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TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

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Somos feitos para Correr

por Pedro Caprichoso, em 14.12.16

Há 3 mistérios relacionados com a corrida que ainda ninguém conseguiu explicar:

 

Primeiro:

O que faz do ser humano o animal terrestre com mais endurance à face da terra, conseguindo mais facilmente cobrir longas distâncias do que qualquer outro?

 

tarahumara.jpg

 

Em termos de velocidade, o ser humano é um aselha: cães, esquilos, leões, cavalos, burros, esquilos, lobos, coiotes, elefantes, girafas, avestruzes, veados, linces, antílopes, cabras, gazelas, gnus, ursos, rinocerontes, javalis, gorilas, chitas… todos são mais rápidos do que o ser humano. A chita, o animal mais rápido à face da terra, consegue atingir a velocidade máxima de 120 km/h, enquanto o ser humano—aqui representado pelo recordista do mundo dos 100 metros Usain Bolt—fica-se pelos 44km/h.

 

Agora, meus amigos, no que toca a longas distâncias, ninguém nos bate. Peguem no Scott Jurek, num animal terrestre à vossa escolha, coloquem-nos lado a lado às portas do Mosteiro dos Jerónimos no pico do Verão, dêem o tiro de partida e depois vamos ver quem primeiro chega ao estádio do Dragão e nele dá uma volta de honra. Aposto o que quiserem que primeiro chega o Scott. Não porque o Homem é mais forte, não porque o Homem é mais rápido, não porque o Homem é mais inteligente, mas porque o Homem transpira mais.

 

Não há paralelo no reino animal. Não há outra espécie dotada com tão grande capacidade sudorífera, capaz de regular a temperatura corporal melhor do que qualquer outra. Imaginemos, por momentos, para efeitos comparativos, que o adversário do Scott Jurek é um cavalo. Acontece que o cavalo, embora mais rápido, teria de parar de tempos a tempos de maneira a diminuir a sua temperatura corporal, sendo que isto é apenas possível—tanto no cavalo como na maioria dos animais terrestres—por meio da respiração. E apenas através da respiração não é possível regular a temperatura corporal em movimento, pelo que o animal (qualquer outro animal) teria obrigatoriamente de parar sob pena de morrer por exaustão. Para que não restem dúvidas, resta-me dizer que esta experiência já foi levada a cabo e o Homem levou a melhor sobre o cavalo. No que às longas distâncias diz respeito, pode-se daqui portanto concluir que a rapidez dos outros animais não compensa o facto destes verem-se obrigados a parar com vista a regularem a sua temperatura corporal—pois quando param, param mesmo, e durante longos períodos de tempo, nomeadamente se a temperatura ambiente for elevada.

 

Segundo:

Como explicar o facto das mulheres se aproximarem dos homens em termos competitivos à medida que a distância aumenta?

 

pamreed.jpg

[Pam Reed – Vencedora Geral da Ultramaratona Badwater 2002]

 

Falando de velocidade pura e crua, a mulher é uma aselha em comparação com o homem: faça-se uma corrida entre os campeões olímpicos masculino e feminino dos 100 metros, e o macho, sem apelo nem agravo, dá uma banhada à mulher, deixando-a a quase 1,5s—o que, em termos de distância, corresponde a cerca de 15 metros.

 

No entanto, se estivermos a falar de uma Ultramaratona, nomeadamente daquelas para cima de 100 milhas (160 km), o caso muda radicalmente de figura: não é a regra, mas já houve mulheres que por mais de uma venceram provas deste calibre—e desconfio que só não ganham mais porque os seus níveis de participação neste e noutros tipos de eventos desportivos é consideravelmente inferior ao dos homens—sendo que regularmente as podemos encontrar no top10 das Ultramaratonas mais cotadas do mundo.

 

Terceiro:

Como explicar a gradual porém diminuta perda de performance que um atleta experimenta ao longo dos anos em provas de longa distância?

