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TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

10 Bujardas Rapidinhas

por Pedro Caprichoso, em 30.09.16

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Há 2 anos que não visitava o meu mural de Facebook. Não tenho paciência. Fi-lo agora para saber o que há de novo na vida dos meus amigos. Eis as conclusões a que cheguei:

 

#1

Pessoas que há 2 meses morriam de amores pelo Trail dizem agora adeus à modalidade. Uns vão dedicar-se ao IronMan; outros ao ciclismo de “fundo”; outros à musculação. A pergunta que fica é a seguinte: qual destas modalidades dá mais likes?

 

#2

Certas equipas auto-intitulam-se “a melhor equipa nacional” vencendo provas de segunda linha e evitando as provas dos Campeonatos Nacionais. Faz sentido. Somos todos os “melhores”. Basta acreditar com muita força. Estejam descansadinhos que alguém enfiará o carapuço.

 

#3

Parece que o “Caminho faz-se Caminhando”. Ufa! Ainda bem que se faz caminhando. É que eu pensava que se fazia auto-promovendo-se nas redes sociais—e eu não tenho lata para essas coisas.

 

#4

Existem indivíduos barrigudos com página de atleta. Que mau! Fiquem a saber que, segundo as regras internacionais, só há três desportos em que é permitido aos “atletas” terem barriga: golf, snooker e bilhar de bolso.

 

#5

Em meia hora de Facebook contei 567 atletas profissionais de Trail Running. Não são profissionais? Ai não? Então por que raio é que colocam o nome da sua equipa no campo “trabalho e formação” do seu perfil de Facebook. Não façam isso. É tão 2008. Que foleiro!

 

#6

As pessoas continuam a acreditar que publicar fotos de lesões acelera a recuperação. Infelizmente, isso não é necessariamente verdade. Isso só funciona se fores mulher e publicares as fotos em nu integral. Ora experimenta. Vais sentir-te logo melhor. Acredita em mim.

 

#7

As pessoas continuam a acreditar que dá sorte publicar fotos do seu dorsal antes de uma prova. Infelizmente, isso não é necessariamente verdade. Isso só funciona se fores mulher e publicares as fotos em nu integral com o dorsal a tapar-te a cara. Ora experimenta. Acredita em mim.

 

#8

Está ao rubro um concurso de fotografia de pratos de comida saudável. Não sei qual é o prémio, mas desconfio que o objectivo é fazer inveja aos Africanos que nada têm para comer.

 

#9

Dado o histerismo consumista do atleta tuga, desconfio que há gente que andou a melhor ritmo na fila do Freeport (para comprar sapatilhas ao preço da chuva) do que no passado fim-de-semana para concluir o GTSA—Grande Trail Serra D’Arga.

 

#10

Segundo pude constatar no GTSA, ser Português e desfraldar a bandeira Portuguesa ao terminar uma prova em território Português será a nova tendência para 2017. Desfraldá-la no estrangeiro já está muito batido. Desfraldá-la-emos em Portugal para que os espanhóis percebam que ainda somos nós que mandamos nisto.

Rescaldo GTSA 2016

por Pedro Caprichoso, em 29.09.16

 

 

A Serra D’Arga ardeu, mas os pirómanos não se ficaram a rir. O GTSA—Grande Trail Serra D’Arga  não se deixou intimidar e provou, novamente, que é a maior festa do Trail Nacional. Através de algumas modificações ao percurso dos últimos anos, a organização evitou as zonas mais queimadas (i.e. Pedra Alçada e Cerquido) e proporcionou aos repetentes a descoberta de novos trilhos. Do mal, o menos. Muitos comentaram que me acharam muito concentrado durante a prova. Bem pelo contrário. A minha mente não parou de divagar sobre a melhor forma de limpar o sebo aos incendiários que queimaram a Serra. Cheguei finalmente à conclusão, por volta do k48, que, se eu mandasse, eram todos enforcados pelos tomates. Não percebem? Eu explico: faz-se um laço com a extremidade de uma corda entre a tomateira e a cobra-zarolha do pirómano, aperta-se bem até os colhões ficarem azuis, passa-se a outra extremidade sobre o ramo de uma árvore queimada e iça-se o criminoso à força de braços. Depois é só esperar pelas aves de rapina. Depois faço-vos um desenho.

