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TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

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Rescaldo: UTAX 2016

por Pedro Caprichoso, em 24.03.16

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Começo com o pensamento de um dos maiores vultos do Trail Nacional: “Se não estás a sentir é porque não está a acontecer.” José Faria sabe do que fala. Eu não sei, mas ele sabe. Para mim isso é suficiente. O importante não é saber. Sentir é mais importante do que saber. O que é que vocês sentem ao ler Faria? Ler Faria é como ler Saramago. O que sentem? Esse é o sentimento que importa. Se não sentem, é porque não está a acontecer—e é triste não sentir. No UTAX, porém, não há esse risco. O UTAX sente-se e as coisas acontecem. Por vezes bem, por vezes mal. Mas acontecem. Eis como elas aconteceram:

 

Há coisas do outro mundo? Há. Mas também há coisas deste mundo. Geralmente, o que há mais são coisas deste mundo que parecem do outro mundo—coisas sobrenaturais como os rumores de que houve batota no UTAX. Qualquer coisa a ver com popós entre Povorais e Coentral. Não percebi bem. Seja como for, não acredito em teorias da conspiração. Prefiro acreditar nas pessoas. Se as pessoas dizem que não são batoteiras, é porque não são batoteiras. Os mentirosos vão para o inferno e não acredito que as pessoas queiram ir para o inferno. É um sítio muito quente, onde as garrafas têm buraco e as mulheres não. Dito isto, importa sublinhar que eu também não sou batoteiro. Se digo que não sou, é porque não sou. Vocês acreditam em mim, não acreditam?

 

É indesmentível que carreguei a Fernanda Verde às costas durante 30km, mas isso não constitui batotice. Talvez constitua burrice, mas não batotice. Burrice no sentido em que agora estou entrevado e terei de ser operado à coluna. Tudo isto para dizer que fiz o UTAX todo (110k) na companhia da Fernanda e, quase todo, com o nosso colega de equipa José Domingos—que acabou por alcançar a 3.ª posição no escalão M50. Seguimos em tripla até ao Observatório (94k), altura em que o Domingos teve de ir ao WC aliviar a tripa. Só é pena ele não ter cortado a meta connosco. Teria sido a cereja em cima do bolo. Felizmente existe o Photoshop:

 

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16 horas a acompanhar uma atleta feminina ensinou-me muito. Quero por isso partilhar convosco alguns desses ensinamentos, caso no futuro pretendam assumir o papel de lebre de uma senhora. Não partilho todos porque há crianças a ler estas coisas e eu não quero ser processado.

 

10 DICAS PARA SER LEBRE DE UMA SENHORA

 

  1. Seguir atrás dela nas subidas para não interferir com o seu ritmo. Para não interferir com o seu ritmo e para que ela não apanhe com as vossas bufas. É uma questão de boa educação;

 

  1. Se ela der um traque ruidoso, finjam que não o ouviram. Peçam perdão, dêem a entender que foram vocês que se largaram, tapem o nariz e respirem pela boca até o perfume se dissipar;

 

  1. Ela tem uma farmácia na mochila. Se passarem mal, peçam-lhe que ela tem a solução para todas as vossas maleitas. Se não fossem aqueles dois trifens a meio da prova, não sei o que me teria acontecido. Estava num naqueles dias;

 

  1. Quando ela quiser fazer xixi, continuem devagar que ela depois apanha-vos. Não esperem ao pé dela enquanto ela rega as plantas. Pode tornar-se embaraçoso;

 

  1. Da mesma forma, quando fizerem xixi não peçam para que ela fique ao vosso lado. Digam para ela seguir e depois apanhem-na mais à frente. Pode tornar-se embaraçoso se não a conseguirem apanhar;

 

  1. Dado o facto de elas serem mais precavidas, sigam à frente dela nas descidas técnicas de maneira a testarem as zonas mais instáveis do trilho. Isto fará com que ela ganhe mais confiança. Se caírem à frente dela, melhor ainda: é da maneira que ela dá uma boa risada e fica mais relaxada;

 

  1. Se lhe entrar uma pedra nas sapatilhas, ajoelhem-se, descalcem-na, tirem a pedra, calcem-na e não se queixem do cheiro a chulé. Fica mal. Uma senhora não tem chulé. Quer dizer, tem… mas o seu chulé não cheira mal. Cheira a rosas;

