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TOP MÁQUINA

Eu faço Trail e sou uma Máquina. E isso é Top!

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Rescaldo Paleozóico 2019

por Pedro Caprichoso, em 25.03.19

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Há muito que desconfiava que a comunidade do Trail Nacional fosse um sumidouro de tarados. Todos sabemos, por experiência própria, que o Trail é um desporto propício ao badalhoquedo: calções de lycra justinhos, rabos empinados, decotes convidativos, o ar da serra e a libertação de dopamina (associada ao exercício) são o combustível que faz acender o fogo da paixão. Ainda está por se fazer o estudo de quantas crianças foram concebidas no âmbito do Trail Running e o impacto que a modalidade está a ter ao nível da taxa de natalidade em Portugal. São estas as temáticas sobre as quais a ATRP se devia debruçar. Em vez disso andamos a brincar às Selecções e aos Campeonatos do Mundo. A presença no monte de gente tarada, carregando 500€ de material ao lombo, é, portanto, um fenómeno contemporâneo que não surpreende ninguém. Há muitos atletas exibicionistas, mas nunca pensei que fossemos tantos. Certo é que Valongo rompeu pelas costuras com exibicionistas vindos dos 4 cantos do País, desesperados por serem observados pelo Seleccionador Nacional. Também eu sou exibicionista, também eu carrego 500€de material ao lombo e também eu alinhei à partida dos 48k do Trail do Paleózoico. Acontece que 22 exibicionistas exibiram-se a melhor nível do que eu, pois eu não logrei a convocatória para representar Portugal no próximo Campeonato do Mundo de Trail. Admito: fiquei triste. Para compensar, fui imediatamente para o carro depois de cortar a linha de meta e brinquei com a pilinha durante o dobro do tempo habitual. Saí do carro 4 horas mais tarde e tomei um duche no parque de estacionamento, ali mesmo, recorrendo a um garrafão de 5L de água, na esperança de que o seleccionador me estivesse a observar.  Caso o tivesse feito, por certo que ele mandaria os Brunos (Coelho e Silva) à fava e dar-me-ia um wildsexymotherfucker-card. Infelizmente, àquela hora, só lá estavam 4 velhotes a jogar à sueca e um cigano a dar milho aos pombos.

 

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Créditos: Matias Novo

 

O atleta nacional com melhor pontuação ITRA não ficou indiferente aos olhinhos do Seleccionador Nacional e também esteve na luta por um lugar na Selecção Nacional. Emigrante na Suíça, César Costa apanhou um voo da easyjet à pala da ATRP e veio a Portugal correr o Paleozóico com sapatilhas de estrada. Parece que alguém se esqueceu de o informar que isto em Portugal é hardcore: em Portugal corre-se em pinhais e eucaliptais; vai-se com o focinho ao chão por corta-fogos acima; come-se poeira, calhaus, cascalho e ramos de eucaliptos ao pequeno-almoço; somos engolidos por valas da largura de pneus de tractores; e as sapatilhas só duram centena e meia de quilómetros. A marca não foi mal escolhida: a asics é reconhecida pela sua durabilidade; faria é mais sentido ter escolhido umas trabuco em vez do modelo com que a Rosa Mota ganhou os Jogos Olímpicos. Habituado aos trilhos helvéticos, o campeão luso deve ter pensado que em Valongo encontraria os trilhos limpos para caminheiros tão populares na terra do chocolate, queijo, canivetes multi-funções e banqueiros com códigos éticos duvidosos. Resultado: deu-se mal com o percurso e desistiu por volta dos 30k. É pena: com umas trabuco teria provavelmente vencido a prova e entrado no top10 do Campeonato do Mundo. Agora também já não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Mais vale recolher o leite, adicionar-lhe um pouco de chocolate, cortar uma fatia de queijo com um canivete suíco e tomar um pequeno-almoço reforçado antes de ir ao banco pedir um empréstimo para comprar umas trabuco.

 

Depois do vírus do empeno e do vírus da hoka, foi agora a vez do vírus da caganeira atacar forte e feito. Tenho conhecimento de 5 indivíduos que passaram a prova toda de cócoras a arrear o calhau. "Calhau" é uma forma de dizer, pois parece que as fezes eram predominantemente projectadas na forma de esguicho. Lamento a imagética, mas limito-me a relatar o testemunho de terceiros. Eu, pessoalmente, com estes olhos que a terra há-de comer, vi "apenas" 2 conjuntos de nalgas que me queimaram as vistas. Era como o sol do meio-dia a bater num iceberg. São imagens que me vão assombrar para o resto da vida. Nesse momento perdi a capacidade de ingerir alimentos sólidos e lembro-me de ter pensado em desistir. Não fosse o apoio que me foi dado ao longo do percurso e não teria chegado ao fim. Obrigado a todos os que me apoiam, em especial ao Paulo Conde—o meu fã número 2. Vocês já estão carecas de saber que o meu companheiro moçambicano, Eusébio de seu nome, é o meu fã número 1.

