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TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

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Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

Antevisão: Ultra Trail do Piódão 2016

por Pedro Caprichoso, em 31.03.16

O Piódão é o Chamonix português. Não tem a dimensão, nem o glamour, nem o glaciar, nem o funicular, nem os ferraris, nem as gajas boas, nem esparguete à bolonhesa a 25€ a dose. Tem fiats puntos, velhotas com bigode, neve esporádica no Pico da Cebola e broa de batata a 2,99€. Chamonix é melhor. É um facto. Não obstante, embora numa escala mais pequena, o Piódão consegue-nos igualmente transmitir uma estranha sensação claustrofóbica imposta pelos declives acentuados da Serra do Açor. A montanha parece cair sobre nós. Faz-nos sentir pequeninos—e eu gosto de me sentir pequenino. Põe as coisas em perspectiva.

 

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Será a minha segunda vez no Piódão. A primeira foi em 2014. Participei na segunda edição e jurei para nunca mais. Só regresso por imposição do meu empresário. Gostei do percurso: é ao meu jeito: corrível. Gostei da organização d’O Mundo da Corrida: discreta, eficiente e sem merdas. Gostei das gentes, sobretudo de uma sueca que exibiu as suas magníficas mamas à passagem dos 28k. Pensando bem, podia ser japonesa. A hippie veio ao parapeito da janela da sua renovada casa-de-xisto e “meteu-as de fora”. Tirei os olhos do trilho, tropecei num calhau e não rachei os cornos por milagre. O Rui Luz seguia à minha frente e as suas nalgas rechonchudas ampararam-me a queda. Não percebo como ele não se despistou. Só há uma explicação: não gosta de mamas.

 

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Gostei de muita coisa, mas não gostei nada de ter levado com a marreta aos 33k. Cinco quilómetros depois de levar com as mamas, levei com a marreta. E que marretada! Até vi estrelas. Literalmente. Estrelas verdes, em modo pisca-pisca, afectando a minha visão periférica. Subia a Fórnea a todo o gás e, de repente, sem que nada o fizesse prever, o homem da marreta assomou por detrás de um arbusto e atacou-me. Deve ter ido cagar. Deixou escapar o Rui enquanto evacuava e eu é que me lixei. PUMBA! Não ide em cantigas: o UTP começa na base da Fórnea. A subida é potencialmente corrível. Potencialmente. No entanto, com 32k nas pernas, podem estar descansados de que será toda feita a passo, vergando a mola com o focinho rente ao chão. Aconselho a ingestão de um gel, barra, comprimido de cafeína, sandes de presunto, cogumelo do tempo, testosterona ou nandrolona por volta dos 30k. Há 2 anos ia desmaiando no topo da Fórnea e fiz os primeiros 100 metros da descida a passo. Não tenho memória da segunda metade da subida. Acho que o homem da marreta deixou-me KO e posteriormente esbandalhou-me o rabinho. Só assim se explica a forma como acabei a prova: todo torcido.

 

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Já dei esta ideia aqui há atrasado e volto a repeti-la: que tal fazerem uma secção cronometrada—semelhante ao que se faz na Padela—nas escadas do Hotel do Piodão? Só os últimos 100 metros de escadas. Ver três centenas de desgraçados a arrastar a carcaça até à meta seria lindo de se ver. O André que o diga.

 

Os Atletas mais Subvalorizados do Trail Nacional

por Pedro Caprichoso, em 29.03.16

Estive para fazer uma lista dos atletas mais sobrevalorizados do Trail Nacional, mas depois arrependi-me. Apercebi-me que tal seria de mau-gosto. Até para mim. Tanto que para alguns seria injusto. Há quem não seja responsável pela sua sobrevalorização—e não merece que se lhe seja apontado o dedo. Assim sendo, decidi fazer o contrário: elaborar uma lista dos atletas mais subvalorizados no sentido de valorizá-los aos olhos dos mais desatentos.

 

Os atletas mais subvalorizados são aqueles em que se verifica maior discrepância entre o seu valor desportivo e a percepção que o público tem deles. Ao contrário do que possam pensar, os melhores atletas não são necessariamente aqueles que têm mais “patrocinadores”; que mais hashtags usam nas suas publicações; que mais vezes são promovidos pela comunicação social; ou que, tendo um blogue como este, são mais conhecidos por aquilo que escrevem do que por aquilo que correm.

