QUANTO SOFRE A MULHER DE UM TRAILER
O homem sai de casa, no sábado de manhã, de mansinho, ao nascer-do-sol. A mulher fica na cama, a dormir, estafada, sonhando que o marido lhe vai trazer o pequeno-almoço à cama – era o trazias!
O homem junta-se a outros homens – todos trajados em lycra do pescoço aos tornozelos. A mulher entretanto acorda, estremunhada, com os filhos aos berros.
O homem estica o braço esquerdo para o céu, como se estivesse a fazer a saudação nazi, mas o gesto serve, na realidade, para facilitar a detecção de satélites do relógio GPS que a mulher lhe deu no Natal. A mulher estica o braço direito enquanto caminha, como se estivesse a transportar uma coisa fedorenta na sua extremidade, e está mesmo – trata-se da fralda borrada da pequena Tânia Vanessa.
O homem salta numa poça de água como se tivesse 10 anos, suja a roupa e enlameia os ténis. A mulher lava a loiça da noite anterior, coloca a roupa suja na máquina e dá de mamar à Tânia Vanessa.
O homem faz uma selfie com os amigos no topo do monte para depois partilhá-la no facebook. A mulher, de avental, faz uma feijoada à transmontana para alimentar o marido que não tarda chegará esfomeado.
O homem chega a casa a pingar lama por todo o lado. A mulher pega numa esfregona e vai limpando a sujeira atrás dele.
O homem come como um alarve. A mulher vê o marido a comer como um alarve e, quase a explodir, diz para si própria:
«Ah, meu cabrão… Espero bem que hoje à tarde me leves a passear e me compres coisas bonitas. Se não o fizeres, podes ter a certeza que hoje à noite não há nada para ninguém.»
