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A Mais Dura Prova de Walking da Minha Freguesia

por Pedro Caprichoso, em 29.11.18

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A organização do Pisão Extreme afirmou que a sua prova é «A mais dura prova de running da Europa." Para mim, na minha modesta porém sábia opinião, está quase tudo errado com esta afirmação. As organizações e os atletas vão atrás da febre da dureza, assumindo que quanto mais duro melhor, e depois dá nisto. São tantas as provas e é tanto o ruído gerado nas redes sociais, que as organizações sentem necessidade de produzir este tipo de sound-bites, com vista a promover as suas provas, sem que ninguém questione a sua validade. Mas é para isso que eu aqui estou; é para isto que vocês me pagam fortunas na forma de muito amor, muito carinho e muito cafuné. Vamos lá então esmiuçar o sound-bite:

 

Running?

Tendo em conta que a prova terá 65k e 6500D+, faz sentido questionar quanto "running" se vai fazer, exactamente, numa prova com 65k e 6500D+. Tratando-se de uma prova circular, podemos assumir que metade da distância é feita a subir e a outra metade a descer. Posto isto, há que ter a noção de que os 6.500D+ serão feitos em apenas 32,5km, o que dá uma média de 200mD+ por km, o que dá uma inclinação média de 20%. Veremos, portanto, o quanto se vai conseguir correr com 20% de inclinação. Sei que vai lá estar gente de valor, mas é seguro dizer que a esmagadora maioria dos participantes passarão muito mais tempo a fazer walking do que a fazer running.

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A mais dura?

Será mesmo a mais dura? Será que podemos dizer, definitivamente, que será a mais dura? Dureza é um critério subjectivo, mas neste caso parece que a única coisa que conta é o rácio D+/Km. Sim, se atendermos apenas a esse parâmetro, parece-me que será sem dúvida a mais dura a nível nacional. O meu argumento, porém, é que a dureza não tem apenas que ver com o desnível vencido por km percorrido. Há outros parâmetros a ter em conta, nomeadamente a tecnicidade, o clima, a simples duração da prova (que pode implicar, por exemplo, a privação do sono) e a perigosidade (que não tem necessariamente a ver com a tecnicidade).

 

Assim sendo, podemos afirmar definitivamente que o Pisão será mais técnico e mais perigoso do que, por exemplo, o UTSF–Ultra Trail Serra da Freita? Pode ser, não digo que não, mas certamente não terá aquelas míticas passagens de rio do UTSF, em que fazê-las sem dar meia-dúzia de tombos é considerado um milagre ao nível de sermos seleccionados para Zegama à primeira tentativa; já para não falar das vacas assassinas da Freita e da tendência que os foragidos à lei têm para escolherem a Freita como esconderijo, de que é exemplo o recente episódio com o Pedro Dias–o que aumenta bastante o nível de perigosidade do UTSF.

 

Por outro lado, no que toca ao clima, mantendo o exemplo do UTSF, será líquido afirmar que é mais dura uma prova com as características do Pisão (realizada em Dezembro com mau tempo) ou uma prova com as características do UTSF (realizada em finais de Junho no pico do calor)? Uns dirão a primeira, outros dirão a segunda. Percebo perfeitamente que há quem prefira vomitar-se todo, cagar-se todo e alucinar em resultado de insulações e desidratação do que correr o risco de ficar com as mãos congeladas e não conseguir utilizar o telemóvel para fazer lives no facebook. São gostos.

 

Por fim, mantendo novamente o exemplo do UTSF e fazendo fé nos dados fornecidos pela organização do Pisão, a diferença entre o UTSF e o Pisão parece ser o facto de que o UTSF terá mais 35k do que o Pisão, já que o desnível positivo será semelhante (6.500D+). A nível da duração da prova, comparando uma prova com 100k e 6.500D+ com uma prova com 65k e 6.500D+, parece-me seguro afirmar que o vencedor da prova do Pisão não fará mais tempo do que o vencedor da prova da Freita. Devido ao rácio D+/Km ser bastante superior no Pisão do que no UTSF, é evidente que o ritmo (tempo/Km) será mais lento no Pisão do que no UTSF, mas parece-me inteiramente improvável que o vencedor do Pisão precise de mais de 12h40 para completar os 65k da prova. Para isso acontecer, a inclinação das subidas do Pisão teriam de ser exponencialmente mais duras (i.e. mais inclinadas e desfavoráveis à progressão dos atletas) do que as subidas do UTSF de maneira a compensar os 35k a mais do UTSF em relação ao Pisão–e tal não me parece possível. Bom... a não ser que nas subidas coloquem elementos da organização, com bastões, a dar porrada nos atletas com vista a dificultar ainda mais a sua progressão; e nas descidas atirem azeite a ferver para as pernas dos atletas com vista a fazê-los cair. Quer dizer... com esta febre para se ser 'o mais duro de sempre do Universo', já não digo nada.

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[Imagem da prova Though Guy]

 

Da Europa?

O exemplo do UTSF não foi escolhido ao acaso. A Serra da Freita é encostada à Serra da Arada (onde se realiza o Pisão Extreme) e o percurso do UTSF passa pelo Concelho (São Pedro do Sul) a que pertence a Freguesia (Carvalhais) a que pertence a aldeia do Pisão. Se eu quisesse teria ido buscar o exemplo do Tor des Geants como sendo uma prova mais longa do que o Pisão; ou a Ronda del Cims como sendo uma prova mais desfavorável à progressão do que o Pisão; ou o Troféu Kima como sendo uma prova mais perigosa e técnica do que o Pisão; ou uma daquelas provas que se disputam em condições climatéricas extremas, de que é exemplo a "Though Guy", como sendo climaticamente mais desafiantes do que o Pisão. Mas não: o que eu quero é deixar claro que, possivelmente, o Pisão Extreme nem sequer é a prova mais dura do concelho de São Pedro de Sul. É discutível.

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Dito isto, o único slogan que a organização do Pisão Extreme poderia usar com toda a confiança é o seguinte: "A Mais Dura Prova de Walking da Minha Freguesia». Com isso não tenho qualquer problema.

 

[Nota final: quero deixar bem claro que não tenho absolutamente nada contra o Pisão Extreme. Sou natural de uma aldeia a cerca de 30k do Pisão e acho que a prova tem todas as condições para ser um sucesso–estou inclusive a considerar ir ver a prova, até porque tenho colegas de equipa a participar. A única coisa que me faz espécie é a forma como muitas organizações têm esta tendência quase incontrolável de emitirem sound-bites, com vista a promoverem as suas provas, sem que ninguém questione a sua validade. Não no meu turno!]

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