 

1. PEDRO RODRIGUES

 

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Embora seja um dos melhores, o “Troncos” continua a ser um dos atletas mais subvalorizados pelas marcas. Ainda para mais, é uma pessoa de quem todos gostam. O Pedro conhece toda a gente. É o Relações Públicas do Trail Nacional. A única explicação, portanto, é que as marcas andam a dormir. Este homem merece todo o apoio do mundo. Eu recuso-me a ser patrocinado antes do Pedro. Sim, leram bem: até a mim já me ofereceram patrocínios. Primeiro a mim do que ao Pedro. Cabe isto na cabeça de alguém? Posto isto, o meu recado para as marcas é o seguinte: só aceito apoios depois do Pedro ser apoiado. Percebido?

 

2. PAULO LOPES

 

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O Paulo “(Ex)Terminador” Lopes é o tipo de atleta que eu gostaria de ser quando fosse grande. Inteligente pela forma como aborda as provas, fazendo-as sempre de trás para a frente. Ele não se poupa para atacar na segunda metade; ele tem é a capacidade de não entrar em loucuras e fazer as provas ao mesmo ritmo do início ao fim. Nos últimos 10k, não é ele que está mais rápido; somos nós que estamos mais lentos. O homem é M40 e ficou em 5.º no Campeonato Nacional de Trail Ultra. Ainda assim, só os mais atentos parecem conhecê-lo e apreciá-lo. É uma pena.

 

3. JORGE ROCHA

 

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Jorge “O Relógio Suíço” Rocha é uma das minhas referências. Humilde e reservado, o Jorge é o paradigma da consistência. Dando sempre prioridade aos interesses da equipa, é o abono de família da EDV-Viana Trail. Sabiam, por exemplo, que ele fez top10 nas 3 últimas edições do UTAX? Sexto, sexto e oitavo? De certeza que não sabiam. Aliás, como poderiam vocês saber se vocês estão mais interessados em analisar o Strava de um tipo qualquer que não corre um peido?

 

4. PEDRO MARQUES

 

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O Pedro é um dos pioneiros do Trail Nacional. Eu ainda não sabia que o Trail existia e ele já andava a cortar a meta do UTSF de mãos dadas com o Nuno Silva. Aos 50 anos—repito: 50 anos—continua a fazer resultados ao nível de um top10 no UTAX. As pessoas desvalorizam-no porque ele não depila as pernas e publica fotos com sandes de presunto e minis em vez de isotónico e bidons de suplementação.

 

5. LUÍS DUARTE

 

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Fui interpelado por muitos atletas (das provas mais curtas) enquanto lavava as vergonhas nas piscinas de Miranda do Corvo—e muitos não sabiam quem é o Luís Duarte. Verdade. Queriam saber quem tinha ganho o UTAX, eu respondi-lhes e muitos pediram explicações. Luís? Quem? Fiquei estupefacto—e, só por isso, merece ser mencionado aqui. O Luís é outro dos que comete o erro de ser muito humilde. Sim, os conhecedores do Trail sabem quem ele é. Para nós é um dos melhores, senão o melhor. Acontece que ele faz poucas provas—e isso prejudica-o ao nível da sua projecção mediática. O “Bombardeiro” não precisa de fazer provas todos os fins-de-semana para sentir-se validado. Isto tem um nome: classe. Também pode ser que ele não compita mais por motivos profissionais. Que seja. Não me interessa. É classe à mesma, pois não o vejo queixar-se por causa disso. Gosto do facto de haver quem aparece de vez em quando só para mostrar aos outros como é que se faz.

 

O problema dos tipos acima aludidos é que raramente se gabam. Atleta que é atleta tem de gabar-se no facebook. Onde estão as selfies no topo dos montes? As fotos dos troféus? As sapatilhas enlameadas? As desculpas esfarrapadas? A publicação diária dos quilómetros percorridos? O relógio com o tempo de corrida e a t-shirt de finisher? Onde, pessoal? Há tipos que nem o relato das provas fazem. Assim é difícil. Tenho uma palavra para vocês: cagão. Têm de ser mais cagões. Anda por aí gente que vende o cu por 2 tostões, mas vocês não. Vocês acham-se especiais. Acham-se melhores do que os outros. Não vejo outra explicação.