 

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Por falar em aves de rapina, quedar-nos-emos mais umas linhas no reino animal. Para além do Km Vertical, Kids Race, Sunset, Caminhada, Trail Curto—13k, Trail Curto—23k, Trail Longo—33k e GTSA—53k, a Organização do GTSA voltou a inovar este ano com a introdução de uma competição canídea. Desconhecedor de tal inovação, inicialmente assumi que a presença de cães nos trilhos seria o resultado de uma de duas situações: ou alguém levava uma sandes de presunto na mochila, ou alguma menina estava “naqueles dias”. Dizem que os rafeiros conseguem cheirar essas coisas. Pelos vistos, parece que os bichos estavam mesmo em competição. Tinham chip e tudo. Em cima temos o vencedor da primeira edição da Dogs Race—33k. Em baixo o vencedor da Dogs Race—53k. Os dois cruzaram-se na Montaria e ficaram 15min a cheirar o rabo um do outro.

 

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Num momento de rara fragilidade intelectual, cheguei ao terceiro abastecimento (21k), entreguei um softflask vazio a um tipo da organização e solicitei-lhe o seguinte com a minha reconhecida voz sexy: “Enche-me aqui!” Ele pareceu-me reticente, pelo que repeti o pedido: “Enche-me aqui!” Quando dei por isso, já ele me estava a puxar os calções para baixo. Ter-me-á fugido a boca para a verdade? Seja como for, ainda bem que lá estava o Tiago Fernandes da Desnível Positivo. Foi ele que impediu o meliante de me desflorar à frente dos milhares de adeptos que nesse local incentivavam os atletas. Pelo canto do olho, julgo ter visto uma criança a desmaiar e uma velha a sacar o iphone do avental para me tirar uma foto. Graças a nosso senhor jesus cristo que eu já estava composto quando ela disparou. Temos pena. Coincidência ou não, certo é que o meu rabinho assustou-se e respondeu ao trauma na forma de diarreia. Daí até à meta fiz dois desvios estratégicos para aliviar a tripa. Ambos de esguicho. Da segunda vez já não tinha papel higiénico e fiquei com as bochechas assadas. Após cortar a meta, o vencedor da Dogs Race—53k veio ter comigo, meteu o nariz onde não era chamado e confirmou a extensão da queimadura ao desmaiar com o cheiro.

 

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Embora tendo alcançado 4 pódios com uma equipa desfalcada de alguns dos seus melhores elementos, esta edição do GTSA vai ficar marcada pela negativa na história da EDV—Viana Trail. Os patrocinadores ficaram aborrecidos com a foto acima publicada e pedem a cabeça do Presidente da equipa aurinegra. Em resposta, este apressou-se a abrir um processo disciplinar à atleta em causa. O problema não está em correr em top. A nossa equipa é muito liberal em relação a esse tipo de coisas. Temos, aliás, o hábito de realizar um treino semanal em nu integral. Contactem o Jérôme Rodrigues para mais detalhes. O que deixou os patrocinadores à beira de um ataque de nervos não foi o top per si. Foi verem uma atleta da EDV—Viana Trail a correr com um top de linha branca, perdão, preta. Então os patrocinadores pagam milhões para exibirem os seus logotipos nas camisolas da EDV—Viana Trail e uma atleta tira a camisola para correr com um top não-homologado pela equipa? Mas isto tem algum jeito? Querem correr de top? Corram. Mas comprem-no na nossa loja oficial. Aqui. Eu já tenho o meu. Resta saber qual será a sanção aplicada à atleta. Desconfio que será obrigada a trajar de burkini até ao fim da época. Concordo com o burkini, embora a burka completa me pareça melhor. A segunda tem mais espaço para colocar patrocínios.

 

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Por falar em processos, o que dizer da queda aparatosa deste reputado atleta da EDV—Viana Trail? A Ester mandou o Paulo na direcção de uma armadilha e ele esbandalhou-se ao comprido. A atleta do Desnível Positivo pretendeu eliminar um atleta da equipa rival e conseguiu-o. Da queda resultou uma ferida profunda no orgulho do Paulo e os médicos do Hospital de Viana do Castelo prevêem 5 meses de recuperação psicológica até que este esteja mentalmente preparado para voltar à competição. Acontece que este não é um atleta qualquer. A vítima é um renomado advogado e já processou a Ester e o Carlos Sá com vista a ressarci-lo dos dados morais e sexuais provocados pela vergonha inerente ao trambolhão em público. Fala-se em 2 milhões de indeminização. É pouco. É muito pouco tendo em conta a indeminização pedida pelos pais do miúdo que fez falsa partida na Kids Race e levou uma estalada do speaker do GTSA. 5 milhões por uma chapada? Não gozem comigo. Mais desenvolvimentos sobre estas trapalhadas nas crónicas criminais das manhãs da televisão portuguesa.

