pedro Caprichoso, em 15.12.15

Apresento-me como o rosto de um novo movimento nas redes sociais, que visa a igualdade de género nas provas. Ainda que de forma marginal, o “grunho do macho latino” já ecoa no submundo do Trail Nacional.

 

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O meu “grunho” soltou-se por verificar que o número de machos latinos a participar em provas de Trail aumentou substancialmente nos últimos anos. No entanto, pese embora o referido aumento, o macho latino continua a ser descriminado pelas Organizações.

 

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As Organizações impõem regras cada vez mais feministas e nós, enquanto machos latinos, não podemos simplesmente meter o rabinho entre as pernas, anuir em consonância e ficar calados. Era o que faltava! Há regulamentos que impõem a utilização de camisolas térmicas de gola alta, impedindo que o macho exiba a sua farfalheira peitoral. Outros penalizam o porte de cordões de ouro, pulseiras anti-stress e unhacas com mais de 5cm de comprimento, com o argumento de que tais elementos colocam em perigo a integridade física dos atletas. Outros vão ainda mais longe e proíbem a utilização de pochetes, coagindo os machos latinos a correrem, obrigatoriamente, com um “sistema de hidratação com capacidade para 1litro”.

 

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Como se não bastasse, querem-nos ainda tirar a essência daquilo que nos faz ser machos. Se já não se podia atirar lixo para o chão, agora também não se pode arrotar, arrear o calhau no meio do trilho ou coçar a tomateira. As Organizações precisam de perceber que as pessoas são diferentes e que há que respeitar essa diferença. Exemplo: os rabetas usam cremes antifricção; os machos coçam a tomateira com a unhaca. Todos diferentes, todos iguais.

 

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Estou a tentar encabeçar um movimento machista e é com satisfação que recebo mensagens de atletas machistas que já começaram a tomar uma posição. Alguns deles, inclusive, já não se inscrevem em provas onde não há minis nos abastecimentos ou gajas com mamas grandes nos pontos de controlo. Outros, em protesto, agrafam o dorsal aos mamilos e correm em tronco nu. Estas são apenas algumas das formas de protesto que temos realizado no sentido de consciencializar a opinião pública para este drama.

 

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A solução passa por haver uma maior união entre os machos. Maior mas não demais, pois a união em excesso pode levar a actividades abichanadas e nós não gostamos disso.

BALANÇO 2015

por Pedro Caprichoso, em 10.12.15

2015_16.jpgFoi um ano para esquecer. Pior era impossível. Faço um balanço muito negativo do ano que está prestes a terminar. O facebook está constantemente a dizer-me que «não há impossíveis» e que «para ganhar basta acreditar». Pois bem, eu acreditei, nunca desisti, evitei as provas com mais concorrência e caguei-me no facebook com todas as forças que tinha. E o que é que eu ganhei? Eu digo-vos: nada.

 

Ao contrário de outros, que andam nisto pelo convívio e contacto com a natureza, eu ando no Trail para ganhar. Estou-me a cagar para a superação pessoal. O que eu quero é ganhar. Não me interpretem mal. Não é só ganhar. Para além de ganhar, também quero ter muitos gostos no facebook.

 

Se exceptuarmos o homem da marreta, não tive o prazer de conhecer ninguém em particular. Se exceptuarmos fazer xixi em andamento, não aprendi nada de especial. Por outro lado, uma vez que a corrida não é só amizades e beleza natural, em 2015 fiz muitos inimigos e fartei-me de vazar lixo no monte.

 

Competir com os melhores não é o que mais me motiva. A minha maior motivação é identificar-me nas fotos dos outros e ficar horas a ver os gostos a cair às pinguinhas. Brinco com a pilinha sempre que uma publicação minha chega aos 100 gostos. É assim que eu alcanço os meus objectivos e ultrapasso os meus limites.

 

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Nos Abutres, à falta de melhor adjectivo, foi um desastre. Fiquei aquém das espectativas e fui torturado pela Mafia Chinesa de Barcelos, que em mim apostou 1 milhão de euros na Betclic. Os mafiosos tiraram-me um rim e venderam-no no mercado negro para cobrir parte do prejuízo. O atleta desilusão dos Abutres não conseguiu sequer atingir o seu principal objectivo: chegar ao fim com os pés secos. Cheguei com eles ensopados e cheios de lama. Um verdadeiro desastre.