 

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Sabem qual é o primeiro sinal de que um tipo está prestes a estourar? Fácil: se antes do meio da prova já está a olhar por cima do ombro com vista controlar os adversários, é certo e certinho que o homem da marreta lhe vai fazer uma visita não tarda nada. Não percebo a lógica de partir para uma prova de 50k com a mentalidade de controlar os adversários desde o tiro de partida. É algo que me ultrapassa. No primeiro km do LouzanTrail ouvi um tipo a avisar um colega para partir mais devagar, alertando-o para a "puta das expectativas". Ipsis verbis. Tem toda a razão. A nossa felicidade está directamente associada às nossas expectativas e não há forma de tirar partido da competição se as ditas não forem cumpridas. Partir para uma prova de Trail—nomeadamente uma Ultra—a pensar na classificação é um erro crasso. Devemos partir focados em nós próprios: sentindo o nosso corpo, controlando o esforço e abstraindo-nos da competição. Não metam a carroça à frente dos bois e esperem pelo desenrolar da prova para ganhar a expectativa de uma potencial boa classificação. No Paleozóico, por exemplo, há paletes de exemplos de gente que fez objectivamente uma boa prova, mas depois foram para as redes sociais mostrar-se descontentes com o seu desempenho. Como é evidente, o problema não está no desempenho. O problema são as expectativas criadas pré-tiro-de-partida. Se um tipo faz regularmente top10 em provas de aldeia e depois vai a uma prova bué concorrida—onde se joga, por exemplo, um lugar na selecção—é evidente que lhe vai ser difícil entrar no top10. Mas isso não quer dizer que o seu desempenho não tenha sido igualmente satisfatório. A avaliação da nossa performance não pode ter em conta a classificação, pois nós não controlamos o que os outros andam. Porventura, se no Paleozóico não estivesse estado metade da concorrência e o tipo em causa tivesse entrado no top10 com o mesmo tempo, talvez nesse caso tivesse ficado mais satisfeito com o seu desempenho—o que não tem lógica nenhuma, pois o seu desempenho foi exactamente o mesmo. Como diz o outro: cuidado com a puta das expectativas!

 

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No último km alguém lançou-nos uma papaia, em jeito de chacota, alertando-nos que a primeira mulher estava a morder-nos os calcanhares. Falo no plural pois fiz os últimos kms na companhia do Hugo Gonçalves. Vocês não sabem como aquela merda me afectou! Se a Mary me tivesse ultrapassado na linha de meta, é certo e certinho que a pila se me teria caído ao chão. A vencedora feminina acabou por cortar a meta 10min depois de mim, mas admito que comecei a ver a coisa mal parada com medo de perder o abono de família. Se dúvidas há, eu esclareço-as repetindo o que já aqui escrevi: a Mary Vieira e as demais atletas de nível nacional são, pound-for-pound, melhores atletas do que eu. E não pensem que digo isto só por dizer. Já tenho jurisprudência na matéria. Leiam e chorem por mais:

 

Não vamos cair no facilitismo do feminismo pacóvio e dizer que “As mulheres são melhores do que os homens”. Não são. Nem melhores, nem piores. São diferentes. A verdade, porém, é que o desporto em nada beneficia o sexo feminino. Em comparação com os homens, as mulheres são fisicamente mais fracas, exibem uma menor coordenação motora, correm menos riscos e tendem a ter mais problemas metabólicos.

 

O meu elogio a estas mulheres tem justamente a ver com os impedimentos atrás enumerados. São estes impedimentos que dão mérito ao seu esforço. Tal significa que uma mulher tem de se esforçar muito mais do que um homem para alcançar um resultado equivalente. As elas, portanto, tiro-lhes o chapéu.

 

A única vantagem do sexo feminino em relação ao masculino tem a ver com a sua reconhecida resiliência e tolerância à dor, daí que elas se aproximem deles à medida que a distância aumenta: quanto mais longe, mais hipótese elas têm de ganhar. Mas já viram? A sua única vantagem é o sofrimento. A sua força fá-las sofrer. Duras.

 

Homens, posto isto não se esqueçam do seguinte: sempre que numa prova forem ultrapassados por uma mulher, não pensem que ela é melhor do que vocês. Ela não é melhor do que vocês. Ela é MUITO melhor do que vocês.

 

Como diz uma amiga de uma amiga de uma prima minha: eu gostava é de vos ver parir pela pilinha!

 

Por falar em gente afeminada, bonito bonito era uma corrida entre os fotógrafos e os speakers do Trail Nacional. Foi uma ideia que me veio à cabeça enquanto afocinhava pelo elevador acima. Imaginei os fotógrafos de um lado, os speakers do outro, e os atletas de fora a bater palmas e a insultá-los. Duas equipas. Zero regras. Seria permitido tudo: porrada, chamar nomes e passar rasteiras. Acho que Valongo seria o palco ideal para semelhante espectáculo. Isso é que era lindo!

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