 

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—XXX—

 

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 [Montagem de João “The Speaker” Joca (o mesmo que foi processado em 5 milhões por ter espetado uma estalada numa criança de 5 anos) e fotografias de Marco Barbosa]

 

Como se pode verificar pela montagem acima publicada, o André Rodrigues tem registado uma evolução espectacular no panorama do Trail Nacional. Não obstante, nem tudo no atleta de Arganil é fruto do treino. Sem desprimor para o seu esforço e dedicação à modalidade, fica bem reconhecer que muitas das suas principais valências já vêm de origem. A sua pelugem corporal não foi transplantada na clínica do Carlos Martins, as suas parecenças faciais com o Keanu Reeves não resultam de cirurgia plástica e a câmara que este esconde na boca não foi acoplada pós-parto. É tudo original.

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O conhecido apresentador da RTP Pedro Fernandes também participou no GTSA—53k. O seu objectivo era ganhar, mas os Cabo-Verdianos não deram hipótese à concorrência. Bem vistas as coisas, este desfecho era previsível tendo em conta que o Pedro apresenta o concurso The Big Picha e, como é do conhecimento geral, os africanos têm uma big(ger) picha. Por falar em genitália, o que dizer do Dinamarquês de kilt e sandálias tarahumara que animou a edição deste ano? Este homem é o paradoxo em pessoa. Tradicional da cintura para baixo e moderno da cintura para cima. Camisola técnica e óculos desportivos da cintura para cima e kilt e sandálias da cintura para baixo. Posto isto, a dúvida que persiste é a seguinte: será que ele anda com a tomateira ao léu ou, pelo contrário, não dispensa o conforto de umas cuecas Hugo Boss? Aceitam-se apostas.

 

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Ricardo Silva, Fernanda Verde e Jérôme Rodrigues foram apanhados pelos fotógrafos do GTSA. Quero por isso garantir ao Seleccionador Nacional que eles não violaram o período de restrição competitiva imposto pela sua participação no Campeonato do Mundo de Trail. Repito: eles não estavam em competição. Estavam a dar-me apoio. O primeiro tinha como função esconder o meu doping em pontos estratégicos do percurso. A segunda esperava-me nos abastecimentos para espetar-me agulhas nas orelhas. Estava com diarreia e, segundo a medicina tradicional tailandesa, as orelhas correspondem ao meridiano associado aos intestinos. O último apalpava-me as nalgas após as subidas mais duras do percurso. Obrigado a todos os que me apoiam. Sem vocês nada disto seria possível.

 

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#runningwithfriends

#nodopingnogain

#acupunturalover

#nalgasinshape

 

Por fim, deixo-vos com este momento No Comment:

 

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 [Português acaba prova portuguesa com uma bandeira de Portugal.]

O Rei das Ultras

por Pedro Caprichoso, em 22.09.16

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Sexta-feira. 5 horas e 55 minutos. AM. A noite permanece cerrada. Faltam 46 minutos e 37 segundos para o nascer-do-sol. O sono aperta e o telemóvel anuncia o SMS através do refrão de uma cantiga do Badocha. Badocha ou José Cid. Às vezes confundo os dois. O encontro é relembrado: estar à frente do Talho “Meirelles” às 7h em ponto com vista ao “treino à hora do ouriço-cacheiro”. A toca de um ouriço-cacheiro é mais asseada do que a casa de banho do Rei das Ultras. O lavatório acumula restos de pasta de dentes ressequida; fezes fossilizadas assemelham-se a pinturas rupestres nas paredes da sanita; e na banheira encontram-se dois pares de sapatilhas enlameados. É espalhado gel, é aplicado perfume, são enfiados os calções “de ir ao pito”, é efectuada uma selfie em tronco nu, é actualizado o estado no facebook e é repetidamente proferida a seguinte frase à frente do espelho:

 

 “Espelho meu, espelho meu, existe algum atleta mais cagão do que eu?”

 

Numa mão a colher dentro da tigela de leite com chocapic. Na simétrica o telemóvel sendo martelado por um polegar esquizofrénico. Em 7 minutos fizeram-se 127 gostos, postaram-se 21 comentários na forma de lols e publicaram-se 3 fotos de uma tijela com grânola e iogurte quark sob a legenda:

 

“O Pequeno-Almoço dos Campeões.”