Rescaldo: UTAX 2016

por Pedro Caprichoso, em 24.03.16

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Começo com o pensamento de um dos maiores vultos do Trail Nacional: “Se não estás a sentir é porque não está a acontecer.” José Faria sabe do que fala. Eu não sei, mas ele sabe. Para mim isso é suficiente. O importante não é saber. Sentir é mais importante do que saber. O que é que vocês sentem ao ler Faria? Ler Faria é como ler Saramago. O que sentem? Esse é o sentimento que importa. Se não sentem, é porque não está a acontecer—e é triste não sentir. No UTAX, porém, não há esse risco. O UTAX sente-se e as coisas acontecem. Por vezes bem, por vezes mal. Mas acontecem. Eis como elas aconteceram:

 

Há coisas do outro mundo? Há. Mas também há coisas deste mundo. Geralmente, o que há mais são coisas deste mundo que parecem do outro mundo—coisas sobrenaturais como os rumores de que houve batota no UTAX. Qualquer coisa a ver com popós entre Povorais e Coentral. Não percebi bem. Seja como for, não acredito em teorias da conspiração. Prefiro acreditar nas pessoas. Se as pessoas dizem que não são batoteiras, é porque não são batoteiras. Os mentirosos vão para o inferno e não acredito que as pessoas queiram ir para o inferno. É um sítio muito quente, onde as garrafas têm buraco e as mulheres não. Dito isto, importa sublinhar que eu também não sou batoteiro. Se digo que não sou, é porque não sou. Vocês acreditam em mim, não acreditam?

 

É indesmentível que carreguei a Fernanda Verde às costas durante 30km, mas isso não constitui batotice. Talvez constitua burrice, mas não batotice. Burrice no sentido em que agora estou entrevado e terei de ser operado à coluna. Tudo isto para dizer que fiz o UTAX todo (110k) na companhia da Fernanda e, quase todo, com o nosso colega de equipa José Domingos—que acabou por alcançar a 3.ª posição no escalão M50. Seguimos em tripla até ao Observatório (94k), altura em que o Domingos teve de ir ao WC aliviar a tripa. Só é pena ele não ter cortado a meta connosco. Teria sido a cereja em cima do bolo. Felizmente existe o Photoshop:

 

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16 horas a acompanhar uma atleta feminina ensinou-me muito. Quero por isso partilhar convosco alguns desses ensinamentos, caso no futuro pretendam assumir o papel de lebre de uma senhora. Não partilho todos porque há crianças a ler estas coisas e eu não quero ser processado.

 

10 DICAS PARA SER LEBRE DE UMA SENHORA

 

  1. Seguir atrás dela nas subidas para não interferir com o seu ritmo. Para não interferir com o seu ritmo e para que ela não apanhe com as vossas bufas. É uma questão de boa educação;

 

  1. Se ela der um traque ruidoso, finjam que não o ouviram. Peçam perdão, dêem a entender que foram vocês que se largaram, tapem o nariz e respirem pela boca até o perfume se dissipar;

 

  1. Ela tem uma farmácia na mochila. Se passarem mal, peçam-lhe que ela tem a solução para todas as vossas maleitas. Se não fossem aqueles dois trifens a meio da prova, não sei o que me teria acontecido. Estava num naqueles dias;

 

  1. Quando ela quiser fazer xixi, continuem devagar que ela depois apanha-vos. Não esperem ao pé dela enquanto ela rega as plantas. Pode tornar-se embaraçoso;

 

  1. Da mesma forma, quando fizerem xixi não peçam para que ela fique ao vosso lado. Digam para ela seguir e depois apanhem-na mais à frente. Pode tornar-se embaraçoso se não a conseguirem apanhar;

 

  1. Dado o facto de elas serem mais precavidas, sigam à frente dela nas descidas técnicas de maneira a testarem as zonas mais instáveis do trilho. Isto fará com que ela ganhe mais confiança. Se caírem à frente dela, melhor ainda: é da maneira que ela dá uma boa risada e fica mais relaxada;

 

  1. Se lhe entrar uma pedra nas sapatilhas, ajoelhem-se, descalcem-na, tirem a pedra, calcem-na e não se queixem do cheiro a chulé. Fica mal. Uma senhora não tem chulé. Quer dizer, tem… mas o seu chulé não cheira mal. Cheira a rosas;

 

  1. Levem-na às cavalitas nas passagens de linhas de água. Esta regra só se aplica, porém, se elas forem mais leves do que vocês. Se forem mais pesadas, esqueçam. O cavalheirismo é muito bonito, mas não paga cirurgias à coluna. Para memória futura: a Fernanda é MUITO mais leve do que eu;

 

  1. Se apanharem um grupo de caminheiros num single-track a atrapalhar a vossa progressão, peçam com jeitinho para que eles deixem a menina passar. A maioria são cavalheiros e desviam-se imediatamente. Dica: também podem usar esta técnica quando seguem sozinhos. Os morcões ficam a olhar para trás à espera de uma menina e nada! Escangalho-me a rir sempre que faço isso!