 

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Em Sicó, passei a integrar os quadros do TopMáquina. Calcei os ténis, rezei dois Pai-Nossos e duas Avé-Marias, besuntei o rêgo do cu com vaselina PACU e parti para os 111km com o objectivo de chegar ao fim com a cueca enxuta. Relembro-vos que havia borrado a cueca na minha última prova de 3 dígitos. O UTAX e o Município da Lousã ainda estão em dívida comigo pela qualidade com que adobei a Serra da Lousã. A cueca chegou enxuta e isso, em si mesmo, já foi uma vitória.  Por outro lado, estive com o homem da marreta ao km 95. Ele mandou cumprimentos. A conversa com o marreteiro foi tão boa, mas tão boa, que fiz os 5km seguintes a passo. Inclusive as descidas. Despedi-me dele no abastecimento dos 100km, quando entornei um caldinho verde que me soube pela vida.

 

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No Paleozóico, passei a prova toda a ouvir falar de um “elevador”. O “elevador” isto; o “elevador” aquilo. Enganaram-me. Não havia nenhum elevador. Nem elevador, nem teleférico, nem funicular, nem bondinho. A culpa é minha. Fui eu que percebi mal: não é “elevador”; é “eleva-a-dor”. Assim já faz mais sentido, pois aquela subida elevou-me a dor a níveis estratosféricos. Malditos sejam.

 

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Em Cerveira, dado enorme contigente espanhol, aprendi mais palavras em Castelhano durante a primeira contagem de montanha do dia (com 450D+) do que em toda a minha adolescência vendo o Canal Íntimo. Eis algumas das bonitas expressões que agora utilizo sempre que me desloco ao país vizinho: Estoy hasta los cojones; Que coño; Me cago en la leche; A tomar por culo; Que putada; No jodas!; Que coñazo; Que hijo(a) de puta!; Eso está de puta madre; Está cojonudo;

 

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Em Poiares, recebi um troféu muito esquisito. O dito cujo exibe focinho de bode (pois tem barbicha) e corpo de cabra (pois tem tetas). Ou seja, trata-se de um caprino transexual – e nós aqui no TopMáquina não gostamos dessas modernices. Ou bem que era uma cabra; ou bem que era um bode. Assim não.

 

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Na Padela, corri com um veterano do Trail Nacional e cheguei à conclusão de que o Pedro Marques é um estroina. De maneira a não ferir susceptibilidades, vou dar apenas 3 exemplos ligeirinhos do terror que é correr com o Pedro: (1) O Pedro mete conversa connosco para que a gente se desconcentre e bata com os cornos no chão; (2) O Pedro come bananas e depois atira as cascas em direcção aos nossos pés para ver se a gente escorrega e bate com os cornos no chão; (3) O Pedro dispara subida acima, pára, espera por nós, incentiva-nos como se estivéssemos em Zegama, depois arranca novamente, ultrapassa-nos e volta a fazer o mesmo. Tudo para psicologicamente nos deitar a baixo e ver se a gente leva com a marreta.

 

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No Mont-Blanc, a minha estratégia – que passava por fazer marcação cerrada ao Kilian Jornet – ficou comprometida pelo facto do espanhol não ter participado na Maratona. O morcão fez (e ganhou) as últimas 3 edições, mas este ano lembrou-se de disputar apenas no km vertical. Ser vedeta é isto: é ser egoísta; é pensar apenas em si próprio; é ignorar as necessidades dos outros – sobretudo nas minhas. O Kilian era um ídolo para mim, mas hoje morreu. Atirei um paralelo à vitrine de uma loja da Salomão, risquei-lhe a roulotte com a minha medalha de finisher, rasguei os posters dele que tinha colados no meu guarda-fatos e estou a usar o livro "Correr ou Morrer" para limpar o rabinho.

 

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Em Óbidos, apanhei boleia no autocarro da minha futura equipa e fiquei surpreendido com o ambiente que encontrei. As vedetas da equipa vianense partilharam experiências para facilitar a minha integração no grupo – e foi muito gratificante ouvir histórias bonitas de entreajuda e superação, como daquela vez em que o Jérôme foi atacado por um Lince Ibérico no Gêres enquanto arreava o calhau – o Jérôme, não o Lince. O Ricardo e o Faria passaram a viagem a cantar ao desafio e a mamar do garrafão do vinho: enquanto um cantava, o outro mamava. O Saleiro conduzia o pão-de-forma, o Rocha enfardava rissóis directamente do Tupperware, a Iva e o Pedra jogavam à sardinha, o Amândio automotivava-se falando sozinho, a Sónia fazia um gorro em malha para o Jérôme – muito frio apanha aquela careca – e os restantes mostravam o rabo aos transeuntes. Sinto a mística do Viana-Trail a apoderar-se de mim como uma doença contagiosa. Só não gostei da segregação de género imposta pelo Presidente, com as mulheres na parte da frente do autocarro e os homens escorraçados para a parte de trás. “Temos de poupar energia para a prova”, dizia ele. Ao menos deu o exemplo, já que a sua cara-metade fez a viagem toda na bagageira.

