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TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

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Corredor de Estrada Vs Corredor de Montanha

por Pedro Caprichoso, em 17.12.16

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“O Carlos Sá é muito bom, mas ele só fez 1h16 na Meia Maratona Sportzone”, disse-me aqui há uns anos um amigo atleta de estrada, cujo PR na Meia Maratona situa-se abaixo da 1h16. O Carlos tinha feito 4.º no UTMB e o meu amigo insinuou que seria capaz de fazer o mesmo se estivesse para aí virado e treinasse em montanha. Em nome do pai, do filho e do espírito santo! Santa ignorância. A pergunta que então se impõe é: Então por que não fazes? Mas não vale a pena ir por aí. Acreditem que não vale. O menosprezo de alguns atletas de estrada em relação aos atletas de montanha é frequente. Mas, se repararem, só é frequente naqueles que nunca fizeram uma prova de montanha.

 

Um: embora sem conhecimento de causa, parece-me evidente que o Carlos não fez a Meia Maratona Sportzone a fundo. E, treinando especificamente para uma Meia Maratona, acredito que a faria em menos de 1h10. [Dito isto, 1h10 não é nada de especial a nível internacional. Lembro que o recorde do mundo da Meia-Maratona situa-se abaixo de 59min.] Dois: o que as pessoas não percebem é que correr em estrada e correr em montanha são dois desportos diferentes. Costumo dizer que a diferença entre uma prova de estrada e uma prova de montanha é a mesma entre o ténis e o ténis de mesa: ambos jogam-se com raquetes (metendo uma perna à frente da outra), mas o terreno de jogo é completamente diferente (estrada vs trilhos; plano vs acidentado; alcatrão vs pedra).

 

Tais diferenças, de tão grandes que elas são, traduzem-se inclusive na fisionomia dos seus melhores atletas: já se perguntaram por que razão os melhores atletas de estrada são maioritariamente magros, leves e altos; e os de montanha são maioritariamente musculados, pesados e entroncados? Tem tudo a ver com as diferentes exigências associadas à estrada e à montanha. Na estrada tem tudo a ver com a relação peso / potência, pelo que o peso corporal é de vital importância, bem mais do que a potência. Como bem sabemos, a potência muscular e o VO2max são essencialmente determinados pela genética: não posso mudar a minha constituição física (altura, capacidade metabólica, etc.) e a melhoria que se pode obter a nível do VO2max através do treino não é muito significativa. Daí que o treino de um maratonista passa, sobretudo, por manter um peso corporal baixo exercitando o seu organismo no sentido de consumir calorias, na forma de gordura, da forma o mais eficiente possível. Não tenham dúvidas de uma coisa: os maratonistas de elite são geneticamente superdotados. Em montanha, pelo contrário, parece-me que a relação peso / potência está mais inclinada para o lado da potência, bastando para isso olhar para os nossos melhores atletas de Montanha / Trail / SkyRunning. Isto é, em montanha é bem mais importante ter aquilo a que popularmente se designa por uma boa “caixa” (capacidade cardiovascular) do que uma fisionomia mais leve e eficiente. Não é por acaso que há exemplos bem conhecidos de gente com bons resultados em provas de Trail com origem no BTT. Já em estrada a história é diferente, pois tenho conhecimento de ciclistas que não se dão tão bem em provas de estrada.

 

No entanto, para além da relação peso / potência, há mais dois factores a ter em conta na montanha, sobretudo no que diz respeito às provas de Endurance. Refiro-me à capacidade de resistência física e mental. A resistência mental tem a ver com cada um, sendo independentemente da fisionomia. Já em relação à resistência física, é preferível possuir uma maior massa muscular em provas de montanha, nomeadamente ao nível dos membros inferiores, devido à “porrada” infligida pelo terreno a nível muscular. Em suma, esta relação (resistência física / massa muscular) é tanto mais importante quanto mais longas, acidentadas e técnicas forem as provas.

 

A discussão com o meu amigo continuou animada até que ele se saiu com esta: “Se fizéssemos uma corrida de 85k entre o melhor atleta de estrada (i.e. recordista do mundo da Maratona) e o melhor corredor de montanha do mundo (i.e. Kilian Jornet), num percurso metade estrada e metade montanha, quem é que tu achas que ganharia?” “O atleta de estrada”, disse-lhe eu sem hesitar. É evidente que seria o atleta de estrada, pois a corrida de estrada é mais competitiva e está mais desenvolvida (em termos da metodologia do treino) do que a corrida em montanha. Isso é uma coisa. Outra coisa é dizer—como também já ouvi alguns espertos insinuarem—que pegariam num queniano qualquer, treiná-lo-iam durante 2 meses para participar no UTMB e que ele depois dava um bigode ao Kilian Jornet e amigos. Treta! Mais uma vez: a diferença entre uma prova de estrada e uma prova de montanha é a mesma entre o ténis e o ténis de mesa. Quem não perceber isto, não percebe nada.

 

Dito isto, no sentido de evitar o oposto (i.e. a desvalorização dos atletas de estrada), importa deixar bem claro que as performances alcançadas pelos atletas de Elite nas distâncias clássicas do Atletismo (5.000, 10.000 e Maratona) não têm paralelo no mundo da corrida. O melhor que se faz no mundo da corrida é aquilo que se vê nos Campeonatos do Mundo, Jogos Olímpicos e Maratonas Comerciais. Fazer menos de 13min aos 5.000, menos de 27min aos 10.000 e menos de 2h06 na Maratona é o pináculo da corrida de Fundo / Endurance. Sem espinhas.

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