 

  1. Por fim, o mais importante: se uma adversária ultrapassar a vossa colega, ide atrás dela e façam-lhe bullying. Não é preciso muito. Basta um “estás gorda” que ela encosta logo a chorar—e a vossa colega recupera logo o lugar perdido.

 

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Conhecem aquela cena típica das comédias românticas em que ele e ela estão cheios de frio e a única forma que eles têm de se aquecerem é tirando a roupa e aquecerem-se esfregando os seus corpos nus um contra o outro? [Sabia que conseguiria escrever esta frase sem vírgulas]. Pois bem, o que se passa é que eu comecei a tremer descontroladamente depois da prova. Devia ter vestido o impermeável nos últimos 16km, mas não o tirei da mochila e acabei por ir mesmo assim até à meta. Na meta, ensopado, fui interpelado por 5 meios de comunicação e, quando dei por mim, estava a tremer como varas verdes. Precisava de me aquecer rapidamente. A água dos balneários estava morna e não havia outra solução: um dos meus colegas de equipa teria de se enrolar comigo de maneira a aquecer-me. Nus. Num saco cama. O Jérôme e o Faria ofereceram-se de pronto—e quase andavam à porrada. Separei-os e sugeri que o escolhido fosse seleccionado por meio de cara ou coroa. Saiu coroa e ganhou o Faria. O Jérôme fez beicinho, amuou e tive de prometer-lhe que ele depois poder-me-ia lavar as costas no duche.

 

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Referi, na antevisão da prova, que seria o tipo do balão das 17h. Peço imensa desculpa por vos ter levado ao engano. Não consegui fazer 17h. O comboio adiantou-se 3 minutos e acabei por fazer 16:57. A culpa é da Fernanda, que nos últimos kms ficou furibunda quando a informaram de que era terceira. Ela fez a prova praticamente toda em 2.º e nunca foi ultrapassada, pelo que provavelmente seria erro. Mas ela não quis saber: ligou o turbo, recuperou 3min para a frente da corrida e ia-me abafando. Só não me abafou porque eu tive medo da vergonha e enfiei 7 comprimidos de cafeína pela goela abaixo.

 

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O Nuno Silva devia ser penalizado por estas brincadeiras. Isto é a gozar com os desgraçados que passaram por essa zona a arrastarem-se. É espetar-lhe com 2h de penalização. Da próxima já não goza com os coxos!

 

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No dia seguinte, em Miranda do Corvo, tomando partido da realização da Taça de Portugal Trail Ultra Endurance, a ATRP decidiu realizar a Cerimónia de Entrega de Troféus referentes à última época. Nesta Cerimónia vimos os atletas da EDV-Viana Trail subirem 9 vezes ao pódio. Ricardo Silva desmaiou à segunda subida ao pódio e tiveram de lhe dar água com açúcar para que ele conseguisse subir mais duas. Jérôme Rodrigues agravou a lesão que contraiu durante a prova ao subi-lo por 4 vezes—e diz que a partir de agora vai fazer os possível para nunca mais ir ao pódio: “A partir de agora, o meu objectivo é o 4-º lugar.”

 

Já perdi 4kg desde que parti a clavícula. Só no UTAX perdi dois. Acho que ficaram na subida ao Observatório. Estou a ficar no ponto! Não sei para quê, mas estou.

 

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ANTEVISÃO: UTAX 2016

por Pedro Caprichoso, em 17.03.16

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Costuma-se dizer que não há duas sem três. Mentira. Nem sempre conseguem-se dar três. Mente quem diz que consegue. Sempre? Não acredito. Eu não consigo. Por vezes dou duas e já não consigo dar mais. Fico-me pelas duas. Não no UTAX. No UTAX já dei três—e não haverá três sem quatro. 2012, 2013, 2014, ano sabático em 2015 e regresso apoteótico em 2016. Não vos deixarei mal. Os meus fãs e patrocinadores podem contar comigo. Prometo-vos. Nem que tenha de repetir a minha última performance. Terei todo o gosto de adubar novamente a Serra da Lousã por meio do meu aparelho digestivo.