 

old-man.jpg

 [Velho de 75 anos terminando a Ultramaratona Badwater]

 

Expliquemos através de um exemplo: em termos estatísticos, se uma pessoa—homem ou mulher—com 19 anos e sem passado de prática desportiva começasse hoje a treinar com vista a uma Maratona a realizar daqui a 4 meses, o mais provável é que o resultado que ele (ou ela) obteria seria o mesmo que ele (ou ela) conseguiria eventualmente obter com 67 anos de idade, à condição de que durante esse tempo (entre os 19 e os 67) tivesse regularmente continuado a treinar e a participar em Maratonas.

 

Estudos mostram que os atletas que começam a treinar para a Maratona por volta dos 19 anos atingem o seu pico de performance desportiva por volta dos 27, 28 anos, e que só cerca de 40 anos depois voltam ao ponto onde estavam aos 19 anos.

 

Pondo as coisas de uma forma mais simples: por que raio é que os velhos são tão bons em provas de longa distância?

 

XXX

 

Agora imaginem que há uma teoria recente que dá pelo nome de “A hipótese da corrida de endurance”, capaz de explicar os três mistérios acima brilhantemente expostos.

 

A “hipótese da corrida de endurance” sustenta que—e aqui vou citar a wikipedia—“antes da invenção da lança, a primeira arma de projéctil, há 200.000 anos atrás, os humanos antigos usariam a caça de persistência (também conhecida como caça por exaustão), em que, ao invés de tentar superar os animais pela velocidade, estes seriam perseguidos ao longo de grandes distâncias até entrarem em sobreaquecimento, sendo depois mortos por meio de um objecto pontiagudo. Assim, as adaptações que favoreçam a capacidade de correr longas distâncias teriam sido favorecidas nos seres humanos. Depois das armas de projéctil terem sido desenvolvidas – em tempos evolutivamente recentes – a importância da corrida de longa distância diminuiu, mas as características permaneceram."

 

A descrição da teoria explica, por si só, o primeiro dos mistérios. Quanto ao segundo e terceiro, estes decorrem simplesmente do facto de toda a comunidade ter obrigatoriamente de se deslocar atrás da caça, o que inclui os velhos e as mulheres.

 

Como é fácil de perceber, não faria qualquer sentido perseguir um veado até à exaustão durante 100 km e depois ter de voltar com o veado às costas para alimentar a família. Tivessem telemóvel e enviariam um sms com a localização do jantar, mas naquela altura apenas os homens caçavam e, como se sabe, os homens detestam mandar sms.

 

É sabido, por outro lado, que as mulheres com crianças lactantes são as que mais beneficiam das proteínas da carne, e que é perfeitamente natural pressupor que a experiência dos indivíduos mais velhos fosse indispensável durante a caça com vista a, por exemplo, escolher qual presa perseguir ou, segundo exemplo, indicar a direcção que a caça deve tomar através da leitura de pistas, como seja o caso de pegadas.

 

Aquilo que para mim, no entanto, melhor sustenta esta teoria são as características directamente associadas ao acto de correr (e não ao acto de caminhar) e que ainda hoje encontramos no corpo humano. Eis umas quantas:

 

(1) Ausência de pêlo e a abundância de glândulas sudoríferas como mecanismo de perda de calor;

(2) Dedos dos pés pequenos;

(3) Músculos dos glúteos enormes (que ajudam a manter o equilíbrio durante a corrida);

(4) A conhecida capacidade humana para a endurance em provas tais como as Ultramaratonas;

(5) A tendência para armazenar gordura corporal (que funciona como reserva energética aquando da realização de esforços prolongados);

(6) Pernas compridas e tendões que funcionam como molas;

(7) Intolerância por um estilo de vida sedentário, no que toca à obesidade, diabetes e outras doenças;

(8) Capacidade de respirar pela boca enquanto se corre.

 

 

 

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