 

Desconhece-se a origem das fotos. Mais 3 colheradas, mais 14 gostos e a tigela é arremessada para a pia. Sem espiga. A mãe do Rei das Ultras passa lá por casa ao fim da tarde e lava-a. O chocapic dá-lhe a volta à tripa e o Rei faz nova visita ao WC. Com o telemóvel numa mão é complicado baixar os calções e o aparelho acaba por cair na retrete na pressa de arrear o calhau. Não há razão para entrar em pânico. É à prova de água. Mas será à prova de cocó? Veremos. Sentado no trono, o Rei limpa o iphone à toalha de limpar a cara e testa-o enviando um SMS:

 

«tou a bazar d kasa lol há ferente d meirelles em 10min»

 

7 horas e 12 minutos. Está um briol do caralho à frente do Talho “Meirelles”, o Rei das Ultras bate o dente a bom bater e o José Badocha—por via das dúvidas—anuncia a chegada de um SMS:

 

«akuanta + 1 bokadito. lol Tamos kuaze a xegar. Lol»

 

Está menos frio do que parece. O Rei das Ultras passa frio porque quer. Impunha-se um corta-vento, mas este preferiu trajar de mangas cavas para exibir a sua nova tatuagem. Trata-se do logótipo do UTCM—Ultra Trail Curral de Moinas tatuado no seu bíceps esquerdo. Faz hoje uma semana que o nosso herói foi finisher de uma das provas mais competitivas do Circuito Regional de Trail de Curral de Moinas. Melhor do que finisher, alcançou um brilhante 16.º Lugar à Geral, 9.º no Escalão, 5.º Regional e 2.º ATRP. Os seus detractores atribuem o feito ao período restritivo aplicado pela ATRP aos atletas da Selecção Nacional de Trail, impedindo-os de competir até ao Campeonato do Mundo de Trail. “És um cagão. Se não fosse o Campeonato do Mundo de Trail, ias ver o que era bom para a tosse. Nem no top30 entravas”, lê-se num comentário em resposta à crónica do Rei das Ultras. As crónicas do Rei das Ultras são todas publicadas na sua página de atleta auto-intitulada: “Rei das Ultras—UltraRunner”.

 

7 horas e 29 minutos. O Rei das Ultras apanhou boleia de um renault 21 a cair de podre, os 4 amigos estão a chegar ao cimo da Serra e ainda ninguém elogiou a sua nova tatuagem. “Não sei o que se passa. Acho que dei um mau-jeito ao ombro. Que dores!”, queixa-se o monarca em jeito de pedido de atenção desesperado. “Olhem só: o nosso amigo «Carapau-de-Corrida» tem uma nova tatuagem toda catita”, exclama o passageiro que com ele divide a traseira da viatura. O Rei das Ultras também é conhecido por “Carapau-de-Corrida” entre o seu núcleo de amigos mais próximos. Há quem na alcunha veja uma conotação negativa, mas ele diz que não se importa. Diz que não se importa, mas não perde uma oportunidade de corrigir o seu interlocutor: “Preferia que me tratasses por «Rei das Ultras». Preciso de desenvolver a minha marca para atrair patrocinadores e o público já me conhece enquanto «Rei das Ultras».” O pai do Rei das Ultras tem uma casa de passe em Matosinhos e é conhecido pelo «Rei dos Pitos». Daí a inspiração.

 

7 horas e 57 minutos. Depois de andarem às voltas no topo da Serra durante 19min, os 4 compinchas encontram-se suficientemente suados para levarem a cabo o seu objectivo: tirarem uma selfie com 80 hectares de eucaliptos em pano de fundo. Lindo! São executados 27 disparos de maneira a seleccionar o melhor. O condutor da viatura, a.k.a. «O Empenado», fará a selecção das melhores selfies, aplicar-lhes-á um filtro espectacular e publicá-las-á na página de facebook do seu grupo de treino—o já aqui mencionado “treino à hora do ouriço-cacheiro”. Apesar de já ter lugar numa sucata, todos colocam toalhas a cobrir os bancos de maneira a não conspurcarem o renault 21 com o seu suor. O Empenado é maníaco das limpezas e os amigos sabem disso. Quem sujar o seu “bolinhas” pode dar-se mal e ninguém quer ficar mal na selfie.

 

8 horas e 27 minutos. O Rei das Ultras regressa à cama. Está de tal forma derreado quem nem banho tomou. Sem espiga. A mãe do Rei das Ultras passa lá por casa ao fim da tarde e troca-lhe os lençóis. Deixem-no dormir à vontade. Tem até às 18h para se apresentar no Centro de Emprego ou Junta de Freguesia da sua área de residência.

Tarântula

por Pedro Caprichoso, em 16.09.16

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A mão procura. Primeiro, nos bolsos da mochila. Depois, nos do casaco. Por fim, nos dos calções. Toda e qualquer entrada, cavidade, brecha ou fenda é mexida e remexida. Nem o diminuto compartimento dos calções (destinado ao transporte de chaves) escapa. Como uma serpente no covil de um pequeno roedor, o indicador infiltra-se sorrateiramente na furna de maneira a encurralar a presa. Debalde. Apesar de meia dúzia de tentativas desesperadas, por meio de múltiplos movimentos rotativos, a sondagem salda-se por um preservativo usado, quatro comprimidos de imodium rapid, duas moedas de 2 cêntimos e uma quantidade indeterminada de cotão.

 

A mão parece ter vida própria. Com um pouco de imaginação, pela forma como se movimenta, mais parece estarmos na presença de um aracnídeo. Quiçá uma tarântula. Os dedos—quais patas—locomovem a mão ao longo do tronco do atleta não identificado na sua inexorável demanda por uma entrada, cavidade, brecha ou fenda dentro do raio de alcance do respectivo braço.

 

Fábio Aru, legítimo proprietário da mão em causa, ignora as movimentações protagonizadas por esta. Os seus pensamentos encontram-se absortos no estudo do perfil do GTSA—Grande Trail Serra D’Arga. Estuda-o como se estivesse a ler as instruções do exame de gravidez que a namorada lhe mandou comprar.

 

A mão direita procura. A mão direita procura e não acha.

 

Fábio finalmente apercebe-se do descontrolo da sua mão ao ser confrontado com uma pergunta que o faz regressar à realidade: “Tens o track do GTSA?”

 

Dizem que o percurso este ano sofreu bastantes alterações.

 

Terra chama Fábio Aru. Terra chama Fábio Aru.

 

Fábio acorda estremunhado e julga-se possuído pelo génio de um pianista, tocador de flauta ou programador informático—tal a hiperactividade da sua mão direita. Inicialmente paralisado, Fábio toma rapidamente conta da ocorrência, permitindo à simétrica passar de simples testemunha a agente de autoridade. Deparando-se, naquela noite quente de Verão, com a incredulidade dos presentes na sede da EDV-Viana Trail, Fábio detém a mão direita com a mão esquerda e exclama em jeito de explicação:

 

“Deixei os cigarros de chocolate há 5 dias.”

O Primeiro Objectivo Da Época

por Pedro Caprichoso, em 15.09.16

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Só este ano já ganhei 8 medalhas de finisher em provas de Trail Running. Poderão brevemente apreciá-las no museu que estou actualmente a construir na cave de casa dos meus pais. Não vivo em casa dos meus pais porque não tenho recursos financeiros para ter habitação própria. Vivo em casa dos meus pais porque lá tenho cama, comida e roupa lavada. Não confundam as coisas. Não quero que os meus fãs pensem que eu não tenho onde cair morto. Eu tenho dinheiro. Gosto é muito dos cozinhados da minha mamã e da forma como ela passa a ferro os meus calções de compressão. O dinheiro estou a poupá-lo para ir fazendo o meu enxoval. Os meus patrocinadores pagam bem e já tenho 2 conjuntos de edredons, 6 pares de lençóis, 2 colchas e 6 naperons. Sonhei que vou conhecer a minha alma gémea numa prova em Barcelos. Chocarei contra ela numa curva mais apertada do UTAM—Ultra Trail Amigos da Montanha e será amor à primeira batida pela retaguarda.

 

Detesto gente presunçosa, mas adoro quando o presunçoso sou eu. Não posso com a bazófia dos outros, mas adoro a minha. A minha bazófia é muito boa. É a melhor. Passe a modéstia. Dito isto, tenho muito orgulho nas minhas 8 medalhas. Foram todas conquistadas, com muito suor e lágrimas, em provas dos Campeonatos Nacionais de Trail: 6 do Campeonato de Trail Ultra e 2 do Campeonato de Trail Ultra Endurance. Nenhuma em provas de aldeia. Não tenho nada contra as provas de aldeia. Só acho que o nível competitivo das provas de aldeia é insuficiente para fazer-me evoluir enquanto atleta semi-amador e ser-humano com sentimentos. Sim, eu conheço de trás-para-a-frente as “10 Dicas Para Seres Um Grande Atleta”. Sei que elevar o nosso estatuto de atleta passa por competir em provas de segunda linha. Nestas provas encontramos menos concorrência e a probabilidade de fazermos uma boa classificação aumenta exponencialmente. Sei que o ideal é participar nas primeiras edições de provas que se disputem no mesmo dia de provas consagradas. Sei isso tudo, mas ainda assim prefiro conquistar medalhas de elevado valor desportivo para posteriormente exibi-las no meu museu.

 

Este ano ainda não ganhei nenhuma prova. Podia tê-las vencido? Podia. Com as duas pernas às costas. Mas optei não fazê-lo. Passe a modéstia. Preferi fazê-las em preparação com vista ao meu primeiro objectivo do ano. Refiro-me, como já devem ter adivinhado, ao UTAM—a disputar no próximo dia 20 de Novembro. Objectivo: superar-me, ficar no Top69 e encontrar o amor da minha vida. Se as coisas correrem mal, não se admirem se o meu primeiro objectivo do ano passar a ser o 4.º Xmas Trail Run.

Coach Precisa-se

por Pedro Caprichoso, em 02.09.16

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Preciso de um Coach. Atenção! Não é um treinador. É um Coach. De treinadores estou eu farto. Treinador e Coach não são a mesma coisa. O Treinador treina a corrida. O Coach treina o running. Há uma linha que separa um Treinador de um Coach. É a linha que separa a vontade de correr e a vontade de fazer running.

 

Treinador é um ofício, em vias de extinção, que remonta ao século XIX. O último treinador português faleceu no passado mês de Julho. Chamava-se Moniz Pereira. Citando o Catedrático Professor de Linguística Abel Xavier, treinador é aquele que treina-a-dor. Treinador é, portanto, uma palavra que resulta de um processo de aglutinação. Dá-se a junção da palavra “treina” com a palavra “dor” e voilà o treinador. Por outro lado, o anglicismo “coach” não tem qualquer conotação com a dor. Bem pelo contrário. Coach deriva da palavra “couch”. Couch, para quem não domina a língua inglesa, quer dizer sofá. E sofá quer dizer conforto; quer dizer cochilar; quer dizer conchinha com a Maria; quer dizer sexo em doggy style. If you know what I mean.

 

 

Quero um Coach porque já tive um treinador e não gostei da sua abordagem. O tipo era doido: mandava-me correr. E eu de correr não gosto. Cansa. Embora cansado, segui as suas instruções à risca e fartei-me de correr durante 12 anos. Feito burro. E sabem o que eu ganhei com isso? Eu digo-vos: nada. Um redondo e anafado nada. Por outro lado, o meu vizinho do 5.º Esq arranjou um Coach aqui há coisa de um mês e já é patrocinado pela Compresssssssssssport. Quer dizer, não é bem patrocinado. Parece o dono da loja é amigo dele e faz-lhe um desconto de 5% para ele promover a marca. Nada mau. Bem bom. O que eu não daria para ter um arranjinho desses. Dava o cuzinho e 3 tostões num estalar de dedos.

 

Não quero um treinador que me mande correr. Não quero treinar a dor. A dor aleija. Antes quero um Coach que me valorize nas redes sociais. Quero terminar o UTCM—Ultra Trail de Curral de Moinas em septuagésimo oitavo do meu escalão e sentir que ganhei a prova. Quero sentir-me um verdadeiro campeão. Quero publicar treinos, identificar desafios, definir objectivos, traçar metas, ultrapassar limites, superar obstáculos, obter resultados, brincar com a pilinha e ter muitos likes no facebook. Quero sentir-me especial. Quero teclar banalidades até ficar com os dedos em carne viva. Basta acreditar. Somos todos campeões. Never quit. #loverunning.

 

Cuidado! Não se deixem enganar. Anda por aí muito Treinador a fazer-se passar por Coach. Treinadores com diplomas, cheios de conversa fiada. O meu dizia-me que um bom atleta só precisa de 3 coisas: treinar bem, descansar bem e comer bem. Balelas. Quantos patrocínios dá uma malga de sopa de legumes? Quantos padrinhos de provas de Trail fazem 100k por semana? Quantos administradores de páginas de atleta vão para a cama com o vitinho? Pois é. A verdade é que os Treinadores prometem resultados, mas depois nem 50 likes conseguimos com a medalha de finisher ao peito. Estou farto de Treinadores. Venham de lá esses Couchs.

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