 

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Não quero saber que tenha estado 3 semanas em coma induzido em resultado de um acidente de viação; não quero saber que tenha engordado 30kg durante esse período; não quero saber que o meu mapa astrológico desaconselhe a minha presença em eventos desportivos a sul do rio Douro. Caguei. Siga. Desistir não faz parte do meu vocabulário. Perigoso é o meu segundo apelido. O terceiro é Tesudo. Acredito em todos os clichés e frases feitas vomitadas nas redes sociais. Tenho fé. Acredito que basta acreditar. Como lama com estrelitas ao pequeno-almoço, depilo-me com carqueja da Serra da Freita e por vezes não publico os meus treinos nas redes sociais. Nunca empreguei um hashtag. Vivo no limite.

 

Posto isto, na minha autoproclamada qualidade de veterano do Ultra Trail Aldeias do Xixi, leiam bem o que eu tenho para vos dizer. É muito importante. Ide buscar um bloco de notas e uma esferográfica. Este meu conselho pode representar a diferença entre desistir num charco de lágrimas ou ser finisher e eventualmente papar uma voluntária. O segredo para ser finisher do UTAX (e ainda acabar com força suficiente para papar a voluntária) está na vossa cabeça. É mental. À partida de uma prova destas há que interiorizar o seguinte: a determinado momento irei passar mal e vou querer desistir. Repitam 110 vezes: “A determinado momento irei passar mal e vou querer desistir”. Uma repetição por cada km de sofrimento, como se de um mantra budista se tratasse. Ninguém faz o UTAX sem passar por períodos maus. Ninguém. Nem o Vitorino Coragem. Coragem. Perante tal inevitabilidade, restar-vos-á receber o homem da marreta de braços abertos, abrandar, repor calorias e esperar que ele vos deixe em paz. O maior erro dos novatos (e de alguns burros velhos) é ranger os dentes e tentar lutar contra o homem da marreta. Lutar contra a marreta é estúpido. Não sejas estúpido. Ninguém vence a marreta.

 

Tenho uma boa notícia para quem fez os Abutres e ainda não fez o UTAX: os Abutres são um bom teste para o UTAX. A única diferença é que o UTAX tem mais 60km. Coisa pouca. Quem faz 50, faz 110. Façam assim: multipliquem o vosso tempo dos Abutres por 2,5 para que a vossa cara-metade saiba a que horas vos deve esperar na recta de meta. É desumano ver crianças ao colo das mães durante horas a fio na expectativa de fazerem os últimos 50 metros com o pai. Já vi gente ser acusada de maus-tratos por menos.

 

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Poder-me-ão facilmente identificar à partida do UTAX. Serei o tipo com o balão das 17h. Vou fazer de lebre da minha colega de equipa Fernanda Verde. Tentarei aguentar-me com ela o maior tempo possível. Pelo menos até ao nascer do dia. Isto se ela não me abafar antes, deixando-me a comer o seu pó.

 

Lamento informar-vos, mas nem todos conseguirão acabar o UTAX. Tudo depende do vosso peso corporal e da marca das sapatilhas. Uma vez que estou com 30kg a mais, terei de compensar o excesso de peso recorrendo ao modelo de calçado mais caro do mercado. Falo, como é evidente, das novíssimas Adidas Speedcross.

 

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Glossário Masculino dos Emojis

por Pedro Caprichoso, em 10.03.16

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Esta publicação foi feita a pensar nas mulheres. No sentido de facilitar a comunicação entre o sexo masculino e feminino no âmbito do Trail, dei-me ao trabalho de elaborar o glossário masculino dos emojis. Neste glossário podem encontrar o significado dos emojis utilizados por um atleta masculino em resposta à publicação de uma atleta do sexo feminino. Meninas, agora já não têm desculpa. Já não podem dizer que não sabem o que os homens querem.

 

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Os Inimigos do Trail

por Pedro Caprichoso, em 09.03.16

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Há inúmeros motivos para entrar no mundo do Trail: competição, superação, saúde, contacto com a natureza, divertimento, camaradagem, masoquismo, engatar gajas boas. Tudo razões válidas. Há porém uma subespécie de atletas que praticam Trail por outra razão: pelos aplausos. Apenas e só pelos aplausos. Custa-me dizê-lo, mas a procura de aplausos é mais evidente nas Ultras. Há tipos que fazem Ultras com o único propósito de se destacarem do comum dos mortais. Querem sentir que pertencem a um grupo restrito de “super-atletas” e que merecem os aplausos condizentes com esse estatuto, seja na forma de likes ou de comentários lambe-cu. Comentário lambe-cu é aquele tipo de comentário que nos dá a sensação de que nos estão a lamber o cu. Três exemplos: “És uma Máquina!”; “Campeão!”; “O céu é o limite.”