 

  1. Levem-na às cavalitas nas passagens de linhas de água. Esta regra só se aplica, porém, se elas forem mais leves do que vocês. Se forem mais pesadas, esqueçam. O cavalheirismo é muito bonito, mas não paga cirurgias à coluna. Para memória futura: a Fernanda é MUITO mais leve do que eu;

 

  1. Se apanharem um grupo de caminheiros num single-track a atrapalhar a vossa progressão, peçam com jeitinho para que eles deixem a menina passar. A maioria são cavalheiros e desviam-se imediatamente. Dica: também podem usar esta técnica quando seguem sozinhos. Os morcões ficam a olhar para trás à espera de uma menina e nada! Escangalho-me a rir sempre que faço isso!

 

  1. Por fim, o mais importante: se uma adversária ultrapassar a vossa colega, ide atrás dela e façam-lhe bullying. Não é preciso muito. Basta um “estás gorda” que ela encosta logo a chorar—e a vossa colega recupera logo o lugar perdido.

 

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Conhecem aquela cena típica das comédias românticas em que ele e ela estão cheios de frio e a única forma que eles têm de se aquecerem é tirando a roupa e aquecerem-se esfregando os seus corpos nus um contra o outro? [Sabia que conseguiria escrever esta frase sem vírgulas]. Pois bem, o que se passa é que eu comecei a tremer descontroladamente depois da prova. Devia ter vestido o impermeável nos últimos 16km, mas não o tirei da mochila e acabei por ir mesmo assim até à meta. Na meta, ensopado, fui interpelado por 5 meios de comunicação e, quando dei por mim, estava a tremer como varas verdes. Precisava de me aquecer rapidamente. A água dos balneários estava morna e não havia outra solução: um dos meus colegas de equipa teria de se enrolar comigo de maneira a aquecer-me. Nus. Num saco cama. O Jérôme e o Faria ofereceram-se de pronto—e quase andavam à porrada. Separei-os e sugeri que o escolhido fosse seleccionado por meio de cara ou coroa. Saiu coroa e ganhou o Faria. O Jérôme fez beicinho, amuou e tive de prometer-lhe que ele depois poder-me-ia lavar as costas no duche.

 

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Referi, na antevisão da prova, que seria o tipo do balão das 17h. Peço imensa desculpa por vos ter levado ao engano. Não consegui fazer 17h. O comboio adiantou-se 3 minutos e acabei por fazer 16:57. A culpa é da Fernanda, que nos últimos kms ficou furibunda quando a informaram de que era terceira. Ela fez a prova praticamente toda em 2.º e nunca foi ultrapassada, pelo que provavelmente seria erro. Mas ela não quis saber: ligou o turbo, recuperou 3min para a frente da corrida e ia-me abafando. Só não me abafou porque eu tive medo da vergonha e enfiei 7 comprimidos de cafeína pela goela abaixo.

 

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O Nuno Silva devia ser penalizado por estas brincadeiras. Isto é a gozar com os desgraçados que passaram por essa zona a arrastarem-se. É espetar-lhe com 2h de penalização. Da próxima já não goza com os coxos!

 

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No dia seguinte, em Miranda do Corvo, tomando partido da realização da Taça de Portugal Trail Ultra Endurance, a ATRP decidiu realizar a Cerimónia de Entrega de Troféus referentes à última época. Nesta Cerimónia vimos os atletas da EDV-Viana Trail subirem 9 vezes ao pódio. Ricardo Silva desmaiou à segunda subida ao pódio e tiveram de lhe dar água com açúcar para que ele conseguisse subir mais duas. Jérôme Rodrigues agravou a lesão que contraiu durante a prova ao subi-lo por 4 vezes—e diz que a partir de agora vai fazer os possível para nunca mais ir ao pódio: “A partir de agora, o meu objectivo é o 4-º lugar.”

 

Já perdi 4kg desde que parti a clavícula. Só no UTAX perdi dois. Acho que ficaram na subida ao Observatório. Estou a ficar no ponto! Não sei para quê, mas estou.

 

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