 

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Em Arga, o Rui Seixo e o André Rodrigues resolveram adubar a Serra D’Arga como se não houvesse amanhã. Apanhei os dois, de cócoras, a cagar à caçador. Quem não soubesse melhor, diria que eles haviam sido contratados pelo Ministério da Agricultura. Se os problemas gastrointestinais do Seixo não tiveram reflexo na classificação colectiva da sua equipa, o mesmo não se pode dizer em relação ao André. A Juventude Vidigalense contava com apenas 3 atletas, pelo que estes teriam obrigatoriamente de terminar a prova para classificar a equipa. Ou seja, a desistência do André deitou por terra as aspirações da equipa de Leiria. «As fezes do André souberam-me a mousse de chocolate», confessou o Presidente do Viana Trail a este vosso mui estimado cronista.

 

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Na Senhora do Salto, levei uma penalização de 6h por ter engravidado uma caminheira durante a prova. Jamais esquecerei esta prova. Ao km 16 concebi o meu primeiro filho. Vou ser pai... Pelo menos isso é o que diz a caminheira contra a qual embati pela retaguarda no passado Domingo. A culpa é do viagra. Troquei os comprimidos de imodium pelos de viagra – ambos azúis – e tomei dois a meio da prova. O problema é que fiz a segunda metade com a tenda armada e depois deu-se o azar de ter apanhado a futura mãe do meu filho numa curva mais apertada. A coitada, ainda por cima, estava de rabo empinado à procura de uma lente de contacto. É o destino. A rapariga não é da terra. A Christine é uma estudante francesa a fazer Erasmus em Ermesinde.

 

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Em Afife, constatei que sou o único gajo do Trail Nacional que não rapa os pêlos da pila. Os meus pêlos púbicos são como o cabelo do Sansão. Se os cortar, perco a força! Não percebo o que se passa com os jovens de hoje em dia. Que moda é essa de deixar crescer a pelugem facial e rapar a tomateira? Por um lado são lumbersexuais; por outro parecem actores porno. Cá para mim é tudo uma questão de insegurança. Só rapam porque rapado parece maior.

 

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Por fim, nos Amigos da Montanha, descobri que o meu limite situa-se entre as bolhas de sangue e as bolhas de terra. Uma coisa é um tipo fazer bolhas de sangue em resultado da sujidade que inevitavelmente entra nas sapatilhas; outra coisa são as bolhas de sangue rebentarem e transformarem-se em bolhas de terra quando a sujidade se aloja entre a pele e a carne, provocando dores dilacerantes sempre que o pé toca o chão. Imagino que isto é o equivalente a ser torturado por um mestre de acupunctura. Assim sendo, parece que é desta que vou começar a usar meias. Fiquei convencido pela cara de nojo com que o Ricardo Silva olhou para os meus pés depois da prova. O coitado teve um refluxo gástrico e só não vomitou à minha frente para não parecer mal. Para além das meias, também vou começar a pintar as unhas como a Tu Xa. A pintura, porém, é apenas por questões estéticas. Acho que me vai ficar a matar.

 

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Apesar de uma época miserável, tenho de agradecer a todos os que me apoiam. Não é que me apeteça muito, mas sou contratualmente obrigado a fazê-lo. O meu Contrato de Casamento é bem claro nesse ponto, pelo que o meu primeiro agradecimento vai para o meu companheiro moçambicano.

 

Obrigado Xuxu. Tens sido o meu apoio emocional desde que me estreei nas lides do Trail Running. Contigo não me falta motivação para treinar, pois treinar é a melhor desculpa para sair de casa e não ter de te aturar. Obrigado por seres a pessoa mais chata do mundo.

 

Obrigado Meia da Raquete. Não conseguiria sobreviver sem os 500 paus que vocês me enviam todos os meses. Embora não corra com elas, as meias da raquete são óptimas como forma de evitar queimaduras ao usar saco de água quente, ou para dar uma berlaitada na falta de papel higiénico. Não posso recomendá-las mais.

 

Obrigado Adipas. Com o vosso apoio tive oportunidade de experimentar e usar material top. O representante da Adipas na Feira de Ponte de Lima tem sido incansável, mimando-me com os melhores produtos do mercado. Sem o meu amigo Lelo ainda estaria a correr nas distritais.

  

Obrigado Sopa da Mamã. Graças a ti não me recordo de nenhuma queda de tensão durante as provas. Lembro-me de um ataque violento de flatulência, mas isso foi porque uma vez exagerei na dose e enfardei 5 sopas de feijão de seguida. Graças à tua hortaliça, terei a afinação perfeita para mais um ano de grandes desafios!

 

Siga para 2016!

Os Cagões

por Pedro Caprichoso, em 04.12.15

Estão a ver aqueles atletas que correm extremamente bem equipados, trasbordando estilo e ostentando pelo corpo uma caderneta de logotipos das melhores marcas? Aqueles cujo nível desportivo é inversamente proporcional ao dinheiro que gastam em equipamento? Aqueles que são extremamente activos nas redes sociais, atirando-nos constantemente à cara todos os treinos, provas, medalhas de finisher e “unboxing” de novo equipamento? Pois bem, os nossos vizinhos espanhóis têm um nome para esta subespécie de desportistas. Qualificam-nos de “postureadores”.

 

 

 

 

“Postureador” é aquele que se dedica ao “postureo” – neologismo usado nomeadamente no contexto das redes sociais e novas tecnologias, para expressar determinadas formas de comportamento e de pose (i.e. armanço), mais pelas aparências do que por uma verdadeira motivação. Acontece que, em bom português, também há um neologismo excelente para aplicar neste caso.

 

Eu, Máquina da Fonseca, reverendo da Igreja Universal do Reino do Trail, baptizo-vos de “cagões”.

Se não os consegues vencer, junta-te a eles

por Pedro Caprichoso, em 03.12.15

Como dizia o José Castelo Branco: “Se não os consegues vencer, junta-te a eles.” Penso que era ele que dizia isso. Se não era ele, era a minha avó. Era um deles.

 

Seja como for, espero que as outras equipas não fiquem chateadas por eu copiar a sua estratégia de motivação. Tenho a certeza de que não vão ficar. É tudo gente do mais melhor bom no mundo que há.

 

Nesse sentido, de maneira a melhor motivar os meus colegas de equipa, também eu vou distribuir alguns títulos recorrendo à hipérbole e à falta de bom senso. Creio que não há nenhum mal nisso.

 

José "Presidente" Alcobia

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  “O melhor Presidente de uma Equipa de Trail Running da Península Ibérica e ilhas.”

 

 

Jérôme "Lince Ibérico" Rodrigues

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 “O melhor Atleta Careca de Trail Running do Sistema Solar. Plutão incluído.”

 

 

Gabriel "Chaimite" Meira

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 “O atleta mais «Todo-o-Terreno» do Panorama Internacional. Síria não incluída.”  

 

 

Rui "Leão" Seixo

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  “O atleta mais fofinho e mais assustador do Universo e não só.”  

 

 

Pedro "Fininho" Caprichoso

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 “O atleta sexualmente mais activo do Hemisfério Norte.”  

 

 

Ricardo "Robocop" Silva

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 “Um dos melhores.”

(Engraçado verificar que com este não precisei de recorrer à hipérbole.)

A Sobrevalorização dos Atletas nas Redes Sociais

por Pedro Caprichoso, em 01.12.15

Começo por deixar bem claro que o meu alvo não são os atletas. Estes merecem o meu maior respeito, pois enquanto atletas amadores fazem o melhor que podem com muito esforço e dedicação. O meu alvo são determinadas equipas de Trail Running, que aproveitam-se da ignorância desportiva do Zé-Povinho e dizem os maiores disparates sem que ninguém as questione. Hoje em dia, aparentemente, vale tudo.

 

Dois exemplos recentes:

 

1. GAIA TRAIL

 

A propósito do excelente resultado do Luís Gil na Maratona do Gerês, a sua equipa qualificou-o como “o atleta mais completo do panorama português do atletismo”. A sério?

 

http://tinyurl.com/jb2hoyr

 

Antes de mais, tenho de felicitar o Luís Gil pela sua excelente performance. Convivi um pouco com o Luís quando corríamos pela Juventude Vidigalense e só tenho boas coisas a dizer sobre ele. Excelente atleta e melhor pessoa. Agora, qual é a necessidade de cair no exagero? O atleta mais completo do panorama português do atletismo? A sério? O Luís é um atleta completo? Sim, podemos considerar que sim: campeão de Marcha, bom atleta amador de estrada e bom atleta de trail. Agora, o mais completo? Por quê?

 

  1. Se é porque fez Marcha, nesse caso não há termo de comparação, pois não conheço outro campeão de marcha que compita em estrada e no trail. Ou seja, nesse caso o “mais” não faz sentido. Só faria sentido em comparação com outros atletas em iguais circunstâncias.

 

  1. Andamos aqui todos a brincar ao desporto amador e alguns de nós fazem-no com muito mérito, como é o caso do Luís. Mas não há comparação possível entre um atleta amador e um atleta profissional. Vamos comparar 2h40 com 2h10 na Maratona, é isso? 2h40 é um excelente tempo para um amador, mas ainda assim fica a anos-luz da performance alcançada por um atleta profissional – de que é exemplo o Rui Pedro Silva. Há que ter noção das coisas.

 

  1. Todos somos amadores e estar a afirmar que um de nós é o “mais”, seja em que categoria for, não faz qualquer sentido. Ainda para mais, tal comparação é totalmente injusta para o Luís (pois estão a compará-lo com o que não é comparável) e injusta para os atletas profissionais da nossa praça (que estão muitos patamares acima de qualquer um de nós).

 

 2. FAFE RUNNERS

 

A propósito do «Prémio de Mérito Desportivo» atribuído pela Cidade de Fafe ao Nuno Fernandes, a sua equipa qualificou-o como um dos “um dos melhores atletas de Trail Running Nacional.” A sério? Um dos melhores? Mas estamos a brincar com a tropa ou quê?

 

http://tinyurl.com/j56f3vm

 

Ao contrário do Gil, não conheço o Nuno pessoalmente. Em boa verdade, até tive de pesquisar para saber quem ele é. E o que eu descobri é que ele tem feito uns resultados engraçados. Nada mais do que isso. Resultados esses que foram alcançados maioritariamente em provas de segunda linha, em que a concorrência deixa muito a desejar. Não estou a retirar mérito ao atleta. O atleta, enquanto amador, faz o que pode com todo o sacrifício e dedicação – e a mais não é obrigado. Estou simplesmente a constatar um facto: as suas melhores classificações foram alcançadas em provas que não fazem parte dos Campeonatos Nacionais de Trail, onde aí sim se vê quem são os melhores.

 

O busílis da questão é que hoje em dia há 1254 provas de trail por semana, e só quem está por dentro do trail é que sabe avaliar o mérito de um resultado tendo em conta a concorrência que se apresenta à partida de cada prova. Para o Zé-Povinho uma vitória é uma vitória, independente de ter sido obtida nos Trilhos dos Abutres ou no Trail de Curral de Moinas, e há equipas que se estão a aproveitar disso para sobrevalorizar os seus atletas. A verdade, para um conhecedor do trail, é que um Top20 nos Abutres é melhor do que uma vitória em Curral de Moinas. É tão simples quanto isso.

 

Posto isto, quando se diz que o Nuno é “um dos melhores atletas de Trail Running Nacional”, estamos a compará-lo exactamente com quem? É que assim, de repente, por ordem alfabética, apresento-vos 30 atletas melhores do que o Nuno. Quero ver quem se atreve a questionar esta lista:

 

1. Albino Daniel

2. André Castro

3. André Rodrigues

4. Armando Teixeira

5. Bruno Coelho

6. Carlos Sá

7. Délio Ferreira

8. Diogo Fernandes

9. Gabriel Meira

10. Hélder Ferreira

11. Jérôme Rodrigues

12. Leonardo Diogo

13. Luís Duarte

14. Luís Fernandes

15. Luís Mota

16. Luís Semedo

17. Manuel Faria

18. Marcolino Veríssimo

19. Nelson Graça

20. Nuno Silva

21. Paulo Lopes

22. Pedro Marques

23. Pedro Rodrigues

24. Ricardo Silva

25. Romeu Gouveia

26. Rui Luz

27. Rui Pacheco

28. Rui Seixo

29. Telmo Veloso

30. Vítor Cordeiro

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