 

Esta gente não quer que o Trail cresça. A massificação, do seu ponto de vista, é a pior coisa que pode acontecer à modalidade. Pretendem, pelo contrário, que permaneça um desporto de nicho. Que saudades dos bons velhos tempos, quando eram apenas meia-dúzia os “maluquinhos” que se aventuravam por esses montes fora, percorrendo distâncias de três dígitos. Eram autênticos heróis aos olhos do comum dos mortais. Sentiam-se especiais. O problema é que o Trail entretanto empubesceu—ide consultar o dicionário que eu espero—e massificou-se. As pessoas começaram a perceber que fazer uma Ultra não é uma coisa do outro mundo; que todos, com um mínimo de preparação, conseguem fazer 100k; que tudo depende do ritmo; que uns fazem-nos mais depressa do que outros—e que essa é a única diferença.

 

Neste contexto, os aludidos já não se sentem especiais. Sentem-se desdenhados com tanta gente a fazer o mesmo que eles. Em vez de regozijarem com o crescimento do Trail, grunhem justamente o oposto. Atiram a desculpa esfarrapada de que o “Trail já não é o que era”. Daí a abandonarem a modalidade é um passo, trocando-a por outra que lhes ofereça o mesmo que o Trail lhes oferecia inicialmente: os tão cobiçados aplausos. Meus caros, falei com a modalidade e ela disse-me que não vos conhece de lado nenhum: “Não me apercebi que esses tipos me praticavam”, exclamou surpreendida a modalidade. Parece que o Ironman e o Crossfit é o que agora está na moda.

 

Dito isto, o leitor pergunta e com razão: e qual é o problema de um tipo deixar o Trail e trocá-lo por outra modalidade? Ao que eu respondo: tirando a hipocrisia, nenhum. Hipocrisia é quando se apregoa aos sete ventos de que se está no Trail pela superação, pelo contacto com a natureza e pela camaradagem—e depois abandona-se a modalidade, de um dia para o outro, com o argumento de que esta massificou-se. Em que é que a massificação altera a tua capacidade de superação, contacto com a natureza e camaradagem? Quem está no Trail por paixão, está-se a cagar para a massificação. Parece que fiz uma rima sem querer e encontrei a epígrafe do meu túmulo:

 

Quem está no Trail por paixão

Está-se a cagar para a massificação

REALITY CHECK

por Pedro Caprichoso, em 04.03.16

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Não percebo a necessidade dos atletas amadores justificarem os seus resultados. Se são profissionais, ainda vá que não vá. Sempre faz mais sentido. Estão a assumir a responsabilidade de um “trabalho” mal feito. Agora, os amadores? Por que carga d’água? De onde vem essa necessidade? Reality check: vossas excelências são amadores! Façam o melhor que podem—que a mais não são obrigados.

 

No rescaldo das provas, vira o disco e toca o mesmo: o Zé Povinho—Atleta acerca-se de um dispositivo ligado à rede e nele computa as razões que o levaram a produzir um resultado de bosta. Ainda com sal na cara e lama nas pernas, o Zé saca do telemóvel e lá vem a velha história do “não abasteci convenientemente”, “parti depressa demais”, “dormi mal na noite anterior”, “o meu signo não me favorecia”, “a patroa meteu-me os cornos” e o clássico “na véspera participei numa suruba com 4 ucranianas”. Para quê? Por quê? Não há neeeccceeesssiiidddaaadddeee!

 

Dissequem o percurso, analisem a organização, avaliem o vosso desempenho, promovam os vossos pseudo-patrocinadores, mandem beijinhos à família, mandem papaias à concorrência e agradeçam a nosso senhor jesus cristo. Façam isso tudo, mas não se justifiquem. Nem nas derrotas, nem nas vitórias. Para quê? A quem é que vocês devem explicações? Se correu mal, as justificações soam a desculpas. Se correu bem, soam a soberba. Como dizem os anglo-saxónicos: it’s a no